Digamos que seu relógio está atrasando e alguém lhe recomenda um relojoeiro nonagenário, que trabalha sem óculos numa oficina improvisada no terraço do apartamento. Seu primeiro impulso é dizer “não, obrigado, vou levar lá no shopping”.

Antes de recusar a indicação, pergunte se, por acaso, o relojoeiro em questão mora e atende seus clientes no Vasco da Gama. Se for, é quase certo se tratar de Manuel Gonçalves. Nesse caso, não perca tempo e dinheiro com estacionamento e preço superfaturado por um serviço que ele vai fazer mais barato, com qualidade e respeitando rigorosamente o prazo combinado.

Manuel vai fazer 95 anos daqui a duas semanas, no dia 16 de janeiro. E, sim, é verdade, conserta as minúsculas engrenagens de relógios sem usar óculos e com mãos firmes, sem o menor indício de tremor.

Ele conserta e monta relógios há mais de 50 anos, quando pegou a indenização pela demissão da fábrica de tecidos da Macaxeira e investiu em equipamentos, ferramentas e numa sala comercial do centro do Recife.

Os primeiros anos foram no edifício Leila, numa travessa da avenida Dantas Barreto, depois, já nos anos 70, mudou para o edifício Tebas, na avenida Nossa Senhora do Carmo, onde construiu sua clientela e ficou até o inícios deste século, quando os filhos o convenceram dos riscos de manter a rotina de tantos anos nas decadentes ruas do centro da capital pernambucana.

Os filhos – cinco homens e três mulheres – imaginaram que, fechando a oficina Manuel deixaria de trabalhar. Na época, sua esposa Maria Salomé, tinha acabado de falecer e todos se preocuparam com o equilíbrio emocional do pai. Deduziram – erroneamente, como se verá – que o pai já não tinha saúde para um serviço que exige tanta precisão. Ele concordou apenas em mudar o endereço do local de trabalho. A rotina ele manteve o máximo que pôde.

– Não sinto nada que me atrapalhe a consertar o mesmo tanto de relógios de antes. Só não faço mais porque não tem serviço, já não tenho tantos clientes. As pessoas preferem trocar de relógio ou confiar no celular – reclama Manuel, que assegura não ter qualquer problema de saúde mais sério e não toma nenhum remédio, nem mesmo para controlar uma taxa de glicose que oscila em torno de 125.

Ele conta – e a neta Tatiana confirma – que o segredo está no estilo de vida: acordar e dormir cedo, comer bem, porém sem exageros. De manhã, antes das 6h, Manuel já está caminhando pela calçada da rua onde mora, vai de uma ponta a outra do quarteirão várias vezes, já que as pernas não suportam percursos mais longos pela avenida Norte, como fazia outrora.

senhor do tempo1De volta para casa, o cardápio do café da manhã é bem variado: papa de aveia, pão com queijo, café com leite e tudo quanto é tipo de fruta. No almoço, come quase tudo o que tiver à mesa. Só não encara porco, camarão e “peixe de couro”, por não gostar, sem qualquer restrição médica. Nada de linhaça, chia, quinoa, granola ou quaisquer outros modismos.

Há 40 anos, Manuel deixou de beber e fumar. Segundo ele, saúde não é sinônimo de privação, mas sim de cabeça arejada:

– Não vivo triste, não vivo reclamando e, principalmente, não compro fiado. Nunca tive um cartão de crédito, nem sei como funciona.

De algo, entretanto, Manuel Gonçalves não abre mão: planos para o futuro. Razões não lhe faltam. Sua mãe, Francisca, morreu aos 106 anos. Seu irmão mais velho, Henrique, é advogado aposentado aos 97 anos e vive em Boa Viagem. Ao menos uma vez por mês se encontram para falar do futuro e dos vivos, “porque o passado a gente deixa pra trás”.

– Eu me imagino sempre feliz. Tem gente que diz “ah, quero morrer”. Eu digo quero viver, quero continuar aprendendo, porque todo dia a gente aprende. Sabedoria de verdade é aprender sempre. Por isso não deixo de trabalhar.