Reprodução de vídeo propaganda do governo Bolsonaro
Crédito: Reprodução de vídeo

É uma vinheta de apenas 15 segundos. “Não te contaram, mas o Governo Federal faz muito para melhorar a vida do nosso Nordeste”, começa a propaganda que faz parte de uma série de vinhetas para marcar os 1000 dias de Bolsonaro como presidente. O comercial segue mostrando imagens do Centro Acadêmico do Agreste (CAA) da Universidade Federal de Pernambuco, em Caruaru. E aparece um professor de libras, identificado apenas como Cleyton, que faz elogios a um programa chamado Nordeste Conectado, no qual, diz a legenda do comercial, foram investidos R$ 55 milhões. “A vinda dessa internet para cá foi maravilhosa! (…) uma internet de qualidade traz uma verdadeira inclusão de qualidade”.

A propaganda de Bolsonaro causou espanto em alunos e funcionários do CAA: tudo que aparece nela é irreal.

O campus da UFPE em Caruaru foi inaugurado em 2006, dentro do programa de interiorização do ensino superior do Governo Lula. Já o programa Nordeste Conectado é cria do governo Temer e tinha como premissa levar internet de fibra ótica para universidades e escolas tendo como suporte as linhas de transmissão da Chesf. A operação do programa ficaria a cargo da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP). O programa foi apresentado em junho de 2017, pelo então ministro da Educação, Mendonça Filho, no Porto Digital.

No relatório de gestão da RNP ainda do ano 2018 consta o campus Caruaru da UFPE como uma das instituições atendidas com o dobro de banda de internet, mas não cita o uso de fibra ótica. Em nota, a UFPE afirmou à Marco Zero que o “CAA não é beneficiário do programa Nordeste Conectado”.

A Marco Zero falou com diversos alunos e professores sobre a qualidade da internet no campus. A resposta foi unânime: não é uma boa internet. Um caso marcante aconteceu na semana passada, quando a propaganda do Nordeste Conectado já circulava nos perfis oficiais e nos sites do Governo Federal.

Para a abertura da Olimpíadas de Matemática dos Institutos Federais, o grupo de estudos Ayá Sankofa havia preparado um teatro de mamulengos, com transmissão ao vivo. Tentaram inicialmente a rede geral do campus, a eduroam, que não pegou. Em seguida, usaram a internet do laboratório de matemática. “Travou por várias vezes e não foi possível terminar a apresentação como queríamos. A sorte foi que o vídeo ficou salvo”, conta um aluno da graduação de matemática que participou do projeto.

Campus da UFPE Caruaru
O campus de Caruaru foi inaugurado no Governo Lula e não tem programa criado por Temer. Crédito: Reprodução UFPE

Militante bolsonarista e dublê de professor

A Marco Zero apurou que o homem que aparece na propaganda apenas como “Cleyton” é Cleyton Bueno Silva Costa, que concluiu a graduação em matemática, no mesmo centro em que ocorreu o caso relatado acima. Hoje, ele faz pós-graduação também em Caruaru. Em nota, a UFPE confirmou que Cleyton não é docente do campus Caruaru e “que o conteúdo das filmagens, embora realizadas nas dependências do Centro, não possuem vinculação com a instituição.”

Na época da graduação, Cleyton foi monitor da disciplina de libras. Apesar do vídeo governamental identificá-lo apenas como “professor de libras- Caruaru/PE” induz a acreditar que ele é professor do CAA, já que aparece no vídeo ministrando aula em uma das salas do campus.

Na última visita do presidente Bolsonaro a Pernambuco, na semana passada, Cleyton Bueno atuou como um dos intérpretes de libras da comitiva em Sertânia. Nas redes sociais, postou fotos ao lado do ministro do Turismo Gilson Machado (PSC), do influencer bolsonarista Maicon Sullivan, dos deputado federais pastor Eurico (Patriota) e André Ferreira (PSC) e dos deputados estaduais Alberto Feitosa (PSC) e Cleiton Collins (PP).

Também nas redes sociais, Cleyton se mostra um bolsonarista convicto. Apoiou o presidente nas eleições de 2018, defendeu o voto impresso e, ao se vacinar contra a covid-19, postou que “só há um ‘viva SUS’ se vier junto de um Ministério da Saúde e Jair Messias Bolsonaro, que foram os responsáveis por essa vacina chegar até nós!”. Na foto, segurava uma plaquinha onde se lia que “genocida é quem desvia dinheiro da saúde, não quem envia”, com as hashtags #bolsonaro2022 e #votoauditaveljá.

Ou seja, nada na vinheta de 15 segundos – que conta com uma versão estendida de 30 segundos no site do Governo Federal – tem raiz na realidade. O CAA não faz parte do Nordeste Conectado, a internet no campus não é boa, a pessoa que aparece no vídeo não é professor da instituição.

Na manhã desta segunda-feira (01), dois professores de libras do CAA emitiram uma nota de repúdio conjunta. “O vídeo do Governo Federal recentemente divulgado acerca de uma internet de qualidade e com ensino para surdos não reflete a realidade do nosso Campus do Agreste-UFPE. Desta forma, os professores de Libras do CAA e também coordenadores do Laboratório de Libras do Agreste informam que não receberam nenhum apoio desse programa do governo veiculado no vídeo, como também a internet é de péssima qualidade. Deste modo, repudiamos o discurso do vídeo e afirmamos que a opinião do estudante não reflete a opinião dos profissionais de Língua de Sinais do campus”, diz a nota assinada pelos professores Laerte Pereira e Thiago Albuquerque.