Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo

No quarto dia da greve das professoras e professores da rede municipal de ensino do Recife, o prefeito João Campos (PSB) e o secretário de educação, Frederico da Costa Amâncio, ainda não acataram a decisão judicial de receber as lideranças do Sindicato Municipal dos Profissionais da Educação do Recife – (Simpere) para iniciar as negociações sobre o pagamento do piso salarial da categoria. Os professores do Recife estão sem aumento salarial desde 2019.

Sem ter com quem dialogar na prefeitura, as professoras recorreram à Câmara Municipal, onde vereadores governistas e de oposição formaram uma comissão suprapartidária para tentar abrir canal de negociação. Até a noite desta quinta-feira, 10 de março, essa estratégia também não tinha funcionado.

Antes do início da greve, no dia 7 de março, a Prefeitura do Recife entrou com um pedido junto ao Tribunal de Justiça para decretar a ilegalidade da greve. Ao contrário de anos anteriores, isso não aconteceu. O desembargador Paulo Romero de Sá Araújo considerou a legal a paralisação dos professores, acatando o direito de greve e deixando claro que os prejuízos políticos e sociais seriam responsabilidade das “autoridades políticas”.

Sá Araújo encerrou o texto de sua decisão desta forma: “exorto as partes para que permaneçam em diálogo permanente, não só para continuidade das negociações salariais, mas também para discutir, ajustar e implementar o plano de contingência de redução de danos aos alunos e suas famílias no período de duração da greve”.

Mais mobilização na Madalena

Em mais um protesto para manter a mobilização, professoras e professores realizaram um protesto diante do Centro de Formação de Educadores Professor Paulo Freire, na Madalena, onde ocuparam a rua Real da Torre. Durante o ato, a coordenadora do Simpere, Anna Cristina Davi de Souza, garantiu que “os professores estão querendo voltar às escolas, os professores querem negociar. A nossa greve é pelo reajuste de 33,23%, é pelo que está na lei”.

Com o aumento, o piso chegaria a R$ 3.845,63, mas Anna Davi revela que, com o percentual de pouco mais de 13% oferecido pela Prefeitura do Recife, o valor do piso no município seria de R$ 2.788,00 para quem dá 145 horas-aula mensais, como é o caso de quem está no início de carreira. “Como é que Olinda, com uma a arrecadação mínima que tem, vai conseguir pagar o piso e Recife não? Com o é que Igarassu anuncia que vai pagar quase seis mil reais [R$ 5.770,00], o dobro do que o Recife quer pagar?”

A sindicalista lembrou que, no final de fevereiro, a Prefeitura do Recife anunciou que, em 2021, alcançou um superávit de R$ 497 milhões, por causa de aumento de 9,5% na receita e redução de 10% nas despesas.

Anna Davi não entende porque salários do Recife são menores do que os de Olinda e Igarassu. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo

Pressão da Câmara Municipal

A assembleia realizada pelo sindicato na terça-feira, 8 de março, em pleno estacionamento da Câmara Municipal, acabou ferindo os brios dos vereadores do Recife que havia aprovado por unanimidade um requerimento para que o prefeito pagasse o piso salarial para as professoras e professores do município. De acordo com o vereador Renato Antunes (PSC), a prefeitura permaneceu em silêncio, sem dar qualquer tipo de resposta ao requerimento.

“O que há é omissão do prefeito. E, hoje, percebo que a maioria dos vereadores estão favoráveis a que a prefeitura pague o percentual do aumento do piso para todas as taxas salariais e não apenas para aquelas no início da carreira, o que o Recife vem fazendo há anos e que gera problemas”, afirma Antunes. Os problemas mencionados por Antunes são fáceis de entender: como só os professores em início da carreira recebem o reajuste com percentual mais alto, os mais experientes acabam praticamente sem aumento. É o efeito “achatamento salarial”, termo usado tanto pelo vereador de direita, quanto pelo sindicato da CUT.

De acordo com Renato Antunes, que também é funcionário público concursado, “ainda tem um agravante porque o Recife tem um grande quadro de professores temporários contratados, porém a entrada oficial na carreira deveria ser imediatamente pelo concurso”. São os temporários, aliás, que estão mantendo os 30% das salas de aulas funcionando, pois não podem fazer greve. No quadro efetivo, a adesão à greve beira os 97% segundo a coordenação do Simpere.

Antunes integra a comissão que está tentando ajudar nas negociações entre grevistas e gestores municipais. Também fazem parte desse grupo a presidente da Comissão de Educação da Câmara, Ana Lúcia (Republicanos), o vide-líder do governo, Rinaldo Júnior (PSB), Liana Cirne (PT), Ivan Moraes (PSOL) e Dani Portela (PSOL).

Prefeitura em silêncio

No início da tarde de quinta-feira, a Marco Zero manteve contato com a Prefeitura do Recife. Inicialmente a equipe da assessoria de Comunicação informou que a demanda seria atendida pela assessoria da secretaria de Educação, que, por sua vez, orientou a repórter a procurar a assessoria da secretaria de Planejamento e Gestão, para onde foram enviados os seguintes questionamentos:

Estamos produzindo uma matéria sobre a greve dos professores e a manifestação que eles realizaram na manhã desta quinta-feira e gostaríamos de solicitar um posicionamento da gestão.

Seguem os questionamentos:
A Secretaria de Planejamento e Gestão está tentando negociar com os professores que estão em greve? Se sim, como andam as negociações?
Os professores exigem que seja pago o piso na carreira e alegam que a prefeitura do Recife se nega a pagar esse aumento. Qual é o posicionamento da Secretaria de Planejamento e Gestão quanto a essas exigências dos professores?


Até o momento desta reportagem, nenhuma resposta havia sido enviada. Também não há qualquer referência à greve nos canais oficiais e redes sociais da prefeitura.

Todavia, em seu perfil pessoal no instagram, o prefeito João Campos publicou vídeos de uma reunião de monitoramento da Educação, junto com o secretário Frederico Amâncio. As imagens destacavam que Campos estava reunido com a equipe da secretaria às 22h52min, mas sem qualquer menção às reivindicações das professoras.

Crédito: Instagram/@joaocampos

Esta reportagem foi produzida com apoio do Report for the World, uma iniciativa do The GroundTruth Project.