Dezenas de jovens, moças e rapazes formam semicírculo em praça pública.
Crédito: Flávio Costa/ASPTA

por Verônica Pragana*

Na manhã da sexta-feira passada, 2 de dezembro, dia do terceiro jogo do Brasil na primeira fase da Copa do Catar, uma feira agroecológica montada na praça da Bandeira, bem no centro de Campina Grande, serviu de chamariz para que a população urbana ouvisse uma séria denúncia de jovens camponeses. Vindos de 10 municípios do território da Borborema, a até 100 quilômetros de distância, os jovens queriam vender seus produtos, mas, sobretudo, ganhar aliados para uma luta que estão travando em suas comunidades.

A exemplo de Dom Quixote, eles lutam contra os moinhos de vento. Na verdade, lutam para que esses moinhos modernos, representados pelos imensos aerogeradores que se multiplicam do litoral ao sertão dos estados nordestinos para produzir energia eólica, não cheguem nas comunidades rurais do território.

Vistos pela opinião pública como símbolo da salvação do planeta febril, os aerogeradores se tornaram o terror das famílias agricultoras que moram no caminho dos ventos descobertos pelas megas empresas estrangeiras que vêm de vários países da Europa e Ásia para transformar vento e sol em lucros milionários a partir do potencial brasileiro.

“A gente precisa de eletricidade mas, ao mesmo tempo, se tem gente sofrendo, temos que criar algo que seja bom para todos, não para uma minoria e outros ficarem de fora”, dispara Marcos Vieira Lima, servidor público estadual, que fez umas compras na IX Feira Agroecológica e Cultural da Juventude do Polo da Borborema. 

“Se causa barulho para mim já é um dano grave”, frisou, por sua vez, Josilma Izidro, moradora do bairro de Bodocongó, na periferia de Campina. Na conversa, ela rapidamente pensou no quanto isso perturbaria seu sobrinho autista. “Se perturba a ele, imagino que faz o mesmo com tantas outras pessoas.”

“Não tinha conhecimento dos impactos negativos. É muito importante essas iniciativas para esclarecer a população”, assegurou Rosângela Bezerra, que também passava pelo espaço com sua irmã Ana Mary, que mora em São Paulo.

Diálogo campo-cidade 

Enquanto isso, no palco montado numa das extremidades do corredor de barracas da feira, Aline Sousa, de 30 anos,  uma das lideranças do sindicato rural do município de Remígio, testemunhava o que tinha visto e sentido nos intercâmbios que participou. “A gente quer aproveitar o arredor de casa para se balançar embaixo de um pé de pau, mas onde a gente visitou vimos que as crianças não saem de casa para brincar com medo de ficar no terreiro”.

Esse medo não é sem razão. Muitos viram explosões em torres que fazem as pás voar longe. Outros têm receio de levar choque pela descarga elétrica no solo e evitam, inclusive, capinar a terra.

E, no palco, Aline continua: “A nossa feira aqui está oferecendo para a população de Campina Grande o que os lugares que a gente visitou não tem mais para oferecer.” Depois dela, foi a vez de Edilson Onofre, articulador da juventude camponesa do município de Arara, com microfone na mão, dar uma passeada pelas barracas contando o que havia na feira, anunciando a abundância dos alimentos e produtos. 

A primeira barraca que Edilson parou foi a do município de Alagoa Nova, onde existe um viveiro comunitário de mudas que é cuidado e gerenciado pela juventude. “Aqui tem mudas diversas, desde árvores frutíferas – manga, jaca, abacate, pinha e laranja poncã – até ornamentais como a palmeira imperial. Nós acompanhamos o crescimento de todas elas, desde o plantio das sementes até o processo de enxertia”, informa Herick do Nascimento, um dos jovens responsáveis pelo viveiro de Alagoa Nova.

Entre uma fala e outra, uma música puxada pelo trio de forró pé de serra Acauã e um grito para animar os jovens presentes: “Borborema Agroecológica não é lugar de parque eólico”, “Juventude que ousa lutar, constrói o poder popular”, “Juventude e Agroecologia, a luta é todo dia”.

Na hora em que Claudionor Vital, assessor jurídico do projeto Força dos Ventos, executado pela ActionAid, AS-PTA e Comissão Pastoral da Terra (CPT), fez a sua fala abordando os perigos trazidos nos contratos de arrendamento da terra das famílias para as empresas, a estudante do segundo período do curso de Agroecologia da Universidade Estadual da Paraíba, Raíssa Coelho (23), prestou bem atenção.

Moradora de Campina Grande e já informada de alguns impactos provocados por essa indústria, como as perturbações na vida dos animais selvagens e domesticados, a diminuição do espaço de produção de alimentos das famílias e o grande barulho ininterrupto provocado pelos aerogeradores, Raíssa não escondia a surpresa ao descobrir cada vez mais os danos às famílias.

“Vi aqui que estamos tratando de algo muito grave. Principalmente, os problemas psicológicos causados por algo que é vendido como algo muito positivo. Dizem que a energia renovável é boa, só que não. Pelo contrário. O que estou vendo aqui é que causa muito prejuízo”, frisa a universitária.

Durante a feira, Raíssa conheceu e conversou durante muito tempo com Dayane Monteiro, de 22 anos, de uma comunidade rural do município de Remígio que está na rota das indústrias de energia eólica. Daiane e seu marido vivem numa área de 8,5 hectares que divide com mais duas famílias, a da avó e a dos pais. É desse mesmo chão que eles retiram o sustento do mês das três casas.

Dayane participou do último intercâmbio que houve entre a juventude da Borborema Agroecológica e as comunidades rurais de Caetés, em Pernambuco, que sediam parques eólicos há sete anos. “Na visita, fiquei apavorada, assustada”, relata. “Precisamos barrar a chegada dessas indústrias nas nossas comunidades. Se não, teremos muita migração, porque os parques limitam muito a área de produção, as crianças não vão mais poder estudar na escola da comunidade por causa do barulho. A gente vai perder totalmente o nosso sossego”, enumera apreensiva.

A comunidade de Dayane é uma das fortalecidas pelo trabalho que o Polo da Borborema e a ONG AS-PTA desenvolvem no território. Nela, as cerca de 50 famílias contam com uma infra-estrutura hídrica formada por cisternas de 16 mil litros de placas de cimento e algumas cisternas-calçadão com capacidade para armazenar 52 mil litros de água da chuva. E há iniciativas de auto-organização comunitária como Fundos Rotativos Solidários (FRS) para a construção de fogões ecológicos, criação de abelhas e de ovelhas de raças nativas, adaptadas ao ambiente Semiárido. Os FRS funcionam como uma espécie de poupança coletiva que faz girar o recurso na comunidade gerando benfeitorias a partir de princípios como a solidariedade.

O Polo da Borborema é um coletivo formado por 13 sindicatos rurais e 150 associações comunitárias e que promove, há 25 anos, um projeto de desenvolvimento no território de atuação baseado na agricultura familiar agroecológica e na convivência com o Semiárido.

Diálogo com população aconteceu simultaneamente à feira agroecológica. Crédito: Flávio Costa/ASPTA

O território resiste 

A partir dessa força social acumulada ao longo do tempo e com o trabalho desenvolvido pelos sindicatos rurais, o Polo, a partir do movimento de mulheres agricultoras, vem mobilizando a opinião pública e, principalmente, as comunidades rurais para bloquear a entrada desses empreendimentos no território. É a primeira iniciativa territorial de resistência antes da instalação das indústrias de energia eólica e solar que se tem notícia no Brasil. 

Desde a 13ª Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia, realizada em maio passado, que o Polo e a AS-PTA não param de promover atividades para manter acesa a chama da resistência no território. Nesse processo, aconteceu a formação das juventudes do território através de encontros comunitários, municipais e territorial; intercâmbios para regiões na Paraíba e fora do estado onde funcionam os parques eólicos e as usinas solares; audiências públicas estadual, envolvendo a Frente Parlamentar Ambientalista da Assembleia Legislativa, e municipais em Remígio e Lagoa Seca, a partir de provocações feitas a mandatos de vereadores.

Além desses eventos maiores, os jovens visitam famílias que vivem em comunidades ameaçadas por esses mega-empreendimentos. Esse corpo a corpo é fundamental para que as informações não ditas pelos representantes das empresas e pelas propagandas cheguem às famílias rurais. 

O caminho apontado pelo Polo da Borborema é a geração de energia renovável de forma descentralizada, a partir da instalação de placas solares nos telhados das casas rurais do Semiárido paraibano e brasileiro. Assim como um dia a água foi democratizada na região, a proposta é que cada casa gere energia para seu consumo e venda do excedente, assim como acontece em países europeus como a Alemanha.

Áreas ameaçadas 

Segundo o site da Agência Nacional de Energia Elétrica, no território da Borborema, há vários empreendimentos em fases distintas, desde estudo da viabilidade técnica do investimento, em fase pré-construção, instalação das indústrias e em operação. Dos municípios cujas famílias agricultoras são mobilizadas pelo Polo, Areial, Montadas e Esperança estão prestes a ter instaladas duas usinas eólicas de cinco previstas no Complexo Serra da Borborema, da empresa EDP Renováveis Brasil S.A, que já obteve a licença ambiental para o empreendimento.

Segundo o advogado Claudionor Vital, essas indústrias estão para chegar de forma geral nos municípios que ficam no planalto da Borborema, segundo corredor de ventos em capacidade de produção de energia do estado e com largo potencial solar também. “Pocinhos, Remígio, Arara, Casserengue, Solânea são municípios na mira desses empreendimentos financiados pelo capital internacional”.

*Jornalista

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