Crédito: Jônatas Campos/MZ Conteúdo

por Franco Benites*

Dos pré-candidatos a prefeito do Recife, até onde minha vista tenha alcançado, apenas dois se manifestaram sobre o aborto por qual passou uma menina de 10 anos no Recife nesse fim de semana. Marília Arraes escreveu que uma criança “não está pronta, nem física nem psicologicamente, para dar prosseguimento a uma gravidez fruto de uma experiência tão traumático e violenta quanto um estupro”. Alberto Feitosa declarou que “Pernambuco não pode se transformar na capital do aborto” e disse ser favorável à pena de morte para os crimes de pedofilia e estupro.

Vi as declarações de ambos no Instagram, rede social que reúne 72 milhões de usuários no Brasil. O país está no pódio entre os países com mais perfis na plataforma e não é à toa que ela é usada por todos os atores políticos interessados em se comunicar com os eleitores. Parto do pressuposto de que Marília e Feitosa realmente acreditam no que escreveram e até aí não há nenhuma novidade levando-se em consideração os campos políticos em que atuam.

Há, porém, quem veja nas publicações de ambos uma jogada eleitoral, pensamento que não pode ser desprezado uma vez que a essa altura do campeonato nenhum passo rumo à Prefeitura do Recife é dado em vão nas redes sociais (e fora delas).

Cálculo político ou não, um posicionamento agora é um ato mais decente e corajoso do que qualquer silêncio, esse, por sua vez, também um movimento de nuances eleitorais.

Nenhum dos pré-candidatos é obrigado a nada e muito menos a falar sobre todo e qualquer assunto, mas o que se passou nesse domingo no Recife é algo muito grave para que fique fora de uma discussão envolvendo quem pretende administrar a cidade nos próximos anos.

Por que Daniel Coelho, João Campos, Patrícia Domingos, Marco Aurélio Medeiros e Mendonça Filho, tão eloquentes em suas redes sociais sobre o Recife e tantas outras questões de interesse público, silenciaram diante do que se passou na cidade que pretendem governar?

A pergunta que fica é: esses pré-candidatos são favoráveis ou contra o procedimento de aborto realizado no Recife? Por quê?

A maior parte dos políticos é pródiga em se colocar sob o sol ou sob a sombra, comentando ou silenciando sobre esse ou aquele fato de acordo com seus interesses. Já dizia o ex-ministro da Fazenda, Rubens Rícupero (jovens, vão ao Google): “O que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”.

As declarações de Marília e Feitosa sobre o aborto realizado no Recife, por mais honestas que sejam, podem ser, sim, uma forma de eleitoralizar o tema. Quando se está em busca de voto, ninguém brinca em serviço. Mas o silêncio sobre o assunto também tem esse viés eleitoral – pré-candidatos que não se manifestaram, fiquem à vontade para me convencer do contrário.

No Brasil atual, o discurso legalista, no sentindo de cobrar que se cumpra rigorosamente a lei, sobretudo no combate à corrupção, tem dominado as declarações políticas. Pois bem: o aborto realizado ontem no Recife não foi nenhum favor ou ato de caridade. Foi um ato legalista uma vez que o aborto em caso de estupro de vulnerável está previsto no Código Penal Brasileiro desde 1940. Cumpriu-se a lei, goste-se ou não da decisão.

Pergunto: os pré-candidatos a prefeito do Recife acham que a lei foi devidamente aplicada para salvaguardar a vida de uma menina covardemente estuprada? Ou acham que essa criança devia ter seguido com a gestação aos 10 anos de idade?

O aborto é uma questão sobre a qual governadores, prefeitos, deputados estaduais e vereadores não têm jurisdição. Ainda assim é de se estranhar que políticos dispostos a falar em suas redes sociais de parto de raposa a atracamento de navio se calem diante do que ocorreu nesse domingo no quintal de sua casa.

O que pensam Daniel Coelho, João Campos, Patrícia Domingos, Marco Aurélio Medeiros e Mendonça Filho sobre a postura da deputada Clarissa Tércio, que estava na linha de frente da manifestação contra o aborto realizada em frente ao Cisam?

Os dados de uma menor de idade, violentada desde os seis anos, foram expostos covardemente nas redes sociais. Que tipo de punição, dentro da lei, os pré-candidatos a prefeito do Recife defendem para quem vazou esses dados?

O silêncio, como disse antes, é uma resposta para essas questões. Uma resposta calculada, esperta até, mas também covarde.

*Jornalista e mestre em Comunicação pela Universidade do Minho, em Portugal