Paul Singer, o maestro da economia solidária brasileira

0

O maestro da economia solidária brasileira já não está entre nós. O economista e sociólogo Paul Singer morreu. Seu legado, não! No primeiro mandato do presidente Lula, foi Singer o criador e condutor da política pública da economia solidária brasileira.

Lula criou a Secretaria Nacional de Economia Solidária e nomeou Paul Singer para comandá-la. Singer acreditava que “a economia solidária se aproxima das origens do socialismo”. Sob sua batuta, a política pública de economia solidária chamou a atenção do mundo e diversos países da América Latina e África adotaram o modelo brasileiro.

No seu site, na seção biografia intelectual (http://paulsinger.com.br/biografia/), ele relata que o conceito e a elaboração de uma política pública da economia solidária começou a ser formatado em 1988, quando Luiza Erundina foi eleita prefeita de São Paulo e o convidou para a Secretaria Municipal de Planejamento.

Paul Singer dividia os mérito do seu projeto. Em entrevista ao Brasil Debate, em dezembro de 2014, ele contou, por exemplo, que sugeriu que no programa de governo da então candidata à prefeita, Luiza Erundina, constasse a proposta de criação de uma política públicapara organizar os desempregados em cooperativas.

“Essa sugestão foi entregue ao comitê do programa da campanha da Luiza Erundina, dirigido pelo Aloizio Mercadante. Ele acatou e perguntou: Singer como é que você chama esse treco aí que você está propondo? Respondi: nem pensei nisso. Aí ele me perguntou se não queria chamar de Economia Solidária. Na hora percebi que era o melhor nome possível.”

Quando assumiu a Secretaria de Planejamento da prefeitura de São Paulo, Paul Singer apresentou um plano de combate ao desemprego na cidade de São Paulo. No entanto, o período na prefeitura coincidiu com o auge “da crise inflacionária que acometeu a economia brasileira, o que dificultou a execução do plano proposto.”

Isso porque durante o governo de Fernando Collor de Mello (1990-93), a economia brasileira sofreu ondas de hiperinflação, que tornavam o panorama caótico, com mais de um milhão de desempregados e dezenas de milhares de famílias vivendo ao relento na cidade de São Paulo.

Diante desse quadro, “o setor da assistência social do governo municipal começou a amparar a população que recorria ao que mais tarde foi reconhecida como economia solidária e que constituíam táticas de sobrevivência baseadas na união e na ajuda mútua das vítimas do caos.” Foi, portanto, o plano de combate ao desemprego que resultou no conceito de economia solidária, um dos seus grandes legados.

Outra economia é possível

Conduzindo a política pública, mostrou que outra economia é possível. Basta querer implantá-la. Singer, que também foi professor titular da Faculdade de Economia da USP, esteve à frente da Senaes de 2003 até a derrubada da presidente Dilma Rousseff, pelo golpe de abril de 2016. Neste período, o Brasil contava com mais de 30 mil empreendimentos solidários em vários setores da economia, com destaque para a agricultura familiar. Eles geravam renda para mais de dois milhões de pessoas e movimentavam anualmente cerca de R$ 12 bilhões.

O modelo brasileiro de economia solidária criou os bancos comunitários e suas moedas sociais, que se tornaram a principal ferramenta de fomento e financiamento dos empreendimentos solidários urbanos e rurais em vários setores da economia brasileira. Singer dizia que, na verdade, os bancos comunitários, na prática, implantaram um sistema financeiro social no País. “Este sistema atua onde os bancos tradicionais não entram, pois ignoram os pobres, os desempregados e os trabalhadores de modo geral”, explicou o sociólogo e economista, em entrevista ao Solidare, blog sobre economia solidaria.

O sociólogo dizia que é imensa a importância dos bancos solidários para as populações mais pobres, as quais, organizadas em cooperativas ou associações, passam a se tornar senhoras dos seus próprios destinos. “É que, com o apoio desses bancos, melhoram suas rendas, a qualidade de vida e contribuem para o desenvolvimento econômico dos municípios onde estão instaladas.”

Hoje, no Brasil, para desgosto e raiva do sistema financeiro tradicional, existem 104 bancos comunitários em atividade, todos com suas moedas sociais. Em resumo: os bancos comunitários são uma prática de autogestão da comunidade em que atuam e para a qual criam uma moeda social, que circula apenas naquela região. Isso significa que os comerciantes e os moradores trocam o Real pelo papel local, que pode ser usado normalmente para pagar bens e serviços. Todas as moedas sociais são lastreadas em reais. E, graças aos bancos comunitários, a economia solidária, apesar do governo Temer, resiste e avança.

Esses números mostram que no período que Paul Singer esteve à frente da Senaes, a economia solidária foi uma das ferramentas que ajudou a tirar o Brasil do mapa da fome – que hoje, com Temer, já está voltando a ocupar uma posição de “destaque” nesse mapa. Desde o golpe, a Senaes está sendo desmontada e seu orçamento foi drasticamente reduzido. E, em função disso, vários dos projetos que incentivavam a criação de novos empreendimentos solidários foram paralisados. Engavetados.

Na prática, a Senaes virou mais um cabide de emprego para os amigos das lideranças golpistas. Só para citar um exemplo a que foi reduzida a Senaes, no governo Temer, basta lembrar que o delegado de polícia aposentado do Paraná, Natalino Oldakoski, que, segundo funcionários da Senaes nada entende do assunto, foi nomeado para substituir Paul Singer.

Livro

O sociólogo se tornou uma das referências internacionais no tema, com vários livros publicados. Em março deste ano, quando completou 86 anos, foi lançado em Portugal o livro Ensaios sobre Economia Solidária, organizado por Rui Namorado para a Editora Almeidina. O livro integra uma perspectiva teórica da economia solidária, que valoriza sua profundidade histórica, com a sua ancoragem na realidade brasileira. Desdobra-se em duas partes, cada uma das quais compreende oito textos.

A primeira é predominantemente constituída por ensaios nos quais Paul Singer mostra como concebe teoricamente a economia solidária, valorizando-a como combate à exclusão dos explorados e como possível oportunidade emancipatória, rumo a um futuro que consubstancie o humanismo pleno. A segunda conduz-nos através de experiências da economia solidária no Brasil, em interação com a posição política de Singer, como membro do governo federal, tendo como pano de fundo a sua proximidade fraterna com as organizações.

Vida longa à economia possível criada pelo maestro Singer.

 

Compartilhe:

Sobre o autor

Jornalista especializado em economia solidária, agricultura familiar, política e políticas públicas. Trabalhou na "Folha de Londrina" e "O Globo", onde esteve por mais de 20 anos exercendo diversas funções, entre elas a de chefe de redação da sucursal de São Paulo. Em 2003, fundou a Agência Meios e a Agência de Notícias Brasil-Árabe (ANBA), com Paula Quental. Foi coordenador do projeto por dez anos. Sob sua gestão, a agência conquistou 11 prêmios de jornalismo web e alcançou 1,2 milhão de acessos mensais.

Deixe um comentário