Crédito: Lafepe

A solução para a escassez de álcool gel em Pernambuco não veio da “mão invisível do mercado”, mas de uma instituição que escapou da onda de privatizações do final dos anos 1990 e início deste século. A partir deste final de semana, o Laboratório Farmacêutico de Pernambuco, o Lafepe, começou a produzir três toneladas diárias de álcool em gel 70º para abastecer os hospitais e unidades públicas de saúde no estado.

Para viabilizar a produção, a equipe do Lafepe teve de adaptar suas instalações e, praticamente, montar uma fábrica nova em apenas 10 dias. Com a decretação do estado de calamidade a partir de 24 de março, o laboratório pôde comprar toda uma linha de montagem.

Ontem, sábado, 4 de abril, pequenos volumes foram fabricados a título de testes, que devem continuar ao longo deste domingo. Amanhã, segunda-feira, a produção começa para valer.

O item que deu mais trabalho foi o Carbopol, substância responsável pela consistência gelatinosa, cuja a aquisição foi viabilizada após tomada de preço. A ideia inicial era produzir seis toneladas diárias, mas a máquina de envasamento adequada para isso já não está disponível no mercado.

O diretor-presidente do Lafepe, Flávio Gouveia, confirmou que o laboratório estatal teve de se concentrar na tarefa emergencial, criando, inclusive, sua própria fórmula de álcool em gel: “Após aquisição de equipamentos, como máquinas para o envase e fechamento de embalagens, adequações na produção e o desenvolvimento de uma fórmula própria pela equipe técnica, para chegar ao resultado final com qualidade e segurança, temos capacidade de produção. Em tempo recorde, o Lafepe formou uma frente de trabalho e montou uma linha de produção”, Flávio Gouveia.

Durante esta semana, a diretoria do laboratório deverá informar ao governador quanto foi investido na fábrica de álcool em gel.

Inicialmente, o Governo de Pernambuco deverá abastecer os hospitais de referência para o tratamento de Covid-19. Depois, os demais hospitais públicos e as secretarias municipais de saúde receberão o produto. Não está descartada a distribuição do álcool gel para organizações que trabalham com populações vulneráveis, mas isso vai depender do volume excedente.

Pandemia neoliberal

O Lafepe foi idealizado e criado durante o primeiro governo de Miguel Arraes, no início dos anos 1960, mas só foi inaugurado em 1965. É m dos três maiores laboratórios públicos do Brasil e um dos poucos laboratórios estaduais a continuarem produzindo medicamentos.

O Lafepe escapou da privatização por pouco. Em 1999, época em que a primeira onda da “pandemia neoliberal” fazia estragos nas empresas públicas brasileiras, o então governador Jarbas Vasconcelos o incluiu um projeto de lei listando as empresas passíveis de serem privatizadas. A pressão da sociedade impediu a venda, pois, na época, o laboratório ainda produzia e comercializava em suas farmácias remédios de uso popular a preços baixos.

Hoje, o laboratório estatal já não produz medicamentos de uso cotidiano, pois aderiu a programas de transferência de tecnologia e passou a produzir remédios para doenças de maior complexidade.

Dos 22 medicamentos que compõem o coquetel de antirretrovirais fornecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para pacientes com HIV, cinco são produzidos na fábrica do laboratório no bairro de Dois Irmãos. O Lafepe também produz Clozapina, Quetiapina e Olanzapina, usados no SUS para tratamento de doenças mentais como a esquizofrenia.