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	<title>Arquivos extrema direita - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Fri, 06 Feb 2026 18:16:30 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos extrema direita - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>Sem imigrantes a economia pararia”, diz chef português ao criticar voto dos imigrantes portugueses do Recife</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Feb 2026 17:43:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[eleições em Portugal]]></category>
		<category><![CDATA[extrema direita]]></category>
		<category><![CDATA[imigração]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Na condição de &#8220;delegado eleitoral&#8221; voluntário, o empresário e chef de cozinha Jaime Fernandes Alves passou dois dias inteiros acompanhando a movimentação dos seus conterrâneos que foram votar para presidente no consulado português no bairro de Boa Viagem. Na noite do domingo, 18 de janeiro, ele foi tomado por um misto de vergonha e indignação com o resultado da [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Na condição de &#8220;delegado eleitoral&#8221; voluntário, o empresário e <em>chef</em> de cozinha Jaime Fernandes Alves passou dois dias inteiros acompanhando a movimentação dos seus conterrâneos que foram votar para presidente no consulado português no bairro de Boa Viagem. Na noite do domingo, 18 de janeiro, ele foi tomado por um misto de vergonha e indignação com o resultado da urna do Recife: o candidato da extrema direita que baseia sua campanha atacando os imigrantes em Portugal, André Ventura, teve 49,6% dos votos dos 260 eleitores portugueses que vivem na região e se dispuseram a votar — a abstenção ultrapassou os 95%.</p>



<p>Veja os resultados completos<a href="https://www.rtp.pt/eleicoes/presidenciais-resultados/2026/regiao-america/pais-brasil/consulado-recife/920306#resultados" target="_blank" rel="noreferrer noopener">aqui</a>.</p>



<p>Na véspera do segundo turno, previsto para acontecer no próximo domingo, 8 de fevereiro, Alves retornará ao consulado de seu país para votar no candidato da centro-esquerda, Antônio José Seguro, que aparece à frente das pesquisas em Portugal com uma vantagem confortável. No entanto, ele não acredita que o cenário de apatia irá mudar. &#8220;A reação possível é a do voto útil. Antônio José Seguro, <strong>que</strong> é filiado ao Partido Socialista mesmo não sendo um homem da esquerda, recebeu os votos de parte da direita séria e civilizada que existe em Portugal e receberá o voto útil tanto da esquerda, como o meu, que não quer a extrema direita de volta ao poder&#8221;, especula o <em>chef</em>.</p>



<p>Jaime Alves revela o motivo de sua indignação. &#8220;Não há razão nenhuma para hoje sermos contra os imigrantes. Portugal foi sempre um país de emigração. Nos vários países do mundo existem mais de 4 milhões de imigrantes portugueses espalhados, o que representa 40% da população que vive em Portugal, um país que vive, essencialmente, do turismo e das entradas de receitas enviadas pelos trabalhadores emigrantes portugueses&#8221;.</p>



<p>Segundo ele, mesmo quando esses emigrantes retornam para a terra natal depois de aposentados, a economia portuguesa é diretamente beneficiada: quem regressa &#8220;do Canadá, da Suíça, da França e de muitos outros lugares, como Luxemburgo e Bélgica, volta recebendo as suas grandes aposentadorias, cinco a seis vezes maiores do que as aposentadorias de Portugal. Isso gera entradas de dinheiro fabulosas todos os dias nos cofres daquele país&#8221;.</p>



<p>Esta é uma realidade que ele conhece bem, pois passou a maior parte de sua vida em terras estrangeiras. Antes de migrar para o Brasil em 2009, ano em que abriu um restaurante de comida lusitana em Olinda, ele vivia na cidade<strong>de</strong>Nanterre, vizinha a Paris, onde também era dono de um restaurante. &#8220;Emigrei pela primeira vez aos 11 anos. Fui morar com meus avós e trabalhar como garçom numa taverna no norte da Espanha, pois o salário que se pagava a uma criança na Espanha era maior do que um salário de adulto em Portugal na época da ditadura de Salazar&#8221;. Antônio Salazar, inspirador de André Ventura e do seu partido, o Chega, governou o país por 36 anos, de 1932 a 1968.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/como-brasileiros-que-vivem-em-portugal-alimentam-o-racismo-xenofobia/" class="titulo">Como brasileiros que vivem em Portugal alimentam o racismo, a xenofobia e o desprezo a imigrantes pobres</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/raca/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Raça</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p><strong>Imigrantes levam a culpa pelo insucesso alheio</strong></p>



<p>Em seu contato com os eleitores de Ventura que vivem em Pernambuco, Alves costuma ouvir frases como &#8220;os ciganos têm mais regalias que os portugueses&#8221;, &#8220;Portugal está uma bandalheira por causa dos muçulmanos&#8221; ou &#8220;os hospitais agora só curam os imigrantes&#8221;. Não é à toa que um dos slogans do Chega é &#8220;Portugal não é Bangladesh&#8221;.</p>



<p>Jaime Alves é implacável ao interpretar esse tipo de reação dos eleitores de direita: &#8220;as pessoas não conseguem admitir os próprios erros ou as verdadeiras causas de suas frustrações, então culpam os imigrantes pelo próprio insucesso. Culpam ciganos porque não entendem que foram as decisões dos políticos que elegeram que estão entregando os serviços médicos para o setor privado, e que empresários só têm interesse no lucro e não na saúde das pessoas&#8221;.</p>



<p>Ele conta que os ciganos estão há 300 anos em Portugal, então são portugueses, mas continuam sendo vítimas de preconceito se são pobres. &#8220;Quando o cigano é dono de joalheria, não é discriminado, é visto como português. O jogador<a href="https://rumores.pt/ricardo-quaresma-reage-de-forma-inesperada-a-vitoria-de-antonio-jose-seguro-nas-presidenciais/189693/"> Ricardo Quaresma</a>, por exemplo, jogava no Sporting e na seleção portuguesa, mas ninguém o chamava de jogador cigano, e sim de atleta português&#8221;. Quaresma, aliás, decidiu participar ativamente da campanha eleitoral pedindo votos contra Ventura.</p>



<p>O <em>chef</em> português também acredita que os interesses financeiros impedem que os políticos e parte da sociedade portuguesa apontem os dedos para os verdadeiros responsáveis pelo aumento da violência em seu país. &#8220;Nada dizem sobre os grupos armados brasileiros do PCC e do Comando Vermelho que estão se instalando nos subúrbios das cidades portuguesas. E sabe por que nada dizem? Porque esses grupos armados estão financiando campanhas eleitorais e empreendimentos privados para lavar dinheiro&#8221;, acusa.</p>



<p>E por falar em dinheiro, as contribuições previdenciárias dos trabalhadores imigrantes garantem o pagamento de <a href="https://www.publico.pt/2024/11/20/publico-brasil/noticia/imigrantes-garantem-recursos-pagamento-17-aposentadorias-portugal-2112695" target="_blank" rel="noreferrer noopener">17% das aposentadorias</a> de portugueses. Só os brasileiros deixam o equivalente a <a href="https://oglobo.globo.com/blogs/portugal-giro/post/2026/02/brasileiros-pagam-a-previdencia-r-31-bi-e-desmentem-ultradireita-em-portugal.ghtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener">R$ 31 bilhões</a> no sistema de seguridade social de Portugal. Alves recorda esses fatos ao mencionar o constrangimento que o extremista Ventura enfrentou nesta última semana de campanha ao visitar uma área agrícola atingida pelas tempestades que provocaram estragos em, pelo menos, 69 municípios portugueses.</p>



<p>&#8220;Vi hoje um vídeo do Ventura indo visitar uma empresa, agora na campanha, e o diretor da empresa foi ao encontro dele e disse &#8216;queria lhe comunicar que aqui nesta empresa todos os funcionários são imigrantes, são estrangeiros, só um é que não é, só tem um que não é, que é um engenheiro. E do resto, de todos os imigrantes, Portugal não vive hoje sem imigração&#8217;. É isso mesmo, sem os imigrantes a economia pararia, ficaria um caos&#8221;, contou Alves.</p>



<p>O episódio citado pelo <em>chef</em> aconteceu numa região chamada Torres Vedras, onde <a href="https://www.noticiasaominuto.com/politica/2932226/no-oeste-ventura-ouve-nos-dependemos-100-de-mao-de-obra-estrangeira" target="_blank" rel="noreferrer noopener">o empresário Paulo Maria</a> o confrontou durante um evento de campanha junto a empresários da região. No mesmo dia, o governo de centro-direita anunciou que, por falta de mão de obra na construção civil, teria de abrir &#8220;vias de entrada&#8221; para <a href="https://eco.sapo.pt/2026/02/04/governo-vai-ter-de-abrir-via-de-entrada-de-trabalhadores-para-reconstrucao-imigrantes-claro-diz-marcelo/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">mais imigrantes trabalharem na reconstrução</a> nas áreas atingidas pelas tempestades.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Em maio de 2019, a Marco Zero entrevistou André Ventura, que se apresentava como o Bolsonaro de Portugal:</strong></li>
</ul>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/conheca-andre-ventura-o-bolsoluso-que-disputa-as-eleicoes-na-europa/" class="titulo">Conheça André Ventura, o &#8220;Bolsoluso&#8221; que disputa as eleições na Europa</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/democracia/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Democracia</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

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		<title>O camponês e a medicina</title>
		<link>https://marcozero.org/o-campones-e-a-medicina/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 29 Sep 2025 21:15:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[extrema direita]]></category>
		<category><![CDATA[MST]]></category>
		<category><![CDATA[reforma agrária]]></category>
		<category><![CDATA[UFPE]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Augusto Cezar* Vivemos em um momento histórico de transição, marcado por uma lentidão para a resolução das nossas desigualdades e povoado de contradições. O Brasil segue devendo reparações fundamentais ao seu povo, especialmente àqueles que vivem nas margens desse projeto nacional: populações do campo, da floresta e das águas. A falta de políticas públicas [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Augusto Cezar*</strong></p>



<p>Vivemos em um momento histórico de transição, marcado por uma lentidão para a resolução das nossas desigualdades e povoado de contradições. O Brasil segue devendo reparações fundamentais ao seu povo, especialmente àqueles que vivem nas margens desse projeto nacional: populações do campo, da floresta e das águas. </p>



<p>A falta de políticas públicas estruturantes — como a reforma agrária, urbana e tributária justa — perpetua desigualdades históricas que se tornam mais visíveis quando analisamos a realidade da saúde e da formação médica no país.</p>



<p>Diferente das promessas vazias que escorrem do alto, o Pronera (Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária) é um exemplo de política pública transformadora. Ao promover acesso à educação desde a escolarização até as pós-graduações para camponeses e camponesas, esse programa atua diretamente na ruptura do ciclo de exclusão que impede milhões de brasileiros de terem acesso à educação. Até 2025, foram beneficiados 192.764 alunos em todos os níveis de educação.</p>



<p>Nesse sentido, a medicina é um dos campos mais emblemáticos dessa desigualdade. A Demografia Médica do Brasil 2025 apresenta quem são a maioria dos “jalecos brancos”. Brancos e de classe alta: 68,6% dos alunos de Medicina são brancos e 66% vieram do ensino médio privado. Apenas 34% são egressos da escola pública, muito abaixo da média nacional de 65,7% dos estudantes quando comparados a todas as graduações.</p>



<p>Mais grave ainda é a concentração das vagas em instituições privadas: 77,7% das matrículas em Medicina estão em faculdades particulares, que em geral praticam uma política de inclusão pífia ou inexistente.</p>



<p>Apesar dos avanços das cotas raciais e sociais em instituições públicas, o acesso continua restrito e pouco representativo da diversidade brasileira. Dos 266 mil estudantes de medicina em 2023, apenas 9% entraram por programas de reserva de vagas. </p>



<p>A consequência dessa lógica elitista se reflete na distribuição geográfica dos médicos. O Índice de Distribuição de Médicos Capital/Interior (IDCI) mostra que as capitais concentram 366% mais médicos por habitante do que o interior. No Nordeste, o índice chega a 732% de diferença. Isso em um país onde dois terços da população vive em municípios com menos de 500 mil habitantes — ou seja, o Brasil profundo permanece desassistido.</p>



<p>A realidade é conhecida por quem vive longe dos grandes centros: conseguir um médico disponível em áreas rurais e ribeirinhas continua sendo um desafio cotidiano. As políticas de provimento — como o Programa Mais Médicos — avançaram, mas são medidas paliativas se não forem acompanhadas por mudanças estruturais de fixação desses profissionais a longo prazo. </p>



<p>A universidade tem papel central nessa transformação. Para ser um espaço de excelência científica, é necessário refletir e responder ao contexto social brasileiro. A Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) vem reconhecendo essa urgência ao adotar políticas afirmativas para o acesso ao curso superior há alguns anos, como a licenciatura intercultural indígena.</p>



<p>O Pronera, ao tocar na formação médica, desencadeou um conjunto de reações que misturam o pior do atraso brasileiro, a mesquindade, o individualismo, o racismo e o ódio aos pobres. </p>



<p>Ao realizar oferta supranumerária para o curso de Medicina no campus do agreste pernambucano, pioneiro na interiorização do curso de medicina, para pessoas oriundas do campo a reação foi somente amplificada na versão daqueles que já tem médico para seu cuidado, alimentados pela fábula da meritocracia e da individualização de pequenas conquistas que não reestruturaram a realidade médica nacional e que não respeitam a cor e não pisam nos locais de onde esses estudantes são oriundos.</p>



<p>A própria postura de associações de médicos, inclusive de outros estados assinando notas contrárias ao exercício legal de uma política pública que propõe contribuir na reparação histórica ou a contrariedade às cotas nas vagas de residência médica, só nos permite compreender que essa política mexe com algumas estruturas e causam incômodos.</p>



<p>Movimentos que não observamos aos desafios do exercício profissional como a precarização das relações de trabalho ou desfinanciamento da saúde pública. </p>



<p>Por falar de ciência, no que se refere a estratégias estruturantes para resolver o problema da escassez de médicos no interior, essa é uma das medidas alinhadas às diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e às políticas do SUS, especialmente à Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo, Floresta e Águas (PNSIPCF).</p>



<p>Universalizar com equidade a formação médica no nosso país, criando dispositivos de acesso que considerem não só a renda, mas também o território de origem dos estudantes. Afinal, formar médicos oriundos desses territórios é uma das formas mais eficazes de garantir que o cuidado em saúde chegue aonde ele é mais necessário.</p>



<p>Contrapor as posições contrárias às políticas afirmativas é parte desse processo. Os que resistem à democratização da medicina não fazem isso em nome da qualidade, mas, sim, da manutenção de privilégios. Não se trata de baixar o rigor — trata-se de temperá-lo com ciência socialmente referenciada. E isso exige coragem institucional e ousadia popular.</p>



<p>Destaque tem sido a acolhida da UFPE, sua comunidade acadêmica de docentes, discentes, técnicos bem como a solidariedade no cenário nacional. O Brasil precisa, com urgência, aumentar a formação de médicos que tenham a vivência dessas localidades, a vida como ela é. Médicos/as que saibam o valor de uma unidade básica no sertão, de um posto fluvial na Amazônia, de uma visita domiciliar em uma comunidade quilombola, que dêem valor às exaustivas viagens à capital em busca de uma especialidade focal. </p>



<p>Médicos/as que falem a língua do povo — não só no sentido simbólico, mas no literal também. Nossa melhor aposta para resolver esse problema dessas comunidades vem delas mesmas, formando seus filhos e filhas para o cuidado médico com ciência e consciência.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p>*Augusto Cezar é médico e professor da UFPE</p>
    </div>
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		<title>Por que curso de Medicina para assentados e quilombolas virou alvo de ataques e fake news</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 29 Sep 2025 20:27:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[cruso de Medicina]]></category>
		<category><![CDATA[extrema direita]]></category>
		<category><![CDATA[Incra]]></category>
		<category><![CDATA[MST]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Política pública consolidada, com quase três décadas de existência, o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera) virou o mais recente alvo de desinformação e ataques da extrema direita. A criação da primeira turma de Medicina do país pelo Pronera, na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no Centro Acadêmico do Agreste, em Caruaru, desencadeou [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Política pública consolidada, com quase três décadas de existência, o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera) virou o mais recente alvo de desinformação e ataques da extrema direita. A criação da primeira turma de Medicina do país pelo Pronera, na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no Centro Acadêmico do Agreste, em Caruaru, desencadeou uma onda de críticas que misturam notícias falsas e revolta de conselhos e associações médicas. O caso foi parar na Justiça.</p>



<p>Em vídeos viralizados, políticos como o vereador do Recife Thiago Medina (PL-PE) distorceram os fatos: “Quer fazer medicina na UFPE? Agora ficou muito fácil. Mas só se você for do MST (&#8230;). Eles cansaram de roubar a terra e querem roubar a vaga na universidade agora”.</p>



<p>A narrativa falsa de um curso &#8220;exclusivo para o MST&#8221; e sem processo seletivo ignora que a iniciativa é voltada a diversas populações do campo, como assentados, quilombolas e acampados, e que a seleção, conduzida pela universidade, inclui prova e análise de histórico escolar.</p>



<p>Medina denunciou a UFPE numa ação popular na 9ª Vara da Justiça Federal para tentar derrubar a medida. O curso de Medicina pelo Pronera não é o primeiro a sofrer ataques. Formações como Engenharia, Direito e Medicina Veterinária também já foram alvo em outras universidades.</p>



<p>A reação não se limitou às redes sociais nem a parlamentares. Entidades como o Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe) e o Sindicato dos Médicos de Pernambuco (Simepe) também se manifestaram publicamente, alegando que a seleção específica “afronta os princípios da isonomia e do acesso universal”.</p>



<p>Os ataques expõem não apenas o histórico brasileiro de resistência a ações afirmativas, mas também a dificuldade de parte da sociedade aceitar a democratização de um curso historicamente elitizado.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Política de Estado sob ataque</h2>



<p>Criado em 1998, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, o Pronera é uma política de Estado, não dos governos petistas. Realizado pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), em parceria com instituições de ensino, governos estaduais e municipais, movimentos sociais e sindicais, a iniciativa surgiu com a proposta de democratizar o acesso à educação pública de qualidade.</p>



<p>É fruto da mobilização por educação no campo e consequência direta das ações de violência, como os massacres de Corumbiara e de Eldorado dos Carajás.</p>



<p>Em quase três décadas, o programa já formou quase 200 mil estudantes em 545 cursos em todos os estados brasileiros, da alfabetização à pós-graduação. O curso de Medicina na UFPE terá 80 vagas exclusivas, sendo 40 de ampla concorrência e outras 40 destinadas a quem pode ser atendido por modalidades de ações afirmativas (cotas).</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/09/medicina-caruaru.jpg" alt="A foto mostra a fachada de um prédio com uma grande placa branca e faixa vermelha, onde se lê em letras maiúsculas: “CURSO DE MEDICINA”. Acima, aparece o logotipo da Universidade Federal de Pernambuco e a identificação “Campus do Agreste”. Abaixo da faixa, há uma parede pintada em verde e amarelo-claro, com portas de enrolar azuis fechadas. Na frente do prédio, vê-se uma pequena palmeira decorativa." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Campus da UFPE em Caruaru receberá curso do Pronera
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Divulgação UFPE</span>
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<p>Estão aptos a se candidatar assentados da reforma agrária e integrantes de famílias beneficiárias do crédito fundiário; educandos egressos de cursos de especialização promovidos pelo Incra; educadores que exerçam atividades voltadas às famílias beneficiárias; acampados cadastrados pelo instituto; e quilombolas.</p>



<p>Apesar das ameaças, a universidade manteve seu posicionamento. O reitor da UFPE, Alfredo Gomes, destacou a legitimidade da ação e seu compromisso social. “Uma iniciativa amparada pela lei, legítima, justa e transparente (&#8230;). A Universidade Federal de Pernambuco é gigante. Não vai se intimidar nem desviar da sua missão de levar formação de qualidade a todos”.</p>



<p>Ele lembra que a dificuldade de atendimento médico no interior é um problema conhecido e que o curso visa formar profissionais voltados para a realidade do Agreste e do Sertão.</p>



<p>Segundo a coordenadora-geral de Educação, Arte e Cultura do Campo do Incra, Clarice dos Santos, o curso inédito é resultado da parceria articulada pelo Pronera, envolvendo o Incra, movimentos e organizações populares do campo e a UFPE, assim como ministérios, especialmente o da Saúde.</p>



<p>“Celebramos a abertura desta turma pelo compromisso revelado por todas essas instituições na formação de médicos e médicas camponeses, em uma iniciativa que ajuda a fortalecer o SUS no atendimento à saúde nas áreas rurais, ainda um grande desafio no nosso país”, considera a gestora.</p>



<p>O Incra defende que “a Educação do Campo é um direito e se realiza por diferentes territórios e práticas sociais que incorporam a diversidade do meio rural. Garante a ampliação das possibilidades de criação e recriação de condições de existência da agricultura familiar.”</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>O que incomoda tanto?</strong></h2>



<p>Para a deputada estadual Rosa Amorim (PT-PE), do MST, a reação tem um alvo evidente: a origem social dos futuros médicos. “O fato dos camponeses e povos camponeses, tradicionais, poderem fazer medicina (&#8230;) tem incomodado tanto. Um curso que tradicionalmente sempre foi para os filhos da elite, agora vai dar a oportunidade para que a mão que sempre segurou a enxada possa cuidar do povo”, afirma.</p>



<p>Para ela, a iniciativa “remexeu as estruturas e mostrou complacismo de quem não quer que pobre tenha um diploma na mão”.</p>



<p>A perspectiva é compartilhada por especialistas em saúde pública. Para Cláudia Travassos, diretora do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes) e pesquisadora da Fiocruz, a iniciativa é uma conquista que vai além do acesso à universidade.</p>



<p>“O curso de Medicina para assentados e quilombolas é uma conquista histórica. Ele reconhece que a formação de profissionais de saúde precisa dialogar com as realidades sociais e territoriais do país, não apenas com os grandes centros urbanos”, avalia. O objetivo, segundo o Cebes, é formar médicos com vínculo comunitário, mais comprometidos com o SUS e com a redução das desigualdades.</p>



<p>A principal crítica das entidades médicas é a suposta quebra de isonomia por um vestibular próprio, sem o Enem. No entanto, processos seletivos específicos para públicos determinados não são novidade. A própria UFPE, assim como a Universidade de Brasília (UnB) e a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), já realizam vestibulares diferenciados para indígenas e quilombolas. A UFPE, por exemplo, oferece o curso de licenciatura intercultural indígena exclusivo.</p>



<p>As associações que agora se preocupam com a isonomia, aponta o Cebes, silenciam sobre a barreira econômica do curso de Medicina, com mensalidades que ultrapassam R$ 10 mil nas faculdades privadas.</p>



<p>Fontes ouvidas pela <strong>Marco Zero</strong> acreditam que, embora possa ocorrer judicializações, a jurisprudência favorável a outras turmas do Pronera garantirá a continuidade do curso. O que talvez possa ocorrer é um possível atraso no início do processo seletivo e das aulas. A publicação do resultado final está prevista para até o dia 16 de outubro e o início das aulas, no dia 20 do mesmo mês.</p>
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		<title>Extrema-direita usa as pesquisas eleitorais para atingir credibilidade da imprensa</title>
		<link>https://marcozero.org/extrema-direita-usa-as-pesquisas-eleitorais-para-atingir-credibilidade-da-imprensa/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 26 Oct 2022 19:59:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[#eleições2022]]></category>
		<category><![CDATA[bolsonarismo]]></category>
		<category><![CDATA[campanha eleitoral]]></category>
		<category><![CDATA[comunicação]]></category>
		<category><![CDATA[extrema direita]]></category>
		<category><![CDATA[pesquisa eleitoral]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Nos últimos dias para a eleição do segundo turno há um bombardeio de pesquisas eleitorais. Desta quarta-feira (26) até o sábado (29), véspera das eleições, serão divulgadas pelo menos 11 pesquisas para presidente. Após o primeiro turno deste ano, com vários resultados fora da margem de erro das pesquisas divulgadas dias antes, teve início um [&#8230;]</p>
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<p>Nos últimos dias para a eleição do segundo turno há um bombardeio de pesquisas eleitorais. Desta quarta-feira (26) até o sábado (29), véspera das eleições, serão divulgadas pelo menos 11 pesquisas para presidente. Após o primeiro turno deste ano, com vários resultados fora da margem de erro das pesquisas divulgadas dias antes, teve início um feroz movimento no Congresso para a punição dos institutos de pesquisa.</p>



<p>A busca por criminalizar as pesquisas eleitorais não é algo novo e há registros de projetos de lei neste sentido desde  a primeira eleição da redemocratização do Brasil. Ainda assim, chama a atenção as movimentações das últimas semanas encabeçadas pelo presidente da Câmara Federal, Arthur Lira, que conseguiu aprovar a urgência de um projeto de lei que amplia multas a institutos de pesquisa e altera o conceito de pesquisa fraudulenta, prevendo até prisão.</p>



<p>Além deste projeto de lei, aliados do presidente Bolsonaro, incluindo o filho Eduardo Bolsonaro (PL), protocolaram na sexta-feira (21) um pedido de uma CPI para investigar os institutos, que também é apoiada por Lira.</p>



<p>Alvo dos bolsonaristas, pesquisadores também têm sido agredidos no Brasil afora. Em nota, a Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep) e a Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (Abrapel) repudiaram nesta semana as agressões. “As empresas de pesquisa realizam um trabalho importante para o processo eleitoral, fornecendo informações relevantes à população. A tentativa de interferir no trabalho dessas empresas ou descredibilizá-las representa uma afronta à liberdade de expressão e à própria democracia”, afirmam as associações.</p>



<p>Ainda que não devam ser criminalizadas, as pesquisas eleitorais precisam ser olhadas de uma forma mais realista, acreditam especialistas. “A pesquisa é uma estimativa do momento em que foi realizada, e não pode ser encarada como previsão do futuro”, afirma o professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS) Carlos Figueiredo, pesquisador das áreas de comunicação e economia.</p>



<p>O cientista político Antônio Torres, doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), faz coro ao ratificar que as pesquisas são um retrato do momento. “Não têm a intenção de prever o resultado eleitoral. Uma das formas que se utiliza para ver se os institutos foram bem ou não é comparando com o dia da eleição. Mas existem outras formas mais adequadas. Todas essas situações de incerteza do eleitorado no voto, de migração de última hora para um possível voto útil podem também ter acontecido no primeiro turno. Mas um sintoma que vem sendo identificado é que as pesquisas estão subestimando os votos em Bolsonaro”, avalia Antônio Torres.</p>



<p>Essa fenda em relação ao total de votos em Bolsonaro é bem nítida quando se compara o resultado das urnas às pesquisas do dia anterior ao primeiro turno. As pesquisas de voto em Bolsonaro variavam entre 34% (Datafolha e Ipec) e 37,3% (Paraná Pesquisas) – ou seja, de -7,29 a -3,99 pontos em relação ao resultado das urnas que foi de 43,2%. </p>



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	                                        <p class="m-0">Carlos Figueiredo. Crédito: Acervo pessoal</p>
	                
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<p>Minar a credibilidade da imprensa é uma das principais estratégias da extrema-direita e as pesquisas estão também sendo usadas para isso. Um exemplo é o pedido do Ministro das Comunicações, Fábio Faria, para que os eleitores de Bolsonaro boicotassem as pesquisas. “No primeiro turno, o voto envergonhado pode ter sido o voto em Bolsonaro e não no Lula, como muita gente acreditava. É muito difícil verificar essa hipótese, mas pode ter existido a influência da guerra comunicacional que a extrema-direita trava nos dias que antecedem às eleições, e que pode ter conquistado o eleitor de Ciro Gomes e Simone Tebet. A discrepância entre as pesquisas e o resultado das urnas acaba se tornando um elemento utilizado pela extrema-direita para desacreditar os institutos de pesquisa e a imprensa, que veicula esses levantamentos”, afirma Carlos Figueiredo.</p>



<p>Além da estratégia da extrema-direita, o atraso no Censo, que deixa uma infinidade de dados no Brasil defasados, também pode ter influenciado nas discrepâncias. Figueiredo aponta que o instituto Atlas, que divulgou resultados mais próximos das urnas, usou a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua de 2021, e não o Censo 2010. “As amostras podem ter representado equivocadamente determinadas classes sociais, grupos religiosos entre outros, pois os dados utilizados para construir as amostras estão defasados e não correspondem mais à realidade. Quanto à metodologia, não sei se seria o caso de mudá-la radicalmente. Mas a construção da amostra deveria utilizar, sim, dados mais recentes”, acredita.</p>



<p>Outro ponto levantado por Carlos Figueiredo é que a abstenção é difícil de ser medida por meio das pesquisas eleitorais. “O cientista político Antônio Lavareda, que possui larga experiência de atuação em campanhas políticas, apontou que a abstenção eleitoral pode ter desempenhado um papel muito relevante. Poucas pessoas confessam que não votarão quando respondem a pesquisas, mas a abstenção alcançou 20,95%, quase 33 milhões de votos. Os números de brancos e nulos também foram muito baixos, cerca de 4,3%, quase metade da média histórica. Esses números apontam para um voto decidido no último momento”, aponta.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Pesquisas eleitorais no centro da cobertura</h2>



<p>As pesquisas de intenção de voto são super exploradas pela imprensa? Há um peso exacerbado dessas pesquisas na cobertura jornalística? Tema de vários estudos acadêmicos, é difícil falar de cobertura eleitoral na grande mídia sem que as pesquisas estejam no centro da cobertura eleitoral. Emissoras de TV e grandes portais gastam centenas de milhares de reais com pesquisas, eleições após eleições.</p>



<p>Para o professor da UFS, as pesquisas ocupam essa centralidade porque jornalistas precisam transformar a política em uma narrativa atraente. Mas a cobertura das estratégias dos grupos políticos, embora sejam pratos cheios para narrativas envolventes e com emoção, tendem a ser repletas de informações de bastidores, observações, sentimentos, frases e expressões que carecem de “objetividade”.</p>



<p>“Para comentar sobre política de forma &#8216;objetiva&#8217; os jornalistas precisam de dados que sustentem essa pretensa objetividade. As pesquisas fornecem esse dado objetivo coletado e analisado a partir de uma metodologia sólida. Nos períodos não-eleitorais, é comum jornalistas dos canais de notícias por assinatura discutirem as taxas de aprovação dos governos estaduais e federal, por exemplo. Nas eleições, essa lógica é exacerbada. A partir das mudanças nas pesquisas, que podem sugerir tendências do eleitorado, os comentaristas da mídia postulam possíveis estratégias, dão veredictos, criticam as ações das campanhas dos candidatos, por exemplo, sempre com base em dados que seguem critérios científicos com larga tradição nas ciências sociais”, afirma Carlos Figueiredo.</p>



<p>O cientista político Antônio Torres vê que há uma ansiedade na imprensa e que as pesquisas políticas acabam sendo veiculadas de forma equivocada. “Principalmente quando se chega na reta final da campanha e as manchetes focam nos votos válidos. Acaba sendo um uso que, de certa forma, quer buscar uma antecipação do resultado, que não é o propósito das pesquisas”, diz.</p>



<p>Esse foco nas pesquisas, acredita Antônio, se intensificou nestas eleições com os sites que agregam várias pesquisas e a proliferação dos institutos fazendo pesquisa eleitoral. “É difícil não colocar a pesquisa como central nessa cobertura quando o que temos visto é mais e mais pesquisas sendo feitas. Isso pode confundir os eleitores, porque tem várias pesquisas, com metodologias diferentes que não são comparáveis. E essa diferença de percentuais entre institutos acaba fazendo que haja ainda mais discussões, deixando as pesquisas ainda mais centrais”, diz.</p>



<p>Para Carlos Figueiredo, o problema de colocar as pesquisas nessa centralidade da cobertura é que questões envolvendo os problemas públicos e desafios dos governos a serem eleitos passam ao largo da cobertura, que acaba tomando um rumo despolitizante. “É o que alguns estudiosos chamam enquadramento da &#8216;corrida de cavalos&#8217;. A eleição é tratada como uma corrida em que cada participante traça suas estratégias, cujo sucesso será debatido a cada nova pesquisa eleitoral. O grande problema é que vivemos em um mundo em que as instituições parecem desmoronar diante dos nossos olhos, e determinadas ações como ataques às instituições, desinformação, entre outros, são tratadas simplesmente como &#8216;estratégias&#8217;. É um mundo complexo, e isso exige que os jornalistas políticos se esforcem para explicá-lo ao público”, afirma.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>Uma questão importante!</strong></p><cite><em>Colocar em prática um projeto jornalístico ousado como esse da cobertura das Eleições 2022 é caro. Precisamos do apoio das nossas leitoras e leitores para realizar tudo que planejamos com um mínimo de tranquilidade. Doe para a Marco Zero. É muito fácil. Você pode acessar nossa</em><a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">página de doação</a><em>ou, se preferir, usar nosso</em><strong>PIX (CNPJ: 28.660.021/0001-52)</strong><em>.</em><br><br><strong>Nessa eleição, apoie o jornalismo que está do seu lado</strong></cite></blockquote>
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		<title>Apreensão e expectativas na cena eleitoral</title>
		<link>https://marcozero.org/apreensao-e-expectativas-na-cena-eleitoral/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 Jul 2022 19:03:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[bolsonaro]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2022]]></category>
		<category><![CDATA[extrema direita]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Carmen Silva* A apreensão está tomando os corações de muitas pessoas comprometidas com a democracia nesta conjuntura eleitoral. Além da precarização das condições de vida das mulheres e de todo mundo que vive do trabalho, em função das políticas do governo federal, ainda estamos vivendo uma nova onda de contágio da Covid 19 associada [&#8230;]</p>
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<p><strong>Por Carmen Silva</strong>*</p>



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<p>A apreensão está tomando os corações de muitas pessoas comprometidas com a democracia nesta conjuntura eleitoral. Além da precarização das condições de vida das mulheres e de todo mundo que vive do trabalho, em função das políticas do governo federal, ainda estamos vivendo uma nova onda de contágio da Covid 19 associada à uma miríade de adoecimentos que assola o cotidiano de todas nós. Projetos de lei propondo retrocessos em todas as casas legislativas, desastres-crimes ambientais com consequências avassaladoras sobre as pessoas negras e pobres nas periferias, e a justiça operando para negar direitos como no caso do aborto de uma menina de 11 anos de Santa Catarina, são exemplos de como o noticiário nos assombra a cada dia. Como se não bastasse tudo isso, o bolsonarismo está mostrando as garras e tentando consolidar uma escalada de violência política, como demonstrado na explosão da bomba no ato público pró Lula no Rio de Janeiro e no assassinato do dirigente petista em Foz do Iguaçu. Fica a pergunta: Que cenário está se desenhando com as eleições 2022? O que eles indicam como desafios para os movimentos sociais e para a esquerda em geral?</p>



<p>Não vou me propor a responder totalmente esta pergunta difícil, mas proponho uma reflexão sobre as possibilidades que vão sendo indicadas quanto mais nos aproximamos do pleito de outubro. As eleições deste ano não serão uma simples troca de turno no comando do Estado. A situação pós golpe de 2016, e, em consequência, pós eleições de 2018, é de terra arrasada. A extrema direita no governo federal, e sua maioria no Congresso Nacional, quebraram a espinha dorsal da arquitetura de direitos conquistada com a Constituição de 1988. Partes do sistema de justiça foram avacalhadas com as manobras da operação lava jato e outras ainda titubeiam frente aos crimes eleitorais do presidente-candidato, como a mais recente suspensão da legislação restritiva no período para realizar os gastos e obter os benefícios que desejar durante as eleições.</p>



<p>Mas não basta vermos os fatos. É preciso avaliarmos a correlação entre as forças políticas que estão por trás destes fatos. Tentar especular sobre qual a verdadeira capacidade de ação da extrema direita frente à unidade da centro-esquerda com setores de direita que está desenhada em torno da candidatura Lula. Mais que isso, precisamos discutir se as condições de operação no cenário político que Bolsonaro tem demonstrado se devem a quais setores econômicos e militares. Ou seja, quem ainda sustenta Bolsonaro? Esta pergunta não parte da imaginação de possibilidades de derrubada, mas sim da verificação de que ele continua operando com decisão no Congresso Nacional e contendo forças institucionais que poderiam colocá-lo em xeque mate.</p>



<p>Para os movimentos sociais que estão construindo as lutas populares no dia a dia, as expectativas são muitas. Dormimos com fé e esperança e acordamos desalentados e cuidando de nossa própria segurança. As forças bolsonaristas, incluindo aí grupos armados e o fundamentalismo religioso, estão atuando nas periferias das grandes cidades, nas zonas rurais e nas áreas de conflito deflagrado, ameaçando e cumprindo ameaças. Eles querem fazer da campanha eleitoral uma praça de guerra, seguem destilando ódio contras as mulheres, povos indígenas, quilombolas, dissidentes sexuais e lideranças populares, e fortalecendo a polarização entre Lula e Bolsonaro, de forma despolitizada e baseada em mentiras disparadas em redes sociais, estruturadas de formas a parecerem verdades.</p>



<p>As análises de cenário indicam riscos de Bolsonaro realizar suas ameaças golpistas antes ou depois do pleito, reeditando a aventura trumpista do capitólio nos EUA. Mas, como lá, tem fortes indícios de que não seriam vitoriosos. Todavia, como diz o ditado popular, ‘gato escaldado tem medo de água fria’. Não nos custa lidarmos com estas constantes ameaças de forma crítica, porém precavida. Várias organizações e movimentos sociais, entre os quais o SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia, recorreram à ONU solicitando acompanhamento das eleições de outubro, sabendo que isso não resolve, mas ajuda a ampliar o apoio internacional à resistência, na hipótese em que algo desse tipo ocorra.</p>



<p>Mas a esperança vai vencer o medo, novamente. As pesquisas eleitorais já indicam a possibilidade de Lula vencer as eleições presidenciais. Embora pesquisas não meçam correlação de forças na política, estas indicam possibilidades alvissareiras, ainda que saibamos que a eleição não é suficiente para conter a crise econômica e social na qual o Brasil foi colocado. Para os movimentos sociais e a esquerda em geral fica o grande desafio: impulsionar uma vitória da candidatura Lula no primeiro turno com uma margem que iniba as tentativas golpistas.</p>



<p>Para nós, dos movimentos sociais autônomos, como movimento feminista do qual participo, o desafio se amplia: precisamos manter nas ruas e na agenda de debate na sociedade, durante a campanha eleitoral, as nossas pautas. É o momento de plantar e fazer crescer a força popular, em bases programáticas, para podermos regar e colher frutos na conjuntura que vai se abrir após as eleições 2022.</p>



<p>* <strong>Carmen Silva é socióloga e educadora do SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia e organiza sua militância no Fórum de Mulheres de Pernambuco, movimento local da Articulação de Mulheres Brasileiras.</strong></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>Uma questão importante!</strong></p><cite>Colocar em prática um projeto jornalístico ousado como esse da cobertura das Eleições 2022 é caro. Precisamos do apoio das nossas leitoras e leitores para realizar tudo que planejamos com um mínimo de tranquilidade. Doe para a Marco Zero. É muito fácil. Você pode acessar nossa<a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">página de doação</a>ou, se preferir, usar nosso<strong>PIX (CNPJ: 28.660.021/0001-52)</strong>.<br><strong><br>Nessa eleição, apoie o jornalismo que está do seu lado.</strong></cite></blockquote>
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		<title>Pesquisadores debatem o populismo digital que levou a extrema-direita ao poder</title>
		<link>https://marcozero.org/pesquisadores-debatem-o-populismo-digital-que-levou-a-extrema-direita-ao-poder/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Laércio Portela]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 22 Sep 2021 20:41:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[bolsonaro]]></category>
		<category><![CDATA[discurso de ódio]]></category>
		<category><![CDATA[extrema direita]]></category>
		<category><![CDATA[populismo digital]]></category>
		<category><![CDATA[redes bolsonaristas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Confundir para conquistar parece ser um ponto em comum na ascensão da extrema-direita no mundo nos últimos anos. As redes sociais são a estrada explorada para a disseminação de informações falsas, contraditórias e distorcidas que apelam às emoções e paixões cultivadas por setores da sociedade. Alguns autores cunharam a expressão “populismo digital” para o fenômeno. [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Confundir para conquistar parece ser um ponto em comum na ascensão da extrema-direita no mundo nos últimos anos. As redes sociais são a estrada explorada para a disseminação de informações falsas, contraditórias e distorcidas que apelam às emoções e paixões cultivadas por setores da sociedade. Alguns autores cunharam a expressão “populismo digital” para o fenômeno. O tema vem tomando a atenção de pesquisadores que tentam entender a complexidade envolvida nos processos que relacionam a polarização política com as mais variadas estratégias de desinformação.</p>



<p>No Brasil, a família Bolsonaro chegou ao poder explorando a comunicação direta com os eleitores especialmente pelo Whatsapp. Reproduzindo o discurso do ódio, estereótipos e preconceitos da “guerra cultural” apregoada desde os anos 1990 pelo escritor Olavo de Carvalho. À “mamadeira de piroca” e o “kit gay” juntou-se o revisionismo histórico de militares ressentidos com o fim da ditadura militar e a perda de protagonismo político para os civis. Tudo isso financiado por <a href="https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/empresarios-bancam-campanha-contra-o-pt-pelo-whatsapp.shtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener">disparos ilegais em massa bancados por empresários amigos do clã</a>.</p>



<p>Para ampliar o debate sobre populismo digital e estratégias de propagação de desinformação nas redes, os Programas de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Universidade Paulista (UNIP) promovem, entre os dias 23 de setembro e 4 de novembro, dois ciclos de debates: “Processos interacionais e Política” e Processos Interacionais e Desinformação”. As discussões envolverão 12 pesquisadores nacionais e internacionais e contarão com seis sessões de palestras e debates sempre às quintas-feiras, das 9h às 12h, com transmissão ao vivo pelo canal no <a href="https://www.youtube.com/c/R%C3%A1dioUniversit%C3%A1riaPauloFreire" target="_blank" rel="noreferrer noopener">YouTube da Rádio Universitária Paulo Freire</a>.</p>



<p>Professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UNIP e um dos organizadores do ciclos de debates, Paolo Demuru vê em Bolsonaro a estratégia de construir proximidade com o público, agindo como uma espécie de espelho das interações desse público nas redes. “Comer pizza na rua em Nova Iorque é parte da construção dessa informalidade”, diz, referindo-se à <a href="https://www.metropoles.com/brasil/politica-brasil/sem-comprovante-de-vacinacao-bolsonaro-come-pizza-na-calcada-em-ny" target="_blank" rel="noreferrer noopener">viagem do presidente à Assembleia Geral da ONU</a>, com sede na cidade que proíbe a presença de pessoas não vacinadas – como é o caso de Bolsonaro – nos restaurantes.</p>



<p>Essa comunicação direta nas redes de “um presidente, a máxima figura do Estado brasileiro, que deslegitima a mídia tradicional todo o dia, reforça a perda de legitimidade e autoridade dessa mídia e do jornalismo tradicional”, alerta Demuru. <a href="https://marcozero.org/normalizacao-de-ataques-a-imprensa-e-parte-da-erosao-da-democracia-no-pais/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Levantamento realizado pela Repórteres Sem Fronteiras</a> indicou que o presidente, seus filhos e autoridades públicas do alto escalão do governo federal protagonizaram pelo menos 331 ataques à imprensa no primeiro semestre deste ano. <a href="https://marcozero.org/imprensaa-e-alvo-de-meio-milhao-de-tweets-ofensivos-em-3-meses/">Outro estudo da RSF</a> registrou, entre março e junho, 498 mil tweets ofensivos à imprensa, a grande maioria de perfis alinhados ao bolsonarismo.</p>



<p>Demuru, que é italiano mas vive há muitos anos no Brasil, tem realizado estudos com o colega Franciscu Sedda, professor de semiótica da comunicação contemporânea e semiótica da cultura na Universidade de Cagliari, na Itália. Eles criaram o termo redesocialismo para definir o novo populismo de direita e extrema-direita que tem em Bolsonaro um dos principais representantes, como também o ex-presidente norte-americano Donald Trump e o senador e ex-vice primeiro-ministro italiano Matteo Salvini.</p>



<p>“A comunicação política desses líderes de extrema-direita, como Bolsonaro, nos parece uma exasperação das lógicas interacionais e discursivas e de linguagem das redes sociais. Por exemplo, a provocação. Bolsonaro é um tipo que provoca o tempo todo. Outra coisa é a brincadeira política, o ódio misturado com o humor. Outro elemento é o grito. Nas redes sociais se tende a não ouvir, não tem espaço para um debate público articulado porque, muitas vezes, vêm essas figuras que chegam trollando para impedir o debate. Bolsonaro é um cara que grita o tempo todo”, explica Demuru.</p>



<p>Para o pesquisador, esses elementos de linguagem mantém ativado o núcleo duro de apoio ao presidente brasileiro que resiste em torno do patamar de 20% de avaliação ótima e boa para o desempenho do seu governo, apesar da queda de popularidade. Na <a href="https://www1.folha.uol.com.br/poder/2021/09/datafolha-54-reprovam-gestao-de-bolsonaro-contra-a-pandemia-da-covid.shtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener">última pesquisa Datafolha</a>, divulgada em 15 de setembro, 54% dos brasileiros consideravam o governo Bolsonaro ruim ou péssimo, 24% regular e 22% ótimo ou bom. Isso num país de taxas recordes de desemprego e inflação, e que deve atingir 600 mil mortos por Covid-19 nos próximos dias.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Discurso contraditório</h2>



<p>O populismo contemporâneo, sobretudo o da extrema-direita, tem uma ideia de povo como um todo anônimo, de uma massa sem diferença no seu interior, e essa perspectiva é muito mais fácil de ser produzida nas redes sociais, numa comunicação em que a individualidade e as diferenças são menos importantes do que a condição de circulação, segundo o professor Franciscu Sedda. “O líder populista desfruta dessa situação porque se põe como uma espécie de megafone do coletivo, de alguém que fala pelo povo, que traz a voz do povo para o espaço político”, argumenta. Daí a necessidade de se passar por alguém simples, comum, sem luxo.</p>



<p>O discurso contraditório de Bolsonaro, que diz uma coisa em um dia e logo depois nega o que disse ou se contradiz, não acontece por acaso. É também uma característica do populismo digital da extrema-direita. “A ideia de um líder populista de direita é que a contradição está correta, que o povo não precisa ser organizado. As contradições são aceitas como algo positivo. É a elite que não atua de modo correto. O líder é contraditório como o povo é contraditório e não tem medo de se contradizer porque o povo, na sua construção midiática, semiótica, desse tipo de relação, vai aceitar esse tipo de contradição se ela cria o efeito da presença do povo dentro da política”, explica Sedda.</p>



<p>Quando essa relação entre líder populista e seu público se constrói na comunicação direta das redes sociais – sem a intermediação da mídia &#8211; ela ganha ainda um outro elemento, na visão do pesquisador italiano, que é a percepção de quebra do monopólio da elite, onde não existe um filtro, uma tradução institucional do discurso. “Quebra de uma elite não só política, mas de uma elite de espertos, de pessoas que sabem gerir a sociedade, como os intelectuais e os professores, que dizem saber enfrentar o coronavírus, por exemplo. Dá uma sensação de vingança, de poder mudar as relações de poder. De colocar os que são identificados como elite em posição de minorizados”.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Mentiras e pulverização da verdade</h2>



<p>Em 12 minutos de discurso na abertura da Assembleia Geral da ONU, na terça-feira (21), <a href="https://www.aosfatos.org/noticias/checamos-bolsonaro-assembleia-geral-onu/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">mais da metade das informações apresentadas por Bolsonaro não eram exatas</a>. Segundo levantamento da agência de checagem de informações Aos Fatos, dos 42 trechos analisados, 23 continham desinformação, sendo 10 falsos, nove imprecisos, dois exagerados e dois insustentáveis. A maioria nas áreas de meio ambiente, pandemia e corrupção.</p>



<p>Paolo Demuru lembra que depois do episódio da <a href="https://g1.globo.com/mundo/noticia/2021/01/06/manifestantes-pro-trump-invadem-congresso-americano.ghtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener">invasão do Capitólio</a>, nos Estados Unidos, o <a href="https://olhardigital.com.br/2021/01/08/noticias/donald-trump-e-banido-permanentemente-do-twitter/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Twitter baniu o ex-presidente Donald Trump da plataforma</a>, mas que Bolsonaro continua a mentir cotidianamente, tendo inclusive defendido, no discurso que proferiu na ONU, o tratamento precoce para a Covid-19 com medicamentos sem qualquer eficácia e continua podendo espalhar desinformação nas suas redes oficiais.</p>



<p>“Bolsonaro pulveriza a verdade, que passa a ser algo puramente circunstancial no sentido de que não existe mais a verdade do fato em si. A verdade é algo que pode ser manipulada. Uma vez que a verdade deixa de existir como algo factual você pode dizer que algo é verdadeiro ou falso a qualquer momento e mudar de posição no futuro, que é o que Bolsonaro faz”, afirma.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Fábrica de crises</h2>



<p>O presidente brasileiro sabe usar como poucos outra artimanha dos líderes da extrema-direita para mobilizar apoiadores: construir crises e se colocar como vítima dos outros poderes. É o que faz quando acusa o Supremo Tribunal Federal de ter tirado prerrogativas do governo federal ao garantir que governadores e prefeitos devem administrar a gestão do enfrentamento à Covid-19 em seus estados e municípios, omitindo que as ações são compartilhadas com a União. Ou quando acusa o ministro Alexandre de Moraes de descumprir a Constituição na condução do inquérito das fake news no STF e o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luís Roberto Barroso, de defender um sistema de votação que vai fraudar a reeleição.</p>



<p>“O populismo surge da ideia de estar contra, é uma tentativa de traduzir na política um sentido negativo, um sentido de exclusão. O populismo precisa da crise e vai criar a crise”, afirma Franciscu Sedda, completando: “Quando está fora do sistema, os líderes populistas se colocam contra tudo. Numa ideia de destruição total do presente para uma renovação total. Quando vencem não podem cumprir as promessas que faziam e começam a construir uma posição de vítima. O problema é que, na sua concepção, precisa ser praticamente um ditador para resolver os problemas. O populista é vítima dos grandes poderes por isso preciso ser ele o grande poder”.</p>



<p>Paolo Demuru e Franciscu Sedda vão dividir a primeira mesa dos Ciclos de Debates promovidos pelos Programas de Pós-Graduação em Comunicação da UFPE e da UNIP com Viktor Chagas, pesquisador da Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense, coordenador do Laboratório de Pesquisa em Comunicação, Cultura Política e Economia da Colaboração (coLAB) e do projeto de extensão #MUSEUdeMEMES.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Humor e disseminação de ódio</h2>



<p>Viktor estuda o humor como estratégia de disseminação do ódio nas redes sociais, trabalhando o MEME como objeto privilegiado. Os memes que flertam com aspectos do discurso de ódio, como memes racistas, misóginos ou homofóbicos. “A ideia é tentar entender na verdade como é que o humor é estrategicamente empregado por determinados grupos para construir um certo repertório de ação. É a ideia de que, por se tratar de uma piada, uma brincadeira, aquele discurso se torna mais leve e palatável e, supostamente, ele não ofende”.</p>



<p>Essa “retórica da brincadeira” vem para, na visão de Viktor, naturalizar as agressões. “Essa operação que passa a se transformar numa operação retórica, inclusive, de busca de convencimento do outro de que aquilo é normal, de que aquilo é bobagem, de que aquilo é banal, que ninguém deve prestar atenção nesse tipo de fala e nesse tipo de ação, quando na verdade são essas falas e essas ações que ajudam a construir determinados imaginários que minorizam a mulher, o negro, as pessoas LGBTs. Evidentemente que quando isso se torna parte do discurso oficial ele apresenta um conjunto enorme de problemas”, explica numa referência às manifestações de Bolsonaro nas redes sociais.</p>



<p>Viktor alerta que este não é um contexto apenas brasileiro, mas que está presente em vários países em que a extrema-direita chegou ao poder. “Não à toa, por exemplo, o presidente da Ucrânia teve uma trajetória como comediante, não à toa o ex-primeiro ministro da Itália teve passagem por programas de humor e por programas de auditório. Reconhecer que esses são usos estrategicamente empregados por esse segmento faz a gente entender melhor como essa ascensão da extrema direita no mundo, de forma geral, vem tomando lugar nos últimos anos”.</p>



<p>O pesquisador diz que, do ponto de vista da reflexão acadêmica, o humor é tratado como instrumento de questionamento do poder, no seu aspecto politizante, mas o problema é que ele passou a ser cooptado pelo campo reacionário e, historicamente, vem sendo negligenciado do ponto de vista do debate teórico de como ele contribui para oprimir, forçar estereótipos. “É claro que temos esse uso subversivo e ele é fundamental, mas de uma certa maneira esse humor da extrema-direita coopta esse uso porque ele se apresenta como anti-sistêmico”.</p>



<p>O humor digital apresenta um conjunto de problemas e atravessamentos que o seu correspondente fora do ambiente digital não traz. “A dinâmica de visibilidade, que é inclusive concorrencial, é muito marcante, dado o aspecto de que o humor se apresenta como uma linguagem que engaja as audiências, porque ele chama atenção, ele joga pra dentro de um certo discurso e acaba se transformando num certo artifício desses grupos que buscam certa visibilidade”, diz Viktor. Isso explicaria a profusão de influenciadores digitais e produtores de memes &#8211; muitos da extrema-direita &#8211; “preocupados em ocupar um lugar na economia da atenção, nessa economia que alguns autores gostam de chamar libidinal”.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>VEJA A PROGRAMAÇÃO COMPLETA DOS CICLOS DE DEBATE</strong></p><p><strong>Processos interacionais e política</strong></p><p><strong>Ementa</strong>: A proposta é discutir, a partir de distintas abordagens teóricas, as novas formas de fazer política sustentadas por processos interacionais que apelam para estesias coletivas, afetos e paixões, tirando proveito, sobretudo, da centralidade que as redes sociais digitais adquiriram na contemporaneidade.</p><p><strong>Dia 23/09/21</strong> (quinta-feira) – 9 às 12 horas&nbsp;</p><p>Palestrantes</p><p><strong>Franciscu Sedda (Universidade de Cagliari)&nbsp;</strong></p><p>Lógicas da provocação. Populismo e estratégias de comunicação nas redes sociais digitais</p><p><strong>Viktor Chagas (UFF)</strong></p><p>Humor e Ódio: A retórica da brincadeira política</p><p>Mediação: Paolo Demuru (UNIP)</p><p><strong>Dia 30/09/21</strong> (quinta-feira) – 9 às 12 horas&nbsp;</p><p>Palestrantes</p><p><strong>Eric Landowski (CPS, CNRS)&nbsp;</strong></p><p>Formas de adesão e rechaço na política.</p><p><strong>José Luiz Fiorin (USP)</strong></p><p>Estudar o sentido é uma ação política?</p><p>Mediação: Yvana Fechine (UFPE)</p><p><strong>Dia 07/10/21</strong> (quinta-feira) – 9 às 12 horas&nbsp;</p><p>Palestrantes&nbsp;</p><p><strong>Marco Roxo (UFF)</strong></p><p>Afinal, o que é populismo? Emergência histórica e dificuldades conceituais</p><p><strong>Artur Perrusi (UFPE)</strong></p><p>Autoritarismo e fascismo: uma análise psicossocial&nbsp;</p><p>Mediação: Paolo Demuru (UNIP)</p><p><strong>Processos interacionais e desinformação</strong></p><p><strong>Ementa</strong>:&nbsp; A proposta é refletir sobre a produção de sentido nos processos comunicacionais e interacionais envolvidos na construção de peças e campanhas de desinformação, enfocando estratégias discursivas e de propagação, regimes de crença e metodologias de análise.</p><p><strong>21/10/21</strong> (quinta-feira) – 9 às 12 horas&nbsp;</p><p>Palestrantes</p><p><strong>Fábio Malini (UFES, LABIC)</strong></p><p>Métodos de detecção da desinformação multiplataforma</p><p><strong>João Guilherme Santos (INCT.DD)</strong></p><p>Análise de redes complexas e dinâmicas multiplataforma: casos empíricos de combate à desinformação</p><p>Mediação: Cecília Lima (UFPE)</p><p><strong>28/10/21</strong> (quinta-feira) – 9 às 12 horas&nbsp;</p><p>Palestrantes</p><p><strong>Paulo Vaz (UFRJ)</strong></p><p>Verdade e Crise da Representação</p><p><strong>Geane Alzamora (UFMG)</strong></p><p>Verdade e crença na sociedade da desinformação</p><p>Mediação: Cristina Teixeira (UFPE)</p><p><strong>04/11/21</strong> (quinta-feira) – 9 às 12 horas&nbsp;</p><p>Palestrantes</p><p><strong>Raquel Recuero (UFPel, UFGRS)</strong></p><p>Desinformação e Covid-19 na Mídia Social no Brasil</p><p><strong>Diana Luz Pessoa de Barros (USP, Mackenzie)&nbsp;</strong></p><p>Discurso político: interação e mentira</p><p>Mediação: Paolo Demuru (UNIP)</p></blockquote>
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		<item>
		<title>“As milícias bolsonaristas não vão aceitar a derrota e as esquerdas precisam se precaver”, diz historiador</title>
		<link>https://marcozero.org/entrevista-daniel-aarao-reis/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Laércio Portela]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 May 2020 12:57:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[bolsonaro]]></category>
		<category><![CDATA[daniel aarão reis]]></category>
		<category><![CDATA[extrema direita]]></category>
		<category><![CDATA[Forças Armadas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Bolsonaro constituiu um dispositivo de milicianos e paramilicianos ligados às polícias militares que não vão aceitar a alternância de poder em caso de derrota no projeto de reeleição do atual presidente. A análise é do historiador Daniel Aarão Reis, professor da pós-graduação em História na Universidade Federal Fluminense (UFF), especialista em revoluções socialistas no século [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p> Bolsonaro constituiu um dispositivo de milicianos e paramilicianos ligados às polícias militares que não vão aceitar a alternância de poder em caso de derrota no projeto de reeleição do atual presidente. A análise é do historiador Daniel Aarão Reis, professor da pós-graduação em História na Universidade Federal Fluminense (UFF), especialista em revoluções socialistas no século XX e pesquisador das esquerdas e da ditadura de 1964 no Brasil.  </p>



<p>
Aarão Reis compara o que pode acontecer em 2022 com a ação dos
grupos radicais que se mobilizaram no final dos anos 1970 para
desestabilizar o processo de transição para a democracia no país,
praticando uma série de atentados. “É um pessoal truculento,
agressivo e tá muito autoconfiante. Têm armas na mão e,
provavelmente, vão usá-las se não forem dissuadidos”. 
</p>



<p> Autor de livros de referência sobre a ditadura militar no Brasil, Daniel Aarão Reis critica, em entrevista à Marco Zero Conteúdo, a postura dos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff em relação às Forças Armadas brasileiras. “Nunca houve uma investida séria em chamar as Forças Armadas para discutir seu papel na democracia e reformular os seus currículos. Os governos sempre foram muito lenientes e civicamente covardes de enfrentar essas coisas”, analisa o historiador, contrapondo o Brasil ao que aconteceu no governo Néstor Kirchner, na Argentina, quando <a rel="noreferrer noopener" aria-label=" (abre numa nova aba)" href="https://noticias.uol.com.br/ultnot/efe/2004/03/24/ult1766u2638.jhtm" target="_blank">o Estado pediu desculpas públicas pelos crimes cometidos durante o regime de exceção</a>.</p>



<p> Para Aarão, existem pelo menos três dimensões de análise para entender a ascensão de Bolsonaro até a Presidência da República: as tradições estruturais do autoritarismo no Brasil, a longa conjuntura (a partir do processo de redemocratização até 2018) e a conjuntura curta (a eleição presidencial propriamente). Teria contribuído decisivamente para a derrota, o fato de as esquerdas subestimarem o debate em torno da corrupção e da segurança pública. “São temas que extravasaram a classe média e atingem hoje as camadas populares. Questões de vida e morte&#8230; porque afetam a saúde, a educação, a democracia”.</p>



<p>Aarão lança uma provocação: “Todo mundo fala em derrubar o Bolsonaro, mas para fazer o que exatamente? Para voltar a aquelas alianças com as forças do atraso? As forças democráticas têm que apresentar um programa que seduza a população… A minha esperança é que venham articulações para defender a educação pública, para defender a ciência, políticas alternativas para enfrentar as desigualdades. Esse é o desafio das esquerdas e eu sou cético das possibilidades dos partidos, a chamada esquerda de Estado. Ou a esquerda social – sociedade civil, fóruns &#8211; vai formular e implementar essas alternativas ou então nós estamos mal”. </p>



<p></p>



<p>Leia a entrevista:</p>



<p><strong>O quanto nossa transição democrática conciliatória – lenta, gradual e segura – que não questionou e debateu abertamente os crimes da ditadura militar tem a ver com a retomada desse discurso da extrema direita no Brasil e os pedidos de intervenção militar? </strong> </p>



<p>Eu venho há muitos anos tentando chamar atenção para as correntes autoritárias da sociedade brasileira, que inclusive atravessam a sociedade de alto a baixo, não estão só presentes nas elites sociais. Uma tendência geral que é muito autoritária e estrutural. A partir do bolsonarismo, as pessoas passaram a reconhecer essa evidência. Eu fico feliz. É difícil você superar um problema quando sequer admite a existência dele. No entanto, a partir daí gerou-se uma perspectiva que não é muito construtiva porque vai de um extremo para outro. Antes, as tendências autoritárias sequer eram reconhecidas, agora passam a ideia de que esse país tem o autoritarismo na veia, de sorte que se elimina a política da história, como se o bolsonarismo fosse uma expressão mecânica dessa tradição. O que é uma incongruência porque essa mesma sociedade elegeu e reelegeu Fernando Henrique Cardoso, elegeu e reelegeu Lula, elegeu e reelegeu Dilma. Foi quando muita gente disse que as tendências autoritárias tinham acabado. Teriam sido absorvidas pelo processo da democratização. Antes disso, nos anos 1970, em seminários no Brasil e na América Latina, atribuíam-se as ditaduras no Brasil às nossas tradições ibéricas. Isso era então muito desanimador porque, se a gente está preso às tradições ibéricas, a gente não vai sair dessas tradições tão cedo. Até que a península ibérica, tanto a Espanha quanto Portugal, passaram por processos de democratização. E agora, vamos dizer então que as tradições ibéricas foram eliminadas? Não, elas continuam presentes. Mas ao tratar das questões estruturais você não pode eliminar a política da história. As tradições estruturais pesam, mas elas não resumem a história em termos exaustivos.  </p>



<p><strong>E como essa
reflexão pode explicar o bolsonarismo?</strong></p>



<p>Para a compreensão do bolsonarismo eu tenho introduzido a necessidade de refletir sobre duas outras dimensões, sem desprezar essa tradição estrutural. Uma delas é o que eu chamo da grande conjuntura, que vai desde o processo da transição para a democracia até o ano de 2018, quando houve as eleições que consagraram Bolsonaro. É uma grande conjuntura de 30 anos, no contexto da qual você teve muitas decisões políticas que foram contribuindo gradativamente para, de um lado, a manutenção dessas tradições autoritárias e, de outro lado, uma certa desilusão do sistema que foi sendo construído com base na Constituição de 1988. Esse sistema já teve muito prestígio, já teve muita adesão, mas progressivamente a confiança nele foi sendo corroída e isso, ao meu ver, deveu-se ao fato de que o nosso processo de redemocratização, a chamada Nova República, gerou dois partidos com vocações reformistas, o PT e o PSDB. Esses dois partidos nasceram anunciando projetos reformistas e, ao longo do tempo em que governaram, apesar de terem realizados algumas coisas bem positivas, eles não conseguiram empreender as reformas que anunciavam e que a população esperava. Reformas que pudessem realmente transformar esse país, que apresenta índices de desigualdade dos mais extremados no mundo. A reforma política é um exemplo. Um amigo meu, o Carlos Vainer (sociólogo e economista), cunha uma expressão com a qual eu comecei a trabalhar. Referindo-se às esquerdas institucionais, aos partidos políticos, ele fala de uma “esquerda de Estado” à qual ele antepõe uma “esquerda social”. A esquerda de Estado foi essa esquerda que se deixou recrutar, cooptar pelo jogo institucional, pelos calendários eleitorais. E foi perdendo gradativamente o contato com a sociedade. Eu trabalhei 35 anos na universidade, ainda trabalho na pós-graduação, e fui observando essa gradual perda de esperança da juventude. Isso também é muito claro nos estratos populares.  </p>



<p><strong>Uma desilusão&#8230;</strong></p>



<p>O PT e o PSDB não foram capazes de articular uma aliança entre eles e cada um deles, ao seu modo, procurou o que havia de pior nas tradições brasileiras para se fortalecer no jogo institucional e foram contaminados por isso. De partidos reformistas se transformaram em partidos gestores, sempre com a ressalva de que eles, ao gerenciar a sociedade, fizeram melhor do que as chamadas forças do atraso, mas ao se alinharem a essas forças do atraso perderam a perspectiva de uma reforma política, de uma reforma econômica, de uma reforma tributária, uma reforma das polícias, do sistema penitenciário… Esse tipo de comportamento foi fazendo com que eles acabassem sendo compreendidos como um entre os outros.  </p>



<p><strong>Perdendo
aderência na sociedade?</strong></p>



<p>Eles foram perdendo o capital daquilo que os diferenciava. Eles nunca se interessaram em abrir uma discussão na sociedade sobre a ditadura, sobre as tradições autoritárias, sobre as Forças Armadas. As Forças Armadas mantiveram-se afastadas, remoendo seus ressentimentos, e <a href="http://marcozero.org/os-generais-em-seu-labirinto/" target="_blank" rel="noreferrer noopener" aria-label="formando as suas lideranças em padrões totalmente anacrônicos e autoritários (abre numa nova aba)">formando as suas lideranças em padrões totalmente anacrônicos e autoritários</a>. Nunca houve uma investida séria em chamar as Forças Armadas para discutir seu papel na democracia e reformular os seus currículos. Os governos sempre foram muito lenientes e civicamente covardes de enfrentar essas coisas. A ideia era: deixemo-las de lado e com o tempo a gente vai fazendo as mudanças.  As mudanças iam acontecer naturalmente, mas nada na história acontece naturalmente. A intervenção humana é fundamental e eles ficaram lá remoendo esses ressentimentos. Eu me lembro a primeira vez que fui impactado por isso, nos anos 1990, quando li no jornal que os cadetes da Academia das Agulhas Negras escolheram como patrono o general <a rel="noreferrer noopener" aria-label="Médici (Emílio Garrastazu MédicI, general-presidente entre 1969 e 1974) (abre numa nova aba)" href="https://educacao.uol.com.br/disciplinas/historia-brasil/governo-medici-1969-1974-milagre-economico-e-a-tortura-oficial.htm" target="_blank">Médici (Emílio Garrastazu MédicI, general-presidente entre 1969 e 1974)</a>. Como os jovens que estão se formando podem ter como patrono o que a ditadura tinha de mais sinistro? Isso significa que está havendo zero de discussão democrática dentro das Forças Armadas. Os governos civis não exigiram que isso fosse feito, de sorte que as Forças Armadas voltassem a ser o que eram antes de 1964, Forças Armadas plurais, onde havia uma discussão, onde havia tendências políticas diferenciadas. Mas a ideia era fazer que nem avestruz: meter a cabeça no chão e fingir que não havia um processo altamente deletério.  </p>



<p><strong>Ignorar o passado
acabou fortalecendo a posição das Forças Armadas no presente?</strong></p>



<p>A tal da GLO, <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Garantia_da_lei_e_da_ordem" target="_blank" rel="noreferrer noopener" aria-label="Garantia da Lei e da Ordem (abre numa nova aba)">Garantia da Lei e da Ordem</a>, que foi um princípio autoritário inscrito na nossa Constituição e permite aos presidentes dos poderes chamar as Forças Armadas para garantir a lei e a ordem, pois bem, os governos petistas cansaram de fazer isso, inclusive colaborando com que as Forças Armadas fossem reobtendo um prestígio, vistas como aquelas “forças impolutas” – que faz muito o ideário das Forças Armadas brasileiras desde a proclamação da República. Os militares sempre se viram como vetores da República, como anjos da guarda da República, e isso é totalmente antirepublicano e antidemocrático. Ao invés dos governos do PSDB e do PT lidarem com isso, enfrentarem isso, enquanto eles tinham força e enquanto os generais de direita nas Forças Armadas não tinham força, eles não se mexeram. Isso foi feito com muita coragem cívica na Argentina. O Kichnner (Néstor Kirchner, presidente argentino entre 2003 e 2007), quando assumiu, chamou lá o ministro e disse: “você vai pedir desculpas à sociedade pelas arbitrariedades, pelos assassinatos..” e o ministro se recusou, foi demitido e veio outro… E daí por diante, quando veio o oitavo, o oitavo decidiu “eu acho isso razoável, eu não estou comprometido com essas matanças e acho que as Forças Armadas fizeram mal” e pediu desculpas. Aí você tem um processo de outra natureza. Não houve uma discussão dessas tendências autoritárias no Brasil, inclusive muitos acadêmicos que hoje reconhecem essas tendências dizem que antes não viram. Não viram porque não quiseram. Diziam que a democracia estava consolidada. Lula, Dilma, políticos, acadêmicos viviam dizendo isso, sem perceber que ali estavam as células autoritárias, cancerosas, à espera de um momento que lhes fosse favorável e esse momento chegou a partir da crise de 2008.  </p>



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	                                        <p class="m-0">Kirchner manda retirar os quadros de generais ditadores da parede da Escola Militar de El Palomar, em 24 de março de 2004, aniversário do golpe na Argentina </p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p><strong>A crise de 2008
criou as condições para a volta do protagonismo do autoritarismo?</strong></p>



<p>A crise de 2008 aprofundou as questões econômicas, o desemprego, a insegurança&#8230; Isso tudo foi contribuindo gradativamente para que a extrema-direita voltasse a ter voz. Ela, que nunca tinha exatamente desaparecido, ganhou força.  </p>



<p><strong>E o bolsonarismo?</strong></p>



<p>Para entendermos o bolsonarismo, precisamos de uma terceira dimensão, além dessa da grande conjuntura. Uma dimensão mais concreta que é a conjuntura eleitoral do ano de 2018. Se você observar bem, em agosto de 2018, <a href="https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2018/eleicao-em-numeros/noticia/2018/08/22/pesquisa-datafolha-lula-39-bolsonaro-19-marina-8-alckmin-6-ciro-5.ghtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener" aria-label="Bolsonaro ainda tinha de 15 a 20% de votos (abre numa nova aba)">Bolsonaro ainda tinha de 15 a 20% de votos</a> e muita gente não acreditava que ele pudesse crescer tanto a ponto de ganhar, e aí é que entra a necessidade de analisar a conjuntura curta. Temos as tradições autoritárias, a longa conjuntura, e a conjuntura curta que foi decisiva. Ao meu ver, a gente precisa discutir os erros que aconteceram na esquerda e os acertos de Bolsonaro para entendermos a vitória dele. Ele realmente tem aquele núcleo duro da extrema-direita que as pesquisas fixam em 12, 15, algumas dizem 20%, mas não passa disso. Acontece que ele <a href="https://www1.folha.uol.com.br/poder/eleicoes/2018/apuracao/2turno/brasil/" target="_blank" rel="noreferrer noopener" aria-label="ganhou as eleições com mais de 50% (abre numa nova aba)">ganhou as eleições com mais de 50%</a>. O principal erro das esquerdas foi subestimar a força do bolsonarismo. A insistência em manter a candidatura Lula, depois fizeram do Haddad, no primeiro turno, um boneco do Lula. Todo mundo colocava a máscara do Lula no Haddad ou nas suas próprias figuras, de sorte que isso aí acabou tendo um efeito negativo. Eu penso que a incapacidade das esquerdas comporem uma frente para enfrentar o perigo bolsonarista foi muito decisiva para explicar a ascensão da extrema-direita.  </p>



<p><strong>O discurso de
Bolsonaro obteve mais adesão do que o das esquerdas.</strong></p>



<p>Foi decisiva a subestimação de alguns problemas que foram se tornando centrais e para os quais Bolsonaro apresentava falsas soluções, mas dizia que iria solucioná-los. Dois problemas que afetavam muito as classes populares e as classes médias. A questão da corrupção e a questão da segurança. As esquerdas sempre subestimaram a questão da corrupção, dizendo que essa questão era uma questão das elites, <a href="http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-tematico/uniao-democratica-nacional-udn" target="_blank" rel="noreferrer noopener" aria-label="uma tradição da UDN (abre numa nova aba)">uma tradição da UDN</a>, e era mesmo, só que extravasou muito além das classes médias para atingir as camadas populares. Essa ideia do sistema político brasileiro como corrupto, apodrecido, isso é um consenso que se estabelece muito para além da classe média. As esquerdas poderiam ter tido uma crítica a isso e uma autocrítica. É uma questão de vida e morte. Aqui no Rio de Janeiro, por exemplo, <a href="https://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2018-02-26/sergio-cabral.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener" aria-label="desviaram os recursos da saúde (abre numa nova aba)">desviaram os recursos da saúde</a> para o bolso dos políticos ligados a Sérgio Cabral (ex-governador do Rio entre 2007 e 2014). Em muitos outros lugares do Brasil isso aconteceu, então é uma questão que impacta a educação, é uma questão que impacta a democracia porque desmoraliza a democracia. Fica parecendo que o sistema político é um sistema ocupado por ladrões. Bolsonaro surge &#8211; apesar de todas as evidências que o comprometiam com processos de corrupção &#8211; como o salvador da pátria. Nesse ponto de vista, reeditando discursos que tinham sido feitos no Brasil por <a href="http://memoria.oglobo.globo.com/jornalismo/primeiras-paginas/o-caccedilador-de-marajaacutes-8952245" target="_blank" rel="noreferrer noopener" aria-label="Collor (abre numa nova aba)">Collor</a> (Fernando Collor de Melo, presidente entre 1990 e 1992) e pelo <a href="https://historiahoje.com/corrupcao-a-vassourinha-de-janio-quadros/" target="_blank" rel="noreferrer noopener" aria-label="Jânio Quadros (abre numa nova aba)">Jânio Quadros</a> (presidente eleito em 1960 e que renunciou em 1961). E esse não é um discurso só de classe média, é um discurso que tem ressonância popular.  </p>



<p><strong>E a questão da
segurança?</strong></p>



<p>A segurança passou a ser, nos grandes centros urbanos, e não só neles, o grande problema. Se as classes médias e as elites conseguem colocar grades e vigilantes nos condomínios, as classes populares estão à mercê dos bandidos e dos traficantes e sofrem demais com isso. Esses bandidos atacam também as camadas populares, quando entram em conflito entre eles mesmo, matando gente, interrompendo as aulas nas escolas, fechando os postos de saúde. Você não pode imaginar que uma criança e um jovem que deixam de ir à escola por causa de um tiroteio num dia, no dia seguinte vão à escola como se nada tivesse acontecido. Há um trauma. As esquerdas tinham uma ênfase justa nos direitos humanos, mas elas não contemplaram reformas no sistema penitenciário e reformas no sistema da ação da polícia. Se você faz uma comparação, os governos de esquerda não se distinguem dos governos de direita do ponto de vista da ação da Polícia Militar, do combate ao tráfico de drogas. E Bolsonaro vinha com uma proposta absolutamente absurda, primária &#8211; “a gente mata os bandidos” -, fazendo aquele gesto da arminha toda hora, e aquilo impactou muito.</p>



<p><strong>A esquerda deixou
de fazer outros debates importantes?</strong></p>



<p>O terceiro elemento que eu acho que foi muito pouco discutido pelas esquerdas foi o diálogo com as igrejas evangélicas, que cresceram muito no país. As esquerdas fizeram como fizeram com as Forças Armadas. Esses grandes caciques das igrejas evangélicas, os Malafaia da vida, foram aquinhoados com meios de comunicação. O Lula, a Dilma e o Fernando Henrique Cardoso iam lá beijar as mãos deles, legitimar a liderança dessa gente.  Ao invés de entrar em discussão, porque os milhares de pastores dessas igrejas <a href="https://www.cartacapital.com.br/sociedade/os-pastores-progressistas-dispostos-a-discutir-tabus/" target="_blank" rel="noreferrer noopener" aria-label="não são todos necessariamente de direita (abre numa nova aba)">não são todos necessariamente de direita</a> e desempenham um papel importante. Na medida em que o Estado deixa de aparecer em algumas regiões, eles ali vão criando redes de apoio mútuo de solidariedade que são muito importante. E aí você oblitera uma dimensão da realidade fundamental para ficar lá com seus próprios preconceitos. Esses erros todos foram se acumulando e corroendo as bases eleitorais das esquerdas, enquanto Bolsonaro foi muito rápido em constituir alianças, tanto do ponto de vista da luta contra a corrupção quanto do ponto de vista da luta pela segurança e também articulou o apoio do capital financeiro junto com o Paulo Guedes. A vitória de Bolsonaro não estava dada, ela foi construída, apoiada nas grandes tradições autoritárias, mas também na progressiva corrosão da confiança no sistema político, na grande conjuntura, e, finalmente, na curta conjuntura. É da união dessas três dimensões que podemos entender porque esse homem tão tosco e absurdamente grosseiro assumiu a Presidência da República.</p>



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	                                        <p class="m-0">O então presidente Lula participa do lançamento da Record News com o pastor Edir Macedo em 2007/Divulgação</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p><strong>Até que ponto uma derrota de Donald Trump na eleição presidencial deste ano nos Estados Unidos pode impactar os governos autoritários pelo mundo e, especificamente, o governo Bolsonaro no Brasil? </strong> </p>



<p>Nós estamos vivendo desde os anos 1960 um processo profundo de desestruturação geral da economia, da sociedade, da cultura, da política, a revolução digital, da informação. Outro dia o Márcio Pochmann (economista, ex-presidente do Ipea) dizia que o Brasil de uns 40 anos pra cá mudou completamente. Ele começava com a análise do berço operário do Lula, lá no ABC Paulista, e que hoje desapareceu. Aquelas empresas já foram quase todas elas robotizadas, ou migraram para outros lugares. Essa revolução digital está desestruturando tudo. As pessoas sentem o chão tremer, vacilar, e esse é um processo mundial que está favorecendo em toda parte o crescimento de tendências autoritárias porque elas crescem nessas ocasiões de desespero, de desesperança, de crise de identidade. Você tem milhões e milhões de pessoas jogadas no desespero, e essa gente tem um potencial grande de apoiar os líderes salvacionistas, que aparecem em toda a parte, às vezes até responsabilizando o capital financeiro, os plutocratas, responsabilizando a riqueza, os comunistas, qualquer coisa, de modo a que você tenha ali uma tábua de salvação. O crescimento das governanças autoritárias é um fenômeno mundial e o Trump está nesse contexto e, ele ganhando, potencializa enormemente o contexto em função da importância dos Estados Unidos. Bolsonaro é a expressão radical desse processo aqui no Brasil e isso se vê na sua atitude muito dependente, sabuja mesmo, com o Trump. Essa coisa de bater continência à bandeira norte-americana, de estar sempre ali adulando o Trump, de uma maneira até constrangedora… Evidentemente uma derrota do Trump vai ter um impacto bastante positivo para as forças democráticas em toda a parte aqui da América Latina e do Brasil em particular.  </p>



<p><strong>O sr. acha que as
esquerdas ainda vivem a “utopia do impasse” como no começo da
ditadura de 1964, quando apostavam que o regime militar não ia se
sustentar, que estava fadado a cair. Muitos setores da esquerda hoje
parecem pensar assim sobre o governo Bolsonaro, como pensaram antes
sobre o governo Temer. </strong>
</p>



<p>Quando formulei essa ideia da “utopia do impasse” foi muito para entender aquela esquerda que a gente tinha e que se formou logo depois do golpe de 1964 e que foi uma esquerda que passou a alimentar um ceticismo muito grande a qualquer hipótese de mudança na ditadura que não fosse na luta armada. A ideia que a gente tinha, e <a href="https://www.youtube.com/watch?v=cR1aP0QRCNU" target="_blank" rel="noreferrer noopener" aria-label="eu fui um militante daquela época (abre numa nova aba)">eu fui um militante daquela época</a>, era de que a ditadura tendia a piorar cada vez mais. Nesse sentido, quando veio o <a href="https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/FatosImagens/AI5" target="_blank" rel="noreferrer noopener" aria-label="AI-5 (abre numa nova aba)">AI-5</a>, até a gente achou que estávamos certos e que ia piorar. Mas não vimos ali duas coisas, que aquele sistema podia sim evoluir em outras circunstâncias e, segundo, que a sociedade, as camadas populares, principalmente, não estavam a fim de nos acompanhar no enfrentamento armado. A gente não teve essa sensibilidade. A ideia que a gente tinha era a de que o povo estava nos cascos, pronto a nos acompanhar se houvesse uma ação de vanguarda. Foi um raciocínio completamente equivocado e por isso nós pagamos caro.  </p>



<p><strong>E no caso do
governo Bolsonaro?</strong></p>



<p>Às vezes me impressiona muito essa obsessão com Bolsonaro. Ela é uma imposição das circunstâncias, mas às vezes as esquerdas ficam muito a reboque disso, sempre comentado a última do Bolsonaro, quando a gente tem que investir na recomposição das forças democráticas, na recomposição das alianças e da formulação de um programa alternativo ao Bolsonaro.  Todo mundo fala em derrubar o Bolsonaro, mas para fazer o que exatamente? Para voltar o lulismo? Para voltar aquela política de ampla conciliação de classes da esquerda petista? Para voltar a aquelas alianças com as forças do atraso? As forças democráticas têm que apresentar um programa que seduza a população. A população hoje está aí encurralada com a pandemia, mas mesmo assim é impressionante como <a href="https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/05/avaliacao-negativa-do-governo-bolsonaro-sobe-de-31-para-434-aponta-cntmda.shtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener" aria-label="Bolsonaro mantém 30% de apoio da população (abre numa nova aba)">Bolsonaro mantém 30% de apoio da população</a>. Você tem que apresentar uma alternativa. Tudo bem, é preciso denunciar o Bolsonaro, mas o que é que a gente tem a dizer de novo, de alternativo?  </p>



<p><strong>O sr. acredita na
capacidade dos partidos de esquerda de formularem essa alternativa?</strong></p>



<p>Eu me pergunto é se os partidos políticos de esquerda vão ser capazes disso. Eu estou cada vez mais achando que é da chamada esquerda social que a gente deve esperar um movimento decisivo. A minha esperança vai mais é para que a sociedade civil, fóruns, articulações da sociedade civil, comecem a se formar, porque elas terão uma credibilidade muito maior do que os partidos de esquerda, que estão muito envolvidos no calendário eleitoral, nesses conchavos. A minha esperança é que venham articulações para defender a educação pública, para defender a ciência, políticas alternativas para enfrentar as desigualdades. Esse é o desafio das esquerdas e eu sou cético das possibilidades dos partidos, a chamada esquerda de Estado. Ou a esquerda social vai formular e implementar essas alternativas ou então nós estamos mal. Essa é minha esperança em relação às esquerdas.</p>



<p><strong>O que acha do
modus operandi de Bolsonaro? Ele está sempre tensionando as
instituições, promovendo uma retórica de que o Executivo está
tendo seus preceitos constitucionais invadidos pelo Supremo Tribunal
Federal e pelo Congresso Nacional. Chegou a dizer que ele é a
Constituição e que detém o apoio das Forças Armadas. Está em
curso um autogolpe? Nos moldes de um Estado de direito autoritário,
como o sr. apontou no primeiro momento do regime militar de 1964,
antes da fase da ditadura escancarada?</strong></p>



<p>Você vê essa perspectiva em muitos lugares do mundo. Na Rússia, na Hungria&#8230; As lideranças autoritárias, sem golpear a Constituição, às vezes vão mudando as coisas… Você veja que o primeiro-ministro da Hungria (Viktor Orbán) conseguiu passar no Parlamento, onde ele tem maioria, um <a rel="noreferrer noopener" aria-label="decreto que prorroga por tempo indeterminado os plenos poderes (abre numa nova aba)" href="https://www.cartacapital.com.br/mundo/hungria-se-aproxima-de-ditadura-ao-dar-poderes-especiais-a-orban/" target="_blank">decreto que prorroga por tempo indeterminado os plenos poderes</a>. Ele não mudou a Constituição, mas aprovou medidas que acabam concentrando nas suas mãos muito poder. Acho que a gente está arriscado realmente a viver isso. A democracia no Brasil está em risco. Bolsonaro está fazendo no Brasil muitas coisas nesse sentido, de emparedar as outras instituições, sempre com esse argumento, que é o argumento que ele vai usar na campanha eleitoral de 2022, de que “eu quis fazer mas não deixaram&#8230;”. Os líderes salvacionistas sempre recorrem a essa coisa. Como eles são eleitos na base de um programa muito simplista, que não funciona, quando se veem emparedados, eles tendem a esse discurso. Aconteceu com Jânio Quadro, com Collor…  Então Bolsonaro vai utilizar esse tipo de discurso intensamente em 2022, se a gente chegar até lá. “Não me deixaram governar, me deem um voto de confiança” e vai, naturalmente, propor que ele tenha uma concentração de poderes para aprovar o que for necessário no Parlamento. </p>



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	                                        <p class="m-0">Bolsonaro participa de manifestação contra o Congresso Nacional e o Supremo em frente ao Palácio do Planalto</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p> </p>



<p><strong>Vê a
possibilidade de um autogolpe antes das eleições?</strong></p>



<p>Eu penso que, para a conjuntura atual, um golpe ou um autogolpe não seja muito viável, mas se houver uma conflagração social, sim, essa hipótese pode se atualizar. Mas no momento atual eu acho que não. Eu até estou surpreso com isso. Eu imaginava que Bolsonaro ia tratorar o Congresso e o Supremo. E está acontecendo o contrário, você tá vendo que, muito timidamente, tanto o Congresso quanto o Supremo, cortaram as asas dele, para impedir que ele vá mais longe. Naturalmente, ele vai utilizar isso depois: “eu quis fazer e não deixaram.” Para vencer esse discurso, as esquerdas estão desafiadas a apresentar um programa alternativo e não apenas denunciar Bolsonaro.  </p>



<p><strong>O sr. vê outras
ameaças à ordem democrática?</strong></p>



<p>Sim. Eu penso que Bolsonaro constituiu um dispositivo militar, que são as milícias e as paramilícias dentro das Polícias Militares e ele tem ali um apoio muito substancial.  Eu estou seguro que esse dispositivo não vai aceitar pacificamente uma alternância de poder. Eu tenho a impressão de que, se Bolsonaro perder as eleições de 2022, essa gente vai partir pra ignorância. Vai partir pra uma explosão semelhante a aquela que as forças de segurança promoveram no final dos anos 1970, <a rel="noreferrer noopener" aria-label="tentando impedir o processo de transição no Brasil (abre numa nova aba)" href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2020/01/joao-figueiredo-conduziu-a-transicao-em-meio-aos-atentados-da-linha-dura.shtml" target="_blank">tentando impedir o processo de transição no Brasil</a>, explodindo bombas, matando gente… Eu acho que esse dispositivo militar, que não é propriamente o dispositivo das Forças Armadas legais, mas é  um dispositivo informal que é muito poderoso, está muito extremado, é muito agressivo e não vai hesitar em partir pra violência. As forças democráticas precisam se preparar para enfrentar isso porque se elas não se prepararem corremos o risco de ver muitas das nossas lideranças ceifadas, assassinadas, porque não tiveram a sabedoria de se precaver. Você vê muitas vezes o discurso dessa gente nas redes sociais. É um pessoal truculento, agressivo e tá muito autoconfiante. Têm armas na mão e, provavelmente, vão usá-las se não forem dissuadidos.  </p>



<p><strong>O sr. acredita na
reeleição de Bolsonaro?</strong></p>



<p>Do jeito que as coisas vão, eu não acredito na reeleição. Eu acho que Bolsonaro está lá com seu núcleo duro, mas tá perdendo gradativamente suas bases, na direita democrática e no centro, e que foram muito pra ele em função do anti-petismo. Mas as forças em torno dele não vão aceitar uma transição democrática tranquila.</p>



<p><strong>E quanto às Forças Armadas? Hoje <a href="https://www1.folha.uol.com.br/colunas/maria-herminia-tavares/2020/02/perigo-no-terceiro-piso.shtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener" aria-label="são nove os militares no primeiro escalão (abre numa nova aba)">são nove os militares no primeiro escalão</a> e mais de 2 mil militares nos segundo e terceiro escalões do governo Bolsonaro. Numa situação de confrontação aberta e de possível ruptura institucional de que lado elas vão ficar? </strong> </p>



<p>Eu sinto nos próprios especialistas em Forças Armadas uma certa perplexidade. Como aqueles pilotos que estão num vôo cego. Essa característica que você falou aí é verdade, centenas de oficiais do Exército migraram para órgãos de poder, mas isso quer dizer que as instituições vão estar do lado do Bolsonaro, por exemplo, num processo golpista? Nas circunstâncias atuais, eu acho difícil. Agora, também me recinto muito de uma informação minuciosa, mais clara, a respeito de como andam os humores, as tendências das Forças Armadas. A verdade é que a grande maioria dos militares votou em Bolsonaro, mas muito mais animadas pelo anti-petismo e com a expectativa de que elas iriam domesticar o homem. Essa perspectiva hoje está completamente vencida. Bolsonaro já mostrou que ele é incontrolável. Agora, as Forças Armadas vão ficar a reboque dele? Até quando? Até que limite? Isso é um ponto de interrogação que se coloca aí. Alguns argumentam que mesmo que elas fiquem neutras, você pode ter um golpe efetuado pelas milícias. Num padrão boliviano. Lá, as Forças Armadas ficaram nos quartéis, a polícia também. E atuaram as milícias.  </p>



<p><strong>Acha possível
essa postura no Brasil?</strong></p>



<p>Eu acho que o Brasil
é um país muito complexo para isso. Se as milícias atuam, elas vão
querer depois ter uma força correspondente e esse é um nó que tem
aí entre as forças de apoio ao Bolsonaro porque as Forças Armadas
são as forças que detêm formalmente o monopólio das armas e elas
estão vendo, nós estamos vendo, crescer esse poder paralelo das
milícias, que é um poder armado também e que começa a determinar
a vida de inúmeras comunidades Brasil afora. Então eu penso que
isso aí é uma contradição que pode implodir a frente
bolsonarista.</p>



<p><strong>Existem também
divergências do ponto de vista da economia no campo bolsonarista?</strong></p>



<p>A aliança do Bolsonaro com os ultraliberais é muito impressionante porque a tradição das Forças Armadas é nacional estatista. Conversei outro dia com um pesquisador, que tem um estudo sobre as Forças Armadas, e ele me disse que isso se alterou gradativamente. Ele apontou o exemplo do Chile, em que as Forças Armadas fecharam os olhos a um processo ultraliberal porque lhes foi concedido um estatuto particular na sociedade: sistema de saúde próprio, remunerações próprias, gratificações. Hoje, a Constituição do Chile reserva às Forças Armadas um <a href="https://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2017/08/04/interna_internacional,889360/forcas-armadas-chilenas-mantem-privilegios-heranca-da-ditadura.shtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener" aria-label="percentual fixo obtido com as exportações do cobre (abre numa nova aba)">percentual fixo obtido com as exportações do cobre</a>, que é a principal riqueza chilena, e com isso elas mantêm um sistema que as diferencia radicalmente do conjunto do funcionalismo público civil. Esse processo poderia acontecer no Brasil? A reforma da Previdência deu indicação nesse sentido. As mudanças que impactaram no funcionalismo civil preservaram as Forças Armadas, que tiveram inclusive reajustes salariais. A verdade também é que o ultraliberalismo do Guedes ainda não foi à prática, houve a aprovação da reforma da Previdência, à qual ele teve que fazer uma série de concessões, e as privatizações e os avanços da reforma Tributária que ele quer fazer ainda não foram para frente, assim como a reforma administrativa.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Bolsonaro abraça Paulo Guedes em evento no Palácio sob o olhar e o sorriso de Sérgio Moro, em 2019. Crédito:  Valter Campanato/Agência Brasil </p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p><strong>E com a pandemia
essa agenda pode ficar comprometida, não é?</strong></p>



<p>A resistência a isso fica muito grande. E foi muito impressionante surgir, agora, no contexto da pandemia, esse <a href="https://economia.uol.com.br/noticias/estadao-conteudo/2020/04/22/sem-representante-da-economia-governo-lanca-programa-pro-brasil-para-retomada.htm" target="_blank" rel="noreferrer noopener" aria-label="plano do Pró-Brasil (abre numa nova aba)">plano do Pró-Brasil</a>, que é um plano que tem a ver com a tradição nacional estatista das Forças Armadas. Me lembro quando Bolsonaro nomeou Guedes e Moro para o seu Ministério e vozes experientes da política brasileira disseram que era um erro, nomear um ministro que você não possa demitir. Os dois eram vistos como indemissíveis. Um já foi. O Moro. E o outro já é cogitado para ser demitido caso essa política ultraliberal não dê certo. E parece que não vai dar mesmo porque o pós-pandemia aponta em todo mundo para os nacionalistas crescerem e não o ultraliberalismo. Guedes então vai se achar, de repente, numa situação anacrônica porque o programa dele se encaixa no contexto da globalização e a globalização pode sofrer fortes impactos com a pandemia.</p>



<p><strong>O sr. acha </strong><strong>a
centro-direita vai construir uma candidatura para fazer frente a
Bolsonaro em 2022?</strong> 
</p>



<p>Acho que sim. Eles estão manobrando nesse sentido. E têm dois potenciais candidatos, Moro e Dória (João Dória, governador de São Paulo). Os dois já vêm trabalhando nesse sentido. Mas o fato é que a gente não tem um quadro claro do pós pandemia. Estão anunciando aí uma grande crise econômica internacional, com impactos evidentemente no Brasil, e isso vai fazer crescer uma demanda muito grande por Estado. Claro que os liberais vão dizer que não são contra o Estado, desde que o Estado sirva à educação, à segurança, e dizer que eles são contra o Estado que se imiscua na economia, mas essa vai ser uma exigência para enfrentar o pós pandemia. Há muitas variáveis aí que a gente não domina, mas a tendência é o crescimento do Estado e isso é contra o Guedes, contra a linha liberal do Guedes. Eu penso que a centro-direita, sobretudo se Bolsonaro se inclinar para essas políticas estatistas, vai efetivamente tentar jogar uma alternativa. Existem forças muito consideráveis entre as elites que estão insatisfeitas com Bolsonaro. Aliás, as últimas pesquisas dão uma queda muito grande na aprovação ao governo exatamente nas elites sociais, entre aqueles que recebem mais de 10 salários mínimos. Já Moro vai ficar aí como uma reserva moral a ser acionada e pode realmente ter resultados bem expressivos. Sendo assim, Bolsonaro pode ser empurrado de novo para aquele nicho de 12, 15 e 20%, que é a extrema-direita no Brasil.  </p>
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		<title>#DesculpaJairMasEuVou: Extrema Direita dividida sobre atos de domingo no Recife</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 13 Mar 2020 18:15:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[bolsonaro]]></category>
		<category><![CDATA[extrema direita]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em meio à pandemia do coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro apareceu em pronunciamento nacional de rádio e TV ontem à noite. Ao invés de tranquilizar a população e indicar os caminhos que o Brasil vai seguir para tentar conter o surto, Bolsonaro usou um minuto e meio para enaltecer seu governo e solicitar que seus [&#8230;]</p>
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<p>Em meio à pandemia do coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro apareceu em pronunciamento nacional de rádio e TV ontem à noite. Ao invés de tranquilizar a população e indicar os caminhos que o Brasil vai seguir para tentar conter o surto, Bolsonaro usou um minuto e meio para enaltecer seu governo e solicitar que seus pares &#8220;repensem&#8221; os atos contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF) programados para este domingo (15). <br><br>Com a previsão de progressão geométrica da doença e o dobro de casos confirmados de um dia para o outro, o presidente postou nesta sexta-feira no Twitter uma foto dando &#8220;banana&#8221; para comunicar que testou negativo para o novo vírus. O secretário de comunicação Fabio Wajngarten está com o coronavírus, após voltar da viagem com a comitiva de Bolsonaro aos Estados Unidos.<br><br>Na live no Facebook que fez de máscara ao lado do ministro da Saúde, Luiz Mandetta, na noite de ontem, Bolsonaro afirmou que era recomendado adiar em &#8220;um mês ou dois&#8221; os atos e que &#8220;o recado já estava dado ao Congresso&#8221; &#8211; com quem disputa o controle de um orçamento de R$ 30 bilhões. <br><br>A fala do presidente dividiu a extrema direita. Depois de uma radicalização em grupos nas redes sociais que envolveu até a notícia de que Israel já tinha a cura para a Covid-19, alguns movimentos decidiram cancelar os atos ainda na noite de ontem.<br><br> Nem todos receberam a notícia bem. A hashtag #DesculapJairMasEuVou começou a ser levantada. Com mobilização feita, trios elétricos, banners e material gráfico já pronto, muitos se recusam a cancelar a manifestação. <br><br>Nas redes sociais, muitos apoiadores defendem que o coronavírus é uma invenção da imprensa &#8211; na quarta-feira, Bolsonaro chegou a chamar a epidemia de &#8220;fantasia&#8221;. Artes com  frases como &#8220;o vírus que mata os brasileiros é a corrupção&#8221; se espalharam rapidamente. <br><br>Em Pernambuco,  o protesto estava marcado para às 14h na Avenida Boa Viagem. Oito grupos de extrema direita se reúnem hoje à noite para decidir o que vão fazer. &#8220;Está dividido. Metade quer adiar, metade quer continuar&#8221;, conta Nelson Monteiro, do Endireita Pernambuco.  <br><br>Pelo menos quatro trios elétricos haviam sido contratados. O do Movimento B38 &#8211; liderado pelo coronel Fernando e Gustavo Holanda, com trio pagos por eles -, o do Movimento Vem Pra Rua &#8211; coordenado no Recife por Marconi Ferraz &#8211; e o do Endireita Pernambuco. &#8220;Marconi ganhou a diária do trio. Já o B38 fez uma cotinha entre eles. A gente fez uma vaquinha virtual para pagar os R$ 4 mil do trio. Conseguimos R$ 1,4 mil e completamos o resto&#8221;, detalhou Nelson, que se anuncia como pré-candidato a vereador do Recife. <br><br>O quarto era o do Movimento Cidadão, que ainda na noite de ontem emitiu um comunicado cancelando a participação no evento. O grupo conseguiu R$ 8 mil para o ato &#8211; quase R$ 5 mil foi para o aluguel do trio elétrico.  <br><br>Uma das organizadoras, Onilda Ferreira, conta que muitas pessoas já estavam com receio de comparecer à manifestação. &#8220;Sentimos um certo enfraquecimento. Alguns doadores dizendo que não iam, que estavam com medo. A imprensa ficou colocando notícias que davam medo. Aí quando o presidente falou para repensar, achamos melhor adiar. Melhor adiar do que dar pouca gente e acharem que Bolsonaro não tem apoio&#8221;, afirmou. </p>



<h2 class="wp-block-heading"> O que está em jogo na manifestação </h2>



<p>Pesquisador e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP), Sérgio Ferraz lembra que esse ato não é algo isolado, mas ocorre desde o começo deste governo. &#8220;É uma presidência com clara dificuldade de conviver com as regras democráticas, para se dizer o mínimo. O que tem demonstrado é que há um claro intuito de atravessar as fronteiras e atacar o estado de direito&#8221;, comenta.<br><br>Para Ferraz, a direção que o governo Bolsonaro segue não é a de um golpe no modelo clássico. &#8220;Mas sim de desmoralização das instituições: do Congresso, do Ministério Público, do Superior Tribunal Federal, da sociedade civil como um todo. O que ele quer é governar com muito mais poder do que lhe confere a Constituição&#8221;, diz.<br><br>O cientista político cita dois episódios recentes que apontam nessa direção. Um é o motim da Polícia Militar no Ceará sem que tenha havido qualquer recriminação do Governo Federal. Pelo contrário: ao final, o comandante da Força Nacional, Aginaldo de Oliveira, elogiou os amotinados.<br><br>O segundo é a postura de Bolsonaro em relação ao ato deste dia 15. Primeiramente, quando foi noticiado que ele enviou convites pelo WhatsApp, ele afirmou que era algo que fez privadamente. &#8220;Mas depois ele falou abertamente, em Rondônia. Isso tudo vai demonstrando uma atitude agressiva, de ataque, cada vez mais aberta. E o que significa isso, além do óbvio? Não se trata de orçamento, de política pública, é uma determinação da Presidência da República para desgastar os poderes, visando um fortalecimento autoritário da presidência&#8221;, diz.<br><br> Professor do Departamento de Ciência Política da UFPE, Adriano Oliveira acredita que as instituições estão sendo prudentes ao não irem ao confronto aberto com Bolsonaro. &#8220;Elas estão dando uma chance ao presidente. É uma primeira hipótese: elas não querem radicalizar simplesmente porque nós estamos no ápice de uma crise econômica mundial que tem interferência no país. E também uma crise local, já que o plano Guedes não possibilitou reação da economia brasileira&#8221;, explica.<br><br>Mas para o professor há outros cenários que precisam ser também considerados. &#8220;Outra hipótese é que não querem enfrentar o presidente Bolsonaro ou tenham o presidente Bolsonaro como folclórico. Um terceiro cenário, mais perigoso, é que não enfrentam Bolsonaro porque têm medo de uma reação dos militares. Ou seja, os militares poderiam reagir contra a democracia apoiando o presidente Bolsonaro. Então esses três cenários devem ser citados para explicar essa prudência das instituições&#8221;, afirma. </p>



<h3 class="wp-block-heading">18M</h3>



<p>Marcado para o dia 18 de Março, o ato em defesa da educação e contra o governo Bolsonaro foi cancelado pela União Nacional dos Estudantes (UNE) por conta da pandemia do coronavírus. <br><br>Em nota, a UNE afirma que &#8220;esse é um momento de responsabilidade com a saúde do povo brasileiro e por isso em conjunto com outros movimentos, decidimos pelo adiamento dos atos de rua do dia 18, evitando o fomento de grandes aglomerações conforme orientações da OMS e Ministério da Saúde, mas mantendo as greves e paralisações.&#8221;</p>



<p>A nota também reafirma a importância da educação e pesquisa para momentos graves como este que o mundo enfrenta. &#8220;Os cuidados com a saúde pública são muito importantes nesse momento, e os estudantes, professores e cientistas têm mostrado a importância da pesquisa e dos hospitais universitários para a contenção da pandemia.&#8221;</p>



<p>Também em nota as frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, do campo progressista, se posicionaram pelo cancelamento das manifestações do dia 18, aproveitando para criticar os cortes nos investimentos federais na área de saúde no momento em que o governo é pressionado para dar resposta eficiente ao avanço do coronavírus.</p>



<p>&#8220;É importante ressaltar a necessidade da defesa de um sistema de saúde público, gratuito e universal e com ampliação de investimentos como única forma capaz de combater pandemias como essa que estamos vivendo. A Emenda Constitucional 95, que estabeleceu o teto de gastos, e a proposta defendida por Paulo Guedes de desvinculação total das receitas da união representam um ataque brutal ao SUS e precisam ser combatidas&#8221;.</p>
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		<title>Impressões sobre os conservadores do Nordeste</title>
		<link>https://marcozero.org/impressoes-sobre-os-conservadores-do-nordeste/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 Nov 2019 12:45:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[bolsonarismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A Venezuela é o inferno, os Estados Unidos, o Paraíso. O PSL foi um mal necessário, do qual é preciso se livrar o mais rápido possível. Jair Messias Bolsonaro é o herói da pátria amada Brasil. Seus filhos 01, 02 e 03, seus defensores. Ideologia é palavrão. Saudades da ditadura militar: não havia crimes, a [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[A Venezuela é o inferno, os Estados Unidos, o Paraíso. O PSL foi um mal necessário, do qual é preciso se livrar o mais rápido possível. Jair Messias Bolsonaro é o herói da pátria amada Brasil. Seus filhos 01, 02 e 03, seus defensores. Ideologia é palavrão. Saudades da ditadura militar: não havia crimes, a economia era pujante. Por que o exército deixou Lula livre?! A escravidão no Brasil foi branda. Não existe racismo. E se hoje ainda existem pretos, é porque eles marcaram bobeira e não se misturaram com os brancos. Tem coisas que um gay não consegue resolver, é preciso chamar um homem macho. O Nordeste é um antro comunista. Os funcionários públicos são quase todos petistas &#8211; vai demorar décadas para ter uma <em>despetização</em> do governo. O IBGE mente: o desemprego na era petista era de mais de 20 milhões. Bolsonaro precisa olhar mais para a gente, conservadores do Nordeste. Por que Bolsonaro não nos recebe?

Foi para uma plateia de senhoras bem vestidas, candidatos derrotados do PSL no Nordeste, jovens revoltados e homens e mulheres interessados em candidaturas no próximo ano que as ideias, crimes e anseios acima foram expostos e debatidos no I Fórum de Conservadores do Nordeste, que ocorreu na semana passada no auditório de um hotel em Boa Viagem.

O evento flopou: convidou até Bolsonaro, que não enviou representante. Ministro, deputados federais e <em>influencers</em> de extrema direita foram listados como participantes e não foram. A vaquinha virtual queria arrecadar R$ 20 mil, conseguiu R$ 650. Menos da metade das cadeiras do auditório do hotel Grand Mercure estavam ocupadas. O grande divulgador do evento foi Olavo de Carvalho, que fez uma videoconferência na abertura do fórum. Perto do final, a transmissão caiu e não conseguiram reconectar.

Abaixo algumas impressões sobre o que querem e quais as ideias dos que se dizem conservadores no Nordeste.
<h3>&#8220;Tem algum esquerdista aqui?&#8221;</h3>
Indagou a colunista e marqueteira política gaúcha Raquel Brugnera, antes de começar sua palestra. A plateia se ouriçou com a possível presença de um espião. Alguns entreolharam-se. Ninguém levantou a mão. &#8220;Porque, se tiver, vai ter que sair&#8221;. Mais suspense, mais olhares. &#8220;O que vou repassar aqui é informação estratégica para a direita conservadora&#8221;, avisou, como se antecipasse um grande segredo. Pelas próximas duas horas, porém, Raquel iria escutar desabafos de candidatos derrotados e apresentar slides sobre princípios básicos de como se faz uma campanha política.

Mas, seguindo à risca a cartilha de que um inimigo é indispensável, mesmo em um ambiente exclusivamente bolsonarista, ela não passava quinze minutos sem incitar a plateia: &#8220;Tem algum esquerdista aqui?&#8221;, repetia. As senhoras da plateia davam risadinhas divertidas, como se a descoberta de um mártir &#8220;esquerdista&#8221; fosse ser o grande momento do dia. Não aconteceu.
<h3><em>Fake news</em> e formação de tropa</h3>
Como uma marqueteira de direita exemplar, Raquel não dispensou uma <em>fake newszinha</em>. Na coluna que mantém no inacreditável Jornal da Cidade Online (ele, sozinho, daria uma CPMI de <em>fake news</em> inteira), publicou uma montagem ao lado do presidente, de Eduardo Bolsonaro e de um conhecido e raivoso comunicador bolsonarista. Colocou imagens dizendo que eles haviam sido convidados. Era verdade. Mas, faltando dois dias para o evento, ela já sabia que eles não iriam. Também afirmou que faz parte da primeira turma de estrategistas de campanha política. <a href="http://observatoriodaimprensa.com.br/circo-da-noticia/a-longa-historia-do-marketing-politico/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Eisenhower se revirou no túmulo</a>.

Na longa palestra, falou sobre o que chamou de &#8220;formação de tropa&#8221;. Que a esquerda tinha generais e soldados. E que a direita tinha que ter soldados. Era preciso seguir as ordens dos que os cabeças dizem. No seu caderninho, uma senhora de colar de pedras anotava tudo e tirava fotos dos <em>slides &#8211; </em>tinha até referência a um livro do professor da UFBA Wilson Gomes, crítico do Bolsonarismo. Outra levantou a mão para um desabafo. Disse ser de uma família tradicional de Maceió. A família toda votou em Bolsonaro, mas agora os parentes reclamavam da devoção dela ao presidente. &#8220;Minha vida agora é fazer cursos, ir para palestras sobre conservadorismo, divulgar Bolsonaro na internet e disso eles reclamam&#8221;, disse. Foi bastante aplaudida.

No final, a palestra serviu mesmo para Raquel divulgar uma página de Facebook que ela montou para as eleições do ano que vem: quer dar &#8220;direito de resposta&#8221; aos ataques que os candidatos podem receber da imprensa e de &#8220;esquerdistas&#8221;. Ficou bastante feliz quando alguém da plateia falou que tinha uma <em>fanpage</em> com 2,3 milhões de seguidores e que iria divulgar a página dela.
<h3>O novo partido de Bolsonaro</h3>
O comandante Rangel foi candidato do PSL ao senado, pela Bahia. Diz ser amigo de Bolsonaro e estar por dentro do que se passa no Palácio do Planalto. &#8220;Uma vez por semana estou lá&#8221;, falou. A plateia então o cravou perguntas sobre o motivo de Bolsonaro não fazer mais ações na região e não ouvir tanto o baixo clero da direita no Nordeste. &#8220;Ele é do Rio, se cercou de pessoas que ele já conhecia, e são todas do Sudeste. Temos que entender isso&#8221;, argumentou.

O PSL, aliás, já era história. Todos diziam ir para o partido que Bolsonaro fosse criar &#8211; ontem, ele anunciou que vai criar o Partido Aliança pelo Brasil. A recriação da União Democrática Nacional (UDN) também foi vista como uma opção para o futuro dos candidatos. Rangel reclamou que as assinaturas para criação de partido tenham que ser feitas presencialmente &#8211; se falou em uma lei que pudesse ser pela internet. Várias pessoas se dispuseram a ir às ruas colher as assinaturas.

A mágoa com o PSL foi cristalizada na fala de um ex-candidato a deputado por Sergipe que ficou muito desolado porque o PSL quis comprá-lo com um cargo do segundo escalão &#8211; ele só queria do primeiro. Ficou emocionado quando lembrou da lista que o entregaram e se engasgou com o choro. &#8220;Desculpem, sou cancerígeno&#8221;, afirmou, antes de se corrigir como canceriano, o signo. No segundo dia do evento, ele repetiu sua triste história.
<h3>O mais radical, o mais aplaudido</h3>
Em algumas falas ficou claro que a diferença entre liberais e conservadores estava no apego ao que chamam de guerra cultural: os conservadores são paranoicos com os direitos das minorias. Após a fala protocolar de Rangel, houve um momento de &#8220;microfone livre&#8221;. Um homem vestido de preto, longa barba e careca tomou a fala. Se apresentou como sendo o historiador Raimundo Campos. Foi o mais radical, criminoso inclusive.

Quando foi homofóbico, foi aplaudido com entusiasmo (&#8220;Não tem macho mais no país&#8221;; &#8220;Viado não resolve as coisas&#8221;). Quando foi racista também. Defendeu também grupos de extermínio: &#8220;Se mata muito no Recife, mas quem morre não é cidadão de bem. Só morre bandido. Quem mata é a polícia? não, senhor. Tem as organizações silenciosas. Se você mata alguém ou ofende alguém que tem amigos e familiares, essas pessoas se organizarão nas sombras e efetuarão a lei do cão. A audiência de custódia é com o capeta&#8221;. Risos e aplausos.

Em seguida, o policial civil Eric Guerra ,&#8221;o caçador&#8221;, também deturpou a história para falar que o Comando Vermelho é uma organização comunista e que deu origem ao PT. Falou isso com base em nada, mas citando Lênin, Marx e Gramsci. Com uma fala arrastada, não gerou a mesma comoção do seu antecessor.
<h3>Lula Livre</h3>
Na quinta-feira, o Fórum se encerrou com pedidos de oração para que o STF não permitisse a liberdade de condenados em segunda instância. No cafezinho da sexta-feira, já com a decisão que libertaria o ex-presidente Lula, o clima era de indignação. &#8220;Não é possível que o exército não faça nada!&#8221;, reclamava um homem de paletó. Outro, se dizendo por dentro do alto escalão do Exército, tentava pacificar. &#8220;O exército vai intervir quando Bolsonaro achar que é a hora&#8221;. Teve também quem achou bom o Lula ter sido solto. &#8220;Pelo menos agora param com essa chateação de Lula livre a toda hora&#8221;.

<em>* O nome dos candidatos e ex-candidatos não estão citados para não divulgar possíveis/futuras candidaturas extremistas</em><p>O post <a href="https://marcozero.org/impressoes-sobre-os-conservadores-do-nordeste/">Impressões sobre os conservadores do Nordeste</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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