Missa homenageia Manoel Mattos

“Felizes os humildes, pois eles receberão a terra por herança.
Felizes os que têm fome e sede de justiça, pois serão satisfeitos”

Os primeiros versículos do capítulo 5 do evangelho de Mateus foram lidos pelo padre Fábio Potiguar na Igreja das Fronteiras, durante a missa em homenagem ao ativista e advogado Manoel Mattos, na noite desta quinta-feira (24). Assassinado há dez anos por denunciar grupos de extermínio que atuavam na fronteira entre Pernambuco e Paraíba, a história de vida do ativista se faz mais forte em um momento em que o Brasil passa por “uma noite escura”, como afirmou o padre.

No sermão, o religioso, que faz parte da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Olinda e Recife, relembrou trecho da canção cristalizada na voz de Nara Leão, que era cantada por seminaristas na ditadura militar: “faz escuro, mas eu canto, porque o amanhã vai chegar”. “Esse dia vai ser lindo de se viver. Talvez, como Moisés, nem chegaremos a vê-lo, só na comunhão final”, disse o padre, que também criticou “um cristianismo desvinculado da realidade e do compromisso com Jesus”.

Federalização do assassinato foi pioneira para ativistas dos direitos humanos

“Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça. Por que nós temos essa fome e essa sede, e não a indiferença? Porque a dor do outro é também a nossa. Manoel Mattos era muito crente em Deus, e isso o animava na luta pelos direitos humanos. Mas temos o direito de sermos ateus ou agnósticos e termos essa mesma sede de igualdade e fraternidade. E não nos acostumarmos. Nós estamos aqui, mesmo tomados pelo medo, porque não dá pra ser indiferente. Tenham coragem”, disse.

Residência de Dom Hélder Câmara durante muitos anos, a Igreja das Fronteiras chegou a ter o muro metralhado em outubro de 1968. O fato foi lembrado pelo ex-deputado federal Fernando Ferro, de quem Manoel Mattos foi assessor parlamentar.

“Eram tempos de ódio e violência. Quando a gente conseguia chegar a Dom Hélder, ele trazia essa mensagem de esperança: ‘Quanto mais fria a madrugada, mais perto o dia está de chegar’. Manoel Mattos era um jovem advogado que defendia os negros, os trabalhadores rurais, os homossexuais. Os mais sofridos. Nessa hora, em que novamente estamos vivendo com medo, com defensores como Marielle Franco sendo assassinados, a importância do que Manoel Mattos fez pela vida digna cresce, e temos o compromisso de continuar homenageando sua história”, afirmou Ferro, um dos amigos que falaram durante a missa.

Um momento emocionante foi quando a ativista Eleonora Pereira pegou o microfone e se dirigiu à mãe de Manoel Mattos, dona Nair Ávila. Eleonora perdeu o filho caçula em 2010: o produtor cultural José Ricardo, 24 anos, foi espancado e faleceu no hospital dois dias depois, em um crime que foi o primeiro no Brasil a ser classificado como assassinato por homofobia. Desde então, Eleonora se tornou um ativista da causa LGBT.

Com o microfone na mão, Eleonora falou que entendia o sentimento de dona Nair. “Muitas vezes deixamos nossas casas para cuidar da nossa luta. E muitos não acreditam, falam por trás. Mas nós vamos para frente. Hoje não é só uma homenagem a Manoel Mattos, mas também à senhora, dona Nair, que tanto lutou pela justiça”, disse.

As homenagens a Manoel Mattos também aconteceram em Itambé, cidade onde ele atuou e onde se concentrava o grupo de extermínio que ele denunciou às CPIS de pistolagem nos anos 2000. Por lá, a missa aconteceu pela manhã desta quinta-feira (24) no assentamento que leva o nome do advogado e onde hoje moram cerca de 150 famílias. Na ocasião, foi inaugurada uma capela.