Não se espante na próxima vez que for ao dentista. O profissional que irá lhe atender estará vestido como se estivesse fazendo desinfecção de uma ambulância do Samu ou trabalhando na UTI de hospital de campanha. Isso vai acontecer porque a covid-19 será responsável pela maior mudança na rotina de biossegurança na odontologia desde a epidemia do HIV/Aids.

Categoria da área de Saúde a trabalhar com mais restrições – só podem atender casos de urgências – por estar no topo da pirâmide de contaminação, os dentistas estão fazendo contas para, em meio a uma abrupta queda na renda por causa dos consultórios fechados, investir em novos equipamentos de proteção.

As recomendações para as consultas no período pós-pandemia ainda não foram publicadas oficialmente. No entanto, o presidente do Conselho Regional de Pernambuco (CRO-PE), Eduardo Vasconcelos, adiantou que os novos procedimentos e equipamentos de proteção não devem ser muito diferentes das normas previstas e em vigor para o atendimento a pacientes com covid-19.

“Estamos adaptando as normas técnicas aprovadas e publicadas na Itália, Estados Unidos, Inglaterra e Canadá. Já é possível antecipar que profissionais de odontologia terão custos bem maiores a partir de agora”, alerta o presidente do Conselho.

No lugar da máscara cirúrgica simples, daquelas que, antes da pandemia, podiam ser compradas em caixas nas farmácias, os dentistas terão de usar as máscaras N95 ou PFF2. Além dos óculos de proteção, terão de investir em face shields, os escudos para proteger o rosto, e em aventais impermeáveis que deverão ser usados sobre as batas. Até março, o custo de EPIs usados a cada consulta era R$ 1,65. “Com as novas exigências, vai ficar em quase R$ 20,00”, explica Vasconcelos.

Ensino afetado

As faculdades de odontologia também serão afetadas imediatamente. Professor aposentado da Universidade de Pernambuco (UPE) e presidente da fundação mantenedora da Faculdade de Odontologia do Recife (FOR), Carlos Eugênio Meira Neves acredita que os cursos só poderão reabrir se estiverem seguindo as novas diretrizes. “Vai mudar bastante. As faculdades terão de fazer investimentos agora, mas ainda não foram publicadas as normas técnicas para que saibamos o tamanho e a natureza desses investimentos”.

As maiores mudança devem ser percebidas em aulas de prevenção e biossegurança, quando se faz treinamento para uso de EPIs, e, principalmente, na rotina das clínicas-escolas, grandes espaços onde dezenas de pacientes são atendidos simultaneamente por estudantes e professores.

 Por enquanto, Vasconcelos acredita que, mesmo nas clínicas-escolas, não serão necessárias tecnologias caras, a exemplo de filtro de ar ionizante ou desinfecção por ultravioleta. “Nada disso tem evidência científica de eficácia. Não há sentido recomendar o uso de algo tão caro para, depois, ser comprovado que os profissionais foram obrigados a realizar gastos em vão”, afirma Vasconcelos, do CRO-PE.

Altíssimo risco

Motivos não faltam para tamanha preocupação. Consultórios odontológicos são ambientes de alto risco de contaminação de doenças infecciosas transmissíveis por secreções e sangue.

O mais banal dos procedimentos de rotina, o uso da broca, é o que implica maior perigo. Toda vez que esse aparelho é usado para retirar os restos de uma restauração, por exemplo, uma névoa de gotículas de saliva e outras secreções espalha-se por um raio de 12 metros lineares – ou um círculo de 24 metros de diâmetro. A área atingida é bem maior do que a quase totalidade dos consultórios.

Especialista em implantes e professor da FOR, Rodolfo Scavuzzi Carneiro da Cunha, está com o consultório fechado desde fevereiro, pois teve de reformar a sala que ocupa em Olinda. Na semana que voltaria a trabalhar, foi surpreendido com o início da quarentena. “Pretendia compensar o custo da reforma quando voltasse a atender, mas agora estou tendo novos gastos. Como doei minha antiga cadeira para uma instituição de caridade, nem posso atender os casos de urgência, pois a nova ainda está na caixa”, conta o dentista.

Entre os novos investimentos em biossegurança, ele comprou um escudo de acrílico que, ao ser instalado na cadeira, deixa apenas a boca do paciente exposta, além de um sugador de névoa que promete conter a dispersão do aerossol gerado pela broca, polidor e por outros aparelhos.

Como a névoa se espalha por uma área muito vasta, os profissionais agora têm de se preocupar até mesmo com a sala de espera. Scavuzzi comprou uma máquina que ensaca o pé do paciente assim que ele entra, evitando que transporte impurezas na sola do sapato. “É um gasto muito grande que pegou todo mundo de surpresa, mas sem isso podemos expor os pacientes e aumentar o risco de levar o vírus para nossas famílias”, afirma.

R$ 15,00 é o valor de uma urgência

A ortodontista Marina Barreto trocou o instrumental odontológico pela máquina de calcular. Assim que as restrições foram impostas ao trabalho dos dentistas, ela chegou a atender alguns casos de urgência, mas quando percebeu o crescimento da curva de contaminação do coronavírus aumentar em Recife, entendeu que era melhor fechar as portas do consultório, no bairro das Graças. E passou a fazer contas.

“Comprei a máscara PFF2 com respirador por R$ 20,00. O escudo facial custou R$ 25,00, mas tem uma vida útil maior. O avental impermeável – que pode ser descartável a depender do grau de contaminação – custou R$ 7,00 a unidade, o mesmo valor do pacote com dez unidades antes da pandemia. A caixa com 50 máscaras cirúrgicas simples era R$ 5,00, mas agora pulou para R$ 40,00”, calcula. Para seu alívio, a escola da filha concedeu um desconto de 30% na mensalidade enquanto durar o período de aulas remotas.

Esses valores se tornam significativos quando ela informa o valor médio pago pelos planos de saúde aos dentistas por um atendimento de urgência qualquer em plena pandemia: R$ 15,00.

Marina Barreto experimenta os novos trajes para atendimento

Marina faz parte de uma geração que não teve de adaptar-se às mudanças provocadas pela ameaça do HIV. Daí, para ela é normal trocar de luvas entre um paciente e outro, trabalhar de toca e usar óculos de proteção sobre seus óculos de grau. “Mesmo assim, tem muito profissional da mesma idade, principalmente homens que pensam ser invulneráveis, que só passam a usar óculos de proteção depois de um acidente com sangue espirrado no rosto ou, pior, quando pega uma infecção nos olhos. Com a covid, todos terão de reaprender e redobrar os cuidados”.