Escombros do Teatro Barreto Júnior, no Centro do Cabo.

Por José Henrique*

O Cabo de Santo Agostinho, pertencente à Região Metropolitana do Recife, a cerca de 32 quilômetros de distância da capital, sempre foi caracterizado como a cidade das belas praias, do porto de Suape e da morte. Por outro lado, a cidade quase nunca despertava a atenção das pessoas de fora, quase sempre alheia a tudo e contida numa bolha, onde só a população local tem a capacidade de narrar os fatos com realismo.

Neste sentido, participar do documentário Território Suape foi uma experiência incrível, sobretudo por poder dividir minhas dores e percepções com milhares de espectadores. É sempre uma oportunidade indescritível quando a gente ocupa o nosso lugar de fala, dentro de um contexto de silenciamentos e exclusões, principalmente quando a gente tem também a participação de amigos que comungam das mesmas vivências e vislumbram a mesma coisa: fazer-se ouvido.

A cidade do Cabo de Santo Agostinho cresceu de uma maneira avassaladora a partir da primeira década dos anos 2000, quando o Complexo Industrial Portuário de Suape passou a ser foco de grandes investimentos públicos e privados, em decorrência do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), implementado pelo governo federal da época. Nesse período, pintava-se o Cabo como a cidade dos empregos, das oportunidades e dos investimentos, atraindo uma massa de trabalhadores e trabalhadoras das mais diversas regiões do estado e de tantos outros estados da federação, saltando de uma população de cerca de 156 mil pessoas para aproximadamente 207 mil pessoas, num período de 20 anos, conforme o IBGE.

Como era de se esperar, um “boom” populacional como esse escancararia todas as mazelas da cidade: a violência, que já era uma marca histórica da região, cresceu exponencialmente; estudos apontam o aumento de incidência de doenças transmissíveis; houve um crescimento urbano desordenado, piorando ainda mais os índices de saneamento; o trânsito passou a ser caótico nos horários de pico; e teve uma escalada assustadora das desigualdades sociais, visto que, ao passo que a população crescia, os serviços públicos não acompanhavam o mesmo ritmo por puro desinteresse dos poderes públicos.

Nesse jogo de desequilíbrio, munido pela industrialização “carnívora”, comunidades tradicionais e rurais foram escorraçadas de seus territórios, vítimas de um aparelhamento nocivo entre o Estado e os interesses do capital. Famílias dedicadas às atividades agrárias – até mesmo centenárias – passaram a ver suas “terrinhas” se transformando em empresas e foram empurradas de modo desumano aos contextos urbanos caóticos, que em nada os representam.

Paralelo a isso, a cidade que já era consolidada e precária definhava de modo simultâneo aos inúmeros investimentos privados que eram anunciados, dentre os quais podemos destacar dois grandes projetos de cidades planejadas (ou talvez paralelas), que não conversam em absolutamente nada com os demais bairros, estão contidos entre grades e pedágios e precarizam ainda mais todo o resto da cidade. Exemplificando: a Reserva do Paiva conta com monitoramento e policiamento exclusivos e segurança privada para todo o bairro, enquanto o Cabo de verdade segue sustentando seu mais alto lugar no pódio como a cidade mais letal do país para a juventude, e principalmente a juventude negra, segundo a UNESCO e a Secretaria Nacional de Juventude.

No Cabo de verdade, nada é fácil para a população comum. Apesar dessa frase ser uma máxima no país, no Cabo parece ser potencializada. O único teatro da cidade foi incendiado por duas vezes pelo abandono dos aparelhos públicos de cultura; os maracatus e caboclinhos da cidade se findaram por falta de apoio; as batalhas de rap, que tanto aglutinavam a juventude em torno de uma atividade saudável, acabaram por falta de iluminação pública e segurança; os esportistas jogam contra sua própria sorte; os profissionais das artes precisam sair da cidade por falta de espaço, caso contrário estão fadados ao marasmo; e os estudantes necessitam enfrentar muitas horas em transporte público para usufruir do direito de estudar.

Por falar em estudos, a cidade conseguiu atrair instituições públicas de ensino superior e técnico, mas ainda com uma apropriação tímida por parte da juventude cabense. Por décadas, a juventude daqui buscava apenas alcançar o ensino técnico, para possivelmente ser aproveitada nas empresas do Complexo de Suape. Um engano. Boa parte das funções sequer eram ocupadas pelo povo da própria cidade, o que fez com que a informalidade também tivesse um incremento e as pessoas não vissem tanta vantagem em trilhar os caminhos dos estudos.

Enfim, crescemos sendo tratorados numa cidade marcada pelo genocídio da própria população, mas que externamente passa a imagem da “Meca” do trabalho e dos sonhos. Uma pena que para a população real, o sonho é pesadelo. Os únicos acessos fáceis que temos na cidade são o vício e a repressão, porque todo o resto ou nos é negado ou colocam barreiras que nos desestimulam. Literalmente, sobreviver no Cabo é uma lição de resistência.

* José Henrique é mestrando em Engenharia Física pela UFRPE, ator e integrante do Fórum de Juventudes do Cabo (Fojuca)