Crédito: Fred Jordão

Bastaram dois dias, sábado e domingo, para que uma das casas modernistas de maior valor arquitetônico de Pernambuco virasse um monte de metralha e ferros retorcidos. A casa na esquina das ruas Sant’anna e Astério Rufino Alves, no bairro de Santana, foi demolida numa ação rápida por operários que chegaram na manhã de sábado (3) com retroescavadeiras e caminhões caçamba. À tarde já não havia quase nada e, no domingo, o único serviço a ser feito era a limpeza do terreno.

Durante 40 anos, a casa foi usada pelo governo estadual como sede da Agência Estadual de Meio Ambiente (que manteve a antiga sigla CPRH da Companhia Pernambucana de Recursos Hídricos), que, em janeiro de 2019, mudou-se de endereço para um condomínio empresarial no mesmo bairro. A transferência aconteceu porque os herdeiros do industrial Miguel Vita recusaram-se a renegociar o contrato de aluguel, priorizando a venda para uma construtora.

O nome da empreiteira que comprou o imóvel ainda não foi revelado, pois a demolição ocorreu sem que nenhuma placa com as informações da obra e do projeto tivesse sido afixada, o que contraria a legislação municipal, mas se tornou rotina no Recife.

Em 2015, um parecer favorável da Procuradoria Geral do Estado autorizava a compra do imóvel, avaliado oficialmente em R$ 15 milhões. Na época, a família proprietária pedia R$ 13,5 milhões e não ficou sabendo que o preço apontado pelos peritos contratados era maior do que sua oferta. Ao longo do ano seguinte, as negociações chegaram ao fim, ficando acertado o preço de R$ 9,5 milhões a serem pagos pelo Estado de uma única vez.

A confiança era tanta que o arquiteto Paulo Camarottti, diretor da CPRH, chegou a fazer o projeto para restauro da casa preservando os traços originais e prevendo um prédio administrativo de oito andares nos fundos do terreno.

A crise econômica e a queda na arrecadação em 2016 fizeram o governador Paulo Câmara (PSB) repensar a decisão. A compra não foi feita. O governo decidiu que a CPRH continuaria a pagar o aluguel de R$ 55 mil mensais. Perdeu-se naquele momento a oportunidade de preservar um dos marcos mais originais da arquitetura modernista.

A partir dali, o relacionamento com a família Vita degradou-se, com os herdeiros impondo condições mais duras para o aluguel enquanto buscavam um comprador no mercado imobiliário.

O talento e o dinheiro

A casa destruída nesse final de semana é resultado do encontro do dinheiro de um dos mais importantes empresários pernambucanos do século XX e do talento de um imigrante português que fugia de um ditador. O projeto foi encomendado em 1958 por Miguel Vita, dono da fábrica de refrigerantes Fratelli Vita e ex-presidente da Federação das Indústrias de Pernambuco (Fiepe), ao arquiteto português Delfim Fernandes Amorim, que havia emigrado de Portugal sete anos antes.

De acordo com seu filho, Luiz Amorim, professor de arquitetura da Universidade Federal de Pernambuco e autor de um livro sobre a destruição do legado modernista no estado, o pai decidiu tentar a sorte em Recife já com 34 anos de idade para trabalhar e escapar da repressão da ditadura salazarista em sua terra natal.

Detalhe da fachada no projeto de Delfim Amorim

Formado pela Escola de Belas Artes do Porto, Delfim foi professor na mesma instituição por um ano, até emigrar. Vários prédios modernistas da paisagem recifense foram projetados por ele, a exemplo dos edifícios Santa Rita, na avenida Conde da Boa Vista, e Barão de Rio Branco, na rua do Progresso, a Faculdade de Arquitetura, no Derby, o Seminário Regional do Nordeste, que viria a abrigar por mais de 40 anos a Faculdade de Odontologia de Pernambuco (FOP)  e as lojas do Bompreço construídas entre 1966 e 1969.

A casa, que tinha soluções arquitetônicas originais integradas ao quintal e ao jardim, fazia parte de uma lista de imóveis dignos de tombamento que a diretoria de Preservação do Patrimônio Cultural da prefeitura do Recife havia elaborado em 2013, mas que jamais foi confirmada pelo prefeito Geraldo Julio.

 “Nada excepcional”

Luiz Amorim não foi surpreendido pela rapidez com que a casa projetada por seu pai veio abaixo. “Não há nada excepcional em relação ao que vem acontecendo no Recife. Não há surpresas: essas demolições começam sempre aos sábados e são concluídas no domingo, numa verdadeira operação de guerra em que tratores arrastam as estruturas de sustentação com correntes”.

As construtoras têm que demolir por dois motivos. Para impedir que o tombamento aconteça e que os movimentos sociais que discutem o futuro da cidade consigam o embargo na Justiça. Geralmente, a derrubada tem início horas depois da liberação do alvará de demolição pela secretaria municipal de Mobilidade e Controle Urbano.

Luiz Amorim explica que os detentores do poder político no Recife têm usado a estratégia de fingir ser mediadores do embate entre diferentes visões de uso do solo da cidade. “Na verdade, o poder público não está mediando nada. Ele protege os interesses do capital imobiliário. O caso mais emblemático disso foi o Cais José Estelita, em que a prefeitura montou uma comissão para reelaborar o projeto, mas que acabou sendo modificado para ficar do jeito que as construtoras queriam”.

Demolição aconteceu no final de semana e sem placa de obra afixada (Crédito: Fred Jordão)

Em seu livro Obituário Arquitetônico, publicado em 2007, Amorim detalha que “dos 258 Imóveis Especiais de Preservação do Recife, apenas três são residências unifamiliares de arquitetura moderna. (…) É uma lacuna, sobretudo quando se considera que esse é um dos tipos mais expressivos da produção modernista local. Infelizmente, essa lacuna tem levado a um processo de demolição e descaracterização de imóveis da produção modernista local de qualidades únicas”.

Segundo o professor, o livro foi escrito “numa tentativa de dialogar com o grande público para tentar sensibilizar para a importância da preservação da história da cidade, afinal esse esforço não pode ficar restrito aos técnicos e funcionários dos órgãos públicos, que não têm como enfrentar o capital privado e o poder público”.