Homem com bandeira do brasil nas costas levanta o punho direito em direção ao alto da rampa do Palácio do Planalto, onde, ao longe, estão pessoas em pose solene, provavelmente entre elas está o presidente Bolsonaro e a primeira-dama.
Crédito: Isac Nóbrega/ Agência Brasil

Nos últimos dias para a eleição do segundo turno há um bombardeio de pesquisas eleitorais. Desta quarta-feira (26) até o sábado (29), véspera das eleições, serão divulgadas pelo menos 11 pesquisas para presidente. Após o primeiro turno deste ano, com vários resultados fora da margem de erro das pesquisas divulgadas dias antes, teve início um feroz movimento no Congresso para a punição dos institutos de pesquisa.

A busca por criminalizar as pesquisas eleitorais não é algo novo e há registros de projetos de lei neste sentido desde a primeira eleição da redemocratização do Brasil. Ainda assim, chama a atenção as movimentações das últimas semanas encabeçadas pelo presidente da Câmara Federal, Arthur Lira, que conseguiu aprovar a urgência de um projeto de lei que amplia multas a institutos de pesquisa e altera o conceito de pesquisa fraudulenta, prevendo até prisão.

Além deste projeto de lei, aliados do presidente Bolsonaro, incluindo o filho Eduardo Bolsonaro (PL), protocolaram na sexta-feira (21) um pedido de uma CPI para investigar os institutos, que também é apoiada por Lira.

Alvo dos bolsonaristas, pesquisadores também têm sido agredidos no Brasil afora. Em nota, a Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep) e a Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (Abrapel) repudiaram nesta semana as agressões. “As empresas de pesquisa realizam um trabalho importante para o processo eleitoral, fornecendo informações relevantes à população. A tentativa de interferir no trabalho dessas empresas ou descredibilizá-las representa uma afronta à liberdade de expressão e à própria democracia”, afirmam as associações.

Ainda que não devam ser criminalizadas, as pesquisas eleitorais precisam ser olhadas de uma forma mais realista, acreditam especialistas. “A pesquisa é uma estimativa do momento em que foi realizada, e não pode ser encarada como previsão do futuro”, afirma o professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS) Carlos Figueiredo, pesquisador das áreas de comunicação e economia.

O cientista político Antônio Torres, doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), faz coro ao ratificar que as pesquisas são um retrato do momento. “Não têm a intenção de prever o resultado eleitoral. Uma das formas que se utiliza para ver se os institutos foram bem ou não é comparando com o dia da eleição. Mas existem outras formas mais adequadas. Todas essas situações de incerteza do eleitorado no voto, de migração de última hora para um possível voto útil podem também ter acontecido no primeiro turno. Mas um sintoma que vem sendo identificado é que as pesquisas estão subestimando os votos em Bolsonaro”, avalia Antônio Torres.

Essa fenda em relação ao total de votos em Bolsonaro é bem nítida quando se compara o resultado das urnas às pesquisas do dia anterior ao primeiro turno. As pesquisas de voto em Bolsonaro variavam entre 34% (Datafolha e Ipec) e 37,3% (Paraná Pesquisas) – ou seja, de -7,29 a -3,99 pontos em relação ao resultado das urnas que foi de 43,2%.

Carlos Figueiredo. Crédito: Acervo pessoal

Minar a credibilidade da imprensa é uma das principais estratégias da extrema-direita e as pesquisas estão também sendo usadas para isso. Um exemplo é o pedido do Ministro das Comunicações, Fábio Faria, para que os eleitores de Bolsonaro boicotassem as pesquisas. “No primeiro turno, o voto envergonhado pode ter sido o voto em Bolsonaro e não no Lula, como muita gente acreditava. É muito difícil verificar essa hipótese, mas pode ter existido a influência da guerra comunicacional que a extrema-direita trava nos dias que antecedem às eleições, e que pode ter conquistado o eleitor de Ciro Gomes e Simone Tebet. A discrepância entre as pesquisas e o resultado das urnas acaba se tornando um elemento utilizado pela extrema-direita para desacreditar os institutos de pesquisa e a imprensa, que veicula esses levantamentos”, afirma Carlos Figueiredo.

Além da estratégia da extrema-direita, o atraso no Censo, que deixa uma infinidade de dados no Brasil defasados, também pode ter influenciado nas discrepâncias. Figueiredo aponta que o instituto Atlas, que divulgou resultados mais próximos das urnas, usou a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua de 2021, e não o Censo 2010. “As amostras podem ter representado equivocadamente determinadas classes sociais, grupos religiosos entre outros, pois os dados utilizados para construir as amostras estão defasados e não correspondem mais à realidade. Quanto à metodologia, não sei se seria o caso de mudá-la radicalmente. Mas a construção da amostra deveria utilizar, sim, dados mais recentes”, acredita.

Outro ponto levantado por Carlos Figueiredo é que a abstenção é difícil de ser medida por meio das pesquisas eleitorais. “O cientista político Antônio Lavareda, que possui larga experiência de atuação em campanhas políticas, apontou que a abstenção eleitoral pode ter desempenhado um papel muito relevante. Poucas pessoas confessam que não votarão quando respondem a pesquisas, mas a abstenção alcançou 20,95%, quase 33 milhões de votos. Os números de brancos e nulos também foram muito baixos, cerca de 4,3%, quase metade da média histórica. Esses números apontam para um voto decidido no último momento”, aponta.

Pesquisas eleitorais no centro da cobertura

As pesquisas de intenção de voto são super exploradas pela imprensa? Há um peso exacerbado dessas pesquisas na cobertura jornalística? Tema de vários estudos acadêmicos, é difícil falar de cobertura eleitoral na grande mídia sem que as pesquisas estejam no centro da cobertura eleitoral. Emissoras de TV e grandes portais gastam centenas de milhares de reais com pesquisas, eleições após eleições.

Para o professor da UFS, as pesquisas ocupam essa centralidade porque jornalistas precisam transformar a política em uma narrativa atraente. Mas a cobertura das estratégias dos grupos políticos, embora sejam pratos cheios para narrativas envolventes e com emoção, tendem a ser repletas de informações de bastidores, observações, sentimentos, frases e expressões que carecem de “objetividade”.

“Para comentar sobre política de forma ‘objetiva’ os jornalistas precisam de dados que sustentem essa pretensa objetividade. As pesquisas fornecem esse dado objetivo coletado e analisado a partir de uma metodologia sólida. Nos períodos não-eleitorais, é comum jornalistas dos canais de notícias por assinatura discutirem as taxas de aprovação dos governos estaduais e federal, por exemplo. Nas eleições, essa lógica é exacerbada. A partir das mudanças nas pesquisas, que podem sugerir tendências do eleitorado, os comentaristas da mídia postulam possíveis estratégias, dão veredictos, criticam as ações das campanhas dos candidatos, por exemplo, sempre com base em dados que seguem critérios científicos com larga tradição nas ciências sociais”, afirma Carlos Figueiredo.

O cientista político Antônio Torres vê que há uma ansiedade na imprensa e que as pesquisas políticas acabam sendo veiculadas de forma equivocada. “Principalmente quando se chega na reta final da campanha e as manchetes focam nos votos válidos. Acaba sendo um uso que, de certa forma, quer buscar uma antecipação do resultado, que não é o propósito das pesquisas”, diz.

Esse foco nas pesquisas, acredita Antônio, se intensificou nestas eleições com os sites que agregam várias pesquisas e a proliferação dos institutos fazendo pesquisa eleitoral. “É difícil não colocar a pesquisa como central nessa cobertura quando o que temos visto é mais e mais pesquisas sendo feitas. Isso pode confundir os eleitores, porque tem várias pesquisas, com metodologias diferentes que não são comparáveis. E essa diferença de percentuais entre institutos acaba fazendo que haja ainda mais discussões, deixando as pesquisas ainda mais centrais”, diz.

Para Carlos Figueiredo, o problema de colocar as pesquisas nessa centralidade da cobertura é que questões envolvendo os problemas públicos e desafios dos governos a serem eleitos passam ao largo da cobertura, que acaba tomando um rumo despolitizante. “É o que alguns estudiosos chamam enquadramento da ‘corrida de cavalos’. A eleição é tratada como uma corrida em que cada participante traça suas estratégias, cujo sucesso será debatido a cada nova pesquisa eleitoral. O grande problema é que vivemos em um mundo em que as instituições parecem desmoronar diante dos nossos olhos, e determinadas ações como ataques às instituições, desinformação, entre outros, são tratadas simplesmente como ‘estratégias’. É um mundo complexo, e isso exige que os jornalistas políticos se esforcem para explicá-lo ao público”, afirma.

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