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Mobilizados, afoxés tentam evitar redução de apresentações no carnaval do Recife

Marco Zero Conteúdo / 06/02/2024
Estandartes de afoxés, em várias cores, erguidos por trás de aglomeração de mulheres em trajes típicos de baianas desfilando à luz do dia.

por Jorge Cavalcanti*

Dezesseis afoxés tiveram reduzido o número de apresentações nos quatro dias de folia nos polos descentralizados da programação oficial do Carnaval do Recife. Doze deles verificaram que só teriam uma apresentação individual, cada. Por conta disso, os grupos decidiram se mobilizar. Na segunda-feira (5), uma comitiva foi até o 15º andar do prédio sede da prefeitura, onde se reuniu com o secretário municipal de Cultura, Ricardo Mello, para pleitear maior espaço na grade. 

A movimentação dos grupos com atuação no Grande Recife surtiu algum efeito. A gestão acenou com a possibilidade de cada afoxé voltar a ter, ao menos, duas apresentações individuais este ano. “Isso foi o que ficou como possibilidade de resposta (da gestão). Mas precisamos coadunar mais força”, disse, num vídeo selfie, Fabiano Santos, presidente do Alafin Oyó, sediado em Olinda. O grupo foi um dos que tiveram o espaço reduzido para apenas uma apresentação, no polo de Três Carneiros, na zona sul do Recife. 

Fundador e presidente do Ará Omin, sediado em Nova Descoberta, zona norte da cidade, Lourival Santos avalia como prejudicial a redução do espaço da linguagem da cultura popular. “É prejudicial porque o trabalho de um afoxé é o ano todo. Na nossa comunidade, além das oficinas gratuitas de percussão e dança, fazemos campanhas solidárias. Um afoxé é mais do que um grupo cultural, é uma forma de organização social, um quilombo”, avalia.

O Ará Omin fez duas apresentações individuais ano passado, para além da presença no Ubuntu, que reúne todos os grupos para abrir o Carnaval na quinta-feira à tarde no Bairro do Recife. Este ano, pela programação oficial divulgada, teria uma só apresentação, no Parque Dona Lindu, em Boa Viagem, na zona sul.

No Recife, o afoxé é reconhecido como Patrimônio Cultural e Imaterial desde 2022, por conta da aprovação pela Câmara Municipal de um projeto de lei de autoria do vereador Ivan Moraes (PSOL). No ano passado, a União dos Afoxés de Pernambuco pediu ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) o reconhecimento da linguagem também como Patrimônio Cultural e Imaterial do Brasil, o que ainda está em análise.

Procurada pela reportagem, a gestão informou que novos afoxés foram habilitados no edital do Carnaval 2024, assim como novos representantes das demais linguagens da cultura popular. “O esforço da gestão é para conseguir contemplar na programação dos 49 polos a maior quantidade possível de grupos culturais, seja afoxés, maracatus, grupos de dança, tribos, caboclinhos, orquestras, escolas de samba e demais linguagens”. 

Para este ano, a Secretaria e a Fundação de Cultura do Recife destacam que quatro afoxés passaram a integrar a cerimônia do Ubuntu, totalizando 29 grupos. “Cada um deles recebe R$ 25 mil por essas participações. Para além delas, os afoxés também integram a programação de chão de polos centralizados, descentralizados, infantis, corredores da folia e o Circuito de Pátio a Pátio”. 

Plano Recife Matriz da Cultura Popular

Lançado em dezembro do ano passado, no Teatro Santa Isabel, o Plano pretende garantir até R$ 17 milhões de investimento municipal nos próximos dois anos, a partir do redesenho de mecanismos já existentes, como subvenções, premiações, cachês e editais. “A gente lança um movimento para mostrar a matriz da nossa cultura popular e poder trazer uma nova releitura, entender o contemporâneo, sem perder a nossa essência”, disse o prefeito João Campos (PSB), no evento de lançamento.

Vinte e nove afoxés participarão do Ubuntu, cerimônia de blocos afro na abertura do carnaval do Recife. Crédito: Camila Leão/PCR

*Jornalista com 20 anos de atuação profissional e especial interesse na política e em narrativas de garantia, defesa e promoção de Direitos Humanos e Segurança Cidadã.

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