Tássia Seabra e Pedro Stilo (primeiros à esquerda) e Shell Osmo (último à direita) levaram a arte e a produção cultural de Recife para o intercâmbio na França. Crédito: Arquivo Pessoal

Quando se fala em Paris a primeira coisa que vem na nossa cabeça é a cidade do amor, a Torre Eiffel e a Monalisa no Museu do Louvre, não é verdade? O intercâmbio “Connexions Périphériques” fez o fluxo inverso de um dos  roteiros turísticos mais famosos do mundo e mostrou que a beleza e a criatividade da França vão muito além das luzes do Senna.

O intercâmbio se trata de uma turnê sociopolítica e cultural entre brasileiros e franceses com o objetivo de criar pontes e trocas de estratégias entre coletivos populares dos dois países. A primeira edição levou os produtores e comunicadores sociais pernambucanos Tássia Seabra, moradora do Ibura e cofundadora do Coletivo Ibura Mais Cultura; Pedro Stilo, cofundador do Coletivo Pão e Tinta; e o artista visual Shell Osmo.

A comitiva formada por dois franceses e três brasileiros passou por dezoito cidades em vinte cinco dias, realizando formações, painéis e rodas de diálogos com políticos, artistas, jornalistas, entusiastas das artes visuais, ativistas de esquerda; e também concederam entrevistas a rádios. O grupo também foi recebido pelos secretários de relações  internacionais da cidade de Corbeil – na região metropolitana de Paris – e Montpellier, que fica no Sul da França, quando discutiram e trocaram estratégias e tecnologias para a criação e manutenção de políticas públicas e sociais.

A primeira intervenção artística aconteceu na Maison Jaune (Mansão Amarela), em de Saint Denis , subúrbio de Paris,  bairro que vai sediar os jogos olímpicos de 2024 e vem sofrendo com a atuação desenfreada da especulação imobiliária. O bairro, que é um dos maiores de Paris. concentra uma grande comunidade de migrantes africanos.

Crédito: Tássia Seabra

“Assim que chegamos, encontramos diversos jovens negros na área externa do prédio, igual no Brasil: jovens negros nas esquinas ociosas esperando o tempo passar. A principio, eles ficaram desconfiados com a nossa presença e acredito que curiosos. Quando falamos que éramos do Brasil e que íamos exibir um filme da favela, eles se animaram e resolveram entrar na galeria pela primeira vez, segundo a coordenadora do espaço. O futebol, a favela, o samba e o funk foram fios condutores na comunicação com os jovens por onde andamos e, a partir disso, conseguimos  introduzir  o Brasil que queremos  e,  sobretudo, o Brasil que resiste a todas as mazelas da escravidão e da colonização, histórias semelhantes às deles” conta Tássia Seabra.

A visita ao bairro de Les Groux , na cidade de Est Fresnes, aconteceu no dia dos pais da França e das eleições ao congresso federal. O bairro também sofre com o processo de gentrificação e, como Saint Denis, está sendo vítima da especulação imobiliária que vai retirar os  moradores que vivem no local há mais de 40 anos com promessas vagas de realocações. Os que ficaram se reuniram para receber os ativistas brasileiros com churrasco, queijo e música. O grafiteiro Shell Osmo deixou o que vai ser uma das últimas intervenções artísticas no local.

Entre toda a programação, a  comitiva acompanhou a vitória histórica da candidata Rachel Keke, no comitê  junto aos seus apoiadores, em cima da antiga ministra do desporto Mariana Maracineanu – aliada ao governo de Macron. Rachel tem 47 anos, nasceu em Costa do Marfim, era empregada doméstica e afirmou para todos presentes que vai se fazer ouvir no palácio de Bourbon: “Eu sou a voz dos sem voz. Sou empregada de quartos, sou empregada de limpeza, agente de segurança, auxiliar de saúde, assistência ao domicílio, sou todas estas profissões invisíveis. E na Assembleia Nacional, estas profissões serão visíveis”. 

Entrevistas e protesto

O Média Parte é hoje o principal veículo independente da França. Com mais de 200 mil assinantes mensais, o jornal digital convidou  Pedro Stilo e Tássia Seabra para uma entrevista. Na ocasião, os dois aproveitaram a oportunidade para denunciar os descasos do governo com as fortes chuvas do mês de junho, que atingiram a Região Metropolitana do Recife,  mas que vêm castigando e afetando historicamente a vida de milhares de famílias brasileiras, de diversas regiões e estados, nos últimos anos.

Crédito: Arquivo Pessoal

A produtora Tássia Seabra, moradora do Ibura, bairro com maior número de vítimas (89 ao total), esteve na frente da Torre Eiffel e com as mãos sujas de lama protestou contra o descaso do governo em relação aos  territórios, defendendo que exista planejamento e manutenção nos morros durante todo o ano e não apenas nos períodos de chuvas.

Crédito: Arquivo Pessoal

A turnê oficial na França teve término em 4 de julho na cidade de Montpellier. Foram 25 dias vivendo intensamente todas as oportunidades e, sobretudo, agregando conhecimento e abrindo caminhos para que mais jovens negros e periféricos possam cruzar o Atlântico pra falar da cultura brasileira e periférica.

A turnê  segue em Portugal com a produtora Tássia Seabra e Shell Osmo, com a missão de realizar o primeiro leilão de Artes Urbanas de Portugal, previsto para acontecer neste mês de agosto junto ao Meeting OF Style, o maior encontro de artes urbanas do mundo, edição Lisboa, na Fábrica Cultural Braço de Prata. Há ainda a previsão do lançamento de um documentário, no fim do ano, com imagens exclusivas de toda a turnê. 

Saiba mais

Entrevista Média Part: https://www.youtube.com/watch?v=zzntvG2CieM

Connexions Périphériques: https://www.instagram.com/@connexions_peripheriques  

Meeting Of Stile : https://www.instagram.com/int_meetingofstyles/

Tássia Seabra: https://www.instagram.com/tassia_seabra/

Pedro Stilo: https://www.instagram.com/pedro_stilo/

Shell Osmo: https://www.instagram.com/shell.osmo/

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