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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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		<title>Data centers previstos para Sergipe devem consumir mais energia do que todo o estado</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 24 Aug 2026 20:07:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[consumo de água]]></category>
		<category><![CDATA[data centers]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Wendal Carmo, do site Mangue Jornalismo Cerca de 186% mais eletricidade do que o atual consumo de todo o estado de Sergipe: esse é o custo energético do primeiro data center de hiperescala previsto para instalação no menor estado do Brasil. Projetado para uma área às margens da BR-101, no município de Nossa Senhora [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Wendal Carmo</strong>, <strong>do site <a href="https://manguejornalismo.org/vampiros-de-recursos-naturais-data-centers-previstos-para-sergipe-devem-consumir-mais-energia-do-que-todo-o-estado/">Mangue Jornalismo</a></strong></p>



<p>Cerca de 186% mais eletricidade do que o atual consumo de todo o estado de Sergipe: esse é o custo energético do primeiro data center de hiperescala previsto para instalação no menor estado do Brasil. Projetado para uma área às margens da BR-101, no município de Nossa Senhora do Socorro, o empreendimento consumirá 2 gigawatts quando estiver em total funcionamento; o atual consumo de Sergipe é de 700 megawatts.</p>



<p>Com o avanço das Inteligências Artificiais (IAs), cresceu a necessidade de grandes empresas de tecnologia como Meta (dona do Instagram, Facebook e WhatsApp), Alphabet (dona do Google), ByteDance (dona do TikTok), Amazon e Microsoft por data centers de hiperescala. Essas são estruturas pensadas para o processamento e armazenamento de enormes volumes de dados, como os necessários para treinar IAs e possibilitar operações com criptomoedas.</p>



<p>Com o grande interesse no Brasil devido à sua larga oferta de energia de fontes renováveis, água e falta de regulamentação, empresas de data centers nacionais e estrangeiras têm negociado diretamente com estados e municípios os termos dos acordos de instalação, lógica aplicada também em Sergipe.</p>



<p>Há cerca de dois anos, o governo de Fábio Mitidieri (PSD) negocia a instalação de um data center da empresa estadunidense Optimus Technology Group, que inaugurará a Zona de Processamento de Exportação (ZPE) de Sergipe. Empreendimentos instalados em ZPEs recebem generosas desonerações fiscais e devem exportar pelo menos 80% de sua produção. O data center da Optimus ocupará 440 mil m² do total de 880 mil m² da ZPE de Sergipe e terá um centro de formação em IA, segundo comunicados oficiais do governo estadual.</p>



<p>O que parece uma boa notícia para a economia do estado esconde, na verdade, a altíssima demanda de energia para manter as operações ininterruptamente, além da água para resfriamento das máquinas, inclusive com a possibilidade de utilizar captação do Rio São Francisco.</p>



<p>O curta-metragem documental <a href="https://www.youtube.com/watch?v=pQrg-OrKHeI"><em>Vampiros de recursos naturais</em></a>, dirigido por Sarah Lima e as repórteres da Mangue Jornalismo Ana Paula Rocha e Rossella Cecília apresenta essas e outras informações resultantes de meses de investigação. A proposta foi selecionada na 18ª edição do Prêmio Fernando Pacheco Jordão para Jovens Jornalistas, organizado pelo<a href="https://br.linkedin.com/company/instituto-vladimir-herzog?trk=public_post-text" target="_blank" rel="noreferrer noopener"> Instituto Vladimir Herzog</a>. Foram repassados R$ 6 mil para a realização do curta, que teve orientação da professora Ana Carolina Cavalcanti (DCOS/UFS) e mentoria da jornalista Angelina Nunes.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<div class="ratio ratio-16x9"><iframe title="Sergipe e os “vampiros de recursos naturais” na corrida da IA | 18º Prêmio Jovem Jornalista" width="500" height="281" src="https://www.youtube.com/embed/pQrg-OrKHeI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
</div></figure>



<p>Uma das descobertas foi o avanço não de um, mas dois projetos de data centers – o segundo está previsto para o município de Barra dos Coqueiros, mas não foram publicizados números sobre consumo de energia ou água. A localização exata também não foi definida ainda, porém, em entrevista para o documentário, o gestor da Zona de Processamento de Exportação (ZPE) de Sergipe, Carlos Augusto de Albuquerque, afirmou que o data center estará próximo à termelétrica da Eneva, no povoado de Jatobá.</p>



<p>As realizadoras percorreram diferentes localidades para entender qual a situação energética e hídrica dos municípios possivelmente<em></em>afetados caso as estruturas sejam instaladas. Elas constataram a cooperação entusiasmada das administrações públicas locais.</p>



<p>Nossa Senhora do Socorro, por exemplo,<a href="https://www.socorro.se.gov.br/sites/socorro.se.gov.br/files/renuncias-de-receitas/Lei%20Ordin%C3%A1ria%201844%202025%20de%20Nossa%20Senhora%20do%20Socorro%20SE.pdf"> aprovou uma lei em julho de 2025</a> que “Institui o Programa Municipal de Incentivo à Instalação de Data Centers mediante concessão de benefícios tributários e urbanísticos, e dá providências correlatas”. Dentre as benesses, está a isenção do Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU) “pelo prazo de até 10 (dez) anos, prorrogável por mais 5 (cinco) anos, mediante requerimento fundamentado”.</p>



<p>Já em Barra dos Coqueiros, a proximidade com a termelétrica da Eneva e a construção de uma segunda unidade a gás da mesma empresa sugerem que o data center que irá para a cidade pode ser alimentado com energia fóssil, caminho inverso ao preconizado por cientistas climáticos de todo o mundo. Apesar de menos poluente que o carvão mineral ou a queima de petróleo e seus derivados, o consumo de gás é um dos causadores do efeito estufa. Hoje, 20% de toda a reserva conhecida de gás fóssil no Brasil está em Sergipe, e o lobby pró-gás no estado é forte, como mostrou o segundo episódio do podcast<a href="https://open.spotify.com/episode/4YRAGttapu39VzVEmOW4cV"> </a><em><a href="https://open.spotify.com/episode/4YRAGttapu39VzVEmOW4cV" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Sergipe verde, Sergipe fóssil</a>,</em> lançado pela Mangue em dezembro de 2025.</p>



<p>Segundo levantamento do site <a href="https://www.datacentermap.com/brazil/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Data Center Map</a>, o Brasil tem 218 data centers em operação, mas nem todos são de hiperescala. A região Sudeste concentra a quantidade dessas estruturas no país. </p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/Virginia_Tech_-_data_center_Christopher-Bowns.jpg" alt="A imagem mostra o interior de um centro de dados — um ambiente técnico onde ficam fileiras de servidores organizados em racks metálicos pretos. O piso é branco e elevado, típico para permitir a passagem de cabos e ventilação. No teto, há arcos e luminárias que iluminam o corredor central. Ao fundo, vê-se uma porta de vidro que leva a outra sala. O logotipo azul “sgi” indica que o equipamento pertence à Silicon Graphics International, empresa especializada em computação de alto desempenho." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Brasil tem 218 data centers em operação
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Christopher Bowns/Wikimedia Commons</span>
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		<title>Na COP 17, ASA defende combate à desertificação que fortaleça comunidades tradicionais</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 21 Aug 2026 20:13:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Articulação do Semiárido (ASA)]]></category>
		<category><![CDATA[COP]]></category>
		<category><![CDATA[desertificação]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Ulaanbaatar (Mongólia) &#8211; Água, alimentos, renda, direitos territoriais e melhores condições de vida para as comunidades. Mais do que o replantio de árvores esses são os elementos essenciais para a restauração das terras secas. “Recuperar a vegetação é importante, mas não é suficiente. Precisamos cuidar também de quem historicamente cuida desses territórios”, enfatizou Luís Piritiba, da [&#8230;]</p>
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<p><strong>Ulaanbaatar (Mongólia</strong>) &#8211; Água, alimentos, renda, direitos territoriais e melhores condições de vida para as comunidades. Mais do que o replantio de árvores esses são os elementos essenciais para a restauração das terras secas. “Recuperar a vegetação é importante, mas não é suficiente. Precisamos cuidar também de quem historicamente cuida desses territórios”, enfatizou Luís Piritiba, da organização baiana Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa), integrante da <a href="https://asabrasil.org.br/publicacao/brazilian-semi-arid-where-climate-solutions-already-thrive/">Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA)</a></p>



<p>Essa foi uma das principais mensagens levadas pela delegação da ASA aos debates realizados nesta quarta-feira (19), durante a COP-17 da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), em Ulaanbaatar, na Mongólia, quando representantes da entidades, organizações parceiras, do Governo Federal e de instituições de pesquisa participaram de atividades sobre manejo da Caatinga e do Cerrado, restauração socioprodutiva, cooperação Sul-Sul, financiamento climático e racismo ambiental.</p>



<p>Embora organizados a partir de diferentes perspectivas, os debates convergiram em um ponto: as populações das terras secas não podem ser tratadas apenas como beneficiárias de projetos. Agricultores e agricultoras familiares, mulheres, indígenas, quilombolas e demais povos e comunidades tradicionais precisam participar das decisões e ser reconhecidos como sujeitos centrais da restauração.</p>



<p>Durante o painel “Manejo e Restauração de Florestas em Terras Secas: Propostas para Mitigar e Reverter a Degradação da Terra na América Latina”, foram abordadas as práticas de regeneração dos territórios e as condições políticas e financeiras necessárias para ampliar essas experiências.</p>



<p>Entre os alertas apresentados esteve o avanço de áreas semiáridas no Brasil. Segundo um estudo do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), de 2023, no qual analisou o período entre os anos 1960 a 2020, as áreas do semiárido do país têm crescido a uma taxa média superior a 75 mil km² a cada década.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>“Esse processo acontece em territórios nos quais milhares de estabelecimentos da agricultura familiar produzem grande parte dos alimentos consumidos pela população. Isso não é apenas uma ameaça à terra, mas também à segurança e soberania alimentar dos povos”, disse o Diretor de Combate à Desertificação da Secretaria Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais e Desenvolvimento Rural Sustentável do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Alexandre Pires.</p>
</blockquote>



<p></p>
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		<title>O que é que tem em um parque urbano?</title>
		<link>https://marcozero.org/o-que-e-que-tem-em-um-parque-urbano/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 28 Jul 2026 19:33:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[arborização]]></category>
		<category><![CDATA[concessão privada]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[parque da jaqueira]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Isabelle Meunier* Se você esteve em um parque urbano, ultimamente, tente lembrar o que você viu. Você viu alguma árvore com floração surpreendente, em vermelho flamejante, amarelo luminoso ou roxo profundo, de um jeito que você nem sabia existir? Reparou em gradientes impressionistas de verdes de copas que se entrelaçam, embaladas pelo vento? Viu [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Isabelle Meunier*</strong></p>



<p>Se você esteve em um parque urbano, ultimamente, tente lembrar o que você viu. Você viu alguma árvore com floração surpreendente, em vermelho flamejante, amarelo luminoso ou roxo profundo, de um jeito que você nem sabia existir? Reparou em gradientes impressionistas de verdes de copas que se entrelaçam, embaladas pelo vento? Viu crianças correndo sob o olhar de pais e mães, atentos mas seguros, sem as ameaças de automóveis? Ouviu a saudação do bem-te-vi, o anúncio do pitiguari ou o grito do gavião-carijó? Viu muitos canários e bicos-de-lacre comendo frutinhos do capim e a corruíra catando bichinhos em canteiros desordenados? </p>



<p>Pode ser que você tenha visto algum lago, fonte ou mesmo um trecho de rio e havia capivaras e até jacarés, frangos d’água ou uma garça-vaqueira. Viu também pessoas caminhando, correndo, namorando, conversando ou simplesmente respirando e vendo o tempo passar, aproveitando para simplesmente viver, sem artificialidades e estímulos de consumo. Sim, você estava em um parque urbano. </p>



<p>Mas se você visitou algum lugar com estacionamento cheio, barraquinhas variadas, esplanada impermeabilizada, placas de propaganda, telões, música animada, dança e até torcida de futebol, não amigo, você não esteve em um parque urbano. Você foi a um parque de eventos, a uma praça de alimentação, a um boulevard turístico ou a qualquer espaço urbano que pode ser muito legal para compartilhar a vida na sua cidade. Mas, ainda assim, você não teve a experiência proporcionada pela vivência em áreas verdes, não teve a chance de experimentar atividades independentes de apelos consumistas, não despertou seus sentidos com cores, sons e movimentos, lembrando que há vida e beleza além da ruidosa presença humana. </p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/55125946295_a3b5ab4f64_c-1.jpg" alt="A imagem mostra um totem digital amarelo instalado em uma área aberta do Parque Santana – Ariano Suassuna, em Recife. No visor do totem há um anúncio da marca “Esportes da Sorte”, com o texto “Melhores cotações” e a foto de uma pessoa sorridente. O entorno apresenta árvores, palmeiras e uma quadra esportiva cercada, com piso de tijolos e céu parcialmente nublado — um ambiente urbano e bem cuidado, típico de um parque público." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Publicidade no Parque Santana, concedido por 30 anos à iniciativa privada.
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Parece, e é, conversa de ambientalista. </p>



<p>A verdade é que o ambientalismo está muito mais atento às necessidades humanas do que o capitalismo tardio que aponta para a financeirização das áreas verdes. Muito mais do que gerar receita financeira, espaços como parques urbanos, praças e outras categorias de áreas verdes, públicas ou privadas, oferecem contribuições que vão além de produtos e serviços valoráveis, pois envolvem saúde física e mental, fortalecimento dos laços comunitários, bem-estar e felicidade das pessoas.</p>



<p>A garantia de oferta de Contribuições da Natureza para as Pessoas (CNP) em áreas verdes não depende de gestão empresarial nem exige geração de receita. Como serviço público essencial, exige, sim, investimentos, mas também muita sensibilidade, envolvimento social e cuidados de manutenção e proteção às formas de vida presentes, criando oportunidades para que as pessoas vivenciem experiências diversas e complexas, só oferecidas pelo ambiente natural. Não serão ingressos, maquininhas de crédito, quiosques e restaurantes que darão sustentabilidade aos parques do Recife, mas sim o compromisso efetivo de gestores e da sociedade com uma visão de cidade que acolhe e valoriza locais onde as pessoas se integram à natureza da qual fazem parte, aprendendo a respeitar sua diversidade, seus ritmos e processos. </p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <ul>
<li>Isabelle Meunier é engenheira Florestal e professora da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE)</li>
</ul>
    </div>
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		<title>Lideranças comunitárias e evangélicas se unem para protestar por transparência do ProMorar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jeniffer Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 24 Jul 2026 22:11:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Marco Zero]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[protesto]]></category>
		<category><![CDATA[rio Tejipió]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Neste sábado (25), o Movimento Gota D’Água, formado por organizações sociais, lideranças comunitárias e evangélicas realizará um ato público na Praça do Marco Zero, em Recife, a partir das 7h da manhã. O encontro reunirá moradores das comunidades do Ipsep, Jardim Uchôa, Caçote, Sapo Nu e Coqueiral, lideranças sociais e igrejas evangélicas para a leitura [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/liderancas-comunitarias-e-evangelicas-se-unem-para-protestar-por-transparencia-do-promorar/">Lideranças comunitárias e evangélicas se unem para protestar por transparência do ProMorar</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Neste sábado (25), o Movimento Gota D’Água, formado por organizações sociais, lideranças comunitárias e evangélicas realizará um ato público na Praça do Marco Zero, em Recife, a partir das 7h da manhã. O encontro reunirá moradores das comunidades do Ipsep, Jardim Uchôa, Caçote, Sapo Nu e Coqueiral, lideranças sociais e igrejas evangélicas para a leitura de uma Carta Manifesto e coleta de testemunhos de moradores sobre os impactos do Projeto ProMorar/BID na Bacia do Rio Tejipió.</p>



<p>O documento, que será apresentado às autoridades municipais, ao Judiciário e a organismos internacionais como Organização das Nações Unidas (ONU), Organização dos Estados Americanos (OEA) e Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), denuncia a falta de transparência do escritório social responsável por fazer a ligação entre a Prefeitura do Recife e as comunidades atendidas pelo programa. Além disso, também há queixas referentes aos riscos à saúde provocados pelas enchentes recorrentes e a ineficiência das obras de dragagem nas imediações da comunidade do Barro, realizadas em 2024.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Trecho da Carta Manifesto</span>

		<p>&#8220;As comunidades do Ipsep, Jardim Uchôa, Caçote, Sapo Nu e Coqueiral, por meio das entidades acima citadas, vêm reivindicar publicamente informações claras, transparentes e prévias sobre o andamento do PROMORAR em seus territórios; a garantia de participação efetiva nos processos de deliberação sobre os projetos; a comunicação antecipada acerca de eventuais reassentamentos das famílias que poderão ser impactadas; a apresentação de propostas de moradia adequada para essas famílias; a regularização fundiária dessas localidades; e, sobretudo, a implementação de soluções que ponham fim às inundações e aos alagamentos que, de forma recorrente, impõem perdas materiais, comprometem a saúde física e mental e que violam o direito à vida digna das moradoras e dos moradores&#8221;.</p>
	</div>



<p>Entre as reivindicações estão a garantia de permanência das famílias no território, reassentamento apenas após a entrega das novas unidades habitacionais, indenizações justas de no mínimo R$ 85 mil e obras estruturantes contra alagamentos. O movimento também exige maior participação feminina nos processos decisórios e formativos, ao criticar a superficialidade das ações voltadas às mulheres ao citar as oficinas de estética e autocuidado oferecidas pelo programa.</p>



<p>O evento contará com a presença de entidades como Instituto Solidare, Instituto Transformar, Cendhec, MNDH/PE, Nós na Criação e Fórum Popular do Rio Tejipió (Forte), além de lideranças religiosas.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/Movimento-Gota-Dagua-722x1024.jpeg" alt="A imagem de um cartaz que traz uma mensagem direta e mobilizadora: “Até quando vamos sofrer com as inundações? É hora de agir!”. Ele convoca moradores cansados de perder móveis, ver suas casas alagadas e viver com medo sempre que chove a se unir ao Movimento Gota D’Água. O ato está marcado para sábado, 25 de julho, com concentração às 6h da manhã no Marco Zero, em Recife. Haverá ônibus saindo das comunidades às 4h30, e o texto encerra com o chamado: “Sua presença pode mudar essa história”." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">
</p>
	                
                                            <span>Crédito: reprodução</span>
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	<p>O post <a href="https://marcozero.org/liderancas-comunitarias-e-evangelicas-se-unem-para-protestar-por-transparencia-do-promorar/">Lideranças comunitárias e evangélicas se unem para protestar por transparência do ProMorar</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>“Meu filho de 11 anos não dorme sem remédio”, denuncia agricultor vizinho de eólica</title>
		<link>https://marcozero.org/meu-filho-de-11-anos-nao-dorme-sem-remedio-denuncia-agricultor-vizinho-de-eolica/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Jul 2026 21:12:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[atingidos pelas renováveis]]></category>
		<category><![CDATA[Caetés]]></category>
		<category><![CDATA[enegia renovável]]></category>
		<category><![CDATA[energia eólica]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“A felicidade do meu filho foi chegar em casa gritando ‘pai, eu consegui dormir’, quando voltou da casa de uma parente longe daqui”. O depoimento é do agricultor Walisson José da Silva, de 32 anos. O primogénito, José Heytor, tem apenas 11 anos, mas precisa tomar remédio para dormir diariamente. O barulho incessante das torres [&#8230;]</p>
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<p>“A felicidade do meu filho foi chegar em casa gritando ‘pai, eu consegui dormir’, quando voltou da casa de uma parente longe daqui”. O depoimento é do agricultor Walisson José da Silva, de 32 anos. O primogénito, José Heytor, tem apenas 11 anos, mas precisa tomar remédio para dormir diariamente. O barulho incessante das torres eólicas ao lado de casa, em Caetés, no agreste pernambucano, tirou o sossego também das crianças.</p>



<p>“Se a gente não dá a medicação altamente forte, nem dorme ele nem dorme a gente, ele fica delirando. Infelizmente esse é o resultado do empreendimento que trouxeram para nós”, lamenta Walisson. A caçula, Jenifer Victória, de 6 anos, também já sente os efeitos. “Eu comecei a perceber recentemente que ela está com sinais de ansiedade e de bruxismo”, relata o trabalhador rural, que teve perda auditiva por causa das turbinas, instaladas no município há mais de uma década.</p>



<p>Ainda não há pesquisas científicas que relacionem o impacto desse tipo de geração de energia na saúde infantil de Caetés, a 250 quilômetros do Recife. Mas, para os profissionais da saúde, os relatos clínicos não deixam dúvidas: a vida dos mais novos já não é mais a mesma, as mudanças atravessam o cotidiano, as formas de brincar, o sono, a sensação de segurança e a relação com o território.</p>



<p>“O que tenho visto, dando suporte médico no território, é que crianças e adolescentes desenvolveram, entre outras coisas, transtorno de ansiedade generalizado e que a síndrome da turbina eólica atingiu também essa população”, relata Maria Eduarda Valois Spencer, médica da atenção primária à saúde e professora de Medicina no Centro Acadêmico do Agreste da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e na Autarquia de Ensino Superior de Garanhuns (Aesga). Ela é colaboradora da <a href="https://marcozero.org/pesquisa-comprova-danos-a-saude-mental-de-camponeses-10-anos-apos-instalacao-de-eolicas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">pesquisa</a> da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com a Universidade de Pernambuco (UPE) que constatou que 68% dos camponeses de Caetés estão em sofrimento psíquico.</p>



<p>Os ruídos emitidos pelas hélices gigantes costumam gerar sintomas como dor de cabeça, zumbido e pressão nos ouvidos, náusea, tontura, taquicardia, irritabilidade, problemas de concentração e memória e episódios de pânico. A exposição às torres por tempo prolongado pode causar, além desses sintomas, distúrbios mais graves como a Síndrome da Turbina Eólica e a Doença Vibroacústica.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><strong>Síndrome da turbina eólica</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os sintomas compreendem distúrbios do sono, aumento de frequência e/ou gravidade de dores de cabeça, tonturas, instabilidades, náusea, exaustão e alterações no humor, problemas de concentração e aprendizagem e zumbido nos ouvidos. Indivíduos com histórico de enxaqueca ou problemas auditivos anteriores ao contato com as eólicas e pessoas idosas são grupos mais suscetíveis.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Doença Vibroacústica</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É uma doença sistêmica causada pela exposição prolongada a ruído de grandes amplitudes (90 dB) e baixa frequência (&lt; 500Hz, incluindo os infrassons). É uma patologia com evolução lenta e que pode afetar vários órgãos e tecidos, como os sistemas nervoso e imunitário e os aparelhos cardiovascular e respiratório. Além de ser caracterizada por lesões nos tecidos ou órgãos, pode ocasionar uma série de alterações no organismo, como alterações neurológicas, endócrinas, na tensão arterial e na função respiratória.</span></p>
        </div>
    </div>



<p>“É frequente o relato de crianças que fazem uso de medicações psicotrópicas desde muito novas e que, quando vão passar férias em regiões mais distantes, onde não há usinas eólicas, as famílias já testaram não dar a medicação e as crianças conseguiram viver e dormir melhor”, atesta Maria Eduarda, que também é coordenadora do projeto “Reflorestando o Cuidado na Caatinga: semeaduras de esperança e resiliência frente aos impactos do Complexo Eólico em Paranatama” do PET-Saúde Clima, do Ministério da Saúde.</p>



<p>A médica relata ainda o aparecimento de questões dermatológicas e respiratórias. “As turbinas, que ficam próximas às casas, provocam poeira que contém diversas partículas do ambiente e da própria turbina que causam reações alérgicas na pele e no sistema respiratório”, explica. “Além disso, a questão do zumbido e do efeito estroboscópico das hélices têm um potencial de gerar náuseas e problemas de equilíbrio, por exemplo, numa fase muito importante, de intenso desenvolvimento neuromotor da criança, principalmente na primeira infância”, complementa.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Meu filho de 11 anos não dorme sem remédio”, denuncia agricultor sobre eólicas" width="500" height="281" src="https://www.youtube.com/embed/NRUjdTQ3Tyc?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>“Uma, duas horas da manhã, eles estão acordados no meio da casa”</strong></h2>



<p>“Estamos vendo crianças mais agitadas, com alteração do ciclo sono-vigília, agressivas, irritadas, isso tudo numa fase ainda de construção neurológica e emocional, o que acaba potencializando e atrapalhando um desenvolvimento mais seguro e equilibrado dessa população”, alerta Maria Eduarda.</p>



<p>É o que vem acontecendo com os filhos da agricultora Michele Maria da Silva, de 39 anos, mãe de seis, com idades entre 22 e quatro anos. Eles vivem a apenas 500 metros das turbinas. “Os que ainda moram comigo dormem muito tarde. Uma, duas horas da manhã, estão acordados no meio da casa. Mesmo acordando cedo de manhã, não conseguem dormir cedo. Eles ficam muito incomodados à noite, é muito forte o barulho”, afirma a agricultora, diagnosticada com depressão, diabetes e distúrbios na tireoide.</p>



<p>À noite, o barulho das hélices aumenta porque é um horário em que tende a ventar mais. Despertar na madrugada, detalha Maria Eduarda, é justamente atrapalhar o pico de produção de melatonina pela glândula pineal, localizada no cérebro, que precisa de silêncio e escuridão, caso contrário a produção é interrompida.</p>



<p>Há um ano, ela teve um Acidente Vascular Cerebral (AVC). “Antes das torres, eu não tinha de jeito nenhum esses problemas”, diz. O filho de 10 anos começou a tomar remédio para ansiedade. “Ele está muito agitado. Agora, com a medicação, se acalmou um pouco. Mas ele fica muito aperreado, cansado, sufocado. E agora apareceu esse medo que ele está, da torre cair”, descreve Michele. Ela gasta R$ 450 de remédio por mês, é mais da metade do Bolsa Família, de R$ 800, que recebe.</p>



<p>O filho mais novo, de apenas quatro anos, está aguardando consulta com um psiquiatra, após encaminhamento de um psicólogo. “Ele está muito agitado, não tem paciência com nada, quebra tudo”, conta.</p>





<h3 class="wp-block-heading">Desenvolvimento infantil comprometido</h3>



<p>A médica Maria Eduarda defende que os impactos das usinas eólicas sobre a saúde infantil devem ser analisados a partir do conceito de cuidado integral. Para ela, não é possível avaliar a saúde das crianças apenas pela presença ou ausência de doenças, sem considerar o ambiente em que vivem.</p>



<p>“O primeiro aspecto que a gente precisa analisar é o meio em que essas crianças vivem, o território. As transformações provocadas pela instalação dos parques eólicos na caatinga alteram justamente esse ambiente, o que pode repercutir no desenvolvimento infantil”, explica.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Maria Eduarda integra pesquisa sobre impacto das eólicas
</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Embora as evidências disponíveis atualmente se baseiam principalmente em relatos de populações afetadas, esses relatos apontam para impactos que merecem atenção, especialmente na primeira infância. “Essa é uma fase em que hiperestímulos e ruídos acabam atrapalhando o desenvolvimento neuropsicomotor das crianças. É um período muito delicado e tudo o que acontece nessa fase reverbera mais na frente”, diz Maria Eduarda.</p>



<p>Na avaliação dela, a exposição contínua aos ruídos das turbinas, que não cessam, pode estar associada a dificuldades de concentração, maior agitação e outros sinais observados durante a infância, mas que também podem se desenvolver mais tarde, aparecendo na adolescência com ansiedade, traumas ou outros transtornos emocionais.</p>



<p>“E aí a necessidade de medicação logo na primeira infância preocupa porque esses remédios têm efeitos colaterais e podem acompanhar a criança por muitos anos. Mas o problema não se resolve apenas com um diagnóstico e um remédio. É preciso compreender o território, o meio ambiente e o contexto cultural em que essas crianças vivem”, afirma Maria Eduarda.</p>



<p>Os empreendimentos eólicos também impactam o brincar, por causa do aumento do risco de acidentes durante a implantação e a manutenção desses empreendimentos, com a circulação intensificada de caminhões e veículos pesados nas estradas rurais, modificando espaços tradicionalmente ocupados pelas crianças.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Dica da redação</span>

		<p><span style="font-weight: 400;">Documentário “Filhos do Vento”, disponível no </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=hNjRzGMewbI"><span style="font-weight: 400;">Youtube</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;">O filme é uma produção dos jornalistas Euziane Bastos e Rogério Bié que mergulha nos conflitos socioambientais e na resistência da comunidade quilombola do Cumbe, em Aracati (CE), diante da chegada de um parque eólico em 2008. Sem serem consultados, os moradores deram início a uma luta contra os impactos que o empreendimento causou nos seus modos de vida, cultura e relação com o território.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O documentário revela o cenário de conflitos e contradições por trás do discurso de “energia limpa” desse modelo energético. O filme é uma narrativa direta sobre a luta pela preservação de uma comunidade quilombola frente às mudanças trazidas por grandes empreendimentos.</span></p>
	</div>



<p><em>A repórter viajou a convite da <a href="https://www.caatingaclimateweek.org.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Caatinga Climate Week</a></em></p>
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			</item>
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		<title>O futuro plantado no passado</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inês Campelo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Jul 2026 19:41:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Agricultura Familiar]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Rede Ater]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>No dia marcado para a entrevista, uma chuva fina caía sobre a zona rural de Areial, no Agreste da Paraíba. Mesmo assim, José Nivaldo dos Santos estava no roçado, à beira da estrada de barro que leva até sua casa, quando avistou o carro da reportagem. Seu Niva não gosta de perder tempo. Enquanto esperava [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>No dia marcado para a entrevista, uma chuva fina caía sobre a zona rural de Areial, no Agreste da Paraíba. Mesmo assim, José Nivaldo dos Santos estava no roçado, à beira da estrada de barro que leva até sua casa, quando avistou o carro da reportagem. Seu Niva não gosta de perder tempo. Enquanto esperava nossa chegada, aproveitava para preparar a terra onde, dali a alguns dias, plantaria mais uma safra de batata.</p>



<p>Aos olhos de quem passa pela estrada, Seu Niva parece apenas mais um agricultor aproveitando a chuva para preparar a terra. Mas, há anos, ele faz muito mais do que plantar. Em sua propriedade, conhecimentos herdados do pai e do avô convivem com experiências desenvolvidas ao lado de pesquisadores, técnicos e outros agricultores do Polo da Borborema. Graças a essa combinação, ele se tornou um dos responsáveis pela recuperação de variedades tradicionais de batata e pela retomada do cultivo do algodão agroecológico na região.</p>



<p>A história de Seu Niva, porém, está longe de ser um caso isolado. Nas últimas três décadas, agricultores, sindicatos, organizações sociais, pesquisadores e gestores públicos transformaram o Polo da Borborema em uma das principais referências brasileiras em agroecologia e convivência com o Semiárido. O caminho passou pela valorização dos saberes das famílias agricultoras, pela organização comunitária e pelo acesso a políticas públicas capazes de transformar conhecimento em renda, autonomia e segurança alimentar.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><!-- wp:heading {"level":3} --></p>
<p><em>Localizado no Agreste da Paraíba, o </em><strong><em>Polo da Borborema</em></strong><em> reúne organizações da agricultura familiar de </em><strong><em>21 municípios</em></strong><em> que, há mais de 30 anos, atuam de forma articulada para fortalecer a convivência com o Semiárido, a agroecologia e a segurança alimentar.</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><em>A iniciativa nasceu em meados da década de 1990, a partir da articulação de sindicatos de trabalhadores rurais que enfrentavam problemas comuns, como a dependência dos atravessadores, o uso intensivo de agrotóxicos e a dificuldade de acesso a políticas públicas. Com o tempo, a rede passou a envolver associações comunitárias, cooperativas, grupos de mulheres e jovens, bancos comunitários de sementes, feiras agroecológicas e organizações de assessoria técnica.</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><em>Hoje, o Polo é reconhecido nacionalmente como uma das principais experiências brasileiras de desenvolvimento territorial baseado na agricultura familiar. Além de estimular a produção agroecológica, contribuiu para a implantação de programas como o PAA, o PNAE, o Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC) e os bancos comunitários de sementes.</em></p>
        </div>
    </div>



<p>Seu Niva não fala da lavoura como se fosse uma profissão escolhida na vida adulta. Para ele, trabalhar na roça sempre foi parte da infância. “Naquela época a gente começava com oito anos de idade. A primeira aula que a gente tinha era no roçado”, lembra. Filho de agricultores, nasceu e cresceu na mesma propriedade onde vive até hoje. Foi ali que aprendeu com o pai as primeiras lições sobre o tempo de plantar, as variedades de feijão, o manejo da terra e os cuidados com as sementes.</p>



<p>Mas pouca coisa permaneceu igual desde então. Seu Niva diz que basta olhar para trás para perceber o tamanho das mudanças. “Não tem nem comparação”. Quando era criança, todo o trabalho era feito manualmente. Não havia tratores, matracas para plantar nem qualquer tipo de apoio ao agricultor. Hoje, além da mecanização, ele destaca a importância da assistência técnica, das organizações locais e das políticas públicas para tornar o trabalho menos pesado e ampliar as possibilidades de produção.</p>



<p>Em pouco mais de sete hectares, a família de Seu Niva cultiva uma diversidade de alimentos. Planta seis variedades de feijão, diferentes tipos de fava, macaxeira, batata-doce e cria animais. A mandioca foi sendo deixada de lado, conta, porque as casas de farinha da região desapareceram. Já a batata seguiu o caminho inverso e voltou a ocupar espaço na propriedade depois de um trabalho iniciado em 2011 para recuperar uma cultura que marcou a história de Areial.</p>



<p>&#8220;Essa aqui era a terra da batatinha, nas antigas. No tempo dos meus avôs e dos meus pais&#8221;, recorda. Apesar da tradição, plantar batata era privilégio de poucos. O custo da produção era alto, exigia financiamento bancário e grande quantidade de agrotóxicos. &#8220;Só plantava quem era rico&#8221;, resume.</p>



<p>A oportunidade de retomar esse cultivo surgiu com um projeto desenvolvido em parceria com a AS-PTA e outros agricultores da região. Seu Niva admite que não sabe explicar todos os detalhes técnicos da iniciativa, mas sabe exatamente o que ela mudou em sua vida. “Só veio melhorar”. Primeiro vieram as reuniões, depois os intercâmbios e, por fim, a recuperação das variedades tradicionais de batata adaptadas às condições da região.</p>



<p>A recuperação da batata trouxe um desafio que os agricultores já conheciam bem. Produzir era apenas parte do trabalho. Era preciso garantir sementes para o plantio seguinte. Seu Niva faz as contas quase de cabeça. No ano passado ele plantou 14 caixas de batata e colheu cerca de cinco toneladas. Parte da produção foi vendida para programas públicos. Outra parte ficou reservada para um destino diferente. “Eu armazenei 34 caixas só para não perder. Agora a gente vai tirar para plantar de novo”, conta.</p>



<p>Essas batatas não irão para a mesa de ninguém. São sementes. Cada caixa guarda cerca de 25 quilos de batata cuidadosamente selecionada para dar origem à próxima safra. “Não serve mais para consumo. É só para plantar”, explica.</p>



<p>O armazenamento acontece em um espaço conhecido pelos agricultores como Banco Mãe. Instalado pela cooperativa, o local abriga um contêiner refrigerado onde as sementes permanecem conservadas até a chegada do período mais frio do ano, quando começa um novo ciclo de plantio. Ali, cada agricultor guarda as suas caixas identificadas e, quando chega a época certa, retira apenas o que será necessário para a próxima safra.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/MZ</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Seu Niva conhece bem o valor desse cuidado. Quando o pai cultivava batata, não existia câmara fria. As sementes eram guardadas em balaios de cipó, empilhados sobre pequenas paredes de alvenaria dentro de casa. “Naquele tempo não existia caixa. Era tudo em balaio”, recorda.</p>



<p>A tecnologia mudou, mas os cuidados, não. Até hoje, escolher uma batata para virar semente exige paciência e conhecimento. O agricultor também aprendeu que uma batata mal escolhida compromete toda a safra seguinte. Ela precisa ter bom tamanho, não pode apresentar machucados nem sinais de doença. “As melhores vão para semente. As outras ficam para comer’, resume.</p>



<p>O armazenamento também é parte importante do processo. Por isso, depois da colheita, elas não podem pegar chuva, nem ser lavadas. Precisam ficar em ambiente fresco, ventilado e protegido da umidade. “Quem não souber lidar com ela, não lida”, diz, sorrindo.</p>



<p>Mas Seu Niva faz questão de lembrar que esse conhecimento não ficou parado no tempo. Ao lado dos ensinamentos herdados do pai, vieram também novas experiências. Hoje ele utiliza biofertilizantes produzidos a partir do biodigestor instalado na propriedade, experimenta pó de rocha para recuperar o solo e participa de testes realizados em parceria com pesquisadores. “Tudo que o povo me ensinar, eu estou fazendo”, afirma, com a curiosidade de quem ainda se considera um aprendiz.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Há três décadas, a AS-PTA ajuda a cultivar soluções junto com os agricultores</span>

		<p><!-- wp:heading --></p>
<p><em>A </em><strong><em>AS-PTA – Agricultura Familiar e Agroecologia</em></strong><em> atua no Polo da Borborema desde 1993. Diferentemente dos modelos tradicionais de assistência técnica, seu trabalho parte da valorização dos conhecimentos das próprias famílias agricultoras e da construção coletiva de soluções para os desafios do Semiárido.</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><em>Ao longo dessas três décadas, a organização apoiou iniciativas como a criação de bancos comunitários de sementes, a recuperação de variedades crioulas, a implantação de sistemas agroecológicos de produção, a formação de agricultores experimentadores, a organização de feiras agroecológicas e o fortalecimento das políticas públicas voltadas para a agricultura familiar.</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><em>A entidade também contribuiu para aproximar agricultores, pesquisadores, universidades e gestores públicos, ajudando a transformar experiências locais em referências para programas estaduais e federais, como o PAA Sementes.</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><em>Hoje, a AS-PTA continua atuando como articuladora de redes territoriais, apoiando processos de formação, intercâmbio entre agricultores, organização comunitária e incidência em políticas públicas, sempre com foco na construção de sistemas agrícolas mais resilientes às mudanças climáticas e capazes de garantir renda, conservação da agrobiodiversidade e segurança alimentar.</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
	</div>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<h3 class="wp-block-heading"><strong>Entrevista // Nelson Anacleto Pereira</strong></h3>



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                                            <span>Crédito: Inês Campelo/MZ</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading"><strong>“A pergunta era simples: que agricultura nós queríamos construir?”</strong></h2>
</blockquote>



<p>Quando Nelson Anacleto Pereira assumiu a presidência do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Lagoa Seca, em 1992, a agricultura familiar da região enfrentava problemas que iam da dificuldade para comercializar a produção ao uso intensivo de agrotóxicos. Ao longo das décadas seguintes, ele participou da criação do Polo da Borborema, da aproximação com a AS-PTA e da construção de políticas públicas que ajudaram a transformar o território em uma referência nacional em agroecologia. Nesta entrevista, ele relembra essa trajetória e explica por que considera que a maior conquista do Polo não foi uma tecnologia, mas a valorização do conhecimento produzido pelas próprias famílias agricultoras.</p>



<p><strong>Como surgiu o Polo da Borborema?</strong></p>



<p>Quando assumimos o sindicato, em 1992, a gente começou a perceber que os problemas de Lagoa Seca eram praticamente os mesmos dos municípios vizinhos. Primeiro veio a luta pela comercialização. O agricultor produzia, mas chegava à Ceasa e encontrava tudo dominado pelos atravessadores. Depois vieram as dificuldades com a Previdência Rural. Os sindicatos começaram a atuar juntos e perceberam que fazia mais sentido construir respostas coletivas do que cada um enfrentar esses desafios isoladamente. Foi desse processo que nasceu o Polo da Borborema.</p>



<p><strong>Em que momento vocês perceberam que era preciso mudar o modelo de agricultura?</strong></p>



<p>A grande pergunta que fazíamos era muito simples: que agricultura nós queríamos construir? Eu também plantava batata, repolho, hortaliças. Também usava agrotóxicos. Era o modelo que existia. Mas começamos a perceber que ele trazia muitos problemas. Não fazia sentido continuar produzindo alimentos colocando em risco a saúde das pessoas e degradando o ambiente. A partir daí começamos a buscar outro caminho.</p>



<p><strong>Qual foi o papel da AS-PTA nesse processo?</strong></p>



<p>A parceria começou em meados da década de 1990. Primeiro fizemos um diagnóstico da agricultura do município. Depois vieram estudos específicos, principalmente sobre o uso de agrotóxicos. Mas a maior contribuição não foi trazer respostas prontas. Foi ajudar a construir um processo em que agricultores, pesquisadores e técnicos passassem a aprender juntos.</p>



<p><strong>O senhor costuma dizer que os agricultores também produzem conhecimento. O que isso significa?</strong></p>



<p>Durante muito tempo predominou a ideia de que só a universidade ou os órgãos públicos tinham conhecimento. O técnico chegava com uma receita pronta e o agricultor apenas executava. Nós começamos a questionar isso. O agricultor também experimenta, observa, testa, aprende. Quando esse conhecimento passou a dialogar com universidades e pesquisadores surgiram soluções que nenhum dos dois construiria sozinho. Esse talvez tenha sido o maior aprendizado de todo esse processo.</p>



<p><strong>Qual foi a importância das políticas públicas nessa transformação?</strong></p>



<p>Elas foram fundamentais. Mas nenhuma surgiu por acaso. O Programa Um Milhão de Cisternas, o PAA, o PNAE, o PAA Sementes&#8230; tudo isso é resultado de muitos anos de organização social. As políticas públicas fortalecem a agricultura familiar, mas só existem porque houve agricultores organizados para lutar por elas.</p>
</div></div>



<p><strong>Quais são hoje os maiores desafios?</strong></p>



<p>Hoje os desafios são diferentes. Vivemos um período de desmontes de várias políticas públicas e isso mostrou que nenhuma conquista é definitiva. Além disso, as mudanças climáticas e a desinformação trazem novos problemas para as comunidades.</p>



<p>Por isso continuo acreditando que o principal desafio é fortalecer as organizações locais. São elas que garantem a continuidade desse trabalho.</p>



<p><strong>Depois de mais de trinta anos, qual considera a maior conquista do Polo da Borborema?</strong></p>



<p>As políticas públicas são importantes. As tecnologias sociais também. Mas acho que a maior conquista foi outra. Foi construir uma consciência coletiva. Hoje o agricultor não é visto apenas como alguém que recebe orientação. Ele sabe que também produz conhecimento, ensina, aprende e participa da construção das soluções para os problemas do território. Essa, para mim, é a maior conquista de todas.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Quando a colheita vira solidariedade</strong></h2>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                                            <span>Crédito: Inês Campelo/MZ</span>
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                    </figure>

	


<p>Se no sítio de Seu Niva a preocupação é produzir alimentos e guardar sementes para a próxima safra, a cerca de 20 quilômetros dali outra rede se organiza para garantir que esse tipo de produção chegue a quem mais precisa. No Assentamento Cícero Romana I, em São Sebastião de Lagoa de Roça (PB), funciona a cozinha solidária “A Ordem é Ninguém Passar Fome”. Coordenada por Adenilda Batista Pereira e Maria Lindinalva da Horta, ela nasceu há cerca de dois anos a partir de um trabalho comunitário realizado pelas duas.</p>



<p>“Primeiro a gente fazia sopa, fazia lanche, reunia as famílias para conversar”, lembra Adenilda. Elas percorriam a comunidade de casa em casa, convidando moradores para um café, oficinas de crochê, pintura e outras atividades. O objetivo era criar vínculos e acolher pessoas que viviam em situação de vulnerabilidade. “A gente ia buscar as famílias. Às vezes chegava cansada, mas dizia: &#8216;vamos em tal lugar&#8217;. A gente sentava, tomava um café, conhecia a necessidade de cada um.”</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p>“<em>A gente não entrega só comida. Entrega um pouco de atenção também.”</em><br><em>Adenilda Pereira</em></p></blockquote></figure>



<p>Foi dessa convivência que nasceu a cozinha solidária. Quando o grupo passou a integrar o programa federal, veio um desafio ainda maior: produzir duas mil refeições por mês para famílias cadastradas. O entusiasmo, porém, esbarrou na realidade. A cozinha não tinha panelas industriais, nem fogão adequado, e o recurso só era repassado depois que todas as refeições fossem entregues e a prestação de contas aprovada. “A gente tinha que dar a comida primeiro para depois receber o dinheiro”, resume Adenilda.</p>



<p>Para conseguir manter o trabalho, as duas recorreram a empréstimos, doações e à solidariedade de amigos e vizinhos. “Meu salário entrava e já saía para comprar comida. A gente foi dando um jeitinho e conseguiu.”</p>



<p>O valor destinado pelo programa também exige criatividade. Cada refeição é financiada com R$ 2,40, montante que precisa cobrir alimentos, embalagem, gás e demais despesas da cozinha. Para fazer o dinheiro render, Adenilda acompanha promoções, compra em atacado e conta com uma extensa rede de parcerias.</p>



<p>Grande parte dos alimentos preparados ali vem da agricultura familiar da própria Borborema, adquiridos por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Hortaliças, macaxeira, frutas, banana, feijão e outros produtos cultivados por agricultores da região chegam à cozinha por meio das cooperativas e associações locais. Assim, a produção iniciada em propriedades como a de Seu Niva completa um ciclo virtuoso: sai do roçado, passa pelas políticas públicas e termina na mesa de centenas de famílias que enfrentam a insegurança alimentar.</p>



<blockquote class="wp-block-quote has-text-align-right is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Quando a agroecologia movimenta a economia</strong></h2>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                                            <span>Crédito: Inês Campelo/MZ</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Durante décadas, um dos maiores problemas enfrentados pelos agricultores da Borborema não era produzir alimentos, mas encontrar quem pagasse um preço justo por eles. Dependentes dos atravessadores, muitos vendiam a produção por valores que mal cobriam os custos da lavoura.</p>



<p>Na avaliação de Robson Pereira de Oliveira, secretário de Agricultura de São Sebastião de Lagoa de Roça, esse cenário começou a mudar quando políticas públicas como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) passaram a dialogar com a organização construída no território.</p>



<p>Hoje, o município opera três modalidades diferentes do programa: federal, estadual e municipal , além de fornecer alimentos para a merenda escolar por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). “O agricultor deixou de depender exclusivamente do atravessador”, resume.</p>



<p>Segundo ele, um estudo realizado no município mostrou que, apenas entre 2012 e 2022, mais de R$ 10 milhões circularam na economia local por meio das compras públicas da agricultura familiar. O impacto aparece também no preço pago ao produtor. Enquanto um saco de batata-doce pode ser vendido ao atravessador por cerca de R$ 80 durante a safra, programas como o PAA chegam a pagar aproximadamente R$ 250 pelo mesmo produto. Situação semelhante ocorre com o milho verde.</p>



<p>Para Robson, porém, o maior resultado vai além da renda. “As compras públicas fortalecem cooperativas, associações e ajudam os agricultores a permanecer no campo”, afirma. Segundo ele, o próximo desafio é ampliar a agroindustrialização da produção e criar novas oportunidades para que os jovens encontrem perspectivas de trabalho sem precisar deixar a comunidade.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p>Esta reportagem foi produzida em parceria com a <a href="https://redeaterne.org.br/">Rede Ater Nordeste</a>.</p>
    </div>



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		<title>Pescadores culpam dragagem do Porto do Recife por lixo de plástico em alto mar</title>
		<link>https://marcozero.org/pescadores-culpam-dragagem-do-porto-do-recife-por-lixo-de-plastico-em-alto-mar-2/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 10 Jul 2026 19:18:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[dragagem]]></category>
		<category><![CDATA[lixo]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[oceano]]></category>
		<category><![CDATA[porto do Recife]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Um dia antes de voltar para o alto mar, na terça-feira passada, 7 de julho, o pescador Gustavo Oliveira, 49 anos, contou para a reportagem da Marco Zero que pescou mais plástico do que lagosta na semana anterior. Os covos, armadilhas gradeadas de 70cm X 70cm, voltaram para o barco dele com sacolas plásticas e [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Um dia antes de voltar para o alto mar, na terça-feira passada, 7 de julho, o pescador Gustavo Oliveira, 49 anos, contou para a reportagem da Marco Zero que pescou mais plástico do que lagosta na semana anterior. Os covos, armadilhas gradeadas de 70cm X 70cm, voltaram para o barco dele com sacolas plásticas e garrafas velhas. Não parecia lixo recente, diz. “Nunca tinha visto tanto plástico desse jeito nos covos na minha vida&#8221;, afirma ele, que pesca desde criança e acredita em uma só explicação: a dragagem do Porto do Recife.</p>



<p>&#8220;A gente sabe que esse rio (Capibaribe) tem muita sujeira. A draga pega do porto e joga em alto mar&#8221;, denuncia. Segundo ele, o despejo tem sido feito de  seis a nove milhas náuticas da costa — perto de onde os pescadores armam covos. “Quando fui pegar minha carteirinha na Marinha, o que mais me avisaram foi que não podia jogar lixo no mar. Sempre trago tudo dentro do barco e jogo no lixo em casa. E aí vem uma draga e polui o mar da gente. Para estar entrando plástico dentro do covo, imagine como não está o fundo do mar!&#8221;, critica o pescador, que mora em Brasília Teimosa.</p>



<p>O prejuízo é ambiental e também econômico. Julho está dentro do período em que a pesca da lagosta é liberada pelo Ibama — o defeso da espécie vai de 1º de novembro a 30 de abril. &#8220;O lixo com certeza está prejudicando a minha pesca de lagosta. Espanta a lagosta. Quem é que vai ficar numa ruma de lixo dessa?&#8221;, questiona o pescador, que registrou em diversos vídeos os covos com plásticos.</p>





<p>Presidente da Colônia de Pescadores Z1, Sandra Lima diz que essa não é a primeira vez que aparece lixo no caminho que a draga percorre no mar. Tanto que quando ficaram sabendo que iria começar o trabalho de dragagem no Porto do Recife procuraram o Ministério Público Estadual e enviaram um ofício para a Defensoria Pública da União (DPU). &#8220;O Ministério Público Estadual passou o processo para o Federal e até agora a gente não tem resposta&#8221;, relata. O único contato com o Porto do Recife, diz ela, foi pontual, com um funcionário indo até a colônia comunicar as áreas de operação da draga.</p>



<p>Para Sandra Lima, a falta de diálogo com os órgãos competentes repete o que aconteceu em obras anteriores na região. &#8220;O mar perto do Porto do Recife está muito sujo. O revolvimento do fundo faz o plástico subir. Se você botar uma rede lá hoje, é só plástico. É essa sujeira que eles estão levando para o alto mar. E isso prejudica a pesca de lagosta e de peixe também”, afirma.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Resíduos do fundo podem voltar a flutuar</h2>



<p>A dragagem atual começou em 13 de junho e é executada pela draga Amazone, de bandeira holandesa e sob operação da empresa DTA Engenharia, contratada pelo Porto. De acordo com o órgão, a previsão de conclusão da operação é em novembro. Orçada em R$ 95 milhões de recursos federais, a obra era há muito esperada: vai aprofundar o calado do porto dos atuais 11 metros para 15 metros, permitindo a atracação de navios maiores. A ordem de serviço foi assinada em 12 de junho, em evento no Recife com a presença do vice-presidente da República, Geraldo Alckmin (PSB).</p>



<p>Em nota de esclarecimento enviada à Marco Zero, o Porto do Recife reconhece parte do movimento descrito pelos pescadores. Segundo o texto, a draga &#8220;revolve os sedimentos para sua sucção, fazendo com que parte desses resíduos anteriormente depositados no fundo seja deslocada para a coluna d&#8217;água e, eventualmente, passe a flutuar&#8221;. O Porto, contudo, argumenta que isso &#8220;não representa geração de resíduos pela atividade de dragagem, mas sim a mobilização de materiais preexistentes no leito estuarino&#8221;, lixo esse descartado irregularmente ao longo de décadas no estuário do rio Capibaribe.</p>



<p>Ainda de acordo com a nota, embarcações de apoio equipadas com redes de arrasto, puçás (uma rede redonda) e ganchos fazem coletas diárias dos resíduos flutuantes nas áreas de atuação da draga. A operação de dragagem também é interrompida a cada 30 minutos, aproximadamente, para a limpeza da tubulação de sucção, quando são removidos os resíduos presos ao equipamento.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/draga-navio-1024x768.jpeg" alt="A foto mostra o convés de um barco envolvido em uma operação de limpeza_marinha, coberto por uma grande quantidade de lixo recolhido do oceano — sacolas plásticas, pedaços de borracha, embalagens e outros resíduos misturados com lama e água. Um equipamento metálico com dentes, semelhante a uma escavadeira, despeja mais detritos sobre o convés enferrujado, enquanto ao fundo o mar azul e espumoso contrasta com o aspecto sujo e caótico dos resíduos. A cena evidencia o impacto da poluição plástica nos oceanos." class="w-100" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Resíduos são separados a bordo do navio Amazone, afirma Porto do Recife
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Ascom/Porto do Recife</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>De acordo com o Porto do Recife, o material recolhido é separado, acondicionado em bolsas e enviado para um aterro sanitário por empresa licenciada. Desde o início da obra, diz a instituição, já foram retirados do estuário mais de 10 toneladas de resíduos sólidos, sendo a maior parte lixo de plástico, como garrafas e embalagens. Para o Porto do Recife, o número &#8220;evidencia que a dragagem, além de cumprir sua finalidade operacional, promove um importante benefício ambiental&#8221;.</p>



<p>Sobre o diálogo com as comunidades, o Porto do Recife afirma que, no âmbito do programa de comunicação social da obra, foram realizadas visitas à comunidade pesqueira do Pina, a pescadores que atuam nas proximidades do terminal, a marinas, clubes náuticos e a uma escola de mergulho da região. A nota diz ainda que o empreendimento &#8220;cumpriu todas as exigências técnicas e legais aplicáveis&#8221;, com autorização ambiental da CPRH e autorização de dragagem expedida pela Capitania dos Portos de Pernambuco.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>O que dizem os órgãos de fiscalização</strong></h2>



<p>Questionada pela Marco Zero, a Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH) informou que o órgão não recebeu, nos últimos dias, denúncias de pescadores sobre plásticos em covos, nem registros de aumento do volume de resíduos em praias de Pernambuco.</p>



<p>Segundo a agência, o material dragado é destinado a um “bota-fora” oceânico localizado a aproximadamente seis milhas náuticas — pouco mais de 11 quilômetros — da costa, em área previamente licenciada, e os resíduos sólidos de maior dimensão, como plásticos e garrafas PET, são retidos pelas grades das dragas durante a operação.</p>



<p>Todavia, a CPRH também admite a possibilidade de escape. Assim como o Porto do Recife, a agência reconhece que “durante a execução da dragagem, poderá ocorrer o revolvimento dos sedimentos em decorrência das atividades de sucção, ocasionando a ressuspensão de parte do material anteriormente depositado no leito. Como consequência, esses sedimentos poderão ser deslocados para a coluna d&#8217;água e, eventualmente, permanecer temporariamente em suspensão ou atingir a superfície”.</p>



<p>Por conta disso, a CPRH diz ter estabelecido a obrigação de o Porto manter monitoramento contínuo da área com pequenas embarcações, &#8220;promovendo a imediata coleta de qualquer material que venha a aflorar à superfície da água&#8221;. Caso se confirme relação entre a dragagem e os resíduos encontrados pelos pescadores, a CPRH afirma que adotará &#8220;as medidas administrativas cabíveis, nos termos da legislação ambiental vigente&#8221;.</p>



<p>A Capitania dos Portos de Pernambuco, órgão da Marinha do Brasil, informou em nota que emitiu parecer favorável e autorizou a dragagem de manutenção do canal de acesso ao Porto do Recife, com previsão de encerramento em dezembro de 2026 — um mês após o prazo informado pelo próprio porto. Até o momento, diz a Capitania, não houve registro de denúncias formais sobre a presença de plásticos em covos de pesca na região, nem ocorrência registrada de escape de material das dragas durante a operação ou o descarte.</p>



<p>A Capitania afirma manter fiscalização e monitoramento regulares das atividades, por meio das equipes de Inspeção Naval e do Centro de Coordenação e Controle da Autoridade Marítima, com foco na segurança da navegação e na prevenção da poluição hídrica. Em caso de poluição proveniente de uma das embarcações, cabe ao órgão instaurar procedimento administrativo, notificar o responsável para conter e mitigar o incidente e informar os demais órgãos competentes.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Dragagem também já foi suspeita em ondas de lixo anteriores</h3>



<p>As denúncias dos pescadores repetem um roteiro já conhecido. Em maio de 2009, durante outra dragagem no Porto do Recife – que aprofundou o canal de seis para 11,5 metros –, pescadores de Olinda denunciaram que a draga jogava resíduos e lixo perto do litoral, prejudicando a pescaria. &#8220;A gente coloca a rede e não pega mais nada. Está prejudicando a área de pesca artesanal&#8221;, disse à época o então presidente da Cooperativa dos Pescadores de Olinda, Jorge da Silva, <a href="https://web.archive.org/web/20090524021255/https://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,MUL1161325-5598,00-DRAGA+EM+PORTO+DO+RECIFE+ATRAPALHA+TRABALHO+DE+PESCADORES.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">em reportagem do G1</a>.</p>



<p>Os pescadores, que trabalhavam a 12 quilômetros da costa, relatavam mortandade de animais marinhos e pediam que o descarte fosse feito em local mais distante e profundo. O porto respondeu, na ocasião, que todo o trabalho passava por supervisão ambiental, com relatórios enviados à CPRH.</p>



<p>Há registro de denúncias de lixo também em fevereiro de 2022. Naquela época, quantidades atípicas de lixo chegaram até as praias em Jaboatão dos Guararapes, Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca enquanto a draga holandesa Lelystad trabalhava no Porto do Recife. Em Ipojuca, a prefeitura recolheu, em um só dia, 20 vezes mais lixo do que o normal, <a href="https://g1.globo.com/pe/pernambuco/noticia/2022/02/14/excesso-de-lixo-aparece-em-praias-de-tres-cidades-relacao-com-dragagem-no-porto-do-recife-e-investigada.ghtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener">segundo esta reportagem do G1</a>. O material era predominantemente plástico velho, o que levou técnicos municipais e pescadores a suspeitar que a dragagem estivesse levando para o mar aberto o lixo sedimentado no fundo.</p>



<p>Questionada agora pela Marco Zero sobre o resultado daquela investigação, a CPRH descartou que a dragagem foi a causa da onda de lixo de 2022, afirmando que foram registrados à época episódios de chuvas e ventos fortes, &#8220;condições que contribuíram para o transporte e a deposição de resíduos nas praias&#8221;. A CPRH também informou em nota que &#8220;não foi identificada qualquer relação entre a ocorrência desses resíduos nas praias e as atividades de dragagem realizadas no Porto do Recife, não havendo elementos técnicos que indiquem nexo causal entre os eventos&#8221;.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Abaixo, publicamos a íntegra das notas da Capitania dos Portos, do Porto do Recife e da CPRH:</strong></li>
</ul>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block">Nota completa da Capitania dos Portos</span>

	    <p>Em relação aos questionamentos encaminhados em 7 de julho, pela Marco Zero, a Marinha do Brasil (MB), por intermédio da Capitania dos Portos de Pernambuco, esclarece que, recentemente, emitiu parecer favorável e autorizou o início da dragagem de manutenção do canal de acesso ao Porto do Recife, com previsão de término em dezembro de 2026.</p>
<p>Até o presente momento, a Capitania não recebeu registro oficial de denúncias sobre a presença de plásticos em covos de pesca na região. Também não foi registrada, oficialmente, ocorrência de escape de material das dragas durante a operação de dragagem ou descarte desde o início das atividades.</p>
<p>A Capitania dos Portos de Pernambuco mantém fiscalização e monitoramento regularmente das atividades de dragagem com o objetivo de garantir a segurança da navegação, o ordenamento do espaço aquaviário e a prevenção da poluição hídrica decorrente de embarcações durante a dragagem ou o descarte, por meio das equipes de Inspeção Naval e do Centro de Coordenação e Controle da Autoridade Marítima.</p>
<p>Em caso de poluição hídrica proveniente de uma das embarcações, cabe à Capitania dos Portos instaurar procedimento administrativo para apuração dos fatos e notificar o responsável para adoção imediata das medidas necessárias à contenção e mitigação do incidente. Além disso, cabe informar os órgãos competentes para a adoção das providências cabíveis no âmbito de suas atribuições.</p>
    </div>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block">Nota de esclarecimento do Porto do Recife</span>

	    <p>Em atenção aos questionamentos acerca de suposto espalhamento de resíduos sólidos durante a execução da dragagem do Porto do Recife, esclarecemos que a atividade é realizada em conformidade com os procedimentos operacionais e ambientais previstos para esse tipo de empreendimento, incluindo ações permanentes de monitoramento e recolhimento de resíduos.</p>
<p>A dragagem ocorre na área estuarina do rio Capibaribe, ambiente que, historicamente, apresenta grande quantidade de resíduos sólidos depositados no fundo do leito em decorrência do descarte irregular de materiais ao longo dos anos.</p>
<p>Durante a operação, a draga revolve os sedimentos para sua sucção, fazendo com que parte desses resíduos anteriormente depositados no fundo seja deslocada para a coluna d&#8217;água e, eventualmente, passe a flutuar.</p>
<p>É importante destacar que esse fenômeno não representa geração de resíduos pela atividade de dragagem, mas sim a mobilização de materiais preexistentes no leito estuarino, que permaneciam submersos antes do início das operações.</p>
<p>Como medida de controle ambiental, são realizadas diariamente coletas dos resíduos flutuantes nas áreas de atuação da draga. Essa atividade é executada por embarcações de apoio, equipadas com redes de arrasto, puçás e ganchos, permitindo o recolhimento eficiente dos materiais que emergem durante a operação.</p>
<p>Todo o material coletado é retirado da água de forma sistemática, reduzindo sua permanência no ambiente estuarino.</p>
<p>Além disso, os resíduos sólidos também ficam retidos na própria cabeça de dragagem durante a sucção dos sedimentos. Para garantir a eficiência operacional e ambiental, a dragagem é interrompida para limpeza da tubulação de sucção aproximadamente a cada 30 minutos, quando são removidos todos os resíduos que permanecem presos ao equipamento.</p>
<p>Após essa remoção, os resíduos são separados, acondicionados em bags apropriados e desembarcados para destinação ambientalmente adequada. A disposição final é realizada por empresa especializada e devidamente licenciada para o gerenciamento desse tipo de resíduo, em conformidade com a legislação ambiental vigente.</p>
<p>Desde o início da obra, já foram retirados do ambiente estuarino mais de *10.000 kg de resíduos sólidos*, sendo a maior parte composta por materiais plásticos, como garrafas, embalagens de alimentos e outros itens descartados irregularmente. Esse resultado evidencia que a dragagem, além de cumprir sua finalidade operacional, promove um importante benefício ambiental ao remover do leito do rio resíduos acumulados ao longo de muitos anos.</p>
<p>Dessa forma, a operação de dragagem não promove a geração de resíduos no estuário. Ao contrário, a atividade incorpora procedimentos específicos de coleta, remoção, armazenamento e destinação ambientalmente adequada dos resíduos sólidos encontrados no fundo do rio, contribuindo efetivamente para a melhoria das condições ambientais da área. Os resultados obtidos até o momento demonstram esse compromisso, refletido na retirada de mais de 10 toneladas de resíduos do estuário, materiais que permaneceriam depositados no leito do rio caso a dragagem não estivesse sendo executada.</p>
<p>Além das atividades operacionais, a equipe responsável pelo monitoramento ambiental permanece executando as seguintes ações previstas no Programa de Monitoramento Ambiental da dragagem:<br />
* Caracterização ambiental da área;<br />
* Caracterização hidrodinâmica;<br />
* Caracterização do material dragado;<br />
* Monitoramento do tipo de fundo e da qualidade dos sedimentos;<br />
* Monitoramento hidrológico, das plumas de sedimentos, hidrodinâmico e climatológico;<br />
* Monitoramento da biota aquática na área de disposição do material dragado;<br />
* Controle dos aspectos gerais da execução da obra de dragagem;<br />
* Prognóstico dos potenciais impactos ambientais e proposição de medidas mitigadoras;<br />
* Execução do Programa de Comunicação Social;<br />
* Monitoramento e coleta dos resíduos flutuantes.</p>
<p>No âmbito do Programa de Comunicação Social, foram realizadas visitas à comunidade pesqueira do Pina, aos pescadores que atuam nas proximidades do Porto do Recife, às marinas e à escola de mergulho da região. Essas ações tiveram como objetivo fortalecer o diálogo transparente entre o empreendimento e seus públicos de interesse, promovendo a divulgação de informações sobre as atividades de dragagem, seus objetivos, cronograma de execução, potenciais impactos ambientais e as medidas de controle e mitigação adotadas durante a realização da obra.</p>
<p>Os locais que foram realizadas visitas foram:<br />
&#8211; Pernambuco Iate Clube<br />
&#8211; Escola de Mergulho<br />
&#8211; Barqueiros do Marco  Zero<br />
&#8211; Catamarã<br />
&#8211; Associação de Pescadores<br />
&#8211; Estamos em conversa com a Ilha do Maruim<br />
&#8211; Cabanga<br />
&#8211; Iate Clube<br />
&#8211; Ne Marina.</p>
<p>Ressalta-se, ainda, que o empreendimento cumpriu todas as exigências técnicas e legais aplicáveis, atendendo aos protocolos necessários para a obtenção da autorização ambiental emitida pela CPRH, assim como as exigências estabelecidas pela Marinha do Brasil para obtenção da autorização de dragagem expedida pela Capitania dos Portos de Pernambuco. Dessa forma, a execução dos serviços ocorre em conformidade com a legislação ambiental vigente.</p>
    </div>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block">Resposta completa da CPRH</span>

	    <p><strong>A CPRH tem conhecimento dessas denúncias atuais de pescadores? Há alguma apuração em andamento?</strong></p>
<p>Nos últimos dias a Ouvidoria da CPRH não recebeu denúncia referente ao assunto.</p>
<p><strong>Há denúncias de maior volume de lixo achado nas praias de Pernambuco? </strong></p>
<p>Até a presente data, não há registro, na Ouvidoria da CPRH, de denúncias relacionadas ao aumento significativo do volume de resíduos sólidos nas praias de Pernambuco.</p>
<p><strong>Quais são os protocolos de descarte de material dragado atualmente em vigor? </strong></p>
<p>O material dragado é destinado ao bota-fora oceânico, localizado a aproximadamente 6 milhas náuticas (cerca de 10 km) da costa, em área previamente licenciada para essa finalidade.</p>
<p>Os resíduos sólidos de maior dimensão, como plásticos, garrafas PET e papéis, são retidos pelas grades das dragas durante a operação, impedindo sua dispersão no ambiente marinho.</p>
<p>Entretanto, durante a execução da dragagem, poderá ocorrer o revolvimento dos sedimentos em decorrência das atividades de sucção, ocasionando a ressuspensão de parte do material anteriormente depositado no leito. Como consequência, esses sedimentos poderão ser deslocados para a coluna d&#8217;água e, eventualmente, permanecer temporariamente em suspensão ou atingir a superfície.</p>
<p>Com o objetivo de mitigar esse potencial impacto, a CPRH estabeleceu a obrigatoriedade do Porto realizar o monitoramento contínuo da área de intervenção por meio de pequenas embarcações, promovendo a imediata coleta de qualquer material que venha a aflorar à superfície da água, bem como sua destinação ambientalmente adequada, em conformidade com a legislação vigente.</p>
<p><strong>O que concluiu a investigação de 2022 sobre a relação entre a dragagem e o excesso de lixo nas praias? Foi confirmado que a dragagem foi a causa? </strong></p>
<p>À época, foram registrados episódios de chuvas intensas e ventos mais fortes, condições que contribuíram para o transporte e a deposição de resíduos nas praias, especialmente nos municípios do Recife e de Jaboatão dos Guararapes.</p>
<p>Ressalta-se que não foi identificada qualquer relação entre a ocorrência desses resíduos nas praias e as atividades de dragagem realizadas no Porto do Recife, não havendo elementos técnicos que indiquem nexo causal entre os eventos.</p>
<p><strong>Caso se confirme relação entre a dragagem e os resíduos, quais medidas a CPRH pode determinar? </strong></p>
<p>Caso seja confirmada a ocorrência e verificada a responsabilidade pelos fatos, a CPRH adotará as medidas administrativas cabíveis, nos termos da legislação ambiental vigente.</p>
    </div>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/pescadores-culpam-dragagem-do-porto-do-recife-por-lixo-de-plastico-em-alto-mar-2/">Pescadores culpam dragagem do Porto do Recife por lixo de plástico em alto mar</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Às vésperas da titulação, protesto quilombola abre nova crise na disputa por terra em Suape</title>
		<link>https://marcozero.org/as-vesperas-da-titulacao-protesto-quilombola-abre-nova-crise-na-disputa-por-terra-em-suape/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Jul 2026 22:37:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[comunidade quilombola]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[mercês]]></category>
		<category><![CDATA[suape]]></category>
		<category><![CDATA[violência policial]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Um novo protesto da comunidade quilombola Ilha de Mercês, em Ipojuca, no litoral sul de Pernambuco, reacendeu a histórica disputa por terra travada no local por Suape. Sufocadas pelo complexo industrial portuário, aproximadamente 300 famílias vêm, há décadas, denunciando um processo de expulsão e de degradação de rios e mangues que já comprometeu o sustento [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/as-vesperas-da-titulacao-protesto-quilombola-abre-nova-crise-na-disputa-por-terra-em-suape/">Às vésperas da titulação, protesto quilombola abre nova crise na disputa por terra em Suape</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Um novo protesto da comunidade quilombola Ilha de Mercês, em Ipojuca, no litoral sul de Pernambuco, reacendeu a histórica disputa por terra travada no local por Suape. Sufocadas pelo complexo industrial portuário, aproximadamente 300 famílias vêm, há décadas, denunciando um processo de expulsão e de degradação de rios e mangues que já comprometeu o sustento e a permanência de parte da população tradicional pesqueira no território.</p>



<p>Nesta quarta-feira, 8 de julho, José Reis, conhecido como Martins, liderança de Mercês, chegou a ser levado para a delegacia do Cabo de Santo Agostinho (município vizinho) numa ação da Polícia Militar de Pernambuco (PMPE) para tentar conter a manifestação às margens da PE-09, próximo à “Curva do Boi”.</p>



<p>Nos vídeos que circulam no WhatsApp e nas redes sociais e a que a Marco Zero teve acesso, fica evidente o uso excessivo da força policial. Há muita gritaria, empurra-empurra e ameaças de prisão.</p>



<figure class="wp-block-embed aligncenter is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Protesto quilombola reacende disputa por terra em Suape" width="500" height="281" src="https://www.youtube.com/embed/91bnFc0ib5Q?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p>O motivo do protesto foi a demolição, por parte da Compesa, a pedido de Suape, de duas rampas irregulares e uma barraca à beira da rodovia. As rampas passavam por cima de uma adutora, o que representava um risco iminente à própria população. Os quilombolas dizem reconhecer o risco, no entanto denunciam que não houve diálogo nem negociação.</p>



<p>O pano de fundo dessa disputa, apontam moradores de Mercês, é a continuidade da disputa pela terra. A ação das autoridades aconteceu às vésperas da retomada do processo de titulação do quilombo pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), um trabalho que se arrasta desde 2017 — há uma primeira reunião desse processo de retomada agendada para o próximo dia 20.</p>



<p>Naquele mesmo ano (2017) — após diversos episódios de conflitos referentes à posse de terra, tentativas de reintegração e denúncias de pressão por parte de Suape para retirar pessoas da comunidade —, uma recomendação conjunta foi assinada pelos ministérios público Federal e Estadual (MPF e MPPE) e pela Defensoria Pública da União (DPU) para que, entre outros pontos, Suape não mais adentrasse o território sem prévia autorização nem interferisse nos modos de vida de Mercês.</p>



<p>Mas a comunidade relata que, em maio deste ano, seguranças de Suape destruíram o restaurante de uma quilombola que fornecia marmitas. O caso foi encaminhado ao MPF pelo Fórum Suape Espaço Socioambiental, organização que atua junto às comunidades atingidas pelo complexo industrial portuário. Com o episódio desta semana, o clima voltou a ficar tenso no local.</p>



<p>“Eu nunca me opus que a rampa fosse retirada. Mas não era para terem feito uma atrocidade dessa. Não somos invasores”, disparou José Miguel da Silva Filho, conhecido como “Marrom Quilombola”, irmão de Martins, contra a forma como os agentes públicos agiram. “Os policiais deram voz de prisão à minha esposa, que está gestante e tinha arrancado um dente um dia antes. Ainda quebraram 50 telhas brasilit minhas”, detalha.</p>



<p>Marrom é dono do sítio onde uma das rampas demolidas estava instalada. É também dono da barraca que estava sendo instalada para venda de lanches e marmitas como forma de sustento da família.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/51372184131_a1146490e9_c-300x225.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/51372184131_a1146490e9_c.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/51372184131_a1146490e9_c.jpg" alt="A imagem mostra uma casa simples, de um andar, com telhado de barro e paredes brancas um pouco desgastadas. Na frente, há roupas coloridas penduradas para secar — vermelhas, verdes, listradas — e um grande tecido floral cobrindo parte do muro. Três pessoas estão na calçada: uma mulher à esquerda com saia jeans e camiseta listrada, uma menina no centro encostada no muro, e outra mulher à direita vestindo blusa vermelha e saia laranja. O céu está azul e claro, com algumas nuvens e palmeiras ao fundo, sugerindo um clima quente e tranquilo de região tropical." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Pelo menos 300 famílias vivem no quilombo de Mercês
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading">Disputa vai muito além de rampas e barrac<strong>a</strong></h2>



<p>As duas rampas de acesso demolidas pela Compesa a pedido de Suape eram usadas pela comunidade quilombola Ilha de Mercês para facilitar a mobilidade. Uma delas foi construída recentemente pela própria população. A outra é bastante antiga, estava no local há mais de 20 anos, foi erguida pelo Governo do Estado e era usada para passagem de crianças a caminho da escola e também Pessoas com Deficiência.</p>



<p>Representantes de Mercês dizem que não foram notificados por Suape nem pela Compesa sobre as demolições e agora ficaram lesados. A versão do complexo é outra (confira ao final da reportagem). Marrom Quilombola conta que acordou no susto com os funcionários da companhia de abastecimento, acompanhados pela polícia.</p>



<p>“Foi quando eu joguei no grupo de zap e o pessoal da comunidade foi chegando, incluindo minha mãe, de 76 anos. Aí resolveram fechar a pista. Mas a comunidade não fez vandalismo. Não somos bandidos, somos pais de família”, defende.</p>





<p>“O que Suape quer é amedrontar o nosso povo para a gente sair das nossas terras. Mas não somos invasores, estávamos aqui antes de Suape chegar”, diz, lembrando que muita gente saiu do território porque não tinha mais como se sustentar.</p>



<p>Marrom se refere, sobretudo, ao <a href="https://marcozero.org/com-14-anos-de-atraso-suape-comeca-a-retirar-barreira-que-destruiu-manguezal-do-rio-tatuoca/">embarreiramento do Rio Tatuoca</a>, que era para ter durado apenas um ano, mas durou 14 anos, e asfixiou o ecossistema local para dar lugar a uma estrada. A via foi usada para levar materiais e máquinas para construir o Estaleiro Atlântico Sul. Foi tempo mais do que suficiente para degradar o manguezal e levar junto a fonte de sustento de diversas famílias pesqueiras.</p>



<p>A população viu peixes e crustáceos se acabarem junto com o mangue. Antes, as pessoas pescavam na porta de casa, onde havia bastante unha de velho, sururu, marisco, ostra. Hoje não sobrou quase nada, a pesca diminuiu tanto em quantidade quanto em variedade. E agora muitas famílias vivem apenas da venda de lanches e marmitas à beira da PE-09 e de frutas como manga e banana.</p>



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</p>
	                
                                            <span>Crédito: Clemente Coelho Júnior/cortesia</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	




<p>Mercês está localizada dentro da área que foi apropriada por Suape. A comunidade, que tem raízes nos latifúndios de açúcar da região, foi reconhecida formalmente como quilombo pela Fundação Palmares em 2016. Dos cinco hectares pertencentes ao quilombo, hoje restam apenas 1,6 ha.</p>



<p>“São situações como a que aconteceu em maio e nesta semana que tornam ainda mais urgente a retomada do processo de titulação pelo Incra, com as autoridades acompanhando de perto esse processo”, avalia Luísa Duque, advogada do Fórum Suape. A organizou acionou o MPPE para apurar o ocorrido e também registrou o caso na Comissão Estadual de Acompanhamento dos Conflitos Agrários Coletivos de Pernambuco (Ceaca-PE).</p>



<p>Na tarde desta quarta (8), uma reunião de urgência foi convocada pelo MPPE com DPU, Compesa, Polícia Militar, Fórum Suape e representantes da Ilha de Mercês para ouvir as partes. Suape não compareceu, alegando, dez minutos antes, que ainda estaria se inteirando do que aconteceu. Mas, menos de uma hora depois do final da reunião, o complexo enviou uma extensa nota à imprensa com seu posicionamento (confira mais adiante).</p>



<p>O promotor de Justiça Leonardo Caribé, que coordena o Núcleo de Conflitos de Terra e Moradia (Nusf), informou que serão solicitadas mais informações a Compesa, Suape e também Prefeitura de Ipojuca. Também será apurado se houve abuso por parte da PM. Uma nova reunião deve ser agendada em breve. Apesar da irregularidade das rampas, Caribé defendeu que é preciso que se chegue a uma solução.</p>



<p>Presente na reunião, o coronel da PMPE José Mário Canel reforçou que a corporação foi acionada para dar apoio à atividade da Compesa. O major Cesar Júnior, presente na ação, detalhou que foi solicitado reforço após o início do protesto e que a liderança Martins disse que tocaria fogo na via.Chamado para negociar, estava irredutível, segundo o major. Foi então detido por “incitar violência”. </p>



<p>À <strong>MZ</strong>, Martins negou: “Eu não reagi, a polícia é que veio na força, sem negociação”. Ele foi rapidamente liberado depois de chegar à delegacia do Cabo.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">O que diz Suape</span>

		<p>O Complexo Industrial Portuário de Suape informa que foram identificadas recentemente duas intervenções irregulares em área inserida na poligonal do Porto Organizado: uma edificação em madeira e uma rampa em alvenaria construída sobre uma tubulação pressurizada da Compesa.</p>
<p>A edificação de madeira estava localizada em área sujeita a restrições específicas de ocupação e segurança, onde não são permitidas novas construções. Essas restrições já foram objeto de manifestações e orientações por parte de instituições competentes.</p>
<p>No segundo caso, foi identificada uma rampa em alvenaria construída sobre uma tubulação pressurizada da Compesa. Por se tratar de infraestrutura pertencente à companhia e localizada dentro do Complexo Industrial Portuário, Suape comunicou formalmente a ocorrência à Compesa, que, após avaliar a situação, adotou as providências cabíveis para a desmobilização da estrutura irregular sobre sua tubulação.</p>
<p>Também foi constatada a retirada de trecho do guard-rail da Avenida Portuária para criação de acesso ao local. O dispositivo integra a estrutura de segurança viária e não pode ser removido ou alterado sem autorização.</p>
<p>Diante das irregularidades identificadas, foram realizadas notificações prévias aos envolvidos e à representação da comunidade. Nesta quarta-feira, 8 de julho, Suape realizou a desmobilização da edificação irregular em madeira, enquanto a Compesa promoveu a retirada da rampa construída sobre sua tubulação pressurizada.</p>
<p>As medidas foram adotadas no âmbito das respectivas responsabilidades institucionais, considerando critérios de segurança portuária, segurança viária e proteção da infraestrutura pressurizada de abastecimento existente no local.</p>
<p>Em reação às intervenções, um grupo de manifestantes realizou o bloqueio da Avenida Portuária, afetando temporariamente o acesso ao Porto de Suape. As forças de segurança foram acionadas e atuaram, dentro da legalidade, na liberação da via.</p>
<p>Suape ressalta que respeita o direito à manifestação e mantém canais de diálogo com as comunidades do território. Ao mesmo tempo, tem o dever institucional de agir diante de construções e intervenções irregulares que possam comprometer a segurança das pessoas, a integridade das infraestruturas existentes, a circulação viária e a operação portuária.</p>
<p>As providências adotadas foram de natureza preventiva e de segurança, restritas à remoção das intervenções irregulares identificadas.</p>
	</div>
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			</item>
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		<title>Plante e lute como uma mulher de Juazeirinho</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inês Campelo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Jul 2026 21:49:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Agricultura Familiar]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Rede Ater]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Maria de Fátima Santos foi logo avisando: “minha história dá um livro”. Nascida em uma família de pequenos agricultores, na comunidade Pedra d’Água, em Juazeirinho (PB), ela passou boa parte da vida carregando água na cabeça. Criou cinco filhos, enfrentou o machismo dentro de casa e viveu anos sem ter dinheiro para comprar uma roupa [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Maria de Fátima Santos foi logo avisando: “minha história dá um livro”. Nascida em uma família de pequenos agricultores, na comunidade Pedra d’Água, em Juazeirinho (PB), ela passou boa parte da vida carregando água na cabeça. Criou cinco filhos, enfrentou o machismo dentro de casa e viveu anos sem ter dinheiro para comprar uma roupa para si mesma. “Antes eu era cega e não me via”, costuma dizer. Hoje, aos 65 anos, é presidente da associação da comunidade onde mora, participa de conselhos, fornece bolos para a merenda escolar e, com orgulho, afirma: “Hoje eu sou mais eu”.</p>



<p>A poucos quilômetros dali, Sandra Moraes começou uma pequena revolução com uma única galinha emprestada pela sogra. Em dois anos, transformou o quintal em uma criação de galinhas de capoeira, conquistou clientes pela região e se tornou uma espécie de central de vendas da família. “Graças a Deus, hoje o problema não é vender. É produzir mais”, resume.</p>



<p>Já Petrúcia Oliveira, 31 anos, cresceu acompanhando os pais e os avós em reuniões comunitárias, intercâmbios e mutirões. Formada dentro das organizações da agricultura familiar, jamais imaginou ocupar um cargo público. No fim de 2024, recebeu um telefonema inesperado da prefeita de Juazeirinho e aceitou o desafio de comandar a Secretaria de Agricultura do município. “Se tivesse alguém lá dentro para provocar, já seria alguma coisa”, pensava.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><em>Localizado no Cariri paraibano, às margens da BR-230, Juazeirinho tem cerca de 17 mil habitantes, dos quais 45% vivem na zona rural. O município abriga 47 comunidades rurais e aproximadamente 1,4 mil estabelecimentos agropecuários, sendo 73% pertencentes à agricultura familiar. Predominam pequenas propriedades: quase sete em cada dez têm até 10 hectares. Inserido no Semiárido, Juazeirinho enfrenta chuvas irregulares e longos períodos de estiagem, condições que impulsionaram a adoção de estratégias de convivência com o clima, como cisternas, bancos comunitários de sementes e sistemas produtivos agroecológicos. Hoje, a forte organização comunitária e a agricultura familiar são marcas da identidade e da economia do município.</em></p>
        </div>
    </div>



<p>As três histórias são fortes e especiais, mas estão longe de serem únicas. Como as protagonistas dessa reportagem, outras famílias foram beneficiadas por projetos da sociedade civil organizada e por diversas políticas públicas. Ao longo de mais de duas décadas, cisternas, bancos comunitários de sementes, quintais produtivos, assistência técnica, mercados institucionais e organização comunitária ajudaram a transformar a vida de centenas de famílias agricultoras.</p>



<p>Ao contar as histórias de Maria de Fátima, Sandra e Petrucia, também estamos falando de uma população organizada em uma ampla rede de associações comunitárias, sindicatos, grupos de mulheres, cooperativas e outras organizações da sociedade civil, que desempenham papel central na promoção da agroecologia, na implementação de políticas públicas e no fortalecimento da agricultura familiar.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">A atuação do PATAC em Juazeirinho</span>

		<p><!-- wp:paragraph --></p>
<p><em>O PATAC (Programa de Aplicação de Tecnologias Apropriadas às Comunidades) atua em Juazeirinho há mais de duas décadas, assessorando agricultores e agricultoras familiares na construção de alternativas de convivência com o Semiárido. Em parceria com organizações locais, o trabalho contribuiu para fortalecer a Comissão Municipal da Agricultura Familiar, implantar cisternas para consumo e produção, criar bancos comunitários de sementes, fundos rotativos solidários, feiras agroecológicas e unidades de beneficiamento de alimentos. A entidade também apoia a formação de mulheres e jovens, a assessoria técnica agroecológica e a incidência em políticas públicas, ajudando a transformar a organização comunitária em um dos principais pilares do desenvolvimento rural do município.</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
	</div>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Maria de Fátima : “Hoje eu sou mais eu”</strong></h2>



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                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
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                    </figure>

	


<p>A primeira coisa que chama a atenção na propriedade de Maria de Fátima é o jardim bem cuidado rodeando o terraço arejado onde ela recebe as visitas. De lá, é possível ver várias fruteiras, a cisterna que garante água nos momentos de seca e, um pouco mais afastada, a casa onde elas e as vizinhas produzem e armazenam as polpas de frutas que fornecem para as escolas do município. As coisas andam bem no quintal produtivo, que funciona segundo princípios agroecológicos, e também na sua vida pessoal. Mas nem sempre foi assim.</p>



<p>Maria de Fátima tem uma expressão que resume a própria vida. “Antes eu era cega e não me via.” Perto de completar 66 anos, ela fala da antiga Maria de Fátima como se estivesse descrevendo outra pessoa. Aquela mulher que saía de casa apenas para trabalhar no roçado, cuidava dos cinco filhos e passava os dias entre a cozinha e os afazeres domésticos não existe mais. “Meu trabalho era do roçado para casa e de casa para o roçado. Eu não me enxergava.”</p>



<p>Filha de agricultores, nascida e criada na comunidade Pedra d&#8217;Água, em Juazeirinho, no Cariri paraibano, Dona Fátima estudou apenas até a quarta série. Casou, criou os filhos e acreditou durante muito tempo que aquela era a vida que lhe cabia.</p>



<p>Tudo começou a mudar em 2006, quando um primo, então presidente da associação comunitária, insistiu para que ela participasse de uma reunião sobre a construção das primeiras cisternas para armazenamento de água de consumo. “Meu marido não queria que eu fosse. Naquele tempo as mulheres eram muito submissas. Mas, no terceiro convite, eu disse: agora eu vou.”</p>



<p>Foi nessa reunião que conheceu o Sindicato dos Trabalhadores Rurais e, depois, o PATAC. Vieram as reuniões, os intercâmbios, as viagens e os encontros com outras mulheres. “Foi aí que eu abri os olhos.”</p>



<p>Existe um outro ponto de ruptura que separa a antiga da nova Maria de Fátima. Durante décadas, ela acreditou que seus anos de escola haviam ficado para trás. O sonho de continuar estudando foi interrompido ainda na infância. O pai, frustrado por não ter conseguido fazer do filho mais velho o estudante que desejava, acabou não incentivando os demais. Já casada e com as crianças crescidas, ela decidiu recuperar o tempo perdido. Voltou para a sala de aula, estudando à noite, e concluiu os estudos em 2012. “Meu sonho era ser enfermeira”, conta. “Meu marido não queria muito, mas eu dizia: eu vou estudar. E fui.”</p>



<p>A chegada das cisternas, de primeira e segunda água, instaladas por meio do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2), da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), representou muito mais do que água perto de casa. Antes delas, Dona Fátima percorria mais de três quilômetros carregando latas na cabeça. Depois, os tanques de pedra foram recuperados. O quintal ganhou árvores frutíferas, caixas d&#8217;água e sistemas de armazenamento. Hoje, onde antes predominava a algaroba, crescem pés de acerola, pitanga, pinha, graviola, seriguela e araticum. “O povo diz que o Cariri não dá nada. Mas dá. Dá, sim.”</p>



<p>Com as frutas vieram as polpas, a participação na feira agroecológica e o fornecimento para o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Mais recentemente, os bolos produzidos por ela passaram a integrar a merenda das escolas do município.</p>



<p>Foi com o dinheiro desse trabalho que comprou uma vaca. Depois, uma máquina de lavar roupas. Em seguida, um armário e uma cristaleira. “Não tem preço você entrar numa loja e comprar uma roupa com o dinheiro do seu trabalho.”</p>



<p>A independência financeira veio acompanhada de outra conquista. “Antes eu tinha que esperar. Hoje não. Hoje eu compro minhas roupas, meus sapatos, o que eu quiser. Tudo fruto do meu trabalho.”</p>



<p>Ao longo da vida, Dona Fátima enfrentou dores que ainda a emocionam. Perdeu dois filhos e passou anos em um casamento marcado pelo machismo e pela dependência econômica. “Meu marido nunca levantou a mão para mim. Mas mulher não sofre só quando apanha.” Ela conta que muitas vezes engoliu o sofrimento para criar os filhos. “Eu pensava: se eu deixar esse homem, como vou criar meus meninos?”</p>



<p>Foi trabalhando fora, fazendo feira e contando com a ajuda do sogro que conseguiu garantir o sustento da família. “Ele nunca comprou uma caneta para um filho. Tudo foi fruto do meu trabalho.”</p>



<p>Hoje, vê com orgulho as filhas seguindo caminhos diferentes. E gosta de perceber que as mudanças alcançaram também as novas gerações. “Minha filha diz que se espelha em mim. E eu digo que guerreira é ela.”</p>



<p>Presidente da associação da comunidade, integrante da Comissão Municipal e participante de conselhos e atividades da igreja, Dona Fátima continua com a rotina intensa. Acorda às três da manhã, faz as orações, reza o rosário e, antes das seis, já está em atividade. “No dia em que eu parar, acho que me dá um troço.”</p>



<p>Quando lembra daquela mulher de antes de 2006, quando decidiu aceitar o terceiro convite para uma reunião, os olhos brilham. “Hoje eu sou mais eu.”</p>



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	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block"></span>

		<p><!-- wp:paragraph --></p>
<p><em><strong>Foto legenda:</strong></em></p>
<p><em>Conhecido na região como “o tanque do milagre”, o reservatório natural localizado na propriedade de Maria de Fátima nunca secou, mesmo nos períodos mais severos de estiagem. Em tempos difíceis, a água armazenada entre as pedras chegou a abastecer cinco famílias da comunidade Pedra d&#8217;Água. “Você tira água de manhã e, quando volta mais tarde, ele já está cheio de novo. Esse mistério só Deus sabe explicar”, diz a agricultora.</em></p>
	</div>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Sandra</strong>: &#8220;Hoje o problema não é vender. É produzir mais.”</h2>



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</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
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                    </figure>

	


<p>Na primeira vez que participou de uma reunião do programa ATER Mulheres, Sandra da Silva Araújo Moraes ouviu falar sobre direitos, projetos e oportunidades para mulheres agricultoras. Mas quando voltou para casa, na comunidade Ilha Grande, em Juazeirinho (PB), estava frustrada por não ter os requisitos mínimos para acessar o programa de fomento rural. Ela não tinha o Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF), não tinha praticamente nenhuma produção e tampouco recursos para investir no sonho que carregava desde criança: criar galinhas. “Meu problema era começar. Eu tinha vontade, mas não tinha dinheiro.”</p>



<p>Foi então que aconteceu algo inusitado. Uma galinha da sogra, que morava na casa ao lado, resolveu por ovos no quintal de Sandra. “Eu disse: &#8216;Vou amarrar essa galinha para mim&#8217;. E ela respondeu: &#8216;Pode amarrar&#8217;.” A ave chocou 13 ovos e nasceram 12 fêmeas. E assim, quase por acaso, começou a pequena criação que hoje garante uma renda extra para a agricultora.</p>



<p>Filha de agricultores, Sandra nasceu em Poçinhos (PB). O pai era vaqueiro e a família vivia mudando de fazenda em fazenda. Quando tinha cerca de oito anos, chegou a Juazeirinho e nunca mais saiu. “Cresci na agricultura. Desde que me entendo por gente vivo disso.”</p>



<p>Mas, apesar da ligação com o campo, durante muitos anos ela esteve distante das reuniões, das formações e dos espaços de organização. “Eu não participava de nada. Nem acreditava que um dia fosse receber alguma coisa do governo.”</p>



<p>A primeira mudança veio através do programa ATER Mulheres, iniciativa voltada para a assistência técnica e para a autonomia econômica das agricultoras. Foi ali que Sandra começou a entender a importância da documentação e dos programas voltados para a agricultura familiar. “Até para fazer a CAF é difícil. Muitas vezes, a pessoa recebe um não e desiste. Foi nessas reuniões que comecei a entender meus direitos.”</p>



<p>Embora não tenha sido contemplada naquele primeiro momento, pouco tempo depois conseguiu ingressar no projeto Quintal das Margaridas, desenvolvido no território com apoio das organizações da agricultura familiar. Recebeu R$ 4,5 mil em fomento produtivo, além de assistência técnica e acompanhamento. “Pode parecer pouco. Mas, para uma mulher que nunca tinha recebido nada diretamente, foi uma conquista muito grande.’</p>



<p>Mais importante do que o dinheiro, diz ela, foram os encontros com outras mulheres. “A gente ria, se emocionava, desabafava. Era uma convivência muito boa.” Com o apoio do projeto e a experiência acumulada desde criança, Sandra começou a ampliar a criação.</p>



<p>Hoje tem cerca de cinquenta galinhas de capoeira e alguns perus. Os ovos e as aves abatidas abastecem consumidores de Juazeirinho, Campina Grande, João Pessoa e pessoas ligadas às redes de organizações da agricultura familiar. “Graças a Deus, hoje o problema não é vender. É produzir mais.”</p>



<p>Sandra faz questão de trabalhar apenas com galinhas de capoeira. “Não adianta enganar o cliente.” Ela explica que muitos compradores procuram os ovos por recomendação médica ou por buscar uma alimentação mais saudável. “Quem compra da gente quer a galinha verdadeira. Se descobrir que você misturou, nunca mais volta.”</p>



<p>Os conhecimentos adquiridos nas formações e na prática transformaram a agricultora em uma espécie de especialista em raças nativas. “Até pelo cheiro eu sei se é galinha de capoeira. É só abrir a panela.”</p>



<p>Mas criar os animais é apenas uma parte do trabalho. A outra é vender. E é justamente essa a parte de que ela mais gosta. Pelos status do WhatsApp, comercializa ovos, galinhas, leite, maxixe, coentro e cebolinha. Quando as irmãs não conseguem vender a produção, recorrem a ela. O mesmo acontece com o pai e a sogra. “Eu vendo tudo.”</p>



<p>O pai, que não usa redes sociais, faz as entregas. “Ele diz: &#8216;Você vende, que eu entrego&#8217;.” Com orgulho, Sandra conta que os clientes já entram nos status do WhatsApp para saber o que há disponível naquele dia. “Graças a Deus, tudo o que eu posto eu vendo.”</p>



<p>Em casa, a filha Isadora, de sete anos, parece seguir os passos da mãe. “Ela ama as galinhas. Vive dentro do galinheiro.” Já José Isaac, de 12 anos, prefere manter distância. “Ele morre de medo”, conta, entre risos.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><em>Sandra tem um forno agroecológico que tem um peso importante no orçamento doméstico ao ajudar na economia do gás de cozinha. O fogão foi construído com recursos de um fundo rotativo, que ela é a atual tesoureira, mantido por vinte pessoas da comunidade que, desde 2006, contribuem com R$ 5 todo mês</em></p>
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    </div>



<h2 class="wp-block-heading">Petrucia: “Alguém precisava estar lá dentro”</h2>



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</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
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                    </figure>

	


<p>Nos últimos dois anos, a vida de Petrucia Nunes de Oliveira mudou quase por completo. Foi morar em uma casa nova, teve o primeiro filho e começou um trabalho que nunca imaginou exercer. E não foi um emprego qualquer.</p>



<p>No fim de dezembro de 2024, a agricultora e articuladora social de Juazeirinho recebeu um telefonema da prefeita Ana Virgínia convidando-a para assumir a Secretaria Municipal de Agricultura. Filha e neta de agricultores da comunidade Sussuarana, Petrucia jamais havia ocupado um cargo público. Na família, ninguém tinha tradição política. “Passei o fim de semana inteiro em crise”, lembra.</p>



<p>A decisão não era simples. Além de deixar o trabalho que desenvolvia junto às organizações da agricultura familiar, ela assumiria uma secretaria historicamente marcada por uma visão tradicional do campo, em um ambiente predominantemente masculino. Poucos meses depois, já no cargo, precisou interromper a rotina para o nascimento do filho. Em abril entrou em licença-maternidade. Retornou em agosto com um desafio ainda maior: aprender a equilibrar os cuidados com o bebê e a responsabilidade de conduzir uma das principais políticas públicas do município.</p>



<p>Mas a história de Petrucia com a agricultura começou muito antes daquele telefonema. Filha e neta de agricultores, cresceu acompanhando os pais e os avós em reuniões do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, intercâmbios promovidos pelo PATAC e atividades do Coletivo Regional. Enquanto outras crianças brincavam, ela ouvia conversas sobre bancos comunitários de sementes, cisternas, convivência com o Semiárido e organização comunitária. “Meu avô foi um dos primeiros a participar dos intercâmbios. Foi ele quem despertou em nós esse amor pela agricultura.”</p>



<p>Nascida em 1994, ela pertence à geração que já encontrou um território transformado pelas organizações da agricultura familiar. Participou da Comissão de Sementes, ajudou a criar a Comissão de Juventude do Coletivo e passou a integrar diferentes espaços de formação e articulação política. “Nossa preocupação nunca foi ocupar cargos. A gente queria que esse trabalho fosse reconhecido.”</p>



<p>Foi nesse período que as organizações decidiram estreitar o diálogo com a prefeita Ana Virgínia. Primeiro apresentaram o conjunto de experiências desenvolvidas no município. Depois a convidaram para conhecer, de perto, os quintais produtivos, os bancos de sementes, as tecnologias de acesso à água e as famílias agricultoras. “O olhar dela sobre a agricultura era muito ligado ao corte de terra e à limpeza de barreiros. Nós mostramos que existia outro lado da agricultura. Um lado capaz de proporcionar uma vida melhor para as famílias.”</p>



<p>O diálogo ganhou força durante o projeto Cultivando Futuros. Ao lado de agricultores, lideranças e organizações, Petrucia participou da reconstrução da história da agricultura familiar de Juazeirinho. O grupo revisitou a trajetória das políticas públicas no município, identificou os principais desafios e elaborou uma carta de propostas para orientar a atuação da gestão municipal. “Foi um momento muito bonito. A gente revisitou a história dos nossos pais e dos nossos avós.”</p>



<p>Petrucia jamais imaginou que, poucos meses depois, estaria do outro lado da mesa. “Eu ajudava a construir aquela carta construída durante o projeto Cultivando Futuros enquanto estava na sociedade civil. De repente, me vi do outro lado, tentando colocá-la em prática.”</p>



<p>Assim, estabeleceu como prioridades estão a implantação do Sistema de Inspeção Municipal, o fortalecimento do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), a ampliação da participação da agricultura familiar na Juacapri, os campos de multiplicação de palma e a adaptação das chamadas públicas para facilitar o acesso dos agricultores.</p>



<p>São mudanças discretas, mas que dialogam diretamente com as reivindicações construídas pelas organizações ao longo de mais de duas décadas. Ser mulher e jovem em um ambiente tradicionalmente ocupado por homens também trouxe desafios. “Às vezes as pessoas perguntam: &#8216;A secretária é você?’”</p>



<p>Enquanto esteve do lado de fora da prefeitura, seu papel era provocar. Agora, acredita que sua missão é abrir caminho para que a agricultura familiar deixe de ser uma pauta periférica e passe a ocupar um lugar permanente nas decisões do município. “Não quero ficar aqui para sempre. Mas, enquanto estiver, quero contribuir para fortalecer esse trabalho.”</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p>Esta reportagem foi produzida em parceria com a <a href="https://redeaterne.org.br/">Rede Ater Nordeste</a>.</p>
    </div>



<h3 class="wp-block-heading">Leia também:</h3>



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                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/semiarido/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Semiárido</a>
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        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
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                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/semiarido/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Semiárido</a>
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            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

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                <a href="https://marcozero.org/um-escudo-contra-as-mudancas-climaticas/" class="titulo">Um escudo contra as mudanças climáticas</a>
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                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
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	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
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		<item>
		<title>Caatinga Climate Week 2026 coloca semiárido no centro do debate climático</title>
		<link>https://marcozero.org/caatinga-climate-week-2026-coloca-semiarido-no-centro-do-debate-climatico/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Jeniffer Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Jul 2026 20:52:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[caatinga]]></category>
		<category><![CDATA[Centro Sabiá]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Semiárido]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A segunda edição do Caatinga Climate Week acontece de 1 a 3 de julho. A abertura ocorre no Centro Cultural Cais do Sertão, no Recife, e segue para o agreste pernambucano nos dias seguintes. Promovido pelo Centro Sabiá e pelo Instituto Socioambiental (ISA), o evento reúne painéis e diálogos entre diferentes atores da sociedade civil [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>A segunda edição do Caatinga Climate Week acontece de 1 a 3 de julho. A abertura ocorre no Centro Cultural Cais do Sertão, no Recife, e segue para o agreste pernambucano nos dias seguintes. Promovido pelo Centro Sabiá e pelo Instituto Socioambiental (ISA), o evento reúne painéis e diálogos entre diferentes atores da sociedade civil para discutir a Caatinga. A iniciativa é inspirada nas semanas do clima realizadas em diversas partes do mundo e busca colocar o bioma exclusivamente brasileiro no centro do debate climático global.</p>



<p>Sob o tema A Caatinga falando para o mundo, a programação deste ano tem como objetivo amplificar as vozes de quem já constrói soluções concretas nos territórios do semiárido. Estão previstas participações de lideranças indígenas e quilombolas, agricultores e agricultoras familiares, representantes de movimentos sociais, articuladores da agenda socioambiental e gestores públicos, em uma programação que se dispõe a conectar saberes tradicionais, ciência, inovação social e justiça climática.</p>



<p>Após o dia de abertura no Recife, o evento segue nos dias 2 e 3 de julho com uma expedição pelo agreste pernambucano, quando os participantes visitarão experiências concretas de adaptação às mudanças climáticas desenvolvidas por comunidades locais. A programação &#8220;do cais ao sertão&#8221; reforça a proposta de aproximar debate urbano e vivência territorial, levando os participantes a conhecer de perto as tecnologias sociais criadas ao longo de gerações para viabilizar a convivência com o Semiárido.</p>



<p>A Caatinga ocupa cerca de 11% do território nacional, estendendo-se por dez estados do Nordeste e pelo norte de Minas Gerais. Historicamente marcada pela escassez hídrica e por desigualdades socioambientais, a região tem sido cada vez mais impactada pelos efeitos das mudanças climáticas. Ainda assim, é também reconhecida como um território de respostas: povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares desenvolveram, ao longo do tempo, conhecimentos e práticas voltados à produção de alimentos, à conservação ambiental e à gestão sustentável dos recursos naturais.</p>



<p>Realizada pela primeira vez em 2025, o evento propõe reconhecer a Caatinga como território de inovação, resistência e futuro. A programação completa está disponível no <a href="https://www.caatingaclimateweek.org.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">site oficial</a> do evento, e atualizações podem ser acompanhadas pelo perfil da iniciativa no <a href="https://www.instagram.com/caatingaclimateweek/" type="link" id="https://www.instagram.com/caatingaclimateweek/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Instagram</a>.</p>



<p></p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/caatinga-climate-week-2026-coloca-semiarido-no-centro-do-debate-climatico/">Caatinga Climate Week 2026 coloca semiárido no centro do debate climático</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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