Foto: Pixnio

O Ministério da Saúde, interpelado pelo Supremo Tribunal Federal, disse na quarta-feira (13) à corte que Pernambuco e mais seis estados não têm seringas e agulhas suficientes para vacinar o primeiro grupo prioritário – idosos, profissionais de saúde e indígenas – contra o novo coronavírus. O governo estadual correu para desmentir a pasta informando que tinha um estoque de mais de 3 milhões dos insumos e que em fevereiro deverá ter mais de 10 milhões. Depois a gestão Paulo Câmara anunciou que seu comitê interno aprovou o plano de imunização local.

A guerra de narrativas, segundo entidades de profissionais de saúde, é mais um capítulo na politização da pandemia. Enquanto o Governo Federal, na pessoa do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tenta sabotar as estratégias possíveis de controle da Covid-19 como denuncia relatório da Human Rights Watch, o governo pernambucano lança mão de números e anúncios vazios para não enfrentar a realidade que é de uma média de quase dois óbitos causados pelo Sars-CoV-2 por hora no estado.

Desde o fim de dezembro, Pernambuco vem registrando mais de mil casos diários de novos infectados pelo coronavírus. Dado que certamente está subdimensionado, já que, embora alardeie que ultrapassou a marca de 1 milhão de testes realizados, o estado tem demorado até 22 dias para divulgar os resultados das coletas, o que não permitiu em quase um ano de pandemia que fosse feito um trabalho de vigilância epidemiológica para rastrear, monitorar e isolar os infectados.

A médica sanitarista e vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Bernadete Perez, avalia como grave a atual situação e mais grave ainda a maneira como os gestores públicos insistem em lidar com a crise. “O discurso oficial é muito frágil. Anunciam um estoque de insumos, mas sequer temos vacina aprovada. Anunciam um plano de imunização estadual, mas não explicam como será caso tenhamos mais de um tipo de vacina. As duas doses aplicadas precisam ser do mesmo imunizante, essa organização será pelo CPF das pessoas?”, questiona.

Para Bernadete, que também é professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a Secretaria Estadual de Saúde abriu mão do controle da pandemia ao flexibilizar precocemente a reabertura das atividades não essenciais, e permanece com essa estratégia enquanto assiste aos números explodirem no estado – 237.453 casos confirmados de Covid-19 e quase 10 mil mortes causadas pela doença -, achando que o colapso que se observa no Amazonas não pode se repetir por aqui.

“Mesmo com todos os alertas dos cientistas e profissionais de saúde, o estado não fez o controle rígido nas festas de fim de ano. Avisamos que janeiro seria um mês duro e é o que estamos vendo. Com mais de mil casos por dia e dois óbitos por hora já passou do momento de fazer um lockdown em Pernambuco. Não estamos vivendo o mesmo caos do Amazonas ainda”, afirma.

Na avaliação do presidente do Conselho Regional de Biomedicina da 2ª Região (CRBM), Djair de Lima Ferreira Júnior, a politização da pandemia tende a atrapalhar a próxima etapa da crise que será a imunização. Segundo denúncias de membros ligados à entidade, poucas vezes, nos últimos anos, Pernambuco teve em toda rede vacinas com agulhas e seringas prontas para começo imediato de qualquer campanha de vacinação.

Espera-se que ainda este mês comecem a ser imunizados todos os idosos acima dos 80 anos e os que têm mais de 65 e vivem em casas de repouso. Além dos indígenas aldeados e profissionais de saúde que atuam em UTI e unidades referenciadas para Covid-19. Esse contingente é de 627 mil pessoas, ou seja, deverão ser aplicadas 1.254.000 de doses, duas por pessoa.

“Não é raro temos, sobretudo no interior, as vacinas e nenhum insumo para aplicar nas pessoas. Essa história que tem estoque é difícil de acreditar, além do mais essa discussão sobre aquisição de seringas e agulhas já era para ter começado no fim do ano passado, todo gestor público sabe que uma licitação não demora menos do que três meses”, diz o presidente do CRBM.

Ainda de acordo com Djair Júnior, a resolução desses gargalos está no acompanhamento rigoroso da sociedade sobre cada ato dos governos. “A população com a ajuda da imprensa precisa continuar cobrando ações mais sérias e efetivas, pois estamos falando de vidas que estão sendo perdidas”, completa.

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Esta reportagem é uma produção do Programa de Diversidade nas Redações, realizado pela Énois – Laboratório de Jornalismo Representativo, com o apoio do Google News Initiative”.