Na noite de segunda-feira, 13 de maio, o deputado estadual e ex-prefeito do Recife, João Paulo (PCdoB), tinha pouco mais de 3.900 seguidores em sua conta no Instagram. Quando a equipe de seu gabinete voltou a trabalhar na manhã do dia seguinte, o número de seguidores ultrapassava 10 mil. O aumento de 150% durante a madrugada, na véspera da manifestação dos estudantes em defesa da educação pública, deixou o deputado em estado de alerta.

Depois de passarem boa parte da terça-feira e a manhã de quarta, dia 15, bloqueando os perfis um a um, os assessores foram surpreendidos com mais um ataque: de repente, a conta passou a ter mais de 8.400 seguidores.

Os perfis dos novos “seguidores” é o que mais preocupa. Todos eram bem semelhantes, com características próprias de robôs: com fotos de jovens, a maioria de países asiáticos (Irã, Índia, Bangladesh, Turquia, Rússia e até alguns usando o idioma Iorubá, da Nigéria, por exemplo), com números completado o nome e todos eles com poucos seguidores e seguindo milhares de contas.

A movimentação, apesar de estranha à rotina do perfil, não gerou danos. Os supostos perfis falsos não produziram qualquer atividade, seja comentários ou “likes”.

O fato do surgimento dos 6 mil perfis ter sido praticamente simultânea à invasão do site oficial do Partido Socialista Brasileiro (PSB) , ao qual está filiado o governador de Pernambuco, cuja vice-governadora é Luciana Santos, correligionária de João Paulo, não foi encarado como uma simples coincidência.

“Nossa interpretação é que esse ataque tem relação com as manifestações em defesa da educação pública. Ou então, estão querendo nos nivelar por baixo, para denunciar que nossos curtidores são robôs, como nas redes de Bolsonaro”, afirma Lygia Falcão, chefe de gabinete de João Paulo. Preocupada, ela não sabe dizer porque João Paulo seria um alvo específico dos robôs da extrema-direita.

Ataques custam muito dinheiro

Professor de Marketing Político da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) e especialista no uso político e eleitoral de ferramentas digitais, Fernando Fontanella garante: “Ataques massivos com essa proporção envolvem muito dinheiro. Alguém está gastando muito para custear esses ataques”.

Intrigado com a escolha do alvo, Fontanella não entende a razão do ataque a João Paulo, um político moderado e conciliador, mas acredita que o ataque não foi aleatório.

“Se eu estivesse no lugar dele, estaria preocupado, sim. Provavelmente, isto é uma ação que precede a ataque maior e mais grave. Se a senha do instagram for roubada, por exemplo, os invasores podem postar conteúdos danosos, ofensivos ou desmoralizantes e alcançar uma repercussão maior por causa do acréscimo de seguidores”.

Para Fontanella, o fato da maioria dos perfis robotizados já seguir milhares de outras contas, indica que fazem parte de uma rede bem desenvolvida. “É necessário analisar quem eles seguem, pois provavelmente há outras vítimas”.

A equipe da Marco Zero Conteúdo procurou as equipes de comunicação de outros políticos do PCdoB, PT, PSOL e PSB, mas em nenhum caso foram registrados ataques ou movimentações em suas redes sociais.