Crédito: Facebook ANF

por Mateus Moraes

Com um olhar crítico em relação às dificuldades que atingem as comunidades cariocas, o jornalista, ex-fuzileiro naval e ex-missionário André Fernandes atuou como coordenador da campanha Rio Desarme-se. Esta atuação fez com que ele visitasse e se tornasse conhecido nas favelas e torna-se uma espécie de interlocutor entre a mídia hegemônica, que não tinha acesso aos morros, e as comunidades. A partir deste contexto, há quase 19 anos, André pensou em democratizar o acesso a essas informações e criou a Agência de Notícias das Favelas (ANF).

A ANF é uma mídia independente que produz conteúdo a partir da visão das periferias. A inovação era tão perceptível que, após o lançamento do primeiro site da ANF, a Reuters noticiava o surgimento da primeira agência de notícias de favelas do mundo. As principais mídias do grupo são jornal impresso, portal na internet e redes sociais.

Além de mais de quinhentos colaboradores, que têm acesso direto para publicar conteúdos no site, a agência distribui 150 mil exemplares do “A Voz da Favela”, jornal impresso do grupo. São 50 mil no Rio de Janeiro, 50 mil em Salvador e mais 50 mil no Recife, a mais nova capital onde a ANF vai atuar dentro das comunidades. A expectativa é que o número chegue a 200 mil jornais distribuídos em abril, quando será aberta uma sede em Natal (RN).

Com uma grande circulação de jornais dentro das comunidades, a principal fonte de renda da ANF são anúncios que empresas privadas e órgãos governamentais pagam para ocuparem um espaço no “A Voz da Favela”. “O Ministério da Saúde, companhias de cimento, universidades, empresas de telefonia, os restaurantes. São diversas áreas. Todo mundo quer se comunicar com a favela. Quem não quer se comunicar com ela?”, questiona André Fernandes. O dinheiro arrecadado com a venda dos impressos fica com as pessoas que os distribuem. Apesar de ser um valor colaborativo, Fernandes afirma que os vendedores conseguem fazer, em média, R$ 1 mil por mês.

Sobre a importância da atuação da agência contra a estigmatização das comunidades como lugar de violência, Fernandes afirma questiona a cobertura da grande mídia que traz sempre abordagens negativas. “A favela é cultura, é potência. A principal festa do país, o carnaval, é movimentada pela favela. Você vê o funk, o rap, e as pessoas que fazem isso estão na favela. A Agência de Notícias das Favelas tem essa percepção e a gente busca falar muito mais disso, já que a gente tem propriedade, do que qualquer outra coisa. A gente mostra o que a favela tem de melhor, mas também denunciamos os abusos governamentais que acontecem”.

Prioridade para a formação

O grande diferencial da Agência de Notícias das Favelas é a formação que ela oferece para moradores de periferias que desejam realizar um curso de extensão em comunicação. São 60 horas de carga horária divididas em três meses de aulas. Por meio de edital, 25 pessoas de 25 diferentes comunidades são selecionadas para participarem do projeto. As aulas acontecem em faculdades que fecham parceria com a ANF e o melhor aluno de cada turma ganha uma bolsa integral para estudar e se formar em comunicação social – no Recife, a parceria foi com a Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP). Ao todo, cem alunos já se formaram por esse sistema.

Após o término do curso, cada um dos 25 alunos recebe um crachá de imprensa da ANF. Além da produção de três edições do jornal “A Voz da Favela”, quem participa do programa passa a ser integrantes de uma Rede de Agentes Comunitários de Comunicação (RACC), que também é composta por colaboradores da ANF em vários estados do Brasil. Para André Fernandes, “a RACC é uma alavanca da ANF no país. É através dela que discutimos e trazemos conteúdos para o jornal impresso e para o portal”.

Apesar do crescimento da Agência de Notícia das Favelas, que já conta com o selo ANF Produções, com o Data ANF e planeja distribuir meio milhão de jornais em 10 capitais até 2024, o contexto político atual do Brasil preocupa André Fernandes: “Os abusos sempre aconteceram, mas está pior. Quando você tem um presidente que diz que vai colocar seus ministros no pau-de-arara e um governador que diz que a polícia tem que mirar na cabecinha e os policiais miram, e matam… isso não foi sempre assim. Perdeu-se o pudor. Cada vez mais a gente tem que denunciar e ir para cima. Sem imprensa não tem democracia”.

Com a visão de quem convive diretamente com a população que está à margem da vista do poder público, André Fernandes cita um dos funks cariocas mais conhecidos no Brasil para revelar o maior desejo de quem vive nos morros: “Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci, é, e poder me orgulhar e ter a consciência que o pobre tem seu lugar”.