Mágoa manterá Marília Arraes longe de Paulo Câmara

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adalgisasaberturaQuarta mulher de Pernambuco a ocupar uma cadeira na Câmara Federal desde a redemocratização, a vereadora do Recife Marília Arraes (PT), 34 anos, neta de Miguel Arraes, será a única deputada federal de Pernambuco na próxima legislatura. Após ter sua candidatura ao governo do estado rifada pela aliança entre seu partido e o PSB, ela atingiu exatos 193.108 votos, a segunda maior votação, atrás apenas do recordista João Campos (460.387 votos), filho do ex-governador Eduardo Campos, que, apesar de primo, foi o pivô de sua saída do próprio PSB. Marília prefere não considerar o resultado um “voto de indignação”, acha que isso “diminui a sua conquista”.

“Eu não tinha nenhuma expectativa consolidada porque nossa votação não era do tipo tradicional, de quem tem curral eleitoral, de quem compra votos. Foi uma votação de voto de opinião, de pessoas que se identificam e encampam a nossa campanha”, justifica.

Quem participou das negociações para definir a estratégia que tirou Marília da disputa estadual vê na reeleição do governador Paulo Câmara (PSB) em primeiro turno – e na vitória da majoritária da Frente Popular – as provas de que a aliança que uniu ex-adversários foi mais do que acertada. Marília continua discordando e vendo na tática um “equívoco”. “O que houve foi uma divergência de opinião em relação à tática a ser adotada eleitoralmente”.

Marília não esconde o ressentimento. Reafirmando oposição a Paulo, a petista põe em xeque a capacidade do governador em cumprir as promessas de campanha e dispara: “o que ele fez (durante a campanha) foi estelionato eleitoral, prometeu sem poder cumprir, como fez com as UPAEs, os hospitais regionais, a promessa de dobrar o salário dos professores. Vamos ver o que ele vai conseguir cumprir”.

“O que houve nessa eleição é que o povo de Pernambuco teve a oportunidade de escolher por eliminação, o pior ou o menos pior, e considerando outros aspectos, sobretudo nacionais, e não efetivamente a realidade de Pernambuco”, analisa. Sobre o cenário do estado, Marília, que percorreu quase todos os municípios durante a pré-campanha para o governo, é farta nas críticas: “O estado continua com dívida consolidada, restos a pagar e serviços da dívida a custear mensalmente que são enormes. São 1,5 mil obras paradas, falta água do Sertão ao Litoral. Nada disso mudou, o que mudou foram as promessas, e sem justificativa para as que não foram cumpridas anteriormente”.

Marília diz não ter recebido ligações nem cumprimentos de seus desafetos político-familiares e não ter conversado com ninguém ainda. “O resultado não muda nada na minha relação com ele (Paulo). Não aconteceu nada de novo para eu mudar, até porque relação pessoal eu não tenho nem pretendo ter. Tenho uma relação política, e nada mudou no cenário político para que essa relação mudasse”.

A deputada federal eleita também minimiza o cenário político nacional de ameaça ao estado democrático de direito, explicando que preza por uma relação política que beneficie Pernambuco, que irá trabalhar por isso e diz que agora “não é hora de olhar para trás”. Ainda assim, continuará firme na decisão de no segundo turno presidencial não subir em palanque com Paulo, em que vê “oportunismo” e “orientação de marqueteiros” na declaração de arrependimento por ter apoiado o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

“Não vejo movimentação (do PSB para o segundo turno), da mesma forma que não vi no primeiro turno. O que vi foi a cidade amarela, a campanha de Haddad foi feita quando ele veio, mais para tentar beneficiar Paulo, para tentar neutralizar um pouco da rejeição que ele tinha, do que para fortalecer Haddad. Inclusive ele descaradamente ficou neutro em relação às críticas a Bolsonaro, para não desagradar potenciais eleitores”, alfineta.

Em relação a 2020, prefere passar a bola para a executiva estadual do PT responder. Marília diz ser cedo por enquanto para falar em disputa à Prefeitura do Recife em 2020, apesar de seu nome e o do primo João Campos (PSB) serem os mais ventilados para suceder a Geraldo Julio (PSB). “Ainda não temos essa discussão. Ao menos, se tem, eu não estou inserida nela. Não temos como prever o que será daqui a dois anos se não sabemos o que será daqui para o próximo mês”, reitera.

Pautas no Congresso

Revogar a reforma trabalhista e a PEC do fim do mundo, evitar que a reforma da previdência seja aprovada, recuperar a soberania nacional, inclusive por meio do pré-sal, para que a exploração seja exclusivamente brasileira e revisar o pacto federativo serão algumas das principais pautas de Marília Arraes em Brasília, “todas colocadas em prática no pacote de maldades decorrentes do golpe”. “A política de diminuição das desigualdades regionais tem que se transformar numa política de estado, e não uma política de governo”, reforça.

Sobre as pautas feministas, Marília reconhece que é preciso haver pautas mais enérgicas, “até porque estamos com vários dos nossos direitos ameaçados”. Ela ainda vai se reunir para formar o conselho político do mandato, mas a pauta sem dúvida será prioridade.

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