“Diga ao povo que avance”. A frase repetida em todo ato público pelo Cacique Marcos Xukuru, prefeito eleito de Pesqueira, no Sertão de Pernambuco, mas cuja candidatura está sub judice, poderia resumir o resultado dos povos indígenas nas Eleições deste ano. No estado, 131 pessoas autodeclaradas indígenas disputaram o pleito e 18 foram eleitas, contra 104 candidatos e 13 vencedores em 2016.

A 500 quilômetros do Recife, a cidade de Carnaubeira da Penha, no Sertão, foi a que mais elegeu indígenas. Além do vice-prefeito, Dr. Neto (DEM), o município contará, a partir de 2021, com quatro vereadores indígenas, quase metade da câmara legislativa local, que tem ao todo nove parlamentares.

Em seguida vem Pesqueira, que além do prefeito elegeu três vereadores Xukuru. Também com três parlamentares eleitos, este ano, aparece Itacuruba – a cidade inclusive foi a única de Pernambuco a eleger uma mulher indígena.

Ainda de acordo com os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), até esta quinta-feira (19), o município de Águas Belas, no Agreste, integra a lista com dois indígenas eleitos, e as cidades de Buíque, Inajá, Manari e Mirandiba completam a relação com um vereador indígena cada.

Estreantes e veteranos

Candidato pela segunda vez, Preto Kapinawá (MDB) vai estrear na câmara de vereadores de Buíque com a responsabilidade de ser o primeiro eleito na história do seu povo.

Preto Kapinawá (MDB). Crédito: Divulgação

“Eu sei do peso que é representar os Kapinawá e toda população de Buíque na câmara. Vou honrar a confiança dos indígenas e dos que não são indígenas brigando por implantação de políticas públicas para os mais excluídos”, diz o recém-eleito vereador.

Preto Kapinawá explica que a campanha foi baseada em bandeiras comuns aos povos indígenas, como demarcação dos territórios, acesso à educação, saúde e mais infraestrutura nas comunidades. “Vamos levar essas pautas, mas também priorizar o abastecimento de água e obras de acesso às aldeias”, afirma.

Xixiakhlá Fulni-ô (PV). Crédito: Divulgação

Eleito para o terceiro mandato como vereador de Águas Belas, Valdo do Xixiakhlá Fulni-ô (PV), acredita que sua reeleição é o exemplo da conquista dos povos indígenas nos espaços tradicionais de poder. “Até aqui fizemos uma política de muito trabalho na busca por recursos para nosso povo e todo o município, e esse reconhecimento veio no voto”, avalia.

Resposta ao reacionarismo

A ampliação da participação da população indígena nas eleições municipais coincide com o aumento dos ataques aos direitos dos povos tradicionais, a partir da eleição do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), mas que se intensificou em meio à pandemia de Covid-19.

Segundo Dinaman Tuxá, um dos coordenadores executivos da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), o maior interesse na política institucional deve-se à ampliação do debate sobre a necessidade da representatividade dos povos indígenas e à defesa dos seus direitos nestes importantes ambientes de decisão. 

“A pauta comum entre todos os candidatos é a retomada da demarcação dos territórios indígenas, ainda que tenham pontos de vista políticos distintos e sejam filiados a partidos diversos”, reforça o coordenador.