A escritora Cassandra Rios

Ela estava longe de ser comunista e seus livros mal falavam sobre política. Mesmo assim, Cassandra Rios foi a escritora mais censurada pela ditadura militar. Até 1985, 37 dos seus livros haviam sido, em algum momento, retirados do mercado. A editora CBS, que editava suas publicações, chegou a ser fechada pelos militares. A censura não era algo novo para Cassandra. Ela, que estreou na literatura em 1948, já havia sido processada pelo Estado em 1952, durante o governo eleito de Getúlio Vargas. Na democracia ou na ditadura, o crime foi o mesmo: expor em livros o prazer feminino.

“A vagina é oca. Nela cabe a mão inteira. A minha coube. Senti-a entrando, penetrando, alargando caminho. Dedos unidos, espremidos. Todos. Dentro da vagina de Desirée. Socando, socando. Ela gemendo e eu assustada, mais do que isso, angustiada, ouvindo-a dizer, enquanto em minha mente uma cortina de pó branco rebrilhava, caindo como uma estranha chuva fina numa prato de sopa:
– Mete mais, põe tudo, assim, neném, com força…me rasga…faz forte.”

Trecho de Eu sou uma lésbica, de 1980

O nome de Cassandra Rios entrou no ostracismo em meados dos anos 1980, mas ainda ressoa forte em muitas gerações. Foi uma prolífica autora de romances eróticos – ela rechaçava o adjetivo de “pornográfica”, que era como os censores classificavam sua obra. Chegou a dizer que eram “livros de amor”.

Acumulou pioneirismos e recordes: escrevendo e publicando desde cedo, foi uma das poucas escritoras a viver somente com o dinheiro dos direitos autorais. Era imensamente popular. Foi a primeira a atingir 1 milhão de cópias vendidas no Brasil – antes de Jorge Amado, que se dizia fã dela, e de Paulo Coelho. Costumava declarar que, se era a mais censurada, era porque era a mais vendida. “Só cajueiro doce recebe pedradas”, dizia.

Agora, Cassandra Rios está voltando a ser lida. Aos poucos, graças ao ativismo LGBT, a obra dela vem sendo retirada de debaixo dos colchões para pesquisas acadêmicas, saraus, debates. Foi o que aconteceu na noite da terça-feira (23), no anfiteatro lotado do Centro de Ensino de Graduação da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) para a exibição do documentário “Cassandra Rios – a safa de Perdizes”, que contou com debate com a diretora Hanna Korich, dentro do projeto de literatura lésbica Vulvas políticas.

Cassandra prestando depoimento em 1962. E deixando um tribunal em 1964. Fotos: Vermelho.org/Reprodução

Cassandra prestando depoimento em 1962. E deixando um tribunal em 1964. Fotos: Vermelho.org/Reprodução

Nascida Odete Rios em 1932, em uma família burguesa de imigrantes espanhóis, Cassandra era abertamente lésbica no convívio pessoal. Gostava de sair com roupas masculinas, mas fugia do questionamento sobre sua sexualidade em entrevistas. No documentário, a atriz Nicole Puzzi relembra que era advertida por amigos da pornochanchada por ser amiga da escritora. Mesmo em um meio supostamente liberal, a homossexualidade feminina ainda era vista como um tabu.

Puzzi foi a musa de Cassandra. Estrelou três filmes baseados em títulos dela. A versão de A Paranóica, que nas telas virou o drama erótico Ariella, se transformou numa espécie de filme cult, marcado pela estreia de Christiane Torloni no cinema. Teve mais de um milhão e trezentos mil espectadores em 1980.

Com o dinheiro dos livros e filmes, Cassandra levou uma vida confortável. Comprou carros (chegou a ter cinco), o apartamento em que morou no final na vida no centro de São Paulo, uma casa no bairro de Interlagos.

A censura a obrigou a fazer péssimos contratos editorais. Como não podia assinar suas obras, escolhia pseudônimos masculinos. “Todos com sobrenomes que eram a tradução de Rios, como Rivers e Rivières”, lembrou a autora em entrevista a Jô Soares em junho de 1990. As editoras se aproveitavam da situação – alegavam que não teriam lucro sem o nome dela – e ficavam com os direitos autorais dos pseudônimos.

Ao longo das perseguições, Cassandra recebeu pouco apoio da militância de esquerda. Em 1977, um manifesto contra a censura assinado por centenas de artistas – conhecido como “Manifesto dos Intelectuais” – não citava o seu nome. A Comissão Nacional da Verdade (CNV), no entanto, reconheceu a perseguição. O relatório final afirma que ela teve 36 obras censuradas durante a ditadura e que 16 processos judiciais foram abertos contra o livro Eudemônia. “As acusações iam sempre no sentido de que seus textos continham conteúdo imoral e aliciavam o leitor à homossexualidade… Pode-se afirmar que Cassandra Rios foi a artista mais censurada deste país durante a ditadura militar”, diz trecho do relatório da CNV.

Cassandra teve uma rápida passagem pela política: em 1986 chegou a se candidatar pelo PDT para o legislativo paulista, mas não teve votos suficientes para ser eleita. Após a redemocratização, Cassandra viveu uma fase mais reclusa. Com os livros fora de catálogo, ela vendeu quase todos os seus bens. Trabalhou também como editora e ghost writer.

Capas de livros de Cassandra Rios

Capas de livros de Cassandra Rios

Os jornais dedicaram poucas linhas ao falecimento dela no hospital Santa Helena, em 8 de março de 2002, vítima de câncer. A amiga de longa data Yáskara afirma no documentário que a morte de Cassandra foi tranquila e aconteceu em um bom hospital graças ao auxílio da hoje deputada federal Luiza Erundina.

Na última entrevista que concedeu, um ano antes de falecer aos 69 anos, Cassandra contou para a revista TPM que ainda escrevia todos os dias. Se recusou a se declarar lésbica (“A Cassandra sim (..) acho que pelo menos a Odete deve ficar incógnita”) e comentou que “nunca quis pertencer a nenhuma igrejinha” ao falar da esquerda.

Confessou também que vivia há anos em um voto de castidade – uma promessa feita com a mãe na UTI. “Fui massacrada (por ser mulher). Desde os primórdios da civilização a mulher luta pelo direito de falar, de pensar. Se o homem escreve, ele é sábio, experiente. Se a mulher escreve, é ninfomaníaca, tarada. Nunca pensei desse jeito. Escrevi com a ingenuidade de quem nasce escritor”, afirmou.

Mesmo posta repetidamente à margem, Cassandra sabia bem do valor da sua obra. Ao ser perguntada, nesta última entrevista, qual era o lugar que lhe cabia na literatura brasileira, ela foi certeira: “Na mão do leitor!”. “Não quero receber troféus, honrarias ou méritos. Quero ser lida, mesmo que achem uma droga”.

“Eu sou uma lésbica. Deve a sociedade rejeitar-me?
(…)
Em que situação uma homossexual deve ser rejeitada, compreendida ou aceita? Quando engana o homem com as suas dissimulações ou quando enfrenta a sociedade abertamente, sem esconder o que é?”
Trecho do livro de 1980

O pioneirismo de Cassandra Rios e a academia

Cassandra tinha 16 anos quando pediu aos pais: queria publicar um livro. Eles desembolsaram o valor de uma pequena tiragem sem ler o conteúdo – mais um pedido da filha, atribuído à timidez de iniciante. A Volúpia do desejo, porém, nada tinha de tímido: narrava o despertar sexual entre duas adolescentes. Foi lançado em 1948, bem antes da francesa Violette Leduc escrever (1954) e publicar (1966) Teresa e Isabel, com a mesmíssima temática.

Quando se fala em brasileiras na literatura erótica, há de se lembrar de Hilda Hilst. As duas foram contemporâneas, mas a semelhança quase que se encerra neste ponto. Há um abismo na forma de se expressar. Cassandra queria ser lida. Escrevia para as multidões: seu texto base é o romance de folhetim, suas descrições de atos sexuais são gráficas. O estilo popular, sem ousadia estética, a afastou da esquerda intelectualizada (ela também se considerava uma “conservadora”) e apenas nos anos 2000 a academia se abriu para a obra dela.

No debate na UFRPE, um depoimento crítico foi o que gerou mais respostas sobre o documentário de Korich. A professora de literatura brasileira da USP e pesquisadora Eliane Robert Moraes tira por menos a importância literária de Cassandra, ao considerar seu texto “honesto” e restringir sua importância ao ativismo lésbico. Para o pesquisador Rick Santos, da Universidade Estadual de Nova York, também citado no documentário, a literatura de Cassandra Rios é um “kitsch literário”: uma enxurrada de referências da “alta” cultura e da cultura popular, permitindo vários tipos de acesso ao seu texto.

No evento, a professora de Letras da UFRPE Renata Pimentel fez uma apaixonada defesa da importância de se debater a obra de Cassandra no meio acadêmico. “Me cansa a estupidez de uma autointitulada intelligentsia de julgar por um paradigma único. E toda vez que a literatura traz algo tematicamente que foge de um recorte específico intelectualizado, é colocado um adjetivo: ‘ah, é a literatura LGBT’. O que é mais político do que se falar sobre a existência? (…) É importante quebrar o paradigma elitista da academia que quer ser a única autoridade a definir como se julga”, falou.

Atualmente a obra de Cassandra Rios se encontra fora de catálogo. Dos cerca de 50 livros que publicou (alguns em fascículos), os mais fáceis de se encontrar em sebos são os reeditados em 2005 pela editora Brasiliense, como As traças. Alguns livros são vendidos em formato de e-book em sites de livrarias, como Eu sou uma lésbica e Carne em delírio, este último com trama heterossexual.