Crédito: Hutukara Associação Yanomami

“Os brancos estão sofrendo por causa de um vírus que veio com os estrangeiros. Pra nós, não é novidade: sempre sofremos com as doenças trazidas pelos brancos”. A frase do educador Dário Kopenawa, filho do escritor e xamã Davi Kopenawa, célebre por tornar conhecida internacionalmente a luta dos yanomami pelos direitos ao seu território, resumiu a forma como os indígenas da Amazônia lidando com a ameaça do coronavírus.

Dário Kopenawa  foi um dos participantes da mesa-redonda online promovida pelo Museu Paraense Emílio Goeldi entre pesquisadores e lideranças indígenas. A mesa fez parte da programação da instituição paraense na Semana dos Povos Indígenas.

Em sua fala, Kopenawa detalhou as circunstâncias da primeira morte por covid-19 de um índio brasileiro, no da 8 de abril. “Era um jovem que estudava português na cidade de Alto Alegre. Foi levad para o Hospital Geral em Boa Vista, mas foi mandado pra casa porque os médicos disseram que ele tinha malária”. O rapaz morreu na viagem de volta.

A morte do rapaz acionou o sinal de alerta. “Estamos monitorando o que está acontecendo com a saúde do povo Yanomami por rádio, as notícias de aldeia em aldeia são repassados pela nossa rede de radiofonia”, informa Kopenawa. Os yanomami contam com 33 centrais de rádio para se trocarem informações diariamente.

Durante a discussão, o historiador Márcio Meira, ex-presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), ajudou a contextualizar a fala de Kopenawa. “O coronavírus está nos fazendo sentir exatamente como os indígenas se sentem desde que o português chegou trazendo a gripe, a tuberculose, o sarampo e a varíola: sem nenhuma imunidade”.

Meira lembrou que a primeira informação histórica de uma epidemia devastadora para os índios brasileiros é de 1690, registrada pelos padres jesuítas. Uma das mais documentadas foi a epidemia de gripe que matou 25% da etnia Zo’é no início de 1982 a 1988, após contato com missionários evangélicos.

Grupo Zo’é, etnia quase dizimadas por uma epidemia de gripe

Índios isolados

De acordo com Meira, a desarticulação entre a Funai e a Secretaria de Saúde Indígena do Ministério da Saúde é uma das dificuldades a serem superadas para enfrentar a covid-19. “Essa dificuldade é maior, principalmente, para atender aos índios voluntariamente isolados”. O risco para os índios isolados é maior porque, desde 2015, iniciou-se o processo de reaproximação desses grupos, intensificados no governo Bolsonaro.

Para dar ideia da falta de coordenação entre os dois órgãos federais, Meira citou o fato do Ministério da Economia ter liberado R$ 10 milhões para conter a pandemia entre os povos indígenas e que a Funai ainda não conseguiu usar.

Até 1999, a Funai era responsável pela saúde indígenas, mas a criação de um subsistema no SUS gerou a criação de 34 Distritos para atender as terras indígenas. Desde então, a estrutura não mudou e está bastante sucateada.

“O enfrentamento da pandemia teria que ser feito com articulação e com diálogo entre as autoridades sanitárias e as entidades indígenas, afinal, pela sua experiência histórica, eles têm seus próprios conhecimentos e estratégias para lidar com doenças epidêmicas”, afirmou Meira.

SUS distante

O distanciamento social diante de uma nova doença também é uma das estratégias adotadas pelos índios. Um exemplo disso foi dado pelo médico Douglas Antônio Rodrigues, da Escola Paulista de Medicina. “A primeira vez que fui a uma aldeia foi exatamente a do cacique Raoni, durante uma epidemia. Chegamos lá e estava vazia. Não tinha ninguém. Todos estavam espalhados na floresta, em pequenos grupos, longe uns dos outros”.

Na prática, a falta de articulação mencionada por Meira se dá pela pouca conexão entre o SUS e os 34 distritos de saúde indígena.

Rodrigues explica: “No contexto da saúde municipalizada, a tendência é os municípios encararem o subsistema de saúde indígena como algo que não faz parte do SUS. Então, a grande dificuldade é o acesso aos hospitais, aos leitos de alta complexidade, às UTIs”.

Assim, conforme Rodrigues, se as distâncias entre as aldeias e os centros urbanos podem ser um fator positivo para evitar que a doença alcance os povos indígenas, a desarticulação seria um fator que pode matar.

Quatro mortes

Durante a mesa-redonda do Emílio Goeldi, o antropólogo Tiago Moreira dos Santos, analista de desenvolvimento do Instituto Socioambiental (ISA) detalhou como a ONG, em parceria com o projeto de dados abertos Brasil.io, está fazendo o monitoramento da pandemia entre os povos indígenas. A parceria entre as duas instituições usa como fonte de informação, os boletins da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai).

Esses dados indicam que, na tarde de domingo, 26 de abril, havia 85 casos de covid-19 em 151 terras indígenas, com quatro mortes, sendo duas delas na região do Alto Solimões, uma na área rural de Parintins e uma em território yanomami. Os distritos do Alto Solimões, da região metropolitana de Manaus e de Parintins concentram 78 casos.  

Tiago apresentou também o índice de vulnerabilidades das terras indígenas ao coronavírus. Para calcular esse indicador, o ISA e o Brasil.io consideraram “dados de vulnerabilidade social, disponibilidade de leitos hospitalares, números de casos por município, número de óbitos, perfil etário da população indígena, vias de acesso e outros fatores relacionados com a estrutura de atendimento da saúde indígena e mobilidade territorial”.