Rock não é playground: música pesada resiste na periferia com ação política e mobilização social

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por Wilfred Gadêlha (especial para Marco Zero Conteúdo)

Numa rua sem calçamento, às margens de um canal cheio de mato alto e catinga de esgoto, que vai desembocar, a quilômetros dali, no Rio Beberibe, a noite vai chegando. Estamos na Zona Norte do Recife, num daqueles cantos que não se sabe bem que bairro é: Vila Canaã, encravada entre Nova Descoberta, Passarinho, Brejo da Guabiraba e Córrego da Bica. Ao lado do Bar da Maria, uma barraca que vende cerveja, catuaba, jurubeba e cachaça, um toldo branco está armado.

Enquanto evangélicos se dirigem para o culto do sábado em alguma das dezenas de igrejas espalhadas pela comunidade, uma galera de preto já está presente. São integrantes de bandas, fãs de música pesada e moradores da área, à espera do início do evento Salvar’Ação, que juntou, no último dia 19 de janeiro, grupos de punk rock, hardcore, crossover, música regional e rap. O festival é mais um de uma lista de eventos realizados em bairros pobres do Recife e das cidades da Região Metropolitana que tentam, a duras penas, provar que o som da periferia vai além da equação brega-funk + passinho.

O Salvar’Ação foi organizado pelo professor de história e ativista cultural Jones Lourenço, morador da mais conhecida periferia “punk” do Recife, o Alto José do Pinho, famoso em todo o Brasil por meio da banda Devotos, cujas letras cantam o cotidiano violento do bairro, mas sempre pregando que a música, é sim, um canal de conscientização e de mudança de atitude que pode influir no dia a dia e na melhoria de vida da população. Naquela noite de janeiro, a despeito da demora para iniciar o evento, Jones circulava à vontade, conversando com quem chegava e mandando “salves” para os moradores da comunidade da Vila Canaã. Naquela noite de janeiro, se apresentaram Töttö, Ortiga Braba, Mari Periferia, A13, Lei do Kaoz, Companhia de Amores Miseráveis, Canto dos Nego Malungo, Agressivo Pau Pôdi e Cadibódi – as duas últimas de Brasília.

Foto: Divulgação / Lei do Kaoz

Foto: Divulgação / Lei do Kaoz

“A comunidade está abraçando. As bandas se dividem, ajudam e a gente coleta contribuição voluntária para pagar o som. É só chegar que o microfone está aberto. Através da prática, por meio da música, a gente pode levar a consciência. Um menino ou uma menina podem passar, ouvir e gostar. Há sim um cunho político na expressão artística”, diz Jones, que realiza ainda o Poesis, evento que mistura poesia, música e outras expressões artísticas no Alto José do Pinho.

O evento que Jones realizou na Vila Canaã é mais um do esforço de fãs de música pesada do Grande Recife em agregar prática e discurso político ao universo artístico. Quase sempre são feitos espontaneamente, com contribuição voluntária – o famoso “passar o chapéu”, reunindo bandas majoritariamente de orientação punk, mas também abrindo espaço para representantes de outros estilos, como rap, música regional e o heavy metal – este imerso em uma divisão ideológica nos últimos tempos. Essa divisão, aliás, vale outra reportagem.

Pagode, hardcore e Erasto

A 12 quilômetros da Vila Canaã, no bairro de Maranguape 1, em Paulista, o movimento está mais sedimentado. Desde o fim dos anos 90, bandas como Autópsia Mental, Nação Corrompida, Arquivo Morto, Corroídos Pelo Ódio, entre outras, traduzem a sua fúria sonora em ação direta pela melhoria de vida em uma das áreas mais violentas do Grande Recife. Conhecido por abrigar uma das casas de eventos mais populares da Região Metropolitana nos anos 90, o Pagode da Conceição, Maranguape também virou música via Erasto Vasconcelos, percussionista que morava no bairro e expressou seu amor pela localidade em um canção-roteiro, citando na letra locais emblemáticos como o Campo da Aviação e a Associação dos Moradores.

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“Maranguape 1 teve muitas fases nos últimos 30 anos. Teve a fase dos pagodes, que terminaram fechando por causa dos homicídios, do brega mais romântico e a do funk”, explica Glieldson Alves da Silva, 36 anos, mais conhecido como Guill, guitarrista formador da banda Arquivo Morto, sociólogo e ativista de uma rede de entidades e coletivos.

Rock“A gente era bem adolescente e já se reunia em torno da música, na época muito ligado ao punk de São Paulo. Outros amigos, de Maranguape 2, já eram mais ligados ao metal. O disco, a fita, eram instrumentos para reunir as pessoas. Lembro de ir ao Recife deixar um vinil emprestado do Black Sabbath para gravar e eu ter uma fita para ouvir”, conta Guill. “A gente ouvia de tudo na verdade. Tinha uma referência ligada, no final dos anos 90, ao que rolava no Recife, as bandas do Alto José do Pinho, como o Devotos, além de Hanagorik, lá de Surubim. E as bandas locais, como Autópsia Mental, que tinha uma música que deu nome ao Nação Corrompida”, complementa.

“Vi um show do Nação Corrompida lá na Associação. Foi a primeira vez que eu vi uma banda mesmo, tocando. Vi que era uma possibilidade de expressão”, enfatiza Guill, citando ainda bandas contemporâneas, que hoje não mais existem, como Distúrbio e Preaca, além de outros nomes que transitavam no meio manguebeat, como Spyder & Incógnita Rap. “Vi que os caras estavam tocando de uma maneira muito simples. Então, era possível fazer música e as pessoas podiam ouvir”, reforça. “Nós tratávamos nas nossas letras de questões que os grupos de pagode não tratavam.”

Para Guill, o ponto de virada foi entender que a música podia ir mais além. “A gente formou a banda para falar das mazelas do bairro: repressão policial, a falta de políticas públicas para a localidade, saúde, educação. A gente chegava na fila da merenda e o que tinha era um ovo cozido e sal”, recorda o músico, que estudou em escolas públicas de Maranguape 1 e se formou em ciências sociais pela Universidade Federal de Pernambuco. “Uma das primeiras músicas do Arquivo Morto foi ‘Fora dos Moldes’, porque a gente sofria uma repressão diferente. Meu irmão tem a cor da pele branca. E ele nunca levou baculejo. A gente morava no mesmo lugar, andava do mesmo jeito de madrugada, e eu levei baculejo até do Cipoma.”

“Maranguape 1 foi um bairro planejado na época da ditadura militar, fruto de uma política pública habitacional nacional. Passava pelo Governo do Estado e pelo município sem debate nenhum com os entes públicos. Imagina com a população”, discorre Guill. “Hoje, não tem controle urbano e, como Maranguape é um bairro circundado por matas, toda a área no entorno está sendo ocupada, sem uma intervenção adequada do poder público.”

Sem mobilização, é hipocrisia

“Muita gente tem o ideal de viver de música. Para nós do movimento punk, que é de onde o Arquivo Morto veio, isso não existe. É uma outra perspectiva. A nossa banda tem tudo a ver com a ação direta. Quando você monta uma banda, é um momento de agitação social, você fala dos problemas e tenta motivar as pessoas a se mover. Mas, enquanto banda, se você não se move, você é um hipócrita.”

O Arquivo Morto, como outras bandas da cena underground, enxerga que a música é um veículo. “Junto com a banda, temos um fanzine. Criamos vários eventos como o Livro, Vitrola e Vinil, o Maranguape, Barulho e Atitude e o Maranguape is Powerviolence (que acontecerá no próximo 23 de março, além do Maranguarte, justamente para trocar essas experiências e mobilizar as pessoas, mostrando que é possível, dentro da ideia do ‘faça você mesmo’, fazer algo para mudar. Quem me motivou para ser sociólogo foi o hardcore, foi a música”, reforça.

O sociólogo explica que o envolvimento da cena pesada do bairro com a organização social em busca de melhorias para o bairro se deu em torno da integração com coletivos. “O Coletivo M1 foi uma estratégia de contracultura dentro da periferia, num processo de ocupação dos espaços públicos”, completa.

O Coletivo M1 foi a origem do Observatório Popular de Maranguape 1, que reúne outras organizações do bairro e que age diretamente na conscientização da população, em ações que promovem e incentivam a ocupação de espaços públicos, a pressão sobre os poderes constituídos e a preservação dos bens coletivos. Próximo ao Bar do Pirulito, local onde ocorriam shows da pagode na Avenida Colibri, fechado por causa de um triplo homicídio, “floresceu” um lixão. Graças aos ativistas do OPM, hoje a área não tem mais lixo e há uma espécie de bosque em formação, com mudas de plantas cedidas pela Prefeitura de Paulista e preservadas com o auxílio da comunidade.

Rock5Foi nessa área que o Observatório Popular de Maranguape realizou, no dia 26 de janeiro, uma ação de prestação de contas de suas ações. O grupo de Ilê Capoeira, liderado pelo Mestre Chiba, fez uma apresentação, em que, além da tradicional roda, mostrou ritmos populares como coco, ciranda, maracatu, afoxé e samba reggae. “Sou daqui de Maranguape 1 e faço questão de contribuir com as ações dos coletivos, porque temos interesse em melhorar a vida das pessoas, com a ocupação de espaços públicos”, diz o mestre. Além da capoeira, houve apresentação do rapper local Noize MFC, exposição de imagens antigas do bairro, troca de livros e até mesmo um mais que tradicional voz e violão.

“Não adianta só a gente estar gritando. Tipo, tem um vereador aqui na rua e esse grito apenas junto ao underground não interfere nada na vida dele. A gente pensou então em criar uma estrutura que pressione o poder público e para que a gente entenda o funcionamento das políticas públicas municipais, estaduais e federais. É uma atuação mais profissional, mais técnica, mais institucional. Saímos da questão cultural para uma estratégia de mobilização comunitária. É preciso – e a gente está fazendo isso – desconstruir a bolha do underground”, explica Guill, que é filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) e já tem ouvido acusações de querer se beneficiar politicamente da mobilização. “‘Ele se vendeu ao sistema’, é o que dizem por aí. Aí eu pergunto: por que a gente não pode ter um cara que pode ser candidato a vereador e fazer um processo de diferença massa lá? Por que que a gente tem que deixar esse espaço só para essa galera que a gente critica a vida toda?”.

Para angariar mais força, o Observatório Popular de Maranguape 1 se uniu a outros coletivos da cidade, formando a Rede dos Coletivos Populares de Paulista (Coppa). “Esses coletivos  dialogavam, mas não tinham uma ação programática conjunta. Hoje a gente tem mais força”, diz Guill, citando organizações como os coletivos Tururu, Janga, Escambo Coletivo (Paratibe) e Coletivas (coletivo feminista) como integrantes da rede. Essa troca de experiências também se dá na forma de eventos como o Subúrbio Geral, que já rola há algum tempo e roda a cidade com uma pegada antifascista, envolvendo poesia, rodas de diálogo, exibição de vídeo e, claro, shows de bandas mais pesadas. “Formamos o coletivo O Front, com a nítida proposta de enfrentar o fascismo, mas sem ser dentro da bolha underground. Precisamos dialogar com quem tá de fora da bolha”, avalia Guill.

 

“Também posso ser vagabundo”

Aos 18 anos, Daniel Paixão quer ser jornalista e é um dos exemplos de como a ação de coletivos pode trazer jovens mais para perto da atuação em prol do bairro. Morador da Vila Jacaré, Daniel via o pessoal do Observatório Popular de Maranguape 1 como vagabundos. Ex-integrante de movimentos religiosos no bairro, ex-corredor de provas de média distância e ex-integrante de cursos de teatro, ele conta que foi vítima de uma tentativa de abuso sexual por parte de um produtor teatral. “Eu tinha 15 anos e queria desistir de tudo, da minha vida. Isso me desmotivou muito. Tive crises de ansiedade, depressão. Mas eu pensei que eu tinha que mudar, para lutar contra isso e para que as pessoas me vissem como exemplo. Entrei no grêmio livre e virei referência”, conta ele.

Uma noite encontrei o pessoal do Observatório, fazendo um vídeo que eles chamaram ‘Buraco em Toda a Parte’. Eu só os conhecia de vista e eles pediram para dar um depoimento, fiquei com medo, mas encarei. Até então eu, como muitas outras pessoas, via esse movimento como de vagabundos”, reconhece Daniel. “Depois que saiu o vídeo, eu comecei a ter outra análise. Percebi que eles incentivavam as pessoas a estudar e pensei: ‘Também posso ser vagabundo’”, brinca Daniel. “Como eu, muitos passaram a curtir a página no Facebook e compartilham nossos vídeos.”

Uma outra mobilização se deu em torno de um muro, em cujo pé as pessoas jogavam lixo. Com o apoio do rapper e grafiteiro Noize MFC, a estrutura ganhou cores, mudou de visual e hoje ninguém mais joga nada lá. “As promessas sempre foram muitas. Maranguape 1 sempre foi um lugar jogado às baratas”, enfatiza o pedreiro José Paixão da Silva, 46 anos, 12 dos quais morando na Vila Jacaré. “Depois que a gente começou a se envolver com o projeto dos meninos, coisas boas começaram a acontecer. Não tem mais aquela fedentina. A coleta do lixo vem direitinho”, enumera o pedreiro, que não tem parentesco com o vizinho Daniel.

Rock_Daniel Paixão

 

Antifascismo

Não muito longe dali, no bairro de Caetés 1, no município vizinho de Abreu e Lima, uma galera que gosta de som pesado une forças para difundir o diálogo e a cultura underground com o intuito de combater o racismo, a homofobia, a misoginia e outras formas de opressão. Tendo à frente o pessoal da banda Lei do Kaoz, o movimento batalha contra o estigma da violência. Na noite deste sábado 9, por exemplo, vai acontecer o Antifa Fest, reunindo as bandas Töttö, Companhia de Amores Miseráveis, Guerra Urbana, Instinto Ruim e Lei do Kaoz.

“O passinho virou uma febre nas praças de Caetés. Nós estamos há anos tentando mostrar que há mais que isso na periferia”, diz o vocalista da Lei do Kaoz, Éder Botelho, que, ao lado do baixista André Martins, realiza eventos como o Caethrash e o Cultura na Praça. “A gente fez e continua fazendo muita panfletagem perto dos colégios no intuito de conscientizar a molecada”, explica Éder. “No Antifa Fest, a gente faz questão de incluir outras manifestações, como roda de diálogo e palestras”, acrescenta. No evento deste sábado, vão rolar falas da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e também sobre veganismo e antifascismo. “A gente tem que se unir. Não vejo o brega como inimigo. Por isso os debates são importantíssimos.”

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação / Lei do Kaoz

No ano passado, o Caethrash, com a participação das locais Lei do Kaoz e Visão Mórbida, além de Will2Kill e da veterana Realidade Encoberta, foi realizado em uma área próxima ao terminal de ônibus de Caetés 1. “Era um local degradado, ponto de drogas. Uma área verde grande, protegida, mas que não tinha o olhar do poder público. Depois do festival, as autoridades se ligaram. Rock não é cultura de playground: precisamos influenciar a qualidade de vida na comunidade em que vivemos”, dispara Éder.

Sobre a questão do estigma de a periferia ser “dominada” pelo brega-funk em Pernambuco, o professor do curso de Comunicação Social da UFPE, Amílcar Bezerra, faz um alerta: “A classe média tende a estereotipar as periferias. Primeiro porque não a conhece, segundo porque boa parte da classe média extrai da ridicularização da periferia um alimento para seu ego”.

Para Bezerra, “o medo da desclassificação social faz com que parcela da classe média tente se diferenciar ao máximo do que ela considera ‘periferia’. Para isso as rotulações, generalizações e estigmatizações deste ‘outro’ periférico são ferramentas que vêm bem a calhar. Aliado à falta de conhecimento a respeito de quem são e como vivem os habitantes das periferias, isso impede boa parte da classe média de ter uma visão mais complexa sobre a diversidade da vida cultural nesses locais”.

Bezerra chama a atenção sobre a diversidade cultural das periferias. “A chamada música brega e as religiões evangélicas pentecostais são alvos preferenciais do estigma. Como divergem mais claramente dos padrões de gosto burgueses, são facilmente estereotipáveis como características essenciais de um outro do qual o burguês deseja se diferenciar. Mesmo essas manifestações tem dentro de si uma diversidade e complexidade que acabam achatadas pela visão estereotipada que a classe média tem delas. Só que, além disso, há pessoas nas periferias fazendo outras coisas, escutando outras sonoridades, aderindo a outros estilos de vida. Não dá pra colocar as periferias dentro de uma caixinha”, vaticina.

O guitarrista Pedro Valença, da banda de metal Pandemmy explica que o fator econômico soma-se à motivação política: fazer show na periferia é mais barato do que no centro. “Além disso, as bandas que têm uma compreensão mais ampla da questão política e social ficam indignadas em ver seus vizinhos, amigos e colegas de comunidade com uma postura mais conservadora, que só privilegia quem já é privilegiado”, opina.

Para Breno Poggi, que frequenta shows do underground pernambucano desde a década de 80 e tem realizado, ao lado do publicitário Hugo Veikon, uma série de eventos sob o nome República do Rock, a realização de apresentações na periferia se reveste de um caráter mais democrático. “A maioria das bandas é independente e tem uma condição financeira menos favorecida. Elas não fazem música por fazer. Basta ter uma tomada que já é suficiente para fazer o som rolar. Eu vou bastante, continuo a ir e não deixo de ir”, ratifica Breno, que tem levado eventos da República do Rock para o bairro de Jardim Petrópolis, na UR-7, na Várzea, Zona Oeste do Recife e enumera vários outros lugares onde ocorrem eventos underground: Casa Amarela, Córrego da Bica, Paratibe, Marcos Freire, Camaragibe, Mangabeira, Várzea.

 

Escute o som das bandas da periferia do Grande Recife:

 

Arquivo Morto – Rede de Alienação

https://www.youtube.com/watch?v=dkUHlzsvJVs

 

Nação Corrompida – Sistema de Exclusão

https://www.youtube.com/watch?v=mNbt7xrBa80

 

Corroídos Pelo Ódio – Existência Falha

https://www.youtube.com/watch?v=wfd_c35XK1o

 

Lei do Kaoz – Jogo dos Ratos

https://www.youtube.com/watch?v=u8boDwt1DfA

 

Visão Mórbida – Odiamos Religião

https://www.youtube.com/watch?v=82NGiEyixIc

 

Companhia de Amores Miseráveis – O Imbecil

https://www.youtube.com/watch?v=6SMJeOu0w6M

 

Devotos – Punk Rock Hardcore Alto José do Pinho

https://www.youtube.com/watch?v=QlSTK4zm6a4

 

Realidade Encoberta – Rios Mortos

https://www.youtube.com/watch?v=xdgfego5awU

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