Crédito: Saulo Nicolai

Por Bia Pankararu

Rama Pankararu, um filme sobre a resistência histórica e atual do Povo Pankararu, localizado no sertão de Pernambuco, fará sua estreia internacional no 24° Festival de Cinema Brasileiro de Paris, um do festivais mais respeitados do mundo. Mesmo assim, o filme independente ainda aguarda resposta de apoio de órgãos públicos, políticos e figuras ligadas à cultura do Estado. O filme estreia dia 3 de abril, às 21h no cinema L’Arlequin, Paris.

Sou Bia Pankararu, 28 anos, mulher indígena, sertaneja, mãe e LGBT, produtora cultural desde a adolescência e há 4 anos trabalhando no projeto do longa-metragem em parceria com Pedro Sodré, produtor e diretor de cinema, responsável pela Copa Filmes.

Em 2018, recebi o convite de Pedro para produzir uma ficção no território Pankararu. De produtora, entrei no roteiro e na atuação. Trazendo o enredo para a atualidade, misturamos ficção e fatos reais. Os ataques incendiários sofridos no território Indígena em 28 de outubro de 2018, noite da última eleição presidencial, se tornam o fio que leva Bia e Paula a ligar vários pontos de conflitos territoriais, políticos e culturais.

Cartaz do filme

Paula, personagem fictícia, é uma jornalista carioca que chega ao território para desenvolver uma matéria sobre os incêndios criminosos. A partir dessa jornada se desenvolve a narrativa dos Pankararu onde todos são personagens reais, lideranças sociais e tradicionais do Povo.

Em tempos de desmonte total dos meios de produção cultural e investidas ferozes contra nós, povos indígenas, contra o meio ambiente e o respeito pela vida, Rama Pankararu é um convite ao debate sobre a resistência dos Povos do Nordeste, representatividade e justiça social.

Em tempos tão sombrios, não me surpreende a falta de apoio político ao filme, afinal, é um tema que atravessa várias camadas de fragilidade do Estado e da Justiça, mas, principalmente, atinge a todos que fazem vista grossa às dores dos mais de 14 Povos diferentes que existem só em Pernambuco.

Nossa presença e resistência no Estado, no Brasil e no mundo é real, viva e potente. Podemos ser agricultores, doutores, artistas e até cineastas, vejam só!

Me fazer presente no Festival para ver a estreia do meu filme se tornou uma missão no último mês, contando apenas com apoio de amigos. Fazendo campanha nas redes sociais e com uma contribuição do próprio Festival, conseguimos comprar as passagens e só, até o momento nenhuma política de apoio cultural foi direcionada à nossa produção.

Talvez a falta da tal “cara de índio”, que a grande mídia idolatra para representar povos indígena, nos deixe desfavoráveis, ou talvez por sermos da caatinga. Muita gente nem acredita que tem indígena no Nordeste, imagina na caatinga, mas existimos e resistimos desde a primeira caravela que aportou na Bahia.

O Nordeste é território indígena e tem extrema relevância para os movimentos sociais e culturais. Não só historicamente, mas com milhares de potenciais indígenas conquistando cada vez mais espaços. Mas a luta é duas vezes maior quando nem seu próprio Estado reconhece suas potências. Ainda há tempo, eu acredito.

Ficha Técnica do Filme

– Diretor: Pedro Sodré

– Roteiro: Bia Pankararu, Pedro Sodré e Yuri Westermann

– Produtor: Pedro Sodré e Bia Pankararu

– Produtor Executivo: Pedro Sodré, Maria Cândida Sodré e Breno Soares

– Diretor de Fotografia: Saulo Nicolai, Dudu Mafra e Victor Vidigal

– Som direto: Anderson Moura e Anne Santos

– Montagem: Pedro Sodré

– Música original: Deborah Bombard-Golicki e Gean Ramos