Crédito: Wanessa Oliveira/Mídia Caeté

Por Marcel Leite, da Mídia Caeté

Infelizmente, Maceió é palco de uma das maiores tragédias ambientais urbanas do mundo, que obrigou mais de 55 mil pessoas a abandonarem seus lares de uma hora para outra, infligindo severos danos materiais e psicológicos até hoje.

O desastre, de acordo com estudos realizados pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM), foi resultado direto da atuação da petroquímica e mineradora Braskem, que causou falhas geológicas no subsolo da região, gerando tremores e rachaduras em diversas residências.

Em meio a essas condições, um fato novo trouxe ainda mais indignação para as pessoas: a Braskem surgiu como um dos principais anunciantes do Big Brother Brasil 23. A atração é um dos produtos mais rentáveis e de maior audiência da Rede Globo, além de fazer alusão frequentemente à importância da “preservação ambiental e da sustentabilidade”.

Nesse contexto, está circulando pela Internet uma petição reunindo assinaturas e cobrando um posicionamento da Rede Globo, do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (CONAR), do Ministério do Meio Ambiente, do Ministério Público Federal (MPF) e dos demais anunciantes do reality show.

A carta aberta relembra o caso com números que reforçam o caos gerado e corroboram a revolta dos moradores e da população alagoana.

“O crime cometido destroçou 5 bairros, inutilizou 15 mil residências, obrigou o fechamento de mais de 5 mil empresas, causou a perda de 10 mil empregos e desvalorizou outros 17 mil imóveis no entorno da área devastada, causando um prejuízo estimado em muito mais de 15 bilhões de reais. Que, até agora – quase 5  anos após o desastre – nunca foi pago a Maceió, a cidade-vítima e a Alagoas, cujas autoridades assistem anômicas, prevaricantes e acoitadamente ao circo de horrores que a empresa está tocando em nossa cidade”, diz um trecho do documento.

O abaixo-assinado encerra exigindo a exclusão da mineradora do rol de anunciantes do BBB e faz um grito contra a injustiça e aos abusos que vêm ocorrendo na relação entre a empresa e as vítimas do desastre, que – em sua maioria –  ainda não foram devidamente indenizadas.

“Exigimos uma posição da Rede Globo, dos demais patrocinadores e do CONAR no tocante à imediata exclusão da empresa como anunciante do Big Brother. Se nosso grito de alerta não for considerado por todos aqui citados, iremos encetar uma campanha cerrada nas redes sociais para boicote de cada um deles – e do programa – pelos brasileiros Chega dos abusos. De anomias, prevaricações e corrupções de autoridades, chega de (in) justiça”.

A petição já conta mais de 500 assinaturas. Para assinar, basta acessar o link abaixo.

ASSINAR PETIÇÃO

Relembre do caso

A extração desenfreada de sal-gema pela Braskem resultou em tremores e rachaduras em cinco bairros da capital. Bairros que precisaram ser evacuados devido ao iminente risco de desabamento, obrigando famílias saírem de suas casas e deixarem para trás amor, lembranças e toda uma vida.

É de conhecimento público todo o transtorno que os ex-moradores e comerciantes dos bairros afetados pelas rachaduras, em Maceió, estão vivendo desde 2018, quando elas começaram a surgir nas construções.

As vítimas desse notório desastre urbano relatam comumente vivenciar uma “via crucis” no relacionamento com a empresa, onde revelam que a Braskem dificulta a validação de documentos, demora a marcar reuniões e não apresenta laudos e descrições precisas para valoração.

Além disso, há ainda relatos de uma relação desigual e unilateral durante as reuniões, a ausência de informações e a falta de celeridade no pagamento das indenizações justas às pessoas.

Em reportagem publicada aqui na Mídia Caeté em 2022, a ex-moradora do Pinheiro – um dos bairros atingidos – e empresária Claudia Pedroza desabafou sobre a situação.  

“A Braskem faz o lado dela. É uma empresa poderosa economicamente e politicamente, não é à toa que está, há tanto tempo, minerando com a conivência das autoridades. [Todo o caso] É uma insensibilidade desde o início, até porque ela se vende como uma empresa que faz projetos sociais, como uma empresa que preza pela sustentabilidade”, afirmou Claudia.

E prosseguiu:

“Eu particularmente tenho mais ojeriza e revolta com o poder público, que vem com essa conivência há 40 anos. A Braskem conseguiu costurar um acordo. O grande objetivo dela é lucrar e ela continua lucrando com toda essa tragédia, que ela já sabia que ia acontecer. Uma empresa desse porte não atua sem saber o que faz. Infelizmente, a gente ainda consegue se impressionar com a falta de sensibilidade”, desabafa.

Em nota, a Braskem se posicionou. Segue na íntegra.

Como a maior produtora de resinas plásticas do país, a Braskem tem o compromisso de atuar de forma responsável na questão ambiental. Além de investir em tecnologias para viabilizar cada vez mais a reciclagem do plástico, a companhia busca apoiar a sociedade a entender a importância de sua participação no processo de economia circular, por meio do consumo consciente e do descarte correto.

Com esse objetivo, a Braskem vem desenvolvendo, ao longo dos anos, uma série de práticas educacionais em ações de patrocínio e mídias de massa, buscando levar, através de experiências, a importância das pequenas atitudes do dia a dia na construção de um futuro cada vez mais sustentável.

O BBB é hoje um dos programas de maior audiência no país. Sensibilizar seu público por meio da experiência dos participantes do programa, que desenvolvem diariamente atividades típicas de uma residência, com apoio do filme da campanha “O seu lixo tem futuro”, que também está no ar, tem o objetivo de mostrar como o plástico descartado corretamente pode ser reciclado e voltar como benefício para as pessoas e o planeta.

Em relação a Maceió, a Braskem vem cumprindo rigorosamente os acordos firmados com as autoridades, priorizando a segurança das pessoas e a solução do fenômeno geológico, permitindo ainda que os moradores realocados sejam indenizados de maneira justa, no menor tempo possível. Por meio do Programa de Compensação Financeira e Apoio a Realocação, mais de 98% dos moradores das áreas de desocupação e monitoramento definidas pela Defesa Civil já foram realocados preventivamente. Até o final de 2022, 18.618 propostas de compensação foram apresentadas, o que equivale a cerca de 97% de todas as propostas previstas. O índice de aceitação se mantém acima de 99% desde o início do Programa, e mais de R$ 3,2 bilhões já foram pagos em indenizações, auxílios financeiros e honorários de advogados.

Além de atividades como segurança patrimonial, zeladoria, monitoramento do solo e fechamento dos poços de sal, a Braskem está desenvolvendo ações previstas no Termo de Acordo Socioambiental assinado com o poder público, para mitigar, compensar ou reparar eventuais impactos causados pela desocupação dos bairros.