Crédito: Daniel Tavares/Prefeitura do Recife

Notou que os números sobre a covid-19 em Pernambuco sumiram do noticiário? Não é porque a pandemia acabou. Infelizmente, a Organização Mundial de Saúde (OMS) não declarou ainda o fim da pandemia iniciada em março de 2020. Também não é porque os números em Pernambuco estão tão baixos que nem precisam mais ser divulgados. Foram 12.704 novos casos e 27 óbitos nestes 20 dias de 2023. Nas últimas duas semanas, Pernambuco é o estado do Nordeste com mais números de casos e o sétimo no Brasil.

A impressão de que a covid-19 sumiu do mapa por aqui pode ser porque desde o dia 30 de dezembro o Governo de Pernambuco, através da Secretaria Estadual de Saúde, não envia mais os resumos dos boletins para a imprensa. Também não faz mais a publicação dos boletins nas redes sociais, como fazia desde o início da pandemia. Com isso, as notas em sites locais de jornalismo e os posts nas redes sociais desses veículos pararam de falar sobre a situação da pandemia em Pernambuco.

A média móvel dos últimos sete dias no Brasil está hoje em 11 mil novos casos, bem abaixo dos 40 mil casos de um mês atrás. Mas é comum que haja uma queda nos dados e na divulgação em começos de ano. Isso aconteceu com as trocas de prefeituras em 2020/2021 e com o apagão de dados do SUS no começo de 2022. Mas os números baixos ou estáveis eram uma ilusão: em 2021, era a subida da onda da variante Gama, que causou a maior onda de mortes no Brasil, e no ano passado foi o tsunami da Ômicron, que cancelou o carnaval daquele ano, que antes era dado como certo.

No começo deste quarto ano de pandemia há algumas diferenças, mas o acompanhamento e a divulgação dos dados seguem imprescindíveis. Analisando desde março de 2020 os números da pandemia, Isaac Schrarstzhaupt, da Rede Análise, torce para que dessa vez essa relativa baixa seja mesmo um reflexo do mundo real. “Agora, o que estamos vendo é também uma queda nas testagens. Um dado que seria bom seria o da pesquisa dos sintomas da Universidade de Maryland com o Facebook, mas foi descontinuada. Óbitos e hospitalizações geralmente são dados sólidos, e o que estamos vendo hoje é também uma queda. Mas estamos em trocas de governo, com trocas de equipes, o que pode ter um impacto nos dados que estamos vendo”, adverte.

Gráfico do site https://covid19br.wcota.me com dados disponibilizados pelas secretarias de saúde

O cientista Jones Albuquerque, do Instituto de Redução de Riscos e Desastres (IRRD), alerta para o fato de que o risco pandêmico – que alerta quando a situação pode sair de controle – não está baixo em Pernambuco. “O risco pandêmico estava em queda, fato, mas tanto mundialmente como em Pernambuco esse risco se acende novamente”, diz. “O que observamos no Brasil é que desde o dia 18 de outubro a quantidade de mortes por milhão está em crescimento. Também percebemos que nosso melhor momento em Pernambuco foi entre 7 e 13 de outubro, no qual chegamos ao menor índice de risco. Mas mesmo assim, ainda alto”, afirma.

As vacinas conseguiram derrubar as mortes por covid-19, o que garantiu um certo retorno à normalidade. Mas ainda não são eficazes em barrar a infecção, o que exige a adoção de outras medidas. “Um artigo publicado na Nature mostra que pelo menos 65 milhões de pessoas estão com covid longa mundo afora. A pandemia, de fato, ainda é um problema. Se não adotarmos distanciamento, máscara em ambiente fechado, higienização e vacinação não vamos nos livrar da covid-19”, diz Jones.

O cientista também lamenta que a falta de relatórios diários é algo que está acontecendo em várias cidades, estados e países. O Cievs da Prefeitura do Recife, por exemplo, agora só divulga relatórios semanais. “Parece que a comunicação com a população sobre os riscos da covid-19 foi nosso grande erro durante esta pandemia. E isso é uma infelicidade, porque a população está cada vez mais acreditando que a pandemia acabou”.

Isaac Schrarstzhaupt afirma que os dados têm que ser “superdivulgados”. E faz uma analogia em que explica o porquê disso. “Pensa nos aplicativos sobre o tempo no celular. Não é bom saber que há, por exemplo, 40% de chuva em tal dia? Quando a gente vê esses dados sobre o clima, até por hora, a gente consegue tomar decisões melhores. Com os dados epidemiológicos de doenças é a mesma coisa. Se vamos fazer um evento, se vamos para um local fechado, a melhor coisa é entender efetivamente o que está acontecendo”, afirma.

Os boletins eram enviados diariamente para a imprensa e nas redes da SES-PE desde o início da pandemia. Nos últimos meses, passaram a ser em dias úteis. Com a mudança do governo de Paulo Câmara (PSB) para Raquel Lyra (PSDB) pararam de ser enviados. Não é algo transitório, mas uma decisão da SES-PE.

A Marco Zero questionou a assessoria de comunicação da Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco sobre o motivo do boletim não estar sendo mais enviado. Não houve resposta. O que a secretaria informou, sem explicar o motivo da mudança, foi que desde o dia 4 de janeiro (na verdade, o último boletim divulgado foi no dia 30/12/2022) o boletim passou a ser disponibilizado na plataforma do Centro de Informações Estratégicas de Vigilância em Saúde (Cievs), no link: https://www.cievspe.com/novo-coronavirus-2019-ncov.

Casos de covid-19 somem da imprensa pernambucana

A falta dos boletins na mídia é um problema, claro, também do jornalismo. Há como conseguir essas informações diariamente, mas elas estão com o acesso mais complicado. Ao invés de receber os boletins mastigadinhos, os jornalistas (ou qualquer pessoa interessada) agora têm que entrar no site do Cievs, ir até uma longa lista de boletins e acessar o boletim epidemiológico do dia, algo feito para pessoas da área de saúde. Com a crise do jornalismo local, as redações estão cada vez menores e os boletins feitos para divulgação na imprensa facilitavam muito que essa informação chegasse até a população em geral.

Os perfis de instagram da Folha de Pernambuco, Diario de Pernambuco e Jornal do Commercio acumulam, juntos, quase 2,5 milhões de seguidores. Não há nenhuma postagem deste ano sobre covid-19 em Pernambuco. Nas poucas postagens sobre o assunto em dezembro, a maioria se baseava justamente nos boletins da SES-PE enviados à imprensa.

No painel de dados do Consórcio de veículos de imprensa a partir de dados das secretarias estaduais de Saúde, divulgado pelo G1, Pernambuco aparece como um estado sem informações disponíveis. Além de Pernambuco, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Maranhão, Piauí e Paraíba também aparecem como estados sem divulgação dos dados.

No instagram oficial da SES-PE, o último boletim divulgado foi no dia 30 de dezembro, mesmo dia que o último boletim foi enviado para a imprensa. Há alguns comentários cobrando os boletins atualizados: “Não nos deixem na ignorância. Mais transparência”, pede uma mulher.

A jornalista, pesquisadora e professora de Jornalismo e Direitos Humanos Andrea Trigueiro, que por dois mandatos presidiu a comissão de ética do Sindicato dos Jornalistas de Pernambuco (Sinjope), acredita que os boletins ajudam a pautar a imprensa e, assim, levar a informação para a população.

“No estado democrático de direito, a imprensa tem papel fundamental como o lugar que vai publicizar informações relevantes de interesse público. O que é diferente do interesse do público. É o que diz respeito a toda sociedade. Claro que o papel do jornalismo é ir atrás dessas informações, mas quando o governo não disponibiliza essas informações de forma acessível, a transparência fica comprometida”, afirma. “É a partir da real situação da moradia, da saúde, da educação, segurança etc que a sociedade pode monitorar as políticas públicas. Mesmo com os processos de descredibilização da imprensa, a população ainda confia e acredita na imprensa. Quando um problema não está mais na imprensa, é como se esse problema não existisse mais”.

Kraken em Pernambuco?

Uma vez ao mês, os boletins com casos e óbitos diários de covid-19 eram acompanhados também da situação das variantes do Sars-cov2 no estado. Esse boletim dava visibilidade à parceria com o trabalho da Rede Genômica da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), um projeto ainda em andamento para monitorar as variantes no Brasil.

As amostras de sangue analisadas pela Fiocruz-PE para o sequenciamento genético e a identificação do tipo da variante são de um laboratório da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e do Laboratório Central de Saúde Pública de Pernambuco (Lacen-PE), órgão da SES-PE. Os dados mais recentes disponíveis na plataforma da Rede Genômica são de dezembro de 2022, já que leva algum tempo para analisar e processar esses dados, que são divulgados uma vez por mês.

Na sexta-feira passada, dia 13, a Fiocruz emitiu uma nota alertando para uma mudança: um aumento considerável de amostras sem a mutação Spike_69/70del, comum nas linhagens anteriores, do que se concluiu que essas amostras correspondem à linhagem XBB.1. É ela que foi batizada de Kraken – um gigantesco monstro da mitologia nórdica – e é considerada a mais transmissível já encontrada até agora.

Mas não há motivo para pânico: a OMS não considera que essa linhagem possa gerar uma doença mais grave, ainda que apresente um escape maior do sistema imune, seja por vacinação e/ou infecção prévia. “A Kraken tem se espalhado e aumentado o número de casos majoritariamente nos Estados Unidos. No Brasil, temos algumas detecções, em alguns estados. Em Pernambuco não detectamos a Kraken em dezembro e já estamos fazendo o sequenciamento de algumas amostras do início de janeiro e até agora não temos evidência de detecção dessa subvariante”, afirmou o pesquisador da Fiocruz-PE Gabriel Wallau, coordenador da Rede Genômica da Fiocruz em Pernambuco.

Em Pernambuco são duas as linhagens dominantes, de acordo com levantamento de dezembro – que não veio nos boletins, inexistentes. “São a BQ1 e BQ1.1, que são muito parecidas, e a DL1, que provavelmente surgiu em Pernambuco. Também é uma subvariante da Ômicron, que aumentou bastante de frequência no estado e se espalhou pelo Nordeste e também um pouco no Sudeste”, explica Wallau.

Para ele, é importante, sim, divulgar amplamente os dados sobre a covid-19, mas talvez não da forma que estava sendo feito até pouco tempo atrás. “Atualmente eu acredito que a covid-19 deveria entrar na comunicação corriqueira que já era feita para outros agravos. Como deveremos ter um período de endemicidade, com o Sars-cov2 infectando a população de tempos em tempos, entraria como mais um agravo. Mas todos os agravos devem ser amplamente divulgados: para que a população consiga se precaver e agir de acordo”, afirma.

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