O espectro de 2013 ainda está no ar

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No final de novembro, o filósofo Peter Pál PelBart veio ao Recife, a convite da Fundação Joaquim Nabuco, para uma série de conferências, intitulada “A força do pensamento”. A proposta era uma “revisita” a autores e conceitos que ajudam a “reativar a resistência e explorar a força do pensamento”. O evento tinha uma intensa sinergia com a realidade da capital pernambucana, que vivia uma explosão de ocupações em protesto contra a tramitação, no Congresso, da PEC 55.

Duas escolas estaduais ocupadas estavam a poucos quarteirões da Fundação, com a presença sempre ostensiva da Polícia Militar. O momento era mesmo de uma quase “generalizada impotência diante dos poderes e de seu arbítrio”, como dizia o convite. Os estudantes enfrentraram a fúria policial e conseguiram manter as ocupações.

As 100 vagas esgotaram rapidamente. Nas três conferências, Pelbart abordou Espinosa, Nietzsche e Deleuze. Temas como potência, alegria, liberdade, de Espinosa, dialogaram com os nietszcheanos (morte de Deus, vontade de potência) e deleuzeanos (devir, desejo, acontecimento, agenciamento).

Ao final da última conferência, o filósofoso estava exausto. Convidado pela Marco Zero para uma entrevista, ele concordou, desde que acompanhado por uma boa cerveja gelada.

Numa noite de sábado, em geral, o bar de Seu Vital, no bucólico bairro do Poço da Panela, recebe poucos clientes, especialmente a roda de dominó (se o proprietário estiver de bom humor). Foi lá que o filósofo conversou com os jornalistas Lula Pinto e Samarone Lima, sob o olhar sorridente, respeitoso e atento do dono do bar, enquanto os moradores voltavam do trabalho ou chegavam à venda para comprar pão na venda.

De origem húngara, o professor no Departamento de Filosofia e no Núcleo de Estudos da Subjetividade do Pós-Graduação em Psicologia Clínica da PUC-SP, tomou os goles de cerveja e encontrou forças para conversar sobre formas contemporâneas de dominação, do papel do filósofo e de como o passado convoca ideias que são necessárias para cada momento.

Confira os melhores trechos da conversa.

Marco Zero – Como é possível relacionar a crise política que vivenciamos em 2016 com os acontecimentos de 2013?
Peter Pal Pelbart – O espectro de 2013 ainda está no ar. Ele está precisando/esperando dos corpos políticos para re-encarnar. Talvez o movimento secundarista seja um pouco o respingo disso, numa escala outra e numa esfera mais circunscrita, no entanto com um poder de contágio inacreditável. Minha impressão é que as jornadas de junho de 2013 formaram uma explosão tão poderosa, onde se destampou a imaginação política, onde forças antes pouco visíveis se manifestaram. Então a imagem que eu tenho é de um gênio que saiu da garrafa e esse gênio assustou tanta gente da elite, do stablishment, das instituições, que a violência necessária para colocá-lo de volta precisou ser tamanha, porque o que aconteceu ali não foi pouca coisa. As instituições paralisaram, ficaram de joelhos, não entenderam nada, ninguém conseguiu estar à altura daquele momento – uma potência indomável tomou as ruas todas, uma espécie de expansão incontrolável. A meu ver, a reação foi proporcional. O que a gente vive desde então, o tsunami de medidas regressivas, dá a medida do susto que as instituições viveram naquele momento.

Marco Zero – Qual sua impressão sobre o movimento secundarista que vem tomando e ocupando escolas pelo país?
Peter Pal- Acontece alguma coisa ali que os nossas instrumentos de análise não dão conta, e ainda bem que não dão conta no sentido de que isso simplesmente quer dizer que a gente precisa montar outros instrumentos para medir, perceber, construir dispositivos à altura dessas irrupções e insurreições. Penso que eles transmitem a necessidade de prestarmos mais atenção à mudança de sensibilidade em oposição à tomada de consciência. A tomada de consciência é mais abstrata. A sensibilidade é do corpo. É sensação, é a vivência do que é intolerável, do que pode ser mudado na concretude de um certo agenciamento. Então que eu diria que é mais uma resposta vital que uma tomada de consciência.

Marco Zero – Muitos autores têm identificado que algumas formas de dominação contemporânea procuram colonizar o desejo. O que isso significa em termos de micro ou macro-políticas?
Peter Pál – Sem dúvida que os mecanismos de dominação contemporâneos incidem não só sobre territórios nem apenas sobre riquezas, nem apenas sobre a população, pra usar algumas das categorias de (Michel) Foucault, mas também sobre a subjetividade. Isso o próprio Foucault indicou em 1976, quando ele publicou História da Sexualidade. Naquele momento era uma maneira de analisar o que é o dispositivo de sexualidade, um dispositivo composto de técnicas, procedimentos, discursividade que produzia modalidades sobre as quais o sujeito se reconhecia enquanto sujeito, portanto a verdade do sujeito passava pelo seu discurso do próprio sexo.

Marco Zero – Então esse já é um mecanismo em que está em jogo o desejo…
Peter Pál – Uma incitação do desejo… Era a principal novidade nesse livro do Foucault, quando ele afirma que o desejo nesse caso não é reprimido (concepção aliás mais aceita pela própria psicanálise, ou difundida pela psicanálise). Ao contrário, há uma incitação em falar sobre a sexualidade, portanto nada de repressão. E com isso, Foucault faz uma constatação de que o poder mais do que apenas repressivo ou negativo, é produtivo, é incitativo, produtivo de desejo, criador de uma certa relação do sujeito consigo mesmo. Nessa linha, a sexualidade funciona como dispositivo de monitoramento, incitação, captura. A gente pode ampliar o espectro. A ideia de Foucault pode ser desdobrada, pode ser prolongada, dá para pensar que outros mecanismos além desse, que ele analisou tão bem, é que exercem uma função similar.

Marco Zero – A perspectiva de Guattari e Deleuze é um pouco distinta…
Peter Pál – Sim. Mas a crítica que eles fazem da psicanalise é muito similar. Para eles o desejo tende à expansão, comporta conexões várias com todo tipo de elementos e não tende à domesticação, familiarização do desejo, portanto uma espécie de recorte da libido, ou melhor, uma circunscrição da libido no âmbito da família. Mas a questão que você me fez no início era outra: como pensar hoje quais são esses outros dispositivos que são de captura ou de incitação ou de produção dessa dimensão desejante na subjetividade. Eu não respondi ainda, mas isso fica como uma espécie de preâmbulo. (risos)

Marco Zero – Existe algo que a gente possa identificar que é mais característico de nossa época nesse “ataque” à subjetividade? Eu entendo essa necessidade de ampliar o leque de dimensões em que a subejetividade, ou se quiser, o desejo é incitado… Seria essa uma característica que marca ou demarca nossa época? Faze sentido pensar nesses termos?
Peter Pál – Faz sentido inteiramente. Mas talvez a gente precisasse pensar em outros dispositivos, ou mecanismos que se somaram a esse desde então. Eles não atacam a subjetividade, eles produzem uma certa subjetividade suficientemente flexivel, suficientemente plástica, suficientemente formatável às circunstâncias que o Capital requer. Há também uma exigência de que cada um se invente de cabo a rabo e o tempo todo, como se cada um se tornasse empresário de si. Essa exigência significa investir para ter as competências o tempo todo ampliadas, atualizadas, compatíveis com o que se requer no mercado. Se você pensa essas duas vias conjuntamente, é possivel se entender melhor essa exigência despótica que produz depressão, esgotamento, essa fadiga de ser si mesmo, essa obrigação de se reinventar do nada o tempo todo a que somos submetidos.

Marco Zero – Essa é uma condição bem comum a todos atualmente. Qual o impacto desse estado de coisas na subjetividade?
Peter Pál – Aqui já estamos falando de um dispositivo subjetivo que produz angústia, precariedade, isso que Deleuze e Guattari analisaram a seu modo, que é termos deixado de ser indivíduos e termos passado a sermos dividuais. Isto é, estamos no estado de insuficiência sempre, não somos suficientemente performáticos em função do mercado, portanto nós não só competimos com os outros, mas conosco mesmos pra aprimorar e aperfeiçoar nossa oferta. Então é claro que isso cria essa subjetividade mais aflita, mais submetida a um regime de incessante avaliação. Acabou a escola mas a gente tá o tempo todo na escola, sendo avaliado e precisando se avaliar. E obviamente num estado de alerta, de autoestima ameaçado.

Marco Zero – Dessa perspectiva emerge a ideia do desejo sob tutela, inclusive as pulsões de desejo por emancipação. É equivocado pensar que o desejo por emancipação está sob domínio?
Peter Pál – Eu suspeito de concepções totais. Elas são totalitárias pelo grave fechamento que implicam. Não diria que o poder é tão absoluto que captura inclusive o desejo de emancipação porque é necessário considerar a questão agonística. O que quer dizer levar em consideração que sempre há embate, há forças diversas, e reviravoltas, revides, contrapoderes, contra-golpes, insurgências, insurreições, revoltas. Por isso que falar do desejo de emancipação talvez seja um pouco pomposo. Diria que há uma certa vitalidade onde vira e mexe há situações consideradas intoleráveis e que suscitam enfrentamentos e reviravoltas.

Marco Zero – Alguns dessas experiências de insurgência são atravessadas por formas renovadas de relações, hierarquias, atualizações de propriedade, outras narrativas…
Peter Pál – Algumas experimentações recentes apontam para isso mesmo. O que significa ocupar uma escola ou um parque? Não é apenas uma questão de mostrar força, mas de experimentar novas formas de se relacionar com o coletivo, com os corpos, com o tempo, com a natureza, com a gestão do dinheiro, por isso que todas essas ocupações que tenho acompanhado ou cruzado, por menor que sejam, são experimentações de outra modalidade, outros modos de existência individual e coletiva.

Marco Zero – É notável que alguns filósofos conquistaram um destaque no cenário político de um tempo para cá. Houve uma retomada do protagonismo dos filósofos no debate político contemporâneo?
Peter Pál – Na segunda metade do seculo XX é possível lembrar que Sarte e Merleau Ponty, além dessa geração que estamos falando, com Deleuze, Guattari e Foucault sempre foram muito ativos e presentes. Talvez precisemos prestar atenção nas nuances.

No debate entre Deleuze e Foucault sobre a relação entre os intelectuais e o poder, há uma discussão sobre a função do filósofo. Os dois se contrapunham à noção do filósofo que representa a consciência universal, que era defendida por Sartre. Deleuze e Foucault reivindicavam precisamente que essa figura fosse posta de lado. Foucault se envolveu em batalhas muito pontuais, muito precisas, com as quais ele estava trabalhando – prisões, a psiquiatria, a beligerância com o Irã.

Deleuze também não era daqueles que falava de tudo em nome de todos, mas tinhas suas inserções pontuais. Eu tenho uma impressão de que alguns filósofos contemporâneos retomam a figura da consciência universal. Zizek e Badiou estão fazendo isso, ressuscitando uma figura já caduca que fala em nome de tudo e de todos.

Eu acho que isso é uma espécie de regressão. Fazem muito barulho, estão em todos os lugares, falam de tudo, e eu não sei se não diluem um pouco aquilo que se avançou nesse campo. Eu sou partidário do filósofo que tenha uma relação viva com a cidade.

Marco Zero – No livro Crise e insurreição, publicado pela editora n-1 que você dirige, os autores citam uma nova onda de insurreições, que flertam com novas potencias de afirmação e vida. A gente também tem visto a erupção de uma onda de movimentos reacionários, conservadores, fascistas. Como relacionar essa perspectiva dos autores com o que temos observado no mundo Ocidental?
Peter Pál – Não há contradição. Se a gente lembrar novamente das jornadas de junho de 2013 no Brasil, aquilo começou de um jeito depois virou outra coisa. Começou com uma certa energia, com uma certa dimensão mais libertária, mais indeterminada, e foi rapidamente sequestrada, foi manipulada. Então talvez existam esses dois polos simultaneamente, não é incompatível. Há totalmente movimentos de direita, fascistas, protofascistas, mas ao mesmo tempo há experimentações por toda parte que pululam de forma menos midiática, porque a mídia não se interessa. Você vê mil escolas ocupadas no Paraná, mas a mídia só publicizou isso quando um cara matou outro. A mídia é a máquina que abafa e que invisibiliza esse movimentos, em certo sentido a gente precisaria de uma pedagogia da percepção que se contrapusesse a esse silenciamento que a mídia faz, ela não percebe e não deixa perceber, satura nossa percepção com outras coisas.

Marco Zero – Muitos autores publicados pela n-1, assim como muitos outros analistas e o senhor próprio, atualmente tem em comum em seus escritos algum eco da filosofia de Espinoza. Sem querer cair na ideia simplista e vulgar de que “Espinoza está voltando”, mas existe uma inspiração espinozista em uma certa linha de pensamento contemporâneo? O que isso significa?
Peter Pál – Eu não sei. Eu não diria que há uma presença de Espinoza, mas eu diria que o presente é que convoca, por necessidade, alguns dos conceitos que estão em Espinoza, Nietzsche, em Deleuze… Uma coisa é todo mundo falar de subjetividade. Isso é uma moda. Outra coisa acontece quando o presente, por uma espécie de necessidade, interpela um conceito que estava aí e não era relevante ou não respondia a tal ponto a uma situação de perigo ou de emergência. Acho que alguns conceitos dessa constelação são convocados no presente para pensar coisas muito concretas. Por exemplo nesse livro que você citou, ‘Aos nossos amigos – crise e insurreição”, os autores argumentam que é melhor ampliar a potência do que tomar o poder. Eles estão dizendo algo de Espinoza, algo de Deleuze, mas estão falando do presente absoluto. Do ponto de vista deles, a briga deve se dar em outro lugar e em outro jeito.

 

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