Equipe da secretaria de saúde de Itapissuma durante a campanha de vacinação. Foto: Prefeitura de Itapissuma/Divulgação

Por Yuri Euzébio*

Na contramão do cenário nacional, em Itapissuma, município do litoral norte de Pernambuco, a campanha de vacinação contra a poliomielite alcançou em outubro deste ano 100% de doses aplicadas. Os dados foram divulgados pela Secretaria de Saúde do Governo Federal.

A marisqueira Joana D’arc Maciel, de 23 anos, mãe de quatro filhos que mora no bairro da Várzea, em Itapissuma, foi uma das inúmeras mães que aderiram ao chamado da prefeitura. “Levei todos para se vacinarem. E foi uma experiência muito boa. Fui com todos para saber quais vacinas poderiam tomar”, disse. “Pra mim, o diferencial da campanha daqui foi a possibilidade de agendar com antecedência o dia da vacina porque fica mais certo, não ficamos dando volta no posto esperando, podendo até não ter a vacina para a criança”, revelou.

De acordo com a coordenadora de vigilância sanitária do município, Niedja Brito, que coordenou o Programa Nacional de Imunizações (PNI) da cidade, o sucesso da vacinação da pólio vem do esforço coletivo entre todos os profissionais de saúde. “O segredo foi o trabalho em equipe, realizando a busca ativa pelo tradicional porta a porta, fomos nas casas com a técnica e a agente de saúde”, afirmou. 

A marisqueira Joana D’Arc Maciel vacinou os quatro filhos durante a campanha. Foto: Arquivo pessoal

A prefeitura também fez uma extensa campanha publicitária. “Tivemos a comunicação com um card nas redes sociais, uma vinheta pra divulgar através de um carro de som nas ruas e ações em creches, escolas municipais e particulares para conseguirmos atingir a meta”, completou. Niedja ainda explica que, além do dia nacional de vacinação, a cidade realizou uma campanha municipal para reforçar a importância da vacina.

A coordenadora detalha também os procedimentos que formaram uma força-tarefa para o sucesso da ação. “No porta a porta, vamos direto naquela casa onde tem criança que não tomou vacina. O importante também é o agente de saúde ir nas residências das áreas dele e identificar quem são as crianças que não tomaram a vacina e passar para as técnicas e enfermeiras irem lá”, resumiu.

Segundo o Governo de Pernambuco foram 1.521 crianças vacinadas em Itapissuma, isso sem qualquer apoio ou incentivo do Governo Federal nas campanhas de divulgação da vacinação. 

No âmbito nacional, os números são bem preocupantes. Em setembro de 2022, a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), braço da Organização Mundial da Saúde (OMS) nas Américas, emitiu um alerta de que o Brasil é um dos países sul-americanos que correm um “risco muito alto” de retorno da poliomielite. Em outubro, um susto: um possível primeiro caso em Santo Antônio do Tauá, município do Pará, após 33 anos sem a doença.

O Ministério da Saúde ainda estuda o caso, mas afirmou que o mais provável é de que seja um caso de aplicação errada das doses da vacina. Na cidade paraense do caso, o índice de vacinação era baixíssimo, de apenas 30%. No estado do Pará como um todo, 44%.

Mesmo tendo sido prorrogada, a campanha de imunização nacional deste ano só chegou a 65,6% do público-alvo, cerca de 7,6 milhões de crianças, quando a meta era 95%.

Governo Federal despreza campanhas

Também conhecida como paralisia infantil, a poliomielite é uma doença transmissível por um dos três tipos do poliovírus. Esses vírus têm uma transmissão fecal-oral e as crianças (ou adultos) não vacinadas podem ser infectadas. O vírus se instala no intestino, onde se replica e entra na corrente sanguínea. Em alguns casos, atinge o sistema nervoso central, podendo deixar lesões graves como consequência. Os grupos mais vulneráveis são as crianças abaixo dos cinco anos de idade.

Os sintomas mais frequentes da doença são febre, mal-estar, dor de cabeça, de garganta e no corpo, vômitos, diarreia, constipação (prisão de ventre), espasmos, rigidez na nuca e até mesmo meningite. Nas formas mais graves instala-se a flacidez muscular, que afeta, em regra, um dos membros inferiores. Apenas um em cada 200 casos da doença resulta em paralisia, que pode afetar até os músculos dos pulmões, resultando em óbito.

No Brasil, a vacina contra a poliomielite faz parte da rotina de imunização infantil, é gratuita e é considerada, de longe, a melhor forma de prevenção da doença. A imunização deve ser iniciada a partir dos dois meses de vida. A falta de campanhas de vacinação efetivas tem deixado o Brasil vulnerável para a volta da doença, erradicada por aqui desde 1994. 

Epidemiologista da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP/Fiocruz), Fernando Verani critica a atuação do Governo Federal pelo enfraquecimento das campanhas. “O vírus da pólio só foi erradicado do Brasil porque o Programa Nacional de Imunizações durante décadas, a partir de 1980, conseguiu atingir e manter altíssimas coberturas vacinais no país inteiro e coberturas mais do que altíssimas, indo além de 95%, 98%, de forma homogênea. Ou seja, em todos os bairros de um município essas coberturas foram altas”, detalhou.

Verani afirma que esse cenário mudou a partir de 2016. “As campanhas simplesmente pararam de existir. O que o ministério chama hoje de campanha de vacinação não é o tipo de campanha que foi feita a partir de 1980, então continuamos tendo baixa cobertura”, disse. “A última campanha, ou aquilo que o Ministério da Saúde denomina campanha, terminou no dia 30 de setembro. Foi prorrogada, mas de qualquer maneira o resultado final é muito baixo para manter protegido o país, caso haja uma importação do poliovírus de algum país em que ele ainda circula”, lamentou Verani. 

Os quase quatro anos de Jair Bolsonaro na presidência, que chegam ao fim no próximo mês, aprofundaram a crise da vacinação no Brasil.  “A falta de definição política do Governo Federal em priorizar os investimentos sociais é um grande entrave. É um governo que escolheu deliberadamente não fazer qualquer investimento social”, resumiu Verani, sobre o governo Bolsonaro.

A volta da pólio pode ter um custo enorme para o Brasil. “A paralisia causada pelo poliovírus não é recuperável, não é reversível. Ela tem uma instalação aguda muito súbita e a criança nunca mais se recupera, fica paralítica pelo resto da vida”, diz Verani. “Isso se traduz em custos econômicos, custos sociais, custos emocionais. Porque você imagina uma família que tem uma criança paralítica para o resto da vida, o que isso significa. O impacto da volta doença seria muito alto para a sociedade, principalmente para as famílias dessas vítimas”, arrematou.

Falta de saneamento aumenta risco

O vírus da pólio é altamente contagioso. Verani explica que a forma mais comum de contágio é pela falta de higiene e de saneamento básico. “A criança coloca a mão suja na boca, brinca com outra criança e dissemina o vírus que pode causar a paralisia infantil. Em muitos lugares há falta de água, nós sabemos a situação do saneamento no Brasil hoje”, aponta. 

Convém lembrar aqui que, de acordo com o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento 2020, aproximadamente 35 milhões de brasileiros não têm acesso à água potável e 100 milhões dos habitantes não têm atendimento à coleta de esgoto.

Em Pernambuco, por exemplo, apenas 30,8% da população tem acesso a esgoto e 81,7% à água tratada. Isso significa que sete em cada dez pessoas não têm sistema de esgoto em suas casas. Só 32,4% do esgoto gerado é tratado, de acordo com o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, do Ministério de Desenvolvimento Regional (MDR). Os índices estão bem abaixo da média nacional, que já não é alta: a rede de esgoto contempla 55% da população. Já a taxa de atendimento de água é de 84,1%.

De acordo com Verani, tudo isso corrobora diretamente no risco de retorno da doença. “Falta de saneamento básico e infraestrutura também são pontos sensíveis para a pólio, mas para compensar isso temos uma vacina muito eficiente que é a vacina oral, aquela da famosa da gotinha, que todos conheciam”, afirmou. “Eram sempre dois dias de campanha, uma em junho e a outra em agosto, com a vacina oral e hoje temos vários municípios com deficiência de saneamento e, além disso, baixíssima cobertura vacinal por uma falta de prioridade do atual Governo Federal”.

O especialista ainda reflete porque algumas regiões do Brasil são mais vulneráveis do que outras. “As coberturas menores no Norte e Nordeste do país trazem a reflexão no que diz respeito ao acesso e o que está sendo feito ativamente”, explica sobre a diminuição dos recursos voltados para comunicação, treinamento e priorização da campanha de vacinação nacional.

O último caso que tivemos de pólio no Brasil foi em 1989, no Rio Grande do Norte, depois a transmissão foi interrompida e não houve mais a doença paralisia infantil causada pelo poliovírus no país. Agora, 33 anos depois, a Organização Mundial de Saúde (OMS) classificou como alto o risco da volta da paralisia infantil no Brasil, colocando o país em alerta máximo.

Brasil tem histórico de eficiência em vacinação

Historicamente, a poliomielite sempre foi combatida com eficiência no Brasil.  É o que assegura a historiadora da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), Dilene Raimundo do Nascimento. “A poliomielite, na verdade, só se tornou um problema de saúde pública mais para a metade final do século XIX. Antes tinham apenas casos esporádicos. Mais adiante, em 1917, tiveram epidemias enormes nos Estados Unidos, com muitos óbitos de crianças e isso foi o que motivou as pesquisas em relação àquela doença que nem se sabia qual era”, explicou.

A doença provocou inúmeros surtos e epidemias em território nacional e em outras partes do mundo no começo do século XX. Só no Brasil, foram 26.827 casos entre 1968 e 1989, segundo dados do Ministério da Saúde. 

De acordo com Dilene a grande virada da campanha de vacinação da pólio foi a partir do ano de 1979. “O Governo Militar estava precisando de políticas sociais para atrair a atenção da opinião pública e também ocorreram epidemias importantes no Paraná e em Santa Catarina, então houve uma mudança no Ministério da Saúde com contratação de vários técnicos de saúde pública e epidemiologia, enfim uma equipe nova querendo mostrar trabalho”.

A historiadora explica que a soma desses fatores, no final de 1979, levou essa equipe a elaborar um programa de vacinação que desse conta de controlar a poliomielite no Brasil. Foi assim que surgiram os dias nacionais de vacinação, que tiveram início em junho e agosto de 1980. Pela primeira vez, o governo conseguiu alcançar todo o território brasileiro com a vacinação das crianças de até cinco anos de idade. Já no primeiro ano do Dia Nacional de Vacinação, caiu consideravelmente o número de casos e, no terceiro ano, já ficou próximo de zero. Ou seja, o planejamento foi bem sucedido.

Muitos Dias Nacionais de Vacinação foram necessários até que o país fosse declarado livre da poliomielite, em 1994.

Dilene Nascimento endossa o ponto de vista de Verani sobre a falta de campanhas. “A partir de 2016, com a mudança no Governo Federal, essa questão da vacinação foi negligenciada. Foi negligência do Governo. Hoje em dia, você quase não vê propaganda de vacinação. É uma série de atitudes. É o pai que vai levar a criança para vacinar e não tem vacina no posto. A campanha tem que ser permanente e as unidades de saúde têm que estar estruturadas e providas das vacinas para atender a demanda”, diz. 

Para a historiadora, esse conjunto de ações (ou a falta deles) desestrutura a programação de combate à doença, o que, consequentemente, baixa a cobertura vacinal e traz o risco da existência de novos casos.  

Mas há um raio de esperança. Fernando Verani enxerga a mudança no Governo Federal, com a eleição de Lula, como um alento neste momento difícil para a saúde. “Certamente teremos um novo governo de inclusão social e de apoio à ciência, além da reconstrução de tudo que foi destruído por esse governo genocida e negacionista. O presidente eleito já anunciou que fará um Dia V da vacinação, uma grande campanha nacional para recuperar as coberturas vacinais principalmente das crianças. Irá também priorizar o SUS”, concluiu um dos fundadores da Escola Politécnica de Saúde da Fiocruz.

* Sob supervisão de Maria Carolina Santos. Esta reportagem faz parte do programa Infovacina Trainee, da Agência Bori.

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