Presidente da República Jair Bolsonaro posa para fotografia com apoiadores em sua saída do InterContinental New York Barclay Hotel. Crédito: Alan Santos/PR

Confundir para conquistar parece ser um ponto em comum na ascensão da extrema-direita no mundo nos últimos anos. As redes sociais são a estrada explorada para a disseminação de informações falsas, contraditórias e distorcidas que apelam às emoções e paixões cultivadas por setores da sociedade. Alguns autores cunharam a expressão “populismo digital” para o fenômeno. O tema vem tomando a atenção de pesquisadores que tentam entender a complexidade envolvida nos processos que relacionam a polarização política com as mais variadas estratégias de desinformação.

No Brasil, a família Bolsonaro chegou ao poder explorando a comunicação direta com os eleitores especialmente pelo Whatsapp. Reproduzindo o discurso do ódio, estereótipos e preconceitos da “guerra cultural” apregoada desde os anos 1990 pelo escritor Olavo de Carvalho. À “mamadeira de piroca” e o “kit gay” juntou-se o revisionismo histórico de militares ressentidos com o fim da ditadura militar e a perda de protagonismo político para os civis. Tudo isso financiado por disparos ilegais em massa bancados por empresários amigos do clã.

Para ampliar o debate sobre populismo digital e estratégias de propagação de desinformação nas redes, os Programas de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Universidade Paulista (UNIP) promovem, entre os dias 23 de setembro e 4 de novembro, dois ciclos de debates: “Processos interacionais e Política” e Processos Interacionais e Desinformação”. As discussões envolverão 12 pesquisadores nacionais e internacionais e contarão com seis sessões de palestras e debates sempre às quintas-feiras, das 9h às 12h, com transmissão ao vivo pelo canal no YouTube da Rádio Universitária Paulo Freire.

Professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UNIP e um dos organizadores do ciclos de debates, Paolo Demuru vê em Bolsonaro a estratégia de construir proximidade com o público, agindo como uma espécie de espelho das interações desse público nas redes. “Comer pizza na rua em Nova Iorque é parte da construção dessa informalidade”, diz, referindo-se à viagem do presidente à Assembleia Geral da ONU, com sede na cidade que proíbe a presença de pessoas não vacinadas – como é o caso de Bolsonaro – nos restaurantes.

Essa comunicação direta nas redes de “um presidente, a máxima figura do Estado brasileiro, que deslegitima a mídia tradicional todo o dia, reforça a perda de legitimidade e autoridade dessa mídia e do jornalismo tradicional”, alerta Demuru. Levantamento realizado pela Repórteres Sem Fronteiras indicou que o presidente, seus filhos e autoridades públicas do alto escalão do governo federal protagonizaram pelo menos 331 ataques à imprensa no primeiro semestre deste ano. Outro estudo da RSF registrou, entre março e junho, 498 mil tweets ofensivos à imprensa, a grande maioria de perfis alinhados ao bolsonarismo.

Demuru, que é italiano mas vive há muitos anos no Brasil, tem realizado estudos com o colega Franciscu Sedda, professor de semiótica da comunicação contemporânea e semiótica da cultura na Universidade de Cagliari, na Itália. Eles criaram o termo redesocialismo para definir o novo populismo de direita e extrema-direita que tem em Bolsonaro um dos principais representantes, como também o ex-presidente norte-americano Donald Trump e o senador e ex-vice primeiro-ministro italiano Matteo Salvini.

“A comunicação política desses líderes de extrema-direita, como Bolsonaro, nos parece uma exasperação das lógicas interacionais e discursivas e de linguagem das redes sociais. Por exemplo, a provocação. Bolsonaro é um tipo que provoca o tempo todo. Outra coisa é a brincadeira política, o ódio misturado com o humor. Outro elemento é o grito. Nas redes sociais se tende a não ouvir, não tem espaço para um debate público articulado porque, muitas vezes, vêm essas figuras que chegam trollando para impedir o debate. Bolsonaro é um cara que grita o tempo todo”, explica Demuru.

Para o pesquisador, esses elementos de linguagem mantém ativado o núcleo duro de apoio ao presidente brasileiro que resiste em torno do patamar de 20% de avaliação ótima e boa para o desempenho do seu governo, apesar da queda de popularidade. Na última pesquisa Datafolha, divulgada em 15 de setembro, 54% dos brasileiros consideravam o governo Bolsonaro ruim ou péssimo, 24% regular e 22% ótimo ou bom. Isso num país de taxas recordes de desemprego e inflação, e que deve atingir 600 mil mortos por Covid-19 nos próximos dias.

Discurso contraditório

O populismo contemporâneo, sobretudo o da extrema-direita, tem uma ideia de povo como um todo anônimo, de uma massa sem diferença no seu interior, e essa perspectiva é muito mais fácil de ser produzida nas redes sociais, numa comunicação em que a individualidade e as diferenças são menos importantes do que a condição de circulação, segundo o professor Franciscu Sedda. “O líder populista desfruta dessa situação porque se põe como uma espécie de megafone do coletivo, de alguém que fala pelo povo, que traz a voz do povo para o espaço político”, argumenta. Daí a necessidade de se passar por alguém simples, comum, sem luxo.

O discurso contraditório de Bolsonaro, que diz uma coisa em um dia e logo depois nega o que disse ou se contradiz, não acontece por acaso. É também uma característica do populismo digital da extrema-direita. “A ideia de um líder populista de direita é que a contradição está correta, que o povo não precisa ser organizado. As contradições são aceitas como algo positivo. É a elite que não atua de modo correto. O líder é contraditório como o povo é contraditório e não tem medo de se contradizer porque o povo, na sua construção midiática, semiótica, desse tipo de relação, vai aceitar esse tipo de contradição se ela cria o efeito da presença do povo dentro da política”, explica Sedda.

Quando essa relação entre líder populista e seu público se constrói na comunicação direta das redes sociais – sem a intermediação da mídia – ela ganha ainda um outro elemento, na visão do pesquisador italiano, que é a percepção de quebra do monopólio da elite, onde não existe um filtro, uma tradução institucional do discurso. “Quebra de uma elite não só política, mas de uma elite de espertos, de pessoas que sabem gerir a sociedade, como os intelectuais e os professores, que dizem saber enfrentar o coronavírus, por exemplo. Dá uma sensação de vingança, de poder mudar as relações de poder. De colocar os que são identificados como elite em posição de minorizados”.

Mentiras e pulverização da verdade

Em 12 minutos de discurso na abertura da Assembleia Geral da ONU, na terça-feira (21), mais da metade das informações apresentadas por Bolsonaro não eram exatas. Segundo levantamento da agência de checagem de informações Aos Fatos, dos 42 trechos analisados, 23 continham desinformação, sendo 10 falsos, nove imprecisos, dois exagerados e dois insustentáveis. A maioria nas áreas de meio ambiente, pandemia e corrupção.

Paolo Demuru lembra que depois do episódio da invasão do Capitólio, nos Estados Unidos, o Twitter baniu o ex-presidente Donald Trump da plataforma, mas que Bolsonaro continua a mentir cotidianamente, tendo inclusive defendido, no discurso que proferiu na ONU, o tratamento precoce para a Covid-19 com medicamentos sem qualquer eficácia e continua podendo espalhar desinformação nas suas redes oficiais.

“Bolsonaro pulveriza a verdade, que passa a ser algo puramente circunstancial no sentido de que não existe mais a verdade do fato em si. A verdade é algo que pode ser manipulada. Uma vez que a verdade deixa de existir como algo factual você pode dizer que algo é verdadeiro ou falso a qualquer momento e mudar de posição no futuro, que é o que Bolsonaro faz”, afirma.

Fábrica de crises

O presidente brasileiro sabe usar como poucos outra artimanha dos líderes da extrema-direita para mobilizar apoiadores: construir crises e se colocar como vítima dos outros poderes. É o que faz quando acusa o Supremo Tribunal Federal de ter tirado prerrogativas do governo federal ao garantir que governadores e prefeitos devem administrar a gestão do enfrentamento à Covid-19 em seus estados e municípios, omitindo que as ações são compartilhadas com a União. Ou quando acusa o ministro Alexandre de Moraes de descumprir a Constituição na condução do inquérito das fake news no STF e o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luís Roberto Barroso, de defender um sistema de votação que vai fraudar a reeleição.

“O populismo surge da ideia de estar contra, é uma tentativa de traduzir na política um sentido negativo, um sentido de exclusão. O populismo precisa da crise e vai criar a crise”, afirma Franciscu Sedda, completando: “Quando está fora do sistema, os líderes populistas se colocam contra tudo. Numa ideia de destruição total do presente para uma renovação total. Quando vencem não podem cumprir as promessas que faziam e começam a construir uma posição de vítima. O problema é que, na sua concepção, precisa ser praticamente um ditador para resolver os problemas. O populista é vítima dos grandes poderes por isso preciso ser ele o grande poder”.

Paolo Demuru e Franciscu Sedda vão dividir a primeira mesa dos Ciclos de Debates promovidos pelos Programas de Pós-Graduação em Comunicação da UFPE e da UNIP com Viktor Chagas, pesquisador da Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense, coordenador do Laboratório de Pesquisa em Comunicação, Cultura Política e Economia da Colaboração (coLAB) e do projeto de extensão #MUSEUdeMEMES.

Humor e disseminação de ódio

Viktor estuda o humor como estratégia de disseminação do ódio nas redes sociais, trabalhando o MEME como objeto privilegiado. Os memes que flertam com aspectos do discurso de ódio, como memes racistas, misóginos ou homofóbicos. “A ideia é tentar entender na verdade como é que o humor é estrategicamente empregado por determinados grupos para construir um certo repertório de ação. É a ideia de que, por se tratar de uma piada, uma brincadeira, aquele discurso se torna mais leve e palatável e, supostamente, ele não ofende”.

Essa “retórica da brincadeira” vem para, na visão de Viktor, naturalizar as agressões. “Essa operação que passa a se transformar numa operação retórica, inclusive, de busca de convencimento do outro de que aquilo é normal, de que aquilo é bobagem, de que aquilo é banal, que ninguém deve prestar atenção nesse tipo de fala e nesse tipo de ação, quando na verdade são essas falas e essas ações que ajudam a construir determinados imaginários que minorizam a mulher, o negro, as pessoas LGBTs. Evidentemente que quando isso se torna parte do discurso oficial ele apresenta um conjunto enorme de problemas”, explica numa referência às manifestações de Bolsonaro nas redes sociais.

Viktor alerta que este não é um contexto apenas brasileiro, mas que está presente em vários países em que a extrema-direita chegou ao poder. “Não à toa, por exemplo, o presidente da Ucrânia teve uma trajetória como comediante, não à toa o ex-primeiro ministro da Itália teve passagem por programas de humor e por programas de auditório. Reconhecer que esses são usos estrategicamente empregados por esse segmento faz a gente entender melhor como essa ascensão da extrema direita no mundo, de forma geral, vem tomando lugar nos últimos anos”.

O pesquisador diz que, do ponto de vista da reflexão acadêmica, o humor é tratado como instrumento de questionamento do poder, no seu aspecto politizante, mas o problema é que ele passou a ser cooptado pelo campo reacionário e, historicamente, vem sendo negligenciado do ponto de vista do debate teórico de como ele contribui para oprimir, forçar estereótipos. “É claro que temos esse uso subversivo e ele é fundamental, mas de uma certa maneira esse humor da extrema-direita coopta esse uso porque ele se apresenta como anti-sistêmico”.

O humor digital apresenta um conjunto de problemas e atravessamentos que o seu correspondente fora do ambiente digital não traz. “A dinâmica de visibilidade, que é inclusive concorrencial, é muito marcante, dado o aspecto de que o humor se apresenta como uma linguagem que engaja as audiências, porque ele chama atenção, ele joga pra dentro de um certo discurso e acaba se transformando num certo artifício desses grupos que buscam certa visibilidade”, diz Viktor. Isso explicaria a profusão de influenciadores digitais e produtores de memes – muitos da extrema-direita – “preocupados em ocupar um lugar na economia da atenção, nessa economia que alguns autores gostam de chamar libidinal”.

VEJA A PROGRAMAÇÃO COMPLETA DOS CICLOS DE DEBATE

Processos interacionais e política

Ementa: A proposta é discutir, a partir de distintas abordagens teóricas, as novas formas de fazer política sustentadas por processos interacionais que apelam para estesias coletivas, afetos e paixões, tirando proveito, sobretudo, da centralidade que as redes sociais digitais adquiriram na contemporaneidade.

Dia 23/09/21 (quinta-feira) – 9 às 12 horas 

Palestrantes

Franciscu Sedda (Universidade de Cagliari) 

Lógicas da provocação. Populismo e estratégias de comunicação nas redes sociais digitais

Viktor Chagas (UFF)

Humor e Ódio: A retórica da brincadeira política

Mediação: Paolo Demuru (UNIP)

Dia 30/09/21 (quinta-feira) – 9 às 12 horas 

Palestrantes

Eric Landowski (CPS, CNRS) 

Formas de adesão e rechaço na política.

José Luiz Fiorin (USP)

Estudar o sentido é uma ação política?

Mediação: Yvana Fechine (UFPE)

Dia 07/10/21 (quinta-feira) – 9 às 12 horas 

Palestrantes 

Marco Roxo (UFF)

Afinal, o que é populismo? Emergência histórica e dificuldades conceituais

Artur Perrusi (UFPE)

Autoritarismo e fascismo: uma análise psicossocial 

Mediação: Paolo Demuru (UNIP)

Processos interacionais e desinformação

Ementa:  A proposta é refletir sobre a produção de sentido nos processos comunicacionais e interacionais envolvidos na construção de peças e campanhas de desinformação, enfocando estratégias discursivas e de propagação, regimes de crença e metodologias de análise.

21/10/21 (quinta-feira) – 9 às 12 horas 

Palestrantes

Fábio Malini (UFES, LABIC)

Métodos de detecção da desinformação multiplataforma

João Guilherme Santos (INCT.DD)

Análise de redes complexas e dinâmicas multiplataforma: casos empíricos de combate à desinformação

Mediação: Cecília Lima (UFPE)

28/10/21 (quinta-feira) – 9 às 12 horas 

Palestrantes

Paulo Vaz (UFRJ)

Verdade e Crise da Representação

Geane Alzamora (UFMG)

Verdade e crença na sociedade da desinformação

Mediação: Cristina Teixeira (UFPE)

04/11/21 (quinta-feira) – 9 às 12 horas 

Palestrantes

Raquel Recuero (UFPel, UFGRS)

Desinformação e Covid-19 na Mídia Social no Brasil

Diana Luz Pessoa de Barros (USP, Mackenzie) 

Discurso político: interação e mentira

Mediação: Paolo Demuru (UNIP)