Desde o início de agosto, quando o Facebook passou a dar transparência aos gastos com publicidade política ou social em suas plataformas, a empresa atualiza diariamente um ranking de quem investiu dinheiro impulsionando postagens desse tipo. A primeira posição dessa lista no Brasil é surpreendente. Mesmo em ano eleitoral quem mais desembolsou não foi um candidato a prefeito de metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro nem um dos grandes partidos do país, como PT, PSDB, DEM ou MDB.

Quem mais investiu em publicidade política no Facebook, Instagram e WhatsApp foi a Brasil Pararelo, uma produtora de filmes e séries de extrema-direita, que já chegou a ser rotulada de “netflix dos bolsonaristas”.

Considerando apenas os dados dos últimos cinco meses – os únicos informados pelo Facebook – o Brasil Paralelo gastou R$ 1.240.623,00 para impulsionar pouco mais de 15.600 anúncios pedindo apoio financeiro para viabilizar seus filmes, promovendo “cursos de formação” ou divulgando campanhas de assinaturas. Em tese, a Brasil Paralelo não recebe recursos públicos pois o Portal da Transparência não há registros de pagamento realizado pelo Governo Federal para a LHT Higgs Produções Audiovisuais LTDA, razão social da produtora.

Entramos em contato com a empresa por meio do endereço de e-mail fornecido em seu site, mas não recebemos resposta.

Em reportagem publicada no final de setembro pelo portal Terra, um dos sócios da empresa, Lucas Ferrugem, disse para o repórter Alexandre Bazzan que a “Brasil Paralelo tem dois planos de assinatura, um de R$ 10 e outro de R$ 49, que dão acesso a conteúdos exclusivos e palestras”. Naquele mês, a produtora contava com 115 mil assinantes, mas o plano é alcançar um milhão no final de 2022. Na mesma entrevista, Ferrugem explicou que o custo para produzir e divulgar cada filme ou episódio de minissérie era de R$ 2 milhões.

Ao longo de 2020, a produtora entrou na mira da Sleeping Giants brasileira, iniciativa de progressistas americanos que interpela anunciantes que fazem propaganda em páginas que espalham fake news e discurso de ódio. Por causa disso, a empresa que operava o  sistema de pagamento da Brasil Paralelo acabou recuando e encerrou o contrato.

A gratidão do Zero Três

Mesmo sem receber dinheiro público, a Brasil Paralelo é constantemente beneficiada pelo merchandising gratuito que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL) costumam fazer dos seus filmes. O Zero Três é um entusiasmado garoto-propaganda da empresa ao fazer pelo menos 70 postagens com elogios para seus filmes e séries.

A família Bolsonaro parece ter muito a agradecer à Brasil Paralelo. Em 2018, às vésperas do primeiro turno da eleição presidencial, a produtora lançou um vídeo nas redes sociais protagonizado por um engenheiro bolsonarista que, usando uma fórmula matemática utilizada em auditorias fiscais e contábeis, dizia “provar” a fantasiosa fraude na eleição de 2014 que elegeu Dilma Rousseff (PT).

Em poucos dias, o tal vídeo foi visto dois milhões de vezes. Na mais extensa verificação do Projeto Comprova, foi constatado que o engenheiro, Hugo Hoeschl era, ele mesmo, uma fraude, pois jamais tinha sido delegado da policial civil do Paraná ou professor “credenciado” da Universidade Federal de Santa Catarina, como se apresentava na tela. Os cálculos usados por Hoeschl não resistiram às análises feitas por matemáticos e físicos acionados pelo projeto.

Eduardo Bolsonaro é garoto propaganda da Brasil Paralelo

Conteúdo da era vitoriana

Pretensão e distorção embaladas em certo esmero técnico. Essa poderia ser uma boa definição da produção da Brasil Paralelo que foi analisada pela Marco Zero Conteúdo. Os filmes, a maioria com pouco mais de 40 minutos aos quais o público se acostumou nas plataformas de streaming tradicionais, abordam os temas caros à extrema-direita com mais sutileza que as grosseiras peças de desinformação das redes bolsonaristas.

Boa parte dos anúncios impulsionados no Facebook e Instagram nas últimas semanas tinha como foco o financiamento dos três episódios do “Especial de Natal” da produtora. A série contou com a Orquestra Sinfônica de Heliópolis tocando clássicos natalinos e de compositores como Beethoven.

A música clássica serve claramente como atrativo para os cursos de formação em música oferecidos pelo site. Aliás, esse gênero musical é apresentado como sendo um exemplo de arte pura, expoente máximo da civilização ocidental, em contraponto aos ritmos contemporâneos que se caracterizam pela fusão de samba, rap, funk ou brega. Qualquer semelhança ao nazismo não é mera coincidência.

O cenário do Especial parece ter sido copiado das velhas fotos das reuniões natalinas da família real britânica. Mais uma vez, não há coincidência. Uma das estrelas do primeiro episódio é o “príncipe” Luiz Phellippe de Orleans e Bragança.

E o que o deputado federal monarquista faz no filme? Fala obviedades conservadoras, insípidas. Exemplo: “A família real é igual a qualquer outra (…) família dá confiança, estabilidade, dá origem e propósito”. Isso é dito num contexto em que seis homens brancos e ricos, sob a mediação do ícone midiático da extrema-direita, Luís Ernesto Lacombe, fazem uma roda de conversa sobre o tema “a crise da família”, quando ficamos sabendo que a crise é de amor. Nada mais. Simples assim.

O segundo episódio trata do sucesso e conta com a única mulher convidada a participar do Especial, a ex-jogadora de vôlei Ana Paula Henkel, apresentada como “comentarista política” (sic). Os outros cinco participantes da roda de conversa são homens. Brancos. O cenário e a composição étnica e de gênero (desta vez sem nenhuma mulher) se repete no terceiro episódio sobre o significado do Natal, com o presidente da Fundação Biblioteca Nacional, o olavista e monarquista Rafael Nogueira alegando que, ao contrário de todas as outras religiões e civilizações, “os símbolos do cristianismo estão associados a um fato histórico.” Como se os assassinos wahabistas do Estado Islâmico não dissessem algo parecido da religião muçulmana.

O marketing agressivo, sempre à caça de assinaturas, é uma constante em todos os vídeos. Num episódio sobre o movimento Black Lives Matter, são três inserções com ofertas comerciais da própria empresa em pouco mais de 40 minutos. Nesse vídeo, os primeiros 33 minutos se arrastam, com um historiador americano, gravando de sua casa, admitindo o caráter racista da escravidão e da segregação racial.

O roteiro desse filme é semelhante a uma emboscada: o conteúdo supostamente neutro dos primeiros 2/3 – “supostamente porque os agentes da liberdade dos negros são os líderes brancos ou negros que lutam pacificamente” – levam à desqualificação dos protestos contemporâneos, fundados por mulheres que seriam manipuladas por uma fundação marxista que as treinou para “mudar a sociedade”. Olavo de Carvalho deve ter curtido.

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