macarrão instantâneo, ainda cru, na cor amarela ocupando toda a imagem.
Crédito: Wikimedia Commons/César Astudillo

por Adriana Amâncio

A volta da fome significa também que, além de comer menos, a maioria dos brasileiros está comendo mal. A inflação dos alimentos, que nos últimos 12 meses acumulou alta de 11,73%, está contribuindo para o aumento do consumo de ultraprocessados. Análises feitas pela equipe do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (Nupens/USP) com base nas Pesquisas de Orçamentos Familiares (POFs) do IBGE indicam um crescimento no consumo desses produtos entre os 60% mais pobres do Brasil desde a início da crise econômica, ainda no governo de Michel Temer.

Mesmo com a desaceleração de 0,6% para 0,3% constatada na análise que comparara os estudos de 2002/2003 e 2008/2009, com estudos de 2008/2009 e de 2017/2018, há razões para se preocupar. A vice-coordenadora do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (Nupens), Patrícia Constante Jaime, explica é preciso atentar para os fatos recentes como o desmonte das políticas públicas de alimentação e nutrição, a pandemia de Covid-19 e a inflação dos alimentos:

“Não há dúvidas de que esse contexto alterou a alimentação da população brasileira, possivelmente refletindo no aumento do consumo de alimentos ultraprocessados”, afirma. Novamente, a conta pesa no bolso das camadas mais pobres, que precisam fazer a troca injusta entre comida saudável e comida ultraprocessada.

Uma das razões que explica esse crescimento está no fato da alta de preços dos alimentos in natura ser maior do que dos ultraprocessados, tornando mais viável, por exemplo, comprar um pacote de macarrão instantâneo por R$ 2,00, em vez de um maço de alface, que em Recife, custa R$ 4,00.

No entanto, a curva só apresentou a desaceleração de 0,6% para 0,3% porque, nas faixas onde estão os 40% de brasileiros com maior renda mensal, o consumo de alimentos naturais cresceu, enquanto caiu o de ultraprocessados. Entre os mais pobres, o consumo de ultraprocessados cresceu.

É preciso entender como se dá a análise dos pesquisadores do Nupens: a população brasileira é dividida em 5 faixas de renda, cada um com 20% do total de habitantes. Os 20% mais ricos, que no gráfico abaixo seria a classe A, puderam se dar ao luxo de reduzir drasticamente o consumo de comida industrializada e se alimentar com produtos saudáveis (linha azul claro no alto), a exemplo de orgânicos, agroecológicos, vindos diretamente do campo. No segmento logo abaixo, o consumo de ultraprocessados permaneceu praticamente estável durante o período analisado (linha amarela). No entanto, nas três classes com menor renda, o aumento foi vertiginoso, principalmente na faixa mais pobre, onde a linha ascendente é bastante acentuada (linha azul escuro).

Maior insegurança alimentar

De acordo com o 2º Inquérito sobre a fome no Brasil (Vigisan), divulgado pela Rede de Pesquisadores em Soberania e Segurança Alimentar (Rede Penssan), 125 milhões de pessoas convivem com insegurança alimentar no Brasil. Esse número engloba as pessoas que consomem mais ou estritamente produtos ultraprocessados. Isso ocorre porque esses itens são apenas substâncias derivadas de alimentos, ricas em gordura, açúcares e aditivos químicos. “Quando uma família tem acesso apenas ou majoritariamente a alimentos ultraprocessados, não se tem alimentação adequada e, portanto, não há segurança alimentar”, observa Patrícia.

Por pressão da indústria, o Brasil não reconhece que o aumento ou o consumo exclusivo de ultraprocessados causa insegurança alimentar. E isso só aumenta o problema é um problema. Essa falta de reconhecimento está presente em meio à sociedade, à indústria e ao poder público. As doações de cestas básicas, repletas desses produtos, às populações vulneráveis durante a pandemia é um bom exemplo. “A oferta desses alimentos não garante saúde às pessoas, tampouco atende às necessidades diárias para uma vida saudável, mas dá a ideia de que se está consumindo algum alimento”, analisa. Diversos estudos relacionam o consumo destes itens com o surgimento de doenças crônicas, a exemplo da diabetes, hipertensão e obesidade.

Sai a banana, entra o biscoito recheado 

O peixe, a banana, o arroz e a mandioca eram alimentos presentes no cardápio da comunidade quilombola Pixaim, composta por 23 famílias, que fica na região de Piaçabuçu, no baixo São Francisco, em Alagoas. Com o aumento da intrusão salina, ou seja, o avanço da água do mar sobre o rio São Francisco, que margeia as portas das casas, os peixes desapareceram e o solo ficou impróprio para o cultivo de arroz, feijão e mandioca.

A jovem dona de casa Iara Calixto, conta que o fim da pesca afetou a alimentação e a renda das famílias. Ela, que vive da renda do Auxílio Brasil, hoje consome produtos comprados no supermercado, em sua maioria, “milho pré-cozido, biscoito recheado, bolacha, salsicha e mortadela”, relata. 

Nas comunidades vizinhas, a situação é ainda mais grave, pois além de não conseguirem plantar, dependem de carros pipa para obter água de consumo humano. O problema da intrusão salina é um dos mais graves e persistentes na região próxima à foz do São Francisco. De acordo com o coordenador das Expedições Científicas do Baixo São Francisco, programa de pesquisa da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Emerson Soares, “a intrusão salina reduziu, nos últimos dez meses, de 16 quilômetros rio acima para 12 quilômetros, devido ao aumento da vazão, que chegou a 4 mil m³ do rio. Agora, o problema deve aumentar, uma vez que a vazão voltou a oscilar entre 700 m³ e 1.100 m³”.

Além da intrusão salina, outros quatro problemas afetam o rio São Francisco. A retenção de água por parte das hidrelétricas, que levam a adoção da Resolução 2081, que limita a vazão em 1.100 m³. A erosão, que leva ao assoreamento do leito,  é causada pelo movimento constante de aumento e diminuição da vazão e dos efluentes que são lançados, sem tratamento, no São Francisco. Segundo o professor, os agrotóxicos também afetam de forma significativa a saúde do rio. “Foram encontrados [nas pesquisas] 14 tipos de agrotóxicos”, afirma.

A salinidade na região da foz do São Francisco tornou o solo imprestável para a agricultura. Crédito: Acervo Iara Calixto

A gente deixou de ter vida saudável”

Na época da fartura de água, a agricultora Ariana Pereira, da Fazenda Buriti, área rural de Correntina, no Semiárido baiano, mantinha, junto com os seus filhos, uma alimentação semelhante à da sua infância. Tinha feijão, mandioca, verduras cultivadas pela própria família, com a água de dois córregos e do rio Arrojado, afluente do Correntes, um dos que formam a bacia do São Francisco. Há três anos, Ariana parou de produzir. Os desmatamentos constantes fizeram com que os córregos secassem. Já o volume do rio Arrojado, reduziu de forma drástica, devido às estiagens severas e à retirada de água para atender ao agronegócio na região. 

Na época, Ariana e os filhos passaram a viver da renda do antigo Bolsa Família, hoje Auxilio Brasil. Ela se queixa que, devido à alta nos preços, o dinheiro já não é suficiente para garantir as despesas com alimentação para ela e os três filhos. Por isso, é mais fácil consumir ultraprocessados. “A gente deixou de viver uma vida saudável, porque o que a gente produzia da terra, sem agrotóxico, era saudável. Agora, tudo o que a gente compra é industrializado”, lamenta. 

As trocas no cardápio envolvem, por exemplo, a rapadura, antes usada para adoçar o café, agora, substituída pelo açúcar refinado. Ariana, hoje, sofre com problemas de saúde e acredita que a causa seja o consumo desses produtos, uma vez que, desde criança, ela sempre consumiu alimentos frescos. “Eu adquiri várias alergias, vários problemas de saúde, creio eu que é por causa da alimentação”, suspeita.

Comida não é só nutrição

De acordo com a professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e   coordenadora da Campanha Comida é Patrimônio, Juliana Casemiro, “os sistemas alimentares, com base na sabedoria popular,  sustentaram o povo brasileiro ao longo de séculos. Essa sabedoria está sendo perdida para dar vida ao agronegócio, um sistema que não produz comida de verdade,” observa. A afirmação de Juliana fundamenta-se no fato de que, em meio à pandemia, o agronegócio bateu recordes de  exportação, enquanto a fome só aumentou.

Criada com o objetivo de ampliar o debate e defender os sistemas alimentares mais justos, a campanha Comida é Patrimônio defende que comida não é só nutrição, mas, também  patrimônio, afeto, identidade, diálogo e modo de vida. Assim, retirar as condições de produção das famílias agricultoras do Semiárido também representa romper com as suas raízes.

Iara, a jovem da comunidade quilombola Pixaim, citada mais acima, vive esse problema na pele. Devido à salinidade acentuada do São Francisco, ela não cultiva mais a mandioca, base da tradicional receita do bolo de Massa Puba, prato que os seus avós preparavam.

Independente da pandemia da Covid-19, que acentuou o quadro de fome no Brasil, Juliana cita que o sistema hegemônico, base da produção de ultraprocessados, está no alicerce de um processo chamado sindemia global. “A nossa forma atual de produzir, comercializar e consumir tem levado a população a conviver com três grandes epidemias: a obesidade, a carência nutricional e as mudanças climáticas”, explica. As mudanças climáticas, em especial, têm exercido pressão cada vez maior entre as populações mais vulneráveis, incluindo as famílias agricultoras, ameaçando a alimentação das pessoas do campo e da cidade.  

Comida de verdade

O conceito de segurança e soberania alimentar e nutricional é algo amplo. Envolve o acesso a comida natural, cultivada sem agrotóxicos, adequada à cultura local. De acordo com o membro da Conferência Nacional Popular, Democrática e Autônoma por Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional e da coordenação Executiva da ASA, Naidison Baptista, “o Semiárido sempre teve capacidade de produzir comida de verdade, mas este potencial foi retirado através do desmonte das políticas públicas”, destaca

O  Programa Cisternas, que garante água de consumo humano, é o ponto de partida. Em 2021, o programa teve a execução mais baixa da sua história, entregando apenas 4.305 cisternas.  Em seguida, vem o Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2), que serve ao cultivo de alimentos agroecológicos e praticamente parou. Segundo dados do Ministério da Cidadania,  em 2014, foram entregues 42.307 tecnologias, enquanto em 2019, as implementações não passaram de 5.232. 

O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), substituído em 2021, pelo Alimenta Brasil,  teve o orçamento reduzido drasticamente. A essência do programa é adquirir produtos da agricultura familiar e doar  às populações em situação de fome. O Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) assegura que 30% do orçamento da merenda escolar seja destinado à agricultura familiar. Este está sob ameaça de projetos em tramitação no Congresso Nacional, que estabelecem cotas de compra de alimentos oriundos de setores do agronegócio. ”É preciso que a gente retire essas políticas do esquecimento, para fazê-las voltarem a apoiar o povo a se alimentar bem”, finaliza Naidison.

PNAE assegurava mercado para agricultura familiar. Crédito: Agência Brasil

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