Crédito: Arnaldo Sete

A manifestação Vacina no Braço, Comida no Prato, Fora Bolsonaro deste sábado, 24 de julho, foi a quarta no intervalo de 56 dias. E, no Recife, foi a primeira debaixo de sol forte e sem as chuvas que acompanharam os três protestos anteriores. Como era previsível, o #24J acabou se transformando também numa reação às ameaças de golpe de Estado por parte do presidente da República e dos generais que ocupam cargos no governo.

A quantidade de faixas e cartazes bem humorados exibidos pelos manifestantes sugere que, longe de inspirar medo, as ameaças de militares como o ministro da Defesa, Walter Braga Netto, ou do comandante da Aeronáutica, Carlos Almeida Baptista Júnior, se tornaram motivo de deboche.

Já na concentração na praça do Derby, a partir das 9h30min, era possível perceber que o clima estava mais descontraído, sem a tensão que marcou o ato de 19 de junho, por exemplo, o primeiro após os ataques da Polícia Militares que cegaram duas pessoas. A maior quantidade de pessoas vacinadas também ajudou a dar o tom mais festivo da manifestação, que seguiu animada por grupos de percussão, arte circense, fantasias e até pelo hino de Pernambuco, executado por um improvável saxofonista na calçada da avenida Conde da Boa Vista.

Em meio ao som dos atabaques e palavras de ordem repetidas exaustivamente pelos militantes, um cartaz simples, feito à mão, lembrava que o luto e o sofrimento causados pelas ações e palavras de Jair Bolsonaro eram o motivo para que milhares de pessoas voltassem às ruas, em pelo menos 187 cidades do Brasil e do exterior: Diogo Simões, professor de Bioquímica da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), caminhava erguendo com as duas mãos a cartolina de papel pardo onde havia escrito com tinta as palavras “Sem ciência é a treva – Fittipaldi presente”.

“É minha homenagem ao amigo Ivon Fittipaldi”, explicou. Professor de Física da UFPE, Fittipaldi morreu de covid-19 no dia 29 de dezembro do ano passado, quando vários países pelo mundo afora já tinham começado a vacinação de suas populações com o imunizante da Pfizer, cujas ofertas foram repetidamente rejeitadas pelo presidente Bolsonaro e pelo ex-ministro da Saúde, o general Eduardo Pazuello.

Apesar da descontração geral, empenhar energia para reagir às ameaças de um eventual golpe violento contra a democracia foi o assunto principal dos militantes e lideranças dos movimentos sociais entrevistados pela Marco Zero.

Povo na rua para garantir democracia

Ailce Moreira. Crédito: Laércio Portela/MZ Conteúdo

“É fundamental travar o diálogo com os evangélicos e as evangélicas do Brasil, pois essa parcela da população foi decisiva em 2018 e também é agora. O desafio é fazer uma contranarrativa daquilo que vem sendo pregado pelo Governo Federal. Para nós, essa contranarrativa está nos princípios do Evangelho, como o amor, a dignidade humana e a liberdade. Vamos dialogar com nossos irmãos e irmãos, na linguagem que nós já conhecemos, para barrar o discurso de morte. Vamos pregar a vida plena, a vida em abundância. Essa conversa pode ser decisiva para que a gente não venha a sofrer um golpe, pois a medida que essas falas golpistas ganhem força entre os evangélicos, isso pode acontecer” – Ailce Moreira, da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito e da Coalizão Evangélica Contra Bolsonaro.

Carmen Silva. Crédito: Laércio Portela/MZ Conteúdo

“Essas ameaças, que tanto Bolsonaro quanto o ministro da Defesa fazem, são respaldadas pelas Forças Armadas, pois, se não há contestação, há respaldo. A gente promover essas manifestações e o Brasil todo se mobilizar, inclusive setores que tradicionalmente não costumam vir para as ruas, é muito importante, pois é a forma que a sociedade civil tem de resistir. Não estou dizendo que Bolsonaro tenha forças para dar o autogolpe, mas essa força pode surgir. No entanto, não acredito que, se ele tentar, saia vitorioso. De qualquer forma, o risco está colocado, então temos de nos expressar em defesa da democracia” – Carmen Silva, integrante da organização feminista SOS Corpo e do Fórum de Mulheres de Pernambuco.

Grupo de militantes da geração 68 presente na manifestação do 24J no centro do Recife. Crédito: Laércio Portela/MZ Conteúdo

“Nós lutamos contra o golpe de 1964, que se implantou no momento em que João Goulart anunciou reformas sociais e políticas no país. Hoje, o que estamos vendo é a tentativa de desconstrução de tudo que se acumulou e se corporificou na Constituição de 1988 depois da anistia e da campanha das Diretas. Mesmo numa democracia burguesa com limites, somamos pontos, mas agora estão tentando destruir tudo isso para implantar o neofascismo no Brasil. Por isso, estamos aqui com poesia, prazer, amizade e humor na conjuntura que for” – Marcelo Mário Melo, jornalista , poeta e representantes da geração de 1968

Paulo Mansan. Crédito: Laércio Portela/MZ Conteúdo

“A nossa grande tarefa neste momento é organizar mais gente, botar mais gente na rua. Cada vez mais, temos de engrossar os atos para mostrar ao governo genocida que não permitiremos qualquer arroubo autoritário. Além disso, temos de juntar o máximo de forças possíveis, inclusive dos outros poderes, que já deram as primeiras respostas, mas o Judiciário e o Congresso precisam dar respostas mais firmes. Nossa tarefa é pressionar os poderes para evitar qualquer loucura de Bolsonaro, que não pode se esconder atrás da incompetência dele” – Paulo Mansan, da coordenação estadual do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST)

Wellington Medeiros. Crédito: Laércio Portela/MZ Conteúdo

“A rua é o espaço mais importante para a gente manter o direito que ainda temos hoje, que é o direito de nos manifestar. Então, se a gente continuar botando mais gente na rua em campanha pela importância da democracia e de escolher, inclusive um verme feito Bolsonaro, então estamos no caminho certo. Nós, os LGBT, não somos apenas um segmento que faz a Parada LGBT, mas que estamos na rua para lutar por direitos políticos e sociais sem medo de levar nossa bandeira pra a rua” – Wellington Medeiros, do Movimento LGBT Leões do Norte