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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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		<title>Por que o trabalho de Seu Maruca é o mais ameaçado do Recife</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 06 May 2024 18:35:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[poço da panela]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Mário Severino da Cunha era ainda menino quando começou a cruzar o rio Capibaribe de barco levando e trazendo gente da Iputinga, na zona oeste do Recife, para o Poço da Panela, na zona norte. Antes dele, era o pai quem fazia o mesmo trajeto, de manhã até à noite. Com o auxílio de uma [&#8230;]</p>
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<p>Mário Severino da Cunha era ainda menino quando começou a cruzar o rio Capibaribe de barco levando e trazendo gente da Iputinga, na zona oeste do Recife, para o Poço da Panela, na zona norte. Antes dele, era o pai quem fazia o mesmo trajeto, de manhã até à noite. Com o auxílio de uma corda de 100 metros de comprimento, suspensa sobre o rio, ele vai guiando o barco &#8211; ou canoa, como chama &#8211; e vencendo a correnteza. Seu Maruca se sente vivendo os últimos dias do seu ofício. Em breve, a menos de 500 metros dali, será inaugurada a ponte que liga a Iputinga ao bairro do Monteiro.</p>



<p>O barqueiro, de 77 anos, calcula que faz pelo menos um século que esta travessia de margem a margem existe. O pai dele era também menino quando veio de Limoeiro para o Recife e começou a trabalhar na passagem. No começo, o barco tinha um gancho e o remo ia de um lado para o outro no bico da proa. Depois, veio a ideia de colocar a corda suspensa.</p>



<p>O rio, lembra seu Maruca, era outro.</p>



<p>Sem mangue nas margens, com águas claras, onde peixes de vários tipos eram abundantes e crianças tomavam banho. Guaiamum e camarão eram comuns e faziam parte dos almoços na casa da família, na margem do lado da Iputinga. Não se via nem jacaré, nem capivara, que são os animais que ele mais encontra hoje nas travessias. </p>



<p>“Eu já bebi água desse rio”, lembra. “Aqui, só tinha os casarões ali da Marquês de Tamandaré (onde hoje é o condomínio Passárgada). Foram construindo edifícios e os esgotos aumentando. Aqui (aponta para o deque que dá no Jardim Secreto, do lado do Poço) tem essas três saídas de esgoto, tudo depois que construíram tantos prédios”, reclama Mário, que também trabalhou por 37 anos na Casa de Saúde São José, <a href="https://marcozero.org/avenida-dezessete-de-agosto-2069-poco-da-panela-monumento-a-derrota-nossa-de-cada-dia/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">demolida em 2009</a> e onde hoje se está construindo o Parque do Poço.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/05/Travessia-2.jpg" alt="Foto de um homem e duas mulheres sobre um barco no rio Capibaribe. Á esquerda da imagem, um homem é negro e magro, usando um boné e óculos escuros, vestindo uma camisa de mangas compridas na cor bordô e calças jeans. Ele segura um bicicleta. Em primeiro plano e no centro da foto, uma das mulheres está com a mão direita pousada sobre o selim de uma bicicleta. Ela veste blusa lilás, calça jeans com abertura lateral na perna e um boné vermelho com o símbolo da nike. Ao fundo, à direita da image, está a outra mulher, também com uma bicicleta. Ela veste uma camisetya preta com escudo da CBF e tem cabelo amarrado. Ao redor, se vê as águas barrentas do rio, o manguezal na margem e um prédio se sobressaindo na paisagem ao longe, na linha do horizonte." class="" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Cajuíno, Carla e Elisângela dizem que vão continuar fazendo a travessia de barco
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo</span>
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                    </figure>

	


<p>Com a ponte &#8211; <a href="https://marcozero.org/com-pressa-e-sem-aviso-prefeitura-do-recife-derruba-casas-e-despeja-idosa-na-vila-esperanca/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">que já expulsou parte da Vila Esperança</a> &#8211; seu Maruca acredita que seu barco vai receber ainda menos passageiros. “Teve época que aqui havia oito canoas fazendo a passagem. Hoje só tem eu”, afirma. “Também havia muito mais gente cruzando. Muitas mulheres que moravam aqui no Caiçara (na Iputinga) trabalhavam do outro lado”, conta.</p>



<p>Cada ida custa R$ 2. Seu Maruca &#8211; ou o sobrinho dele, conhecido como Pai &#8211; está lá todos os dias das 4h da madrugada até às 18h. Faz em média R$ 80 por dia. Muita gente que vai trabalhar de bicicleta pega o barco para cortar caminho. Com a ponte, a travessia de barco não vai ficar mais tão atrativa, mas há  clientes antigos que não pensam em deixar o barco de seu Maruca.</p>



<p>Motorista, Alberto Cajuíno mora na Várzea e todo dia pega o barquinho de seu Maruca. Vai trabalhar de bicicleta. E não pensa em abandonar a travessia de barco, nem quando tiver a ponte ali pertinho. “Corto uns seis quilômetros pegando o barco. Não vou pela ponte, vou continuar aqui, fico olhando a natureza. É muito bonito”, diz.</p>



<p>Moradoras da Iputinga, Carla Maranhão e Elisângela Maria vão trabalhar na praça de Casa Forte também de bicicleta. “Pegando aqui o barco, a gente economiza uns 30 minutos”, dizem. A ponte, afirmam, não vai mudar a rotina delas. “Já estamos acostumadas”, diz Carla.</p>



<p>Para a diarista Yara Maria, quando a ponte estiver em uso, a travessia de barco vai continuar sendo uma opção quando ela estiver pé. “Mas quando eu for de bicicleta, eu vou usar a ponte. Quando vou a pé não vale a pena, porque ainda tenho que andar um pedação. Aqui eu atravesso de bote, ando duas quadras e já estou no serviço”, conta.</p>



<p>Adaptado aos tempos atuais, seu Maruca aceita pix &#8211; que é como a maioria dos passageiros paga a passagem &#8211; e até deixa fiado para quem conhece. Apesar de muitos passageiros afirmarem que vão continuar a cruzar o rio com ele, ele sabe que a ponte que aparece ali no horizonte é um aviso de que o público vai diminuir ainda mais. “As pessoas estão todas economizando. Vai afetar bastante”, lamenta.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/05/Travessia-1.jpg" alt="Esta foto mostra três pessoas em um pequeno barco no rio. O rio parece estar calmo, e as águas são de cor marrom clara. Uma pessoa está de pé, segurando uma vara ou corda que se estende para fora do quadro da imagem. As outras duas pessoas estão sentadas no barco. Ao fundo, há árvores verdes e densas e uma estrutura construída perto da margem do rio." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">O barqueiro está convicto que inauguração da ponte vai reduzir o movimento
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo</span>
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	<p>O post <a href="https://marcozero.org/por-que-o-trabalho-de-seu-maruca-e-o-mais-ameacado-do-recife/">Por que o trabalho de Seu Maruca é o mais ameaçado do Recife</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>O que está acontecendo com as capivaras no Recife?</title>
		<link>https://marcozero.org/o-que-esta-acontecendo-com-as-capivaras-no-recife/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 14 Sep 2023 20:30:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[capivaras]]></category>
		<category><![CDATA[manguezal]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[parque das graças]]></category>
		<category><![CDATA[rio]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Hoje, 14 de setembro, é o dia internacional da capivara. O animalzinho de semblante tranquilo e simpático era tão popular por aqui que deu nome ao mais importante rio do Recife, o Capibaribe, que, como todo recifense aprende na escola, significa rio das capivaras, em tupi. Mas nos últimos anos, esses roedores gigantes e herbívoros [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Hoje, 14 de setembro, é o dia internacional da capivara. O animalzinho de semblante tranquilo e simpático era tão popular por aqui que deu nome ao mais importante rio do Recife, o Capibaribe, que, como todo recifense aprende na escola, significa rio das capivaras, em tupi. Mas nos últimos anos, esses roedores gigantes e herbívoros têm sido avistados em locais pouco apropriados para eles. E para nós.</p>



<p>Se olharmos para notícias dos últimos dez anos, há registros de famílias de capivaras andando na calçada da avenida Rui Barbosa, na praia de Casa Caiada em Olinda e cruzando a Via Mangue. Na semana passada, uma capivara foi achada morta após ter sido vista por vários dias na praia de Boa Viagem.</p>



<p>O que está, então, acontecendo com esses animais?</p>



<p>Há um punhado de fatores. O mais importante é que o habitat natural deles está sendo devastado. “É um efeito da fragmentação do habitat, seja por desmatamento, expansão imobiliária, queimadas, derrubada das matas ciliares. As capivaras são animais generalistas: quando o ambiente em que vivem está danificado, elas migram para outras áreas. Para capivara, todo ambiente com um curso de rio e áreas gramadas é propício”, explica o biólogo Marcos Vinícius Rodrigues, doutor em manejo e conservação de fauna silvestre, especializado em manejo reprodutivo de capivaras em áreas urbanas.</p>



<p>No Recife, as capivaras vivem principalmente nos manguezais e matas próximas aos rios. Ambientes cada vez mais degradados.</p>



<p>Para viver nas cidades, as capivaras tiveram que mudar de hábitos. Na natureza, elas se alimentam durante o dia e descansam à noite. Nas cidades, a rotina é inversa. “Por conta dos fluxos de carros e pessoas, dos barulhos, as capivaras descansam de dia e por volta das 17h30 saem para forragear. Elas dormem em locais onde se sentem seguras, que pode ser nos mangues, nas matas ciliares ou até debaixo das pontes, mas sempre perto dos cursos de água. É do instinto do animal se esconder dentro da água quando se sentem ameaçados”, explica Marcos Vinícius, que também é professor do Centro Universitário Católica do Leste de Minas Gerais (Unileste).</p>



<p>Isso não significa, porém, que são animais adaptados à vida urbana. A professora aposentada da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) Adélia Oliveira, que milita pelo meio-ambiente na Associação Pernambucana em Defesa da Natureza (Aspan), diz que as capivaras, assim como saguis e timbus, “suportam” viver nas cidades.</p>



<p>Durante décadas, era difícil avistar capivaras no Recife e a impressão que dava era que elas já não mais habitavam a região. “O rio passou por muitas transformações, foi retificado, os afluentes viraram canais artificiais. Com a destruição do manguezal no centro do Recife, as capivaras se afastaram, foram mais para dentro do Capibaribe ou se estabeleceram em pequenos veios de água”, explica Adélia Oliveira. “O Recife todo é um estuário. E assim como as capivaras, o mangue é muito resiliente e voltou para as margens do rio, onde as capivaras gostam de ficar. São animais dependentes de água”.</p>



<p>A bióloga enumera como as capivaras são anatomicamente adaptadas à água. Há membranas entre os três dedos das patas, para ajudá-las a nadar melhor. As orelhas e olhos ficam no topo da cabeça, permitindo que o corpo todo fique dentro da água e só uma pequena parte para fora, as esquivando de predadores.</p>



<p>O animal encontrado morto na praia de Boa Viagem na semana passada provavelmente era um macho desgarrado do bando ou um animal doente. Capivaras podem aguentar a forte influência das marés na salinidade do Capibaribe, mas padecem em poucos dias quando só bebem água do mar. “Ficam desidratadas porque precisam urinar muito para eliminar o sal. E a água do mar também tem minerais que aumentam a motilidade gastrointestinal e provocam diarreias e vômitos. Assim como os seres humanos, elas não resistem”, lamenta a professora.</p>



<p>Outro perigo da vida urbana para as capivaras são os atropelamentos. Como são animais que podem passar de um metro de altura e mais de 60kg, o impacto é perigoso também para os seres humanos. Em algumas cidades, há muros para que as capivaras não passem para as ruas e avenidas.</p>



<p>Vale ressaltar que a capivara é um animal protegido por lei federal, que proíbe a caça e quaisquer maus-tratos.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2023/09/Capivara-1-A7.jpg" alt="Capivara de grande porte, no canto inferior esquerdo da imagem, está em uma área com mato do parque das Graças, sendo observada por um homem branco de meia idade, barba e calvo, que passa caminhando pelo passeio público." class="" loading="lazy" width="671">
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	                                        <p class="m-0">Biólogos criticam gramado para atrair capivaras no parque das Graças. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo
</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading"><strong>Cada um no seu quadrado</strong></h2>



<p>O parque das Graças se tornou quase um ponto de encontro dos recifenses com as capivaras. É muito comum avistar os animais no início da noite ou no comecinho da manhã, no gramado mais próximo da ponte da Torre. Nos fins de semana, com mais público, fica tudo meio misturado: adultos, crianças, cachorros e capivaras, ainda que haja guardas municipais moderando as aproximações.</p>



<p>A construção do parque retirou uma longa faixa de mangue e 99 árvores da margem do rio. Isso desestabilizou as capivaras que ali habitavam. Além disso, há um convite para essa aproximação: a grama plantada ali tem exatamente o objetivo de atraí-las, sendo de um tipo que elas gostam de comer.</p>



<p>Para os biólogos, isso é um grande erro.</p>



<p>Adélia Oliveira participou do projeto do Parque Capibaribe e lembra que a solução indicada para as capivaras da altura do parque das Graças era a de um espaço exclusivo para elas, na outra margem do rio. “Na pesquisa, avistamos por três vezes capivaras parindo em bueiros de esgoto, onde os filhotes também ficavam por um tempo. A nossa ideia era fazer um espaço com gramíneas para elas comerem e também onde pudessem parir de forma segura. Mas era distante do parque, as pessoas poderiam observá-las somente da outra margem do rio”, lembra.Essa parte do projeto não saiu do papel. </p>



<p>O convívio próximo oferece riscos para humanos e capivaras. O principal é a febre maculosa, uma doença infecciosa aguda causada pela bactéria <em>Rickettsia rickettsii</em>. A capivara é uma hospedeira desta bactéria, que pode ser transmitida para seres humanos e animais domésticos pela mordida do carrapato estrela.</p>



<p>É um carrapato que nas fases larva e ninfa pode ser tão, mas tão pequeno, que quase não dá para enxergá-lo a olho nu. Muitas vezes a pessoa só percebe que foi mordida quando vê as reações na pele.</p>



<p>A bactéria é encontrada em estados do Sudeste e Centro-Oeste e não há registro de casos de febre maculosa em Pernambuco. Mas é preciso se precaver. “Não teve casos, mas esse carrapato estrela existe na região. Uma hora pode ser que a bactéria apareça no Nordeste também, não tem como garantir”, afirma Adélia</p>



<p>A febre maculosa tem tratamento &#8211; feito com antibióticos &#8211; , mas muitas vezes é inicialmente confundida com uma arbovirose, o que acaba complicando o caso. Nos últimos dez anos, foram registrados 753 óbitos por febre maculosa no Brasil.</p>



<p>Além da febre maculosa, outro risco para os humanos são seus dentes afiados e sua mandíbula forte. A capivara é um animal muito pacífico, mas em situações de estresse, como quando se sente acuada ou para proteger as crias, pode atacar. “Ela morde e não solta. Fecha a mandíbula. Qual a reação da pessoa? puxar, e aí sai rasgando tudo. A mordida da capivara deixa vários buracos. Também há registros de ataques a cachorros”, diz o biólogo, enfatizando que os ataques são raros.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/sucesso-de-publico-parque-das-gracas-tem-menos-mangue-do-que-no-projeto-original/" class="titulo">Sucesso de público, Parque das Graças tem menos mangue do que no projeto original</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/bem-viver/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Bem viver</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<h3 class="wp-block-heading"><strong>Toda uma hierarquia social</strong></h3>



<p>Capivaras são animais que vivem em uma estrita hierarquia social. Os bandos possuem de cinco até 15 ou 20 indivíduos: um macho dominante &#8211; o macho alfa -, várias fêmeas e os filhotes. Há também os machos beta &#8211; filhotes que cresceram e são expulsos ao atingir a maturidade sexual &#8211; que ficam rodeando esse grupo e são responsáveis por cerca de 40% das crias, se aproveitando de “distrações” do macho alfa.</p>



<p>Quando um alfa é desbancado por outro mais jovem e forte, ele passa a pertencer a um terceiro grupo que rodeia o bando principal. “São um grupo de machos celibatários, os ‘aposentados’”, diz Marcos Vinícius. Essa hierarquia é importante quando algum predador ataca o bando, já que se aproxima primeiro do grupo dos machos mais velhos.</p>



<p>Uma curiosidade na hierarquia das capivaras é que há também as fêmeas alfas e as fêmeas beta. As alfas, cruzam e reproduzem. Já as betas não procriam, mas têm lactação, ajudando na alimentação e criação dos filhotes das alfas.</p>



<p>Outro fator para vermos muito mais capivaras no Recife do que em décadas passadas é porque os predadores desses animais estão em extinção. São jacarés e felinos grandes, que sofrem ainda mais pelas ações humanas. Sem predadores e com maior conscientização da população contra a caça, as capivaras voltam também a ter populações maiores.</p>



<p>O ciclo reprodutivo das capivaras ajuda nesse povoamento. As fêmeas entram no cio a cada sete dias. As gestações duram cinco meses e elas podem parir de um a quatro filhotes, sendo registrado até oito filhotes por gestação.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Como controlar a população de capivaras?</h3>



<p>As capivaras são os maiores roedores do mundo e são encontradas da Flórida (Estados Unidos) até a Argentina. Sem predadores naturais, casos de superpopulação são cada vez mais comuns, o que pode comprometer safras agrícolas e o equilíbrio ecológico. Nas cidades, o desafio é fazer com que a convivência não seja tão próxima, o que pode levar a atropelamentos e disseminação de doenças.</p>



<p>Grades em áreas verdes e parques não impedem que elas acessem as ruas. “Se tiver comida do outro lado, ela vai passar por baixo. Vai se arranhar toda, mas faz de tudo para passar. As capivaras têm um cicatrização muito rápida”, conta Marcos Vinícius, um dos mais respeitados pesquisadores brasileiros dessa espécie de animal. &#8220;O indicado são muros ou grades com bases murada&#8221;, indica. </p>



<p>A pesquisa para o doutorado dele foi sobre como fazer esse controle de população, sem prejudicar a dinâmica dos animais. A solução encontrada foi não fazer a castração dos animais &#8211; como ocorre com gatos e cachorros -, mas sim vasectomia, que não impede a produção hormonal, necessária para a posição hierárquica no bando. &#8220;Todos os machos têm uma glândula na base do nariz, de cor preta. Nos machos alfa, essa glândula tem cerca de 14 centímetros e nos betas, metade disso. Mas quando se castra o alfa, impedindo a produção de testoterona, o beta assume o lugar do alfa e passa a produzir mais testosterona, aumentando também a glândula. Ou seja, a castração é ineficaz no controle populacional, porque o alfa é rapidamente substituído&#8221;, diz. </p>



<p>Nas fêmeas, foi feito a ligação uterina. &#8220;O controle populacional é importante para evitar zoonoses e acidentes. Os municípios que têm capivaras na zona urbana precisam fazer um plano de manejo desses animais&#8221;, diz o biólogo. </p>



<p>No Recife, a pesquisa populacional que se tem conhecimento é de 2017, na época da criação do projeto do Parque Capibaribe. Da foz do rio até o limite com o município de Camaragibe os pesquisadores avistaram 37 indivíduos e estimaram a população em três vezes mais. &#8220;Mas com a pandemia, em que houve menos ação humana, esse número deve ter aumentado bastante&#8221;, acredita Adélia Oliveira. </p>



<p>Para o manejo desses animais em zonas urbanas, o indicado pelos biólogos é preservar a vegetação nativa de margens de rios e cursos de água, deixar as gramas de praças e parques sempre baixas, para que não virem um atrativo para as capivaras, e a construção de muretas em áreas em que elas correm perigo. Marcos Vinícius também defende a colocação de placas, alertando a população sobre a presença das capivaras. &#8220;É preciso informar a população para não incomodar ou se aproximar delas&#8221;, diz.</p>



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	                                        <p class="m-0">Cidades com capivaras precisam fazer manejo dos bandos em áreas urbanas. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo
</p>
	                
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		<title>&#8220;Tudo de novo&#8221;. O desespero das famílias com as chuvas da Região Metropolitana do Recife</title>
		<link>https://marcozero.org/tudo-de-novo-o-desespero-das-familias-com-as-chuvas-da-regiao-metropolitana-do-recife/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 07 Jul 2023 17:06:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[alagamentos]]></category>
		<category><![CDATA[chuvas em Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[chuvas no recife]]></category>
		<category><![CDATA[desabamento]]></category>
		<category><![CDATA[rio Capibaribe]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Tudo de novo”. Esta é a frase que resume a aflição de famílias que vivem nas áreas mais vulnerabilizadas da Região Metropolitana do Recife, na manhã da sexta-feira, 7 de julho. Casas estão inundadas, ruas estão alagadas e rios subiram demais de volume. Vidas, memórias e pertences foram perdidos – mais uma vez. Ao menos [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>“Tudo de novo”. Esta é a frase que resume a aflição de famílias que vivem nas áreas mais vulnerabilizadas da Região Metropolitana do Recife, na manhã da sexta-feira, 7 de julho. Casas estão inundadas, ruas estão alagadas e rios subiram demais de volume. Vidas, memórias e pertences foram perdidos – mais uma vez.</p>



<p>Ao menos uma barreira deslizou, em Coqueiral, na Rua Edna, Zona Oeste da capital, sem vítimas. Recentemente a <strong>Marco Zero</strong> mostrou a situação da área do rio Tejipió em <a href="https://marcozero.org/sou-uma-mulher-de-40-anos-que-tem-medo-da-chuva/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">reportagem especial</a> sobre o adoecimento mental das famílias. São populações de baixa renda, negras em sua maioria, muitas chefiadas por mulheres e mães as impactadas pela falta de políticas públicas socioambientais e de habitação, além de prevenção e resposta aos desastres diante das mudanças climáticas.</p>



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	                                        <p class="m-0">Crédito: Instagram Coqueiral Ordinário</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>O desabamento do prédio no Conjunto Beira-Mar, no Janga, em Paulista, na manhã de hoje, também tem ligação com esse cenário. A Caixa Seguradora, uma das empresas responsáveis pelo prédio, já havia constatado o risco de desabamento. Mas, devido ao imenso déficit habitacional e à desigualdade social, as pessoas não tinham para onde ir, sobretudo na época mais chuvosa do ano em Pernambuco.</p>



<p>Na Muribeca, em Jaboatão dos Guararapes, município vizinho ao Recife, o desespero de alguns moradores com o aumento do nível da água foi tão grande que alguns se juntaram e começaram, por conta própria, a tentar com enxadas mudar o curso da água.</p>



<p>Desde o início da semana, a Agência Pernambucana de Águas e Clima (Apac) havia alertado para a tendência de chuvas a partir de hoje. Ontem (quinta) pela manhã, emitiu o aviso de estado de atenção, indicando chuvas de moderadas a fortes se estendendo ao longo desta sexta.</p>



<p>A mais recente atualização da Apac, por volta das 10h, indica que a tendência é que as chuvas prossigam até segunda (10), mas com intensidade maior hoje e amanhã na Região Metropolitana do Recife e na Zona da Mata (Norte e Sul). No Agreste, há tendência de chuvas moderadas até amanhã.</p>



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	                                        <p class="m-0">Rio Jaboatão, na Muribeca</p>
	                
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<p>O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) também emitiu aviso vermelho para áreas de Pernambuco e da Paraíba, com acumulado de chuva que pode superar os 100 milímetros em 24h.</p>



<p>O Inmet alerta para “grande risco de grandes alagamentos e transbordamentos de rios, grandes deslizamentos de encostas, em cidades com tais áreas de risco” nas regiões metropolitana de Recife e nas zonas da Mata da Paraíba e de Pernambuco. O alerta é válido até as 20h desta sexta.</p>



<p>“O rio está em um nível bem alto, mas ainda não chegou a atingir as casas. Então, em questão de inundação, por enquanto, está sob controle”, informa Joice Paixão, presidenta do GRIS Solidário, associação que atua no bairro da Várzea, na Zona Oeste da capital. “O que nos preocupa agora é que temos algumas famílias que estão com problemas estruturais nas casas que não são de alvenaria. Algumas têm estruturas de madeira e estão prejudicadas pelas chuvas”, alertou.</p>



<p>O GRIS auxilia e monitora a situação de famílias da Zona Oeste do Recife que moram em áreas ribeirinhas às margens do Rio Capibaribe, como a comunidade B13. Atualmente a associação está com uma campanha de doações dividida em três frentes de arrecadação: materiais de construção, alimentos não perecíveis e itens de higiene e doações via pix para auxiliar nas questões logísticas e de mobilidade.</p>



<ul class="wp-block-list"><li><em>Confira no final da matéria uma lista de onde e como ajudar algumas comunidades.</em></li></ul>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Barragens estão no nível máximo de capacidade</strong></h2>



<p>Ao menos seis dos 12 reservatórios que garantem o abastecimento d’água da Região Metropolitana do Recife estão acima ou no nível máximo de capacidade de armazenamento.</p>



<p>As barragens de Tapacurá, Bita, Gurjaú, Sicupema e Matriz da Luz transbordaram e estão vertendo água. Botafogo, em Igarassu, cujo nível raramente ultrapassa o patamar de 30% de sua capacidade, atingiu 100%. O mesmo deve acontecer na barragem de Matriz da Luz, em São Lourenço da Mata, durante o dia de hoje.</p>



<p>Às 10h35, a Apac alertou que o rio Capibaribe atingiu a cota de “alerta”, o que representa risco de inundação no Recife, em Camaragibe e São Lourenço da Mata.</p>



<p>Na noite de quinta, 6 de julho, a Secretaria de Recursos Hídricos anunciou que as comportas da barragem de Lagoa do Carro/Carpina permaneceriam fechadas. O objetivo é evitar cheia no rio Capibaribe no trecho abaixo do reservatório, que está com 29% de sua capacidade e tem condições de reter mais água.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Desabamento em Paulista expõe déficit habitacional</strong></h3>



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	                                        <p class="m-0">Prédio desabou na manhã de sexta-feira, no Conjunto Beira-Mar. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>Segundo o Corpo de Bombeiros, o desabamento foi de parte de um prédio de 16 apartamentos, dos quais oito desabaram. Neles, havia 19 pessoas, sendo que três delas foram retiradas dos escombros. Em boletim publicado às 15h desta sexta, 7 de julho, o Corpo de Bombeiros informou que três pessoas foram encontradas sem vida: uma mulher de 43 anos, um homem de 45 e um adolescente de 12. Os nomes não foram divulgados.</p>



<p>Ainda de acordo com as informações, duas foram resgatadas com vida e apresentavam ferimentos e fraturas nos membros inferiores. Elas foram encaminhadas para o Hospital Miguel Arraes e o Hospital da Restauração. A terceira vítima foi resgatada sem vida.</p>



<p>No momento, 15 pessoas seguem soterradas. Uma adolescente de 15 anos foi localizada com vida em meio aos escombros e está recebendo oxigênio enquanto aguarda o resgate.</p>



<p>Em <a href="https://www.instagram.com/reel/CuZgTDWN-sp/?img_index=1">nota</a>, o Centro Dom Hélder Câmara (Cendhec), que acompanha a situação da população que vive em áreas de risco na Região Metropolitana do Recife, informou que “A Caixa Seguradora, uma das empresas responsáveis pelo prédio, realizou uma vistoria em todo o conjunto habitacional e constatou o risco de desabamento. Mas, devido ao imenso déficit habitacional e desigualdade social que vivenciamos em todo o estado, famílias não viam outra alternativa, a não ser permanecer”.</p>



<p>O trecho inicial da nota diz: “Não é novidade. A tempestade que cai, as ruas que alagam, as barreiras que deslizam e as vidas que são interrompidas. Não é novidade. Quem mora em área de risco, quem suja os pés na lama, quem chora os parentes mortos e quem tem medo da chuva no telhado. Sabemos quem são as mulheres, homens, crianças, adolescentes e idosos negros, pobres e vulnerabilizados, que depois são listados como estatísticas. Sabemos que a dor delas e deles poderia ser evitada com governos eficientes, com uma política de habitação igualitária e com respeito aos seus direitos humanos”.</p>



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	                                        <p class="m-0">Bombeiros resgataram corpo de um homem de 45 anos às 13:30min. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo</p>
	                
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<h4 class="wp-block-heading"><strong>ONDE E COMO AJUDAR</strong></h4>



<p>Gris Espaço Solidário (<a href="https://www.instagram.com/gris.solidario/">@gris.solidario</a>) &#8211; Várzea</p>



<p>Coletivo Ibura Mais Cultura (<a href="https://www.instagram.com/iburamaiscultura/">@iburamaiscultura</a>) &#8211; Ibura</p>



<p>ONG Somos Todos Muribeca (<a href="https://www.instagram.com/somostodosmuribeca/">@somostodosmuribeca</a>) &#8211; Muribeca</p>



<p>Coletivo Fala Alto (<a href="https://www.instagram.com/coletivofalaalto/">@coletivofalaalto</a>) &#8211; Alto do Pascoal/Terezinha</p>



<p>Centro Comunitário Mário Andrade (<a href="https://www.instagram.com/centrocomunitariomario/">@centrocomunitariomario</a>) &#8211; Ibura</p>



<p>Grupo Mulher Maravilha (<a href="https://www.instagram.com/gmulhermaravilha/">@gmulhermaravilha</a>) &#8211; Recife</p>



<p>Praça do Cristo (<a href="https://www.instagram.com/pracadocristo/">@pracadocristo</a>) &#8211; Jardim São Paulo (entregar na casa de Regi ou entrar em contato pelo perfil do Instagram)</p>



<p><strong>OBS</strong>: <strong>Texto atualizado às 17h29min</strong></p>
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		<title>&#8220;O rio era a vida da gente&#8221;</title>
		<link>https://marcozero.org/o-rio-era-a-vida-da-gente/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 10 Jul 2022 13:31:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[indústria têxtil]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[rio Capibaribe]]></category>
		<category><![CDATA[toritama]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Maria José Souza e Maíra Welma da Silva, do Observatório da Vida Agreste (OVA/UFPE) &#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211; &#8220;Infértil, estéril e que não experimenta emoções&#8221;. Foi assim que, já em 1950, João Cabral de Melo Neto percebeu a situação do Rio Capibaribe. Ali, escrevia sobre o curso de uma água que também contava sobre vida, morte, flores, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Por Maria José Souza e Maíra Welma da Silva</strong>, <strong>do </strong><a href="https://reportagensespeciais.medium.com/1-o-rio-era-a-vida-da-gente-4640722f249b" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>Observatório da Vida Agreste</strong> <strong>(OVA/UFPE)</strong></a></p>



<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;</p>



<h4 class="wp-block-heading" id="b0c2">&#8220;<strong><em>Infértil, estéril e que não experimenta emoções&#8221;.</em></strong></h4>



<p id="6d9f">Foi assim que, já em 1950, João Cabral de Melo Neto percebeu a situação do Rio Capibaribe. Ali, escrevia sobre o curso de uma água que também contava sobre vida, morte, flores, miséria e peixes<strong>*.</strong></p>



<p id="16b7"><em>Aquele rio<br>era como um cão sem plumas.<br>Nada sabia da chuva azul,<br>da fonte cor-de-rosa,<br>da água do copo de água,<br>da água de cântaro,<br>dos peixes de água,<br>da brisa na água.</em></p>



<p id="1e8f">Oitenta anos depois, alguns trechos do poema<em>O cão sem plumas</em>soam especialmente amargos. O rio, no final, soube do azul e do rosa — mas não os da chuva ou das fontes, e sim das lavanderias que despejam nele os rejeitos da lavagem têxtil.</p>



<p id="f970">Às vezes, ele também está vermelho. Outras vezes, preto. O colorido que poderia até sugerir alguma beleza na verdade guarda um tanto de destruição. Para a população de 47 mil habitantes de Toritama, agreste de Pernambuco, o Capibaribe deixou de ser espaço de sustento, de pesca, de lazer, de descanso. Os peixes e a brisa rarearam.</p>



<p id="334c"><strong><em>Mas nem sempre foi assim.</em></strong></p>



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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">José Roque e os primos se reuniam aos finais de semana para brincar no rio (foto: acervo pessoal)</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p id="1956">“Eu cheguei a beber água do rio. A minha mãe lavava roupas nele”, lembra Leonardo Ferreira, 38 anos, agricultor.</p>



<p id="c3b6">“Antigamente, o Capibaribe funcionava como entretenimento. Lamento não poder tomar banho e pescar nele com meu filho”, fala José Roque, 38 anos, historiador.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">José Roque ainda criança e sua mãe, Maria Lenilda, no rio Capibaribe, foto de 1986 (acervo pessoal)</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p id="3dd3">“Eu conheci esse rio da forma como está hoje… sinto não poder mergulhar nele”, relata Carol Gonçalves, 25 anos, vereadora e ativista.</p>



<p id="64b4">O rio se tornou memória. E desejo.</p>



<p id="3397">Quem nasceu e se criou na cidade, como o músico João Joaquim Nunes, 84 anos, o João do Cavaquinho, ainda quer vê-lo como antes — sim, as distopias sempre cedem lugar ao sonho. Ele conta que chegou a pescar e tomar banho no Capibaribe e acompanhava suas secas e cheias. “Nos anos 40, eu era garoto e lembro desse rio despoluído. A gente pescava nele, tomava banho, bebia das suas águas, não tinha os problemas que existem hoje. Se pescava muito, tinha o capim que era usado na alimentação do gado. Após alguns anos, a cidade começou a crescer e o rio chegou a um ponto que ficou sem vida”.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">O músico João do Cavaquinho canta sobre um rio que já foi cristalino (foto: acervo pessoal)</p>
	                
                                    </figcaption>
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        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Enchentes do Rio Capibaribe em 2004, 1977 e 1947</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p id="eb70">A paixão do músico pelo Capibaribe está presente em duas composições que ele criou e cantou para a reportagem quando foi entrevistado. Ambas retratam a relação da cidade com o rio e lembranças de uma época que, se já parecia ameaçadora para o poeta João Cabral, ainda era doce para a criança — ela, também, um futuro poeta.</p>



<p id="bea7">Em<em>Rio Sofredor</em>, ele diz: “a sua água era pura e cristalina/hoje está em ruína, sem ter uma solução/ela tem o direito de ser tratada e não voltar envenenada para dentro do nosso rio”. Na segunda,<em>Rio Capibaribe</em>, quase uma versão musical e sintética de<em>O Cão sem plumas</em>, ele vai contando o percurso do Capibaribe desde seu nascimento na Serra do Jacarará (divisa de Poção e Jataúba), passando pelo seu sangramento nas barragens de Poço Fundo e Jucazinho, além das cidades de Toritama, Santa Cruz do Capibaribe, Limoeiro, Carpina, Paudalho, São Lourenço da Mata. São 42 municípios até o rio se encontrar com o mar, em Recife.</p>



<p id="7d44"><strong>Escute aqui as canções de João do Cavaquinho</strong></p>



<iframe width="100%" height="166" scrolling="no" frameborder="no" allow="autoplay" src="https://w.soundcloud.com/player/?url=https%3A//api.soundcloud.com/tracks/1300043053&amp;color=ff5500"></iframe><div style="font-size: 10px; color: #cccccc;line-break: anywhere;word-break: normal;overflow: hidden;white-space: nowrap;text-overflow: ellipsis; font-family: Interstate,Lucida Grande,Lucida Sans Unicode,Lucida Sans,Garuda,Verdana,Tahoma,sans-serif;font-weight: 100;"><a href="https://soundcloud.com/ovaufpe" title="Observatório da Vida Agreste" target="_blank" style="color: #cccccc; text-decoration: none;" rel="noopener">Observatório da Vida Agreste</a> · <a href="https://soundcloud.com/ovaufpe/rio-sofredor-joao-do-cavaquinho" title="Rio Sofredor - João do Cavaquinho" target="_blank" style="color: #cccccc; text-decoration: none;" rel="noopener">Rio Sofredor &#8211; João do Cavaquinho</a></div>



<iframe width="100%" height="166" scrolling="no" frameborder="no" allow="autoplay" src="https://w.soundcloud.com/player/?url=https%3A//api.soundcloud.com/tracks/1300043086&amp;color=ff5500"></iframe><div style="font-size: 10px; color: #cccccc;line-break: anywhere;word-break: normal;overflow: hidden;white-space: nowrap;text-overflow: ellipsis; font-family: Interstate,Lucida Grande,Lucida Sans Unicode,Lucida Sans,Garuda,Verdana,Tahoma,sans-serif;font-weight: 100;"><a href="https://soundcloud.com/ovaufpe" title="Observatório da Vida Agreste" target="_blank" style="color: #cccccc; text-decoration: none;" rel="noopener">Observatório da Vida Agreste</a> · <a href="https://soundcloud.com/ovaufpe/rio-capibaribe-joao-do-cavaquinho" title="Rio Capibaribe - João do Cavaquinho" target="_blank" style="color: #cccccc; text-decoration: none;" rel="noopener">Rio Capibaribe &#8211; João do Cavaquinho</a></div>



<p>Os fenômenos apontados pelo músico fazem parte do próprio desenvolvimento precarizado da cidade, que começou sua atividade econômica justamente às margens do Capibaribe. De acordo com o historiador José Roque, 38, que viu de perto a chegada das lavanderias na cidade na década de 1980, o rio deixou rapidamente de ser a grande área de lazer local. “Hoje é um lugar sem acesso, justamente por causa da poluição. A gente pode até chegar nele, mas não se pode ter contato com a água como antes”. Os pais do historiador nasceram na cidade e sempre mantiveram uma relação muito forte com o Capibaribe. “Minha mãe fazia piquenique às margens do rio. Levávamos frutas, arroz e feijão. Enquanto eu e meus primos brincávamos, as mulheres lavavam roupas e os homens jogavam futebol”.</p>



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	                                        <p class="m-0">Contradições do capitalismo: José, gerente de lavanderia, lamenta não poder mais ter atividades de lazer no rio impactado principalmente pelos despejos da indústria têxtil na qual ele trabalha (foto: acervo pessoal)</p>
	                
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<p>As contradições típicas do capitalismo se fazem presentes também nesse jogo entre passado reconstruído e a realidade imposta pela indústria local. José Ronevaldo, 59, gerente da Céu Azul, uma das maiores lavanderias da cidade, lamenta o fim da relação com o Capibaribe — em grande parte imposta pela própria atividade que o sustenta. “Se o rio estivesse limpo, a água com certeza seria utilizada também para matar a sede, porque nem todo mundo tem condições de comprá-la”, diz ele, se referindo a uma época na qual o leito do Capibaribe era procurado por quem enchia potes e jarras e a água era bebida pela população e utilizada nos afazeres domésticos.</p>



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	                                        <p class="m-0">Valderiza ainda nadava no Capibaribe quando o leito começou a receber os despejos das lavanderias. Lembra do cheiro forte na água. Sua mãe trabalhou lavando roupas neste mesmo lugar (foto: acervo pessoal)</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p id="5816">Era o caso da família da comunicóloga Valderiza Pereira, 33, que nasceu na então futura Capital do Jeans. Os problemas no abastecimento de água, uma realidade que piorou — e muito, como<strong><a href="https://marcozero.org/agua-um-bem-para-quem-pode-pagar/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">você lê nesta matéria</a></strong>— eram das principais razões dessa busca contínua, diz ela, que também lembra da pesca como uma atividade comum para os moradores da cidade. “Nos momentos de cheias do rio, as famílias que moravam às margens iam pescar, inclusive minha avó e meu tio.” Ela chegou a mergulhar ali quando o leito começava a sentir a chegada das primeiras lavanderias. “Lembro de um cheiro forte que a água tinha, provavelmente relacionado ao início da poluição”.</p>



<p id="b9fc">O Capibaribe, então, era um lugar localizado entre o deslumbre e sobrevivência.</p>



<p id="6af0">Angelina Cabral, 56, mãe de Valderiza, era uma das mulheres que se reuniam para lavar roupas à beira do rio. Na verdade, era uma das meninas: tinha apenas 12 anos quando começou a trabalhar. Trocava as lavagens por comida. Com o tempo, transformou a rotina diária de ir até o local em uma forma de garantir o sustento. Exerce até hoje a profissão, mas não mais no rio. Trocou as margens do Capibaribe por áreas de serviços nas casas de moradores da cidade. “O rio era a vida da gente”.</p>



<p id="aabd">A vereadora (MDB) e ativista Carol Gonçalves, 25, sublinha que o Capibaribe tem uma importância não só econômica, mas, como ouvimos nos relatos coletados, também sentimental. “Ele [o rio] desperta um sentimento de pertencimento. Faz parte da história e desenvolvimento da cidade. Nesse rio as pessoas pescavam, lavavam roupas, sobreviviam de fato do Capibaribe. Hoje, diante da realidade que ele se encontra, isso não é possível”.</p>



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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">A jovem vereadora Carol Gonçalves diz que sua entrada na política também foi provocada pelo desejo de recuperar o Capibaribe. &#8220;As pessoas sobreviviam desse rio&#8221; (foto: Maria Souza)</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p><strong>DESMONTAR A DESTRUIÇÃO<br></strong>O pesquisador Mário Benning, mestre em Geografia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e professor do Instituto Federal de Pernambuco (IFPE), fala que, inicialmente, o Capibaribe era fonte também da agropecuária, prática econômica local substituída pela indústria têxtil. Com ela e a urbanização (precarizada) de Toritama, o rio começou a ser fortemente degradado. Para ele, são necessários alguns projetos vitais para que sejam feitas as recuperações tanto da bacia do Rio Ipojuca quanto da bacia do Capibaribe. “Esses projetos envolveriam o saneamento básico da cidade e a recuperação dos afluentes para que o volume de água aumentasse. Para isso, é necessária a ampliação da fiscalização a respeito da contaminação ocasionada pelos descarte, bem como oferecer água tratada e um controle para coibir o desperdício e a poluição, com atuação dos órgãos públicos competentes” (leia mais sobre o que fazer para fazer<strong>o rio respirar novamente</strong><a href="https://marcozero.org/propostas-para-adiar-o-fim-de-um-mundo-agreste/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">aqui</a>).</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/07/foto-8-materia-Toritama-1-300x296.jpg">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">O pesquisador Mario Benning (IFPE) diz que, sem recuperação dos afluentes e aumento no volume de água, a sobrevivência do rio não pode ser garantida (foto: acervo pessoal)</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p id="5910">Para ele, é necessária uma mudança na forma social e econômica de se relacionar com o rio. “Se pensarmos no modelo de despoluição dos rios de outras cidades, Toritama também tem potencial para conseguir”, explica. O historiador José Roque faz coro: “apesar de tudo, o rio não está 100% morto. Com o desenvolvimento de um projeto é possível recuperá-lo.”</p>



<p id="a9a4">Olhando o passado para recuperar o futuro, parece que sim.</p>



<p><strong>*Análise presente na pesquisa <em>Literatura e representação da realidade no poema O cão sem plumas, de João Cabral de Melo Neto </em>(<a href="https://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:iOa-zrj5bbYJ:https://www.revista.ueg.br/index.php/sapiencia/article/view/10071/7303+&amp;cd=1&amp;hl=pt-BR&amp;ct=clnk&amp;gl=br" target="_blank" rel="noreferrer noopener">texto</a> de José Elias Pinheiro Neto, Universidade Estadual de Goiás)<em>.</em></strong></p>



<p id="80d7">LEIA MAIS:</p>



<ul class="wp-block-list"><li><a href="https://marcozero.org/agua-um-bem-para-quem-pode-pagar/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>A água que sobra na lavanderia falta para a população</strong></a></li><li><a href="https://marcozero.org/nordeste-e-o-fim-do-mundo-toritama-entre-o-fim-do-mundo-e-a-chance-de-sobrevivencia/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>Página Inicial e Menu</strong></a></li></ul>



<p><strong><em>O projeto dessa reportagem foi contemplado no edital nacional do Instituto ClimaInfo com apoio financeiro do Instrumento de Parceria da União Europeia (com o Ministério Federal Alemão para o Meio Ambiente, Conservação da Natureza e Segurança Nuclear; e a Iniciativa Climática Internacional). Os conteúdos dessa publicação são de inteira responsabilidade dos seus organizadores e não necessariamente refletem a visão dos financiadores.</em></strong></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><em><strong>Uma questão importante!</strong> </em></p><p>Colocar em prática um projeto jornalístico ousado custa caro. Precisamos do apoio das nossas leitoras e leitores para realizar tudo que planejamos com um mínimo de tranquilidade. Doe para a Marco Zero. É muito fácil. Você pode acessar nossa<a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">página de doação</a>ou, se preferir, usar nosso<strong>PIX (CNPJ: 28.660.021/0001-52)</strong>. </p><p><strong>Apoie o jornalismo independente!</strong></p></blockquote>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/o-rio-era-a-vida-da-gente/">&#8220;O rio era a vida da gente&#8221;</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Propostas para adiar o fim de um mundo agreste</title>
		<link>https://marcozero.org/propostas-para-adiar-o-fim-de-um-mundo-agreste/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 10 Jul 2022 13:30:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[indústria têxtil]]></category>
		<category><![CDATA[jeans]]></category>
		<category><![CDATA[lavanderias]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[rio Capibaribe]]></category>
		<category><![CDATA[toritama]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Especialistas e donos de lavanderias apontam ações estratégicas para uma otimização da gestão de água frente aos desafios das mudanças climáticas Por Observatório da Vida Agreste (OVA/UFPE) Liso como o ventrede uma cadela fecunda,o rio crescesem nunca explodir.Tem, o rio,um parto fluente e invertebradocomo o de uma cadela.(João Cabral de Melo Neto) Pois é, João: [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p id="b2fc"><em>Especialistas e donos de lavanderias apontam ações estratégicas para uma otimização da gestão de água frente aos desafios das mudanças climáticas</em></p>



<p><strong>Por <a href="https://reportagensespeciais.medium.com/propostas-para-adiar-o-fim-de-um-mundo-agreste-a074922ceac" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Observatório da Vida Agreste (OVA/UFPE)</a></strong></p>



<p id="caca"><em>Liso como o ventre<br>de uma cadela fecunda,<br>o rio cresce<br>sem nunca explodir.<br>Tem, o rio,<br>um parto fluente e invertebrado<br>como o de uma cadela.</em><br>(João Cabral de Melo Neto)</p>



<p id="13be"><strong>Pois é, João: o rio não exatamente cresceu. Mas explodiu.</strong></p>



<p id="1010">Em Toritama, são mais de 3 mil empresas produtoras de jeans e 73 lavanderias (uma de grande porte produz uma média de 120 mil peças de jeans por mês). O número chama ainda mais atenção quando são revelados quantos litros de água são usados, em média, para lavar uma única peça: cerca de 70 litros no processo de tingir, lavar e finalizar o produto.</p>



<p id="181a">Com os efeitos da destruição ambiental mundial no clima nordestino, esta é uma configuração insustentável. De acordo com a pesquisadora Cláudia Ribeiro Pereira Nunes (presente no livro<em>Os impactos das mudanças climáticas no Nordeste brasileiro</em>, organizado por Alana Ramos Araújo, Germana Parente Neiva Belchior e Thaís Emília de Sousa Viegas), as regiões Norte e Nordeste do Brasil são as mais vulneráveis às mudanças atuais por serem extremos climáticos nos quais grandes precipitações e/ou longas estiagens são comuns. No artigo<em>As mudanças climáticas a partir da implantação de empresas de capital estrangeiro no Nordeste: estado regulador?</em>Cláudia analisa os aspectos econômicos desse cenário e afirma: todos os empreendimentos sofrerão direta ou indiretamente com o aquecimento global e suas consequências. As perdas econômicas são inevitáveis. “Particularmente, de modo direto, sem qualquer adaptação, as empresas terão dificuldades em manter os atuais níveis de produção e eficiência operacional e, de modo indireto, os consumidores serão mais exigentes, examinando minuciosamente suas práticas sustentáveis”, escreve.</p>



<p id="d2ce">A pesquisadora chefe de gestão ambiental da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) Soraya El-Deir chama atenção para um fato importante: essas mudanças climáticas não se configuram em algo para o futuro — estão acontecendo agora. “Estamos vivenciando no nosso dia a dia o que era previsto para daqui a 20 anos”. É agora também que já se registra em algumas lavanderias a prática do reuso, vista como uma das mais interessantes no sentido não só de poupar água, mas de assegurar um descarte responsável no Capibaribe. A questão é que apenas as empresas maiores realizam esse processo no qual parte de resíduos sólidos (como cloro, detergente, sabão, corantes e amaciantes) é separado e posteriormente tratado.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Lavanderias de maior porte, como a Céu Azul, conseguem reutilizar mais de 80% da água. Mas essa não é uma realidade em diversas empresas que funcionam na ilegalidade (foto: Maryane Martins)</p>
	                
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<p>Para o reuso nas lavanderias, a água utilizada passa primeiramente pelo sistema de gradeamento ou filtragem. Na segunda etapa, a água é transferida para o tanque de equalização onde ocorre a homogeneização dos efluentes. Na terceira, são retiradas as impurezas no tanque de decantação por meio de produtos químicos (cal, sulfato de alumínio). Após esse processo, o lodo têxtil, resíduo que fica no tanque após a decantação, é colocado em um leito de secagem. Esse processo dura em média 60 dias e, após esse período, o lodo é recolhido por caminhões e destinado a um aterro sanitário. A água tratada volta a ser utilizada na lavagem do jeans.</p>



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	                                        <p class="m-0">Lodo têxtil proveniente de insumos químicos utilizados na lavagem do jeans (foto: Maria Júlia Vieira)</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p><a rel="noreferrer noopener" target="_blank" href="https://reportagensespeciais.medium.com/esta-reportagem-%C3%A9-a-primeira-parte-do-projeto-o-nordeste-e-o-fim-do-mundo-que-ser%C3%A1-formado-por-8c590f8ba211"></a>É o caso da lavanderia Céu Azul, que reutiliza 80% da água consumida na lavagem das peças a partir de um sistema de tratamento dos insumos. Pedro Henrique, proprietário da empresa, diz que a parte não reutilizada na lavagem após o tratamento vai diretamente para o Rio Capibaribe. Essa mudança no sistema de tratamento de água da empresa ocorreu a partir de 2004, com a formalização do Termo de Ajuste de Conduta (TAC) firmado entre o Ministério Público de Pernambuco (MPPE), a prefeitura municipal e assinado pelas lavanderias. Com esse termo, 77 empresas se comprometeram a uma adequação tecnológica a fim de evitar a poluição e o descarte irregular de resíduos sólidos. Esse TAC foi substituído pela Lei Municipal 1643/2018, a chamada<a href="https://transparencia.toritama.pe.gov.br/uploads/5404/1/atos-oficiais/2018/cduma/1641905075_lein1643de2018leidaslavanderias.pdf" rel="noreferrer noopener" target="_blank">Lei das Lavanderias</a>(documento completo no link). De acordo com a Secretaria de vigilância sanitária, 63 lavanderias se comprometeram fazer o reuso da água seguindo o novo documento.</p>



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<p id="ed44">Outra lavanderia que aposta no reuso da água é a LGN. Fundada há 17 anos, a empresa conta com um sistema de reaproveitamento de até 85% do recurso utilizado. Segundo o proprietário, Luiz Neto, a água que não é reempregada no processo de lavagem do jeans é destinada para irrigação de plantas e limpeza. Com um consumo diário de 70 mil litros de água na empresa, Luiz Neto diz que foi preciso pensar em alternativas para suprir a escassez hídrica na região. A solução encontrada por ele e outros empresários do ramo de lavanderias foi a perfuração de poços artesianos, além do abastecimento por caminhões pipas vindos de localidades vizinhas. É preciso dizer que as duas alternativas são, primeiro, possíveis para quem tem maior recurso financeiro e, segundo, também podem ter impactos ambientais sérios.</p>



<p id="6c50">No texto<a href="http://eventos.ecogestaobrasil.net/congestas2014/trabalhos/pdf/congestas2014-et-13-015.pdf" rel="noreferrer noopener" target="_blank"><em>Um estudo sobre poços artesianos em Santa Cruz do Capibaribe</em></a>, o contexto da utilização da água subterrânea no agreste é analisado justamente pelo seu caráter de exclusão social, uma vez que se trata de um processo caro do qual a maioria da população acaba apartada. Já a pesquisa<a href="https://www.ibeas.org.br/congresso/Trabalhos2020/VIII-003.pdf" rel="noreferrer noopener" target="_blank"><em>Impactos ambientais causados por perfurações de poços clandestinos — estudo de caso</em></a>, analisa, no âmbito de Recife, como a perfuração (muitas vezes ilegal) causada pela falta de acesso a água tem um grande potencial destrutivo e está relacionado ainda com o desconhecimento de questões da legislação.</p>



<p id="9316">Uma das maiores lavanderias da cidade, a Mamute, fundada há 32 anos, pertence ao atual prefeito do município, Edilson Tavares (MDB). Segundo a pesquisa<a href="https://periodicos.ufpb.br/ojs/index.php/gaia/article/view/29117/27390" rel="noreferrer noopener" target="_blank"><em>Índice de desempenho da gestão ambiental (IDGA) aplicado ao setor têxtil: um estudo em duas lavanderias industriais do Agreste Pernambucano</em></a>(2019), ali são utilizados 300 mil litros de água em cada um dos três turnos diários (6h-14h; 14h-22h; 22h-6h) da empresa. No entanto, o diretor da empresa, Luiz Carlos de Souza, informa que hoje gasta bem menos que a quantidade mostrada na pesquisa citada: seriam 50 mil litros de água por dia. Essa queda, segundo o próprio, aconteceu por conta da pandemia. A água usada pela empresa vem do Rio Capibaribe por meio de barragem privada e ainda de poços artesianos e da estrutura pública da Compesa. A estação de tratamento de efluentes consegue reaproveitar de 85% a 95% do recurso. O restante também vira resíduo sólido e é destinado ao aterro sanitário .</p>



<p id="38d6">A pesquisadora Soraya El-Deir diz que a indústria têxtil é uma cadeia complexa com diferentes potenciais de impacto a depender das tecnologias utilizadas. Apesar de todo o cenário preocupante apresentado por diversos estudos sobre emergência climática, ela aposta em um futuro menos sombrio. “O que eu percebo a médio e a longo prazo é que, cada vez mais, nós vamos ter tecidos inteligentes e que terão maior resistência. Por isso, usaremos menos recursos naturais. Então se apostarmos que as tecnologias sustentáveis vão avançar no polo têxtil do Agreste e em outros segmentos da sociedade, migraremos para uma sociedade sustentável. Eu tenho certeza que isso vai acontecer, como também tenho certeza do papel definidor das políticas públicas e das universidades trabalhando em prol da sociedade.”</p>



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	                                        <p class="m-0">Soraya El-Deir, da UFRPE, diz que tecidos inteligentes são uma das saídas para uma indústria menos poluente</p>
	                
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<p id="4462">Outra alternativa viável para as lavanderias é apontada por Hilário Siqueira, autor da dissertação<em>As lavanderias de jeans de Toritama : uma contribuição para a gestão das águas,</em>defendida no mestrado de Gestão Pública para o Desenvolvimento do Desenvolvimento do Nordeste (UFPE). O autor defende em sua pesquisa uma gestão ambiental de recursos hídricos nas lavanderias a partir da manutenção do aprovisionamento e adaptação de recursos, conservação do patrimônio natural, bem como uma renovação dinâmica de recursos naturais. Essas alternativas só serão possíveis se as empresas cumprirem os requisitos legais relacionados ao meio ambiente.</p>



<p id="58db">No Brasil, empresas como a Riachuelo se destacam por otimizar a gestão de água no processo de fabricação de jeans a partir de tecnologias como o ozônio, que permite a limpeza e o clareamento das peças sem o uso da água e químicos, chegando a reduzir o consumo na produção do jeans para 12 litros de água. Já em processos mais avançados, a fábrica consegue reduzir o consumo para apenas três litros por peça.</p>



<p id="3cc3">Nos níveis estadual e municipal, o Rio Capibaribe tem o monitoramento das suas águas realizado pela Companhia Pernambucana de Recursos Hídricos (CPRH) juntamente com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente. Com o objetivo de mitigar os impactos ambientais, os proprietários das lavanderias são orientados pela Secretaria de Meio Ambiente sobre quais procedimentos são necessários para a regularização dos empreendimentos junto à CPRH e assim obter o licenciamento ambiental. O órgão informa que exige: estrutura física ideal para funcionamento da lavanderia; gerenciamento e destinação de resíduos sólidos (lodo, cinza, e embalagens de produtos tóxicos); tratamento da água; manutenção dos tanques; controle da emissão de fumaça devido à queima da algaroba; renovação da licença ambiental. Sem essas normas, a lavanderia pode ser fechada.</p>



<p id="c383">O livro<em>Os impactos das mudanças climáticas no Nordeste brasileiro</em>está na íntegra<a href="https://fundacaosintaf.org.br/arquivos/files/Ebook%20impactos%20das%20mudancas%20climaticas%20no%20nordeste%20brasileiro.pdf" rel="noreferrer noopener" target="_blank">aqui.</a></p>



<p id="2c72"><strong>LEIA MAIS:</strong></p>



<ul class="wp-block-list"><li><a href="na luta por oxigênio e espaço" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>Capibaribe: na luta por oxigênio e espaço</strong></a></li><li><strong><a href="https://marcozero.org/nordeste-e-o-fim-do-mundo-toritama-entre-o-fim-do-mundo-e-a-chance-de-sobrevivencia/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Página Inicial e Menu</a></strong></li></ul>



<p><strong><em>O projeto dessa reportagem foi contemplado no edital nacional do Instituto ClimaInfo com apoio financeiro do Instrumento de Parceria da União Europeia (com Ministério Federal Alemão para o Meio Ambiente, Conservação da Natureza e Segurança Nuclear eda Iniciativa Climática Internacional). Os conteúdos dessa publicação são de inteira responsabilidade dos seus organizadores e não necessariamente refletem a visão dos financiadores.</em></strong></p>



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			</item>
		<item>
		<title>Capibaribe: na luta por oxigênio e espaço</title>
		<link>https://marcozero.org/capibaribe-na-luta-por-oxigenio-e-espaco/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 10 Jul 2022 13:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[rio Capibaribe]]></category>
		<category><![CDATA[saneamento]]></category>
		<category><![CDATA[saúde]]></category>
		<category><![CDATA[toritama]]></category>
		<category><![CDATA[Zika vírus]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Patrimônio ambiental e abrigo de espécies, rio depende de uma melhor fiscalização e tratamento de água para voltar a atender a população Por Maria Júlia Vieira, Maryane Martins, Maíra Welma e Maria Souza, do Observatório da Vida Agreste (OVA/UFPE) &#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;- E jamais o vi ferver(como ferveo pão que fermenta).Em silêncio,o rio carrega sua fecundidade pobre,grávido [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p id="9929"><em>Patrimônio ambiental e abrigo de espécies, rio depende de uma melhor fiscalização e tratamento de água para voltar a atender a população</em></p>



<p id="0665"><strong>Por Maria Júlia Vieira, Maryane Martins, Maíra Welma e Maria Souza</strong>, <strong>do </strong><a href="https://reportagensespeciais.medium.com/5-capibaribe-na-luta-por-oxig%C3%AAnio-e-espa%C3%A7o-843238b80495" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>Observatório da Vida Agreste</strong> <strong>(OVA/UFPE)</strong></a></p>



<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-</p>



<p id="e0ff"><em>E jamais o vi ferver<br>(como ferve<br>o pão que fermenta).<br>Em silêncio,<br>o rio carrega sua fecundidade pobre,<br>grávido de terra negra.</em></p>



<p id="296a"><em>(O cão sem plumas, João Cabral de Melo Neto)</em></p>



<p id="fd29"><strong><em>Um rio para o lixo:</em></strong>Quatro caçambas de pneus e noventa e sete de entulho. Oitenta e sete privadas. Dezesseis pares de sofá. Um guarda roupa. Incontáveis sacolas e isopores. Esses são alguns números de agressões ao Rio Capibaribe relativos a apenas uma coleta e informados pela Vigilância Sanitária do município de Toritama. Há um processo de captação e capinação realizado pela Prefeitura a cada 45 dias. Porém, ao longo desse ciclo, a violência se repete: chegando mais perto da água, nos encontramos com muito lixo espalhado pelas margens. Plásticos, garrafas e sacolas também provenientes de uma população que muitas vezes prefere usar o rio como cesta de lixo e desrespeita os horários de coleta. “A lavanderia é um vilão por conta da água, mas o grande vilão da terra é a população”, opina Diana Oliveira, coordenadora da Vigilância Sanitária da cidade.</p>



<p id="54fd">Contudo, é preciso registrar que a prefeitura também tem sua parcela de culpa nesse cenário desolador. Contrariando a Lei 11.445/2007, Toritama não tem Plano Municipal de Saneamento. De acordo com o Atlas Esgoto, elaborado pela Agência Nacional de Águas (ANA), apenas 2,97% do esgoto da cidade é manejado corretamente. E o que não é saneado tem um destino certo: o Rio Capibaribe.</p>



<p id="9318">Há outro problema que se agrava com o mato alto e o acúmulo de lixo nas margens do rio: o grande número de insetos transmissores de arboviroses, doenças causadas por arbovírus e transmitidas por artrópodes, isto é, insetos e aracnídeos. As arboviroses mais comuns em ambientes urbanos são dengue, zika e chikungunya, cujo vetor é o mosquito<em>Aedes aegypti.</em>Entre 2015 e 2016, houve um surto de Zika no Brasil, principalmente no Nordeste, e, não por coincidência, aumentaram os números de casos de crianças nascidas com microcefalia nesta mesma região. Pernambuco foi o estado mais afetado e, segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde,<a href="https://tvjornal.ne10.uol.com.br/video/2015/11/16/toritama-e-a-cidade-do-agreste-com-mais-casos-de-microcefalia-confirmados-19702/index.html" rel="noreferrer noopener" target="_blank">Toritama foi o município com o maior número de casos no Agreste</a>. Naquele momento, foram registrados 141 casos de bebês nascidos com suspeita de microcefalia no estado, uma malformação em que o recém-nascido tem o crânio pequeno. O número era dez vezes maior que os 12 registrados em 2014. Também em 2015, o Ministério da Saúde confirmou a relação entre o vírus e a malformação congênita.</p>



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	                                        <p class="m-0">Criança com microencefalia. Imagem extraída daFederal Médica Brasileira em texto sobre o zika vírus</p>
	                
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<p id="2afc">Nos últimos três anos, devido ao período pandêmico, o número de casos de arboviroses esteve subnotificado na cidade de Toritama. Isso não quer dizer que a praga de mosquitos diminuiu, muito menos a quantidade de lixo e água parada. Principalmente em um município sem Plano Municipal de Saneamento, cuja população não é atendida por coleta seletiva de lixo e também sofre constantemente com falta de água. Para lidar com a escassez, é necessário armazená-la em recipientes pelo tempo suficiente para a reprodução do<em>Aedes aegypti.</em>Tudo isso comprova que Toritama ainda precisa aprender a lidar com as consequências do seu rápido processo de industrialização. Quem sabe assim, o município pare de cambalear entre o desenvolvimento econômico, a qualidade de vida e os cuidados com o meio ambiente.</p>



<h4 class="wp-block-heading" id="1474"><strong>UM RIO PARA OS PEIXES</strong></h4>



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	                                        <p class="m-0">Peixes como tilápia, pintado, piaba, bagre e até camarão voltam aos poucos a surgir em áreas mais limpas Crédito: Maryane Martins</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p id="9474">Apesar de tudo, do lixo e da poluição colorida devido ao despejo sistemático de resíduos das lavanderias e esgotos residenciais, a biodiversidade continua lutando por oxigênio e espaço no Capibaribe. Hoje já é possível, por exemplo, observar a volta de algumas espécies de peixes, que por longos períodos deixaram de aparecer naquele leito.</p>



<p id="9277">“O rio não está 100% morto”, diz, otimista, Diana Oliveira, coordenadora de Vigilância Sanitária. A positividade é compartilhada pelo historiador José Roque, para quem ainda acredita que é possível recuperar totalmente o rio. Isso, no entanto, só seria possível a partir de um projeto de restauração do Capibaribe. “Esse é o preço que a gente paga pelo progresso. Mas entendo que seja possível recuperá-lo”. No trecho afastado do perímetro urbano e distante das lavanderias, é possível enxergar a volta de atividades de pesca e utilização da água para o abastecimento de caminhões pipa.</p>



<p id="4c91">Leonardo Ferreira, 38 anos, agricultor, conta que mesmo poluído, já é possível notar peixes que até então não habitavam mais aquela região, como tilápia, pintado, piaba, bagre e camarão. “Cheguei a ver peixes que não tinha visto há um bom tempo. Se todas as lavanderias tivessem continuado com tanto descarte irregular, o rio não teria sobrevivido. Os peixes estão voltando!” .</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Durante décadas, a população se alimentava frequentemente dos pescados do Capibaribe</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p id="5bf4">Isso só é possível, porque existe um monitoramento do descarte irregular no rio.</p>



<p id="745b">Essa fiscalização atualmente é realizada pela secretaria municipal de Meio Ambiente, que determina os parâmetros a serem obedecidos no controle da água que entra e sai das indústrias em conjunto com a Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH). De acordo com João Paulo da Rocha, secretário de Agricultura e Meio Ambiente do município, o Rio Capibaribe passa por vários problemas e a resolução deles depende de um planejamento regional. “Não adianta um município de forma separada, pensar em políticas visando a melhoria do rio, são planejamentos que devem ser feitos de forma integrada.”</p>



<p id="7584"><strong>LEIA MAIS:</strong></p>



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<p><strong><em>O projeto dessa reportagem foi contemplado no edital nacional do Instituto ClimaInfo com apoio financeiro do Instrumento de Parceria da União Europeia (com Ministério Federal Alemão para o Meio Ambiente, Conservação da Natureza e Segurança Nuclear eda Iniciativa Climática Internacional). Os conteúdos dessa publicação são de inteira responsabilidade dos seus organizadores e não necessariamente refletem a visão dos financiadores.</em></strong></p>



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		<title>Toritama: entre o fim do mundo e a chance de sobrevivência</title>
		<link>https://marcozero.org/nordeste-e-o-fim-do-mundo-toritama-entre-o-fim-do-mundo-e-a-chance-de-sobrevivencia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 10 Jul 2022 01:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[indústria têxtil]]></category>
		<category><![CDATA[jeans]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[rio Capibaribe]]></category>
		<category><![CDATA[toritama]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A cidade é passada pelo riocomo uma ruaé passada por um cachorro;uma frutapor uma espada. O rio ora lembravaa língua mansa de um cão,ora o ventre triste de um cão,ora o outro riode aquoso pano sujodos olhos de um cão (O cão sem plumas, João Cabral de Melo Neto) Esta reportagem é a primeira parte [&#8230;]</p>
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<p id="de45"><em>A cidade é passada pelo rio<br>como uma rua<br>é passada por um cachorro;<br>uma fruta<br>por uma espada.</em></p>



<p id="50f0"><em>O rio ora lembrava<br>a língua mansa de um cão,<br>ora o ventre triste de um cão,<br>ora o outro rio<br>de aquoso pano sujo<br>dos olhos de um cão</em></p>



<p id="8746"><em>(O cão sem plumas, João Cabral de Melo Neto)</em></p>



<p id="9451">Esta reportagem é a primeira parte do projeto<em><strong><a href="https://reportagensespeciais.medium.com/abertura-8bb1b2f56fc4" target="_blank" rel="noreferrer noopener">O NORDESTE E O FIM DO MUNDO</a></strong></em>, que será formado por duas investigações longas, documentário, ensaio fotográfico, podcast e debates. Desenvolvido pelo <strong><a href="https://medium.com/@ovaufpe" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Observatório da Vida Agreste (OVA/UFPE)</a></strong>, o material foca em uma das cidades centrais da indústria têxtil nacional, Toritama, agreste de Pernambuco. O fabrico de jeans e outras confecções é o motor que sustenta a economia do município e das cidades vizinhas (em especial Caruaru e Santa Cruz do Capibaribe). Mas ele é também uma das razões do alto nível de destruição do Rio Capibaribe, que corta o município e serve para abrigar rejeitos de toda sorte. Essa questão se agrava justamente por Toritama ser uma das cidades pernambucanas mais impactadas pela falta de água — quer dizer, pela falta que atinge a maioria da população empobrecida, mas não as lavanderias que podem custear carros-pipa, perfurar poços e construir barragens.</p>



<p></p>



<iframe width="850" height="510" src="https://www.youtube.com/embed/jT44x1t_7YI" title="YouTube video player" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen=""></iframe>



<p></p>



<p id="4e85"><strong><em>Toritama: entre o fim do mundo e a chance de sobrevivência</em></strong>joga luz sobre a emergência climática no Nordeste, uma das regiões que será mais afetada pelas mudanças ambientais. O projeto foi contemplado no edital nacional do Instituto ClimaInfo com apoio financeiro do Instrumento de Parceria da União Europeia (com Ministério Federal Alemão para o Meio Ambiente, Conservação da Natureza e Segurança Nuclear e Iniciativa Climática Internacional). Nesta reportagem, você vai conhecer as memórias de quem já teve o Rio Capibaribe como um local de lazer, diversão e sobrevivência; vai saber como a falta de água impacta o cotidiano de quem passa até dois meses sem ver o recurso chegar às torneiras; entender como as lavanderias estão fazendo para lidar com os efeitos da crise hídrica e quais soluções estão sendo praticadas para poupar a água. Vai saber um pouco mais sobre as razões pelas quais a Adutora do Agreste, que prometia solucionar a falta de água na região, praticamente ainda não saiu do papel apesar de ter sido iniciada em 2015. Finalmente, você ainda poderá ouvir as canções do cantador João do Cavaquinho sobre o Capibaribe e conferir o mini documentário realizado por nossa equipe.</p>



<p id="42df">O especial foi desenvolvido pelas repórteres Maria Souza, Maíra Welma Silva, Maryane Martins e Maria Júlia Vieira, as duas últimas responsáveis também pelo documentário que você assiste aqui. Também na equipe, Layane Lima (artes e redes sociais) e Márcio Correia (artes, redes sociais e site). A reportagem especial é também fruto de uma parceria entre o laboratório OVA e a Marco Zero Conteúdo. A equipe também contou com cursos de formação sobre mudanças climáticas oferecidos pelo ClimaInfo, com excelentes mentorias realizadas pelos jornalistas Maristela Crispim, Cristina Amorim e Marco Schaeffer. A reportagem tem coordenação e edição da jornalista e professora da UFPE Fabiana Moraes.</p>



<p id="5bce">***</p>



<p id="dea0">Nesta viagem ao agreste, seremos também acompanhadas por João Cabral de Melo Neto e seu poema<strong>O cão sem plumas</strong>, que fala sobre o Capibaribe, da sua nascente até seu desaguar no mar de Recife, e as pessoas às suas margens.</p>



<p id="74f9">***</p>



<p><strong>LEIA MAIS:</strong></p>



<p id="336d"><a href="https://marcozero.org/o-rio-era-a-vida-da-gente/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>1. “O rio era a vida da gente”</strong></a></p>



<p id="617a"><a href="https://marcozero.org/agua-um-bem-para-quem-pode-pagar/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>2. Água: um bem para quem pode pagar</strong></a></p>



<p id="f02e"><strong><a href="https://marcozero.org/propostas-para-adiar-o-fim-de-um-mundo-agreste/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">3. Propostas para adiar o fim de um mundo agreste</a></strong></p>



<p id="c1c9"><strong><a href="https://marcozero.org/capibaribe-na-luta-por-oxigenio-e-espaco/">4. Capibaribe: na luta por oxigênio e espaço</a></strong></p>



<p id="54f9"><em>Os conteúdos desta publicação são de inteira responsabilidade dos seus organizadores e não necessariamente refletem a visão dos financiadores</em>.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><em><strong>Uma questão importante!</strong></em> </p><p> Colocar em prática um projeto jornalístico ousado custa caro. Precisamos do apoio das nossas leitoras e leitores para realizar tudo que planejamos com um mínimo de tranquilidade. Doe para a Marco Zero. É muito fácil. Você pode acessar nossa<a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">página de doação</a>ou, se preferir, usar nosso<strong>PIX (CNPJ: 28.660.021/0001-52)</strong>.</p><p><strong>Apoie o jornalismo independente!</strong></p></blockquote>



<p></p>
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		<title>Fraternidade, esperança e miséria moram juntas embaixo da ponte do Limoeiro</title>
		<link>https://marcozero.org/fraternidade-esperanca-e-miseria-moram-juntas-embaixo-da-ponte-do-limoeiro/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 24 Dec 2021 02:33:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[direito à moradia]]></category>
		<category><![CDATA[habitação]]></category>
		<category><![CDATA[moradia]]></category>
		<category><![CDATA[pesca artesanal]]></category>
		<category><![CDATA[pesca no Recife]]></category>
		<category><![CDATA[Pescadores]]></category>
		<category><![CDATA[rio Capibaribe]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Carlos não tem nada, nem endereço. Não há licença poética ou exagero nessa afirmação: há quase 30 anos ele mora debaixo das pontes do centro do Recife e sua lista de bens se resume a um colchão fico, uma manta, lençóis surrados, algumas bermudas, camisas velhas, chinelo de dedo, um ventilador de três velocidades, uma [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Carlos não tem nada, nem endereço. Não há licença poética ou exagero nessa afirmação: há quase 30 anos ele mora debaixo das pontes do centro do Recife e sua lista de bens se resume a um colchão fico, uma manta, lençóis surrados, algumas bermudas, camisas velhas, chinelo de dedo, um ventilador de três velocidades, uma cuscuzeira, uma traquitana com resistência elétrica para cozinhar e uma tv de tubo que queimou na véspera da entrevista. A rede e o barco que lhe garantem a sobrevivência são emprestados.</p>



<p>Aos 62 anos, o pescador Carlos Antônio Bezerra dos Santos não alimenta desejos de consumo ou de possuir algum patrimônio. E aqui está o que justifica a publicação deste perfil na véspera do Natal: ele não pára de sonhar com uma vida mais confortável, mas seus sonhos não são individuais. Tudo que ele pensa em vir a ter é para melhorar a vida dos quase 50 pescadores que convivem sob a ponte do Limoeiro, onde começa a avenida Norte.</p>



<p>Apesar de muitos pescadores deixarem seus barcos junto à ponte e guardarem redes e motores, Carlos é o único que realmente mora ali, numa espécie de palafita de madeira cujo teto é a ponte. Ele está ali há quatro anos, mas antes passou mais de duas décadas num barco sob outra ponte, a Maurício de Nassau, aquela que liga os bairros do Recife e Santo Antônio.</p>



<p>“Eu era segurança de posto de gasolina, mas sempre gostei mesmo foi de pescar. Pedi demissão, me separei e fui pra debaixo da ponte”. É assim que Carlos resume sua vida.</p>



<p>“Não é questão de preferência, não, é necessidade, mas pra mim, como eu vivo de pescaria, melhor ficar perto do rio, perto do mar, melhor do que uma favela longe de onde eu tiro o sustento”, adverte. Em 2017, ele esteve perto de ganhar um endereço, com direito a CEP e número na porta. Ou, pelo menos, achou que estava perto disso.</p>



<p>Foi depois que <a href="https://twitter.com/profreporter/status/936936742891823104?s=20">Caco Barcellos</a> e estudantes de Jornalismo do programa Profissão Repórter o entrevistaram. “Depois que saiu a entrevista comigo na Globo, no outro dia o pessoal da prefeitura chegou lá me perguntando se eu queria sair dali, que eu não era obrigado sair, mas se quisesse eles me botavam pra receber aluguel social, me davam fogão, mesa, geladeira. E tudo que me ofereceram, me deram. E me botaram no aluguel social também, só que é o seguinte, onde tem aluguel social tem muita gente que é dependente químico. E eu não quero mais estragar a vida na cachaça, aí tive que sair da favela do Papelão e deixei de ganhar R$ 200 por mês”, conta.</p>



<p>Depois da entrevista, os filhos o procuraram para dizer que “não era nem pra ter feito porque a família ficou com vergonha porque eu disse que morava embaixo da ponte, mas eu moro, então não tô mentindo”. No entanto, o que fez a família se afastar dele foi o alcoolismo. “Quando bebia era muito violento. Quando fiquei sozinho, pronto, aí eu bebia direto mesmo. Então decidi parar de beber, mas ainda voltei a beber, parei novamente e voltei a beber de novo. Agora fazem nove meses, tenho fé em Deus que eu não bebo mais, não, que é pra ver se consigo alguma coisa, porque já tô no fim da velhice”.</p>



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	                                        <p class="m-0">Carlos tenta se manter longe da bebida para manter os sonhos. (Crédito: Arnaldo Sete/MZ conteúdo)</p>
	                
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                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading"><strong>Sonhos de consumo</strong></h2>



<p>E o que esse homem tão desapegado do dinheiro tanto quer?</p>



<p>“Se conseguisse um freezer velho, usado, botava ali [aponta para uma plataforma erguida sobre colunas de madeira ao lado do local onde dorme e cozinha], pra o pessoal daqui guardar os peixes, porque sem freezer, os pescadores têm que vender o pescado no mesmo dia e por qualquer preço”, explica. A lista de desejos de Carlos é modesta e todos os poucos itens estão associados à pesca.</p>



<p>O segundo maior desejo do pescador Carlos nasceu de uma ideia que lhe ocorreu quando viu uma balsa da prefeitura que recolhe lixo no rio Capibaribe. “Uma vez eu falei com o secretário do Meio Ambiente, nem sei o nome dele, mas eu falei com pra ele botar os pescadores para recolher o lixo e dar um troco que desse pra gente comprar, pelo menos, a gasolina. Rapaz, a gente ia tirar bem mais lixo do que essa barca que eles pagam. Tem dia que só os pescadores aqui da ponte do Limoeiro já trouxeram mais de 300 quilos na rede. Tem dia que a gente não pega nenhum peixe, mas pega muita porcaria”.</p>



<p>O pescador acredita que, se sua ideia fosse aceita, ele e seus colegas teriam como sobreviver durante os meses do ano em que não se pega nada do rio.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Os bichos do rio</strong> e do mangue</h3>



<p>O estuário do Capibaribe, aliás, é tanto um aliado quanto uma ameaça. “Tem noite que só tenho cuscuz e mais nada, aí jogo uma redinha e pesco umas saúnas [nome popular de um peixe miúdo]. Só isso e já tenho a mistura da janta”. Ao menos duas vezes por ano, o rio dá medo. As marés são tão altas que a linha d’água fica a um palmo de sua cama.</p>



<p>O lugar onde ele passa as noites sozinho está longe de ser agradável, porém o modo como ele lida com um espaço tão insalubre dá a sensação do seu cotidiano ser mais leve do que parece. “Tem muriçoca demais, mas tenho um ventilador pra espantar”. Sim, um lugar escuro úmido tem ratos e baratas, mas ele garante: “nunca me fizeram mal”.</p>



<p>Sob sua estranha palafita, que mais parece um tosco mezanino, proliferam centenas de aratus, um tipo de caranguejo de patas vermelhas, com elevado comercial, cujo carne é vendida por até R$ 55,00 a cada quilo (para efeitos de comparação, o quilo da tainha, o peixe mais comum na área sai por R$ 15) Nos aratus, porém, ninguém mexe. “Não deixo ninguém matar os bichinhos, são meus amigos, eu crio como se fosse meus cachorrinhos. Dou comida pra eles até ficarem com as patas bem vermelhas. Por quê? Porque eles são lindos, são a beleza desse lugar aqui”.</p>



<p><em><strong>Esta reportagem foi produzida com apoio do <a href="http://www.reportfortheworld.org/" rel="noreferrer noopener" target="_blank">Report for the World</a>, uma iniciativa do <a href="http://www.thegroundtruthproject.org/" rel="noreferrer noopener" target="_blank">The GroundTruth Project</a>.</strong></em></p>



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		<title>Há 20 anos a poluição do Capibaribe só aumenta</title>
		<link>https://marcozero.org/ha-20-anos-a-poluicao-do-capibaribe-so-aumenta/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 08 Jul 2019 19:47:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[poluição]]></category>
		<category><![CDATA[PPP do Saneamento]]></category>
		<category><![CDATA[rio Capibaribe]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O recifense reclama do trânsito. O recifense reclama das ruas vazias à noite. O recifense reclama do calor. O recifense reclama dos alagamentos quando chove. O recifense reclama dos buracos no asfalto. O recifense reclama das calçadas irregulares. O recifense reclama. Da poluição do rio Capibaribe, o recifense já deixou de reclamar. O mau cheiro, [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[O recifense reclama do trânsito. O recifense reclama das ruas vazias à noite. O recifense reclama do calor. O recifense reclama dos alagamentos quando chove. O recifense reclama dos buracos no asfalto. O recifense reclama das calçadas irregulares. O recifense reclama.

Da poluição do rio Capibaribe, o recifense já deixou de reclamar.

O mau cheiro, a sujeira boiando em direção ao mar, os peixes mortos nas margens e as águas escuras do rio fazem parte da rotina da cidade há décadas.

A poluição do Capibaribe só fez aumentar desde a década de 1990, quando a Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH) começou a fazer o monitoramento da qualidade da água do rio. Qualquer cidadão pode conferir os índices das últimas duas décadas, pois os resultados dos relatórios elaborados a partir de 2001 estão disponíveis no site da entidade. Esses números indicam a inércia das autoridades públicas e da sociedade em relação ao rio que molda a paisagem e a história da Região Metropolitana do Recife.
<blockquote>
<p style="margin-bottom: 0.35cm; line-height: 150%;">Para facilitar a compreensão do leitor, foram escolhidos quatro dos 12 parâmetros medidos periodicamente pela CPRH.</p>
<p style="margin-bottom: 0.35cm; line-height: 150%;">O primeiro deles é o OD, sigla de Oxigênio Dissolvido. O conceito é autoexplicativo: quanto mais oxigênio dissolvido na água, mais limpo é o rio, melhores condições de vida oferece para peixes, crustáceos e outros animais.</p>
<p style="margin-bottom: 0.35cm; line-height: 150%;">O segundo é o DBO, conceito um pouco mais complexo. É a sigla de Demanda Bioquímica de Oxigênio, indicador da quantidade de oxigênio consumida por bactérias presentes na água. É importante porque são as bactérias que realizam a decomposição da matéria orgânica lançada no rio. Quando maior a sujeira, mais bactérias e maior o consumo desse gás.</p>
<p style="margin-bottom: 0.35cm; line-height: 150%;">A presença de Fósforo e Amônia são indicadores da presença de esgoto doméstico no rio. No caso do fósforo, qualquer número superior a 0,1 é sinal de água muito poluída.</p>
<p style="margin-bottom: 0.35cm; line-height: 150%;">No caso da Amônia, a taxa tolerada é menor ainda: 0,015</p>
<p style="margin-bottom: 0.35cm; line-height: 150%;"></p>
</blockquote>
<a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/07/gráficos.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-17247" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/07/gráficos.jpg" alt="gráficos" width="1304" height="2200" /></a>

Na bacia do Capibaribe a CPRH faz a coleta da água em 10 pontos fixos, dos quais dois estão em afluentes (rios Goitá e Tapacurá). Para essa reportagem, foram usados os dados das coletas realizadas no Recife (ponte no início da Abdias de Carvalho, junto ao estádio da Ilha do Retiro, e na ponte da avenida Caxangá, no bairro da Várzea)

O diretor de Controle de Fontes Poluidoras da CPRH, Eduardo Elvino Sales de Lima, afirma que a maior causa da poluição do Capibaribe na área urbana do Recife são as ligações clandestinas de esgoto doméstico na rede de drenagem. No entanto, ele mesmo adverte que não é só isso: “Hoje exigimos que as atuais estações de tratamento de esgoto façam a remoção de 60% da DBO dos efluentes despejados nos cursos d’água. Quando as novas estações ficarem prontas, terão de remover 90% da DBO”.

O diretor da CPRH aconselhou a comparar os dados coletados na mesma época de cada ano. A comparação entre meses de muita chuva e meses de estiagem seria inadequada, pois quando chove os resíduos são diluídos pelo maior volume d’água e os índices melhoram um pouco. O conselho foi aceito. Os gráficos com os resultados das análises da CPRH dizem respeito aos meses de abril, maio ou junho, a depender da data da coleta.

Em tese, as amostras coletadas no trecho do rio sob a ponte da Caxangá teriam de registrar menos poluição do que as registradas na altura do estádio do Sport, onde o rio já carrega o esgoto recebido nas zonas oeste e norte do Recife. Mesmo assim, os resultados daquele local já bastam para classificar o rio como “Muito Poluído”, segundo a escala da CPRH.

Na altura da Ilha do Retiro, as taxas de amônia chegam a ser quatro vezes maiores do que na Caxangá. A DBO, frequentemente atinge o dobro. O Oxigênio Dissolvido chegou perto de zero várias vezes desde 2001. É bom lembrar que os resultados usados para elaborar os gráficos que ilustram essa reportagem são de meses com fartura de chuvas, quando o rio está mais limpo. Ou menos imundo.

<div id="attachment_16930" style="width: 1610px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/06/Poluição-do-Capibaribe__2.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-16930" class="wp-image-16930 size-full" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/06/Poluição-do-Capibaribe__2.jpg" alt="Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo" width="1600" height="564" /></a><p id="caption-attachment-16930" class="wp-caption-text">Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo</p></div>
<h1> Passeio pelo esgoto</h1>
A organização não-governamental SOS Mata Atlântica também acompanha a poluição no Capibaribe. Há cinco anos, o Instituto Bioma Brasil participa do projeto Observando os Rios, uma iniciativa que mobiliza comunidades e a sociedade civil para monitorar rios, córregos, lagos e represas em todo o País. Seu ponto de coleta é em frente ao parque da Jaqueira, a meio caminho entre as duas estações de coleta da CPRH.

Esse monitoramento usa um número maior de parâmetros (16), cuja combinação gera um Índice de Qualidade da Água (IQA) &#8211; uma pontuação de 0 a 100 pontos &#8211; por meio do qual o curso d’água é enquadrado em cinco categorias – ótimo, boa, regular, ruim e péssimo. Desde então, o Capibaribe oscila entre “regular” e, com mais frequência, “ruim”.

Coordenador do Instituto Bioma Brasil, o biólogo e doutor em oceanografia Clemente Coelho Júnior todos os meses desce a escadaria que dá acesso ao rio, acompanhado de um dos seus alunos do curso de Biologia da Universidade de Pernambuco (UPE), para coletar a água e, ali mesmo, realizar as primeiras análises. Muitas vezes, a cena é vista à distância pelo barqueiro Zomilton Tomé Parangaba, cuja família há quatro gerações faz o serviço de travessia para pedestres entre a Jaqueira e a Torre.

A Marco Zero Conteúdo acompanhou o diálogo entre o cientista Clemente e o barqueiro durante uma excursão de algumas horas pelo rio. Assista ao vídeo abaixo para entender o encontro entre o conhecimento acadêmico de Clemente, que dedica a vida à pesquisa dos manguezais, e a experiência de Zomilton, um homem que passou a infância e sustentou a família às margens do rio.
<h1><iframe loading="lazy" src="https://www.youtube.com/embed/k4Pb_fXb3co" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></h1>
<h1> Todas as fichas na PPP</h1>
“A única solução para despoluir a bacia do Capibaribe é a universalização do saneamento e do tratamento de esgoto”. A frase foi repetida tanto pelo gestor da CPRH, Eduardo Elvino, quanto pelo cientista e ativista ambiental, Clemente Coelho. O que nos remete diretamente à Compesa, empresa pública responsável pelo saneamento básico em Pernambuco, do fornecimento de água ao tratamento de dejetos.

A incômoda posição dos municípios da Região Metropolitana no Ranking do Saneamento 2018, elaborado pelo Instituto Trata Brasil, ajuda a explicar a dimensão do problema e suas consequências ambientais: o Recife está em 75º entre as 100 maiores cidades brasileiras, Paulista em 78º, Olinda em 81º e Jaboatão em 99º.

No início desta década, o saneamento voltou à agenda pública com a assinatura da polêmica Parceria Público-Privada para o Saneamento (ou PPP da Compesa). Apesar da reação do Sindicato dos Urbanitários, que representa os funcionários da empresa e temia a privatização, a PPP foi concretizada e tornou-se a maior aposta para expandir a rede de coleta e tratamento de esgotos na Região Metropolitana do Recife.

Inicialmente, a parceira do governo pernambucano na PPP foi a Odebrecht Ambiental, que assumiria 75% dos investimentos e elevaria para 90% a cobertura da rede de esgotos na região do Grande Recife até 2025. Com os problemas enfrentados pela Odebrecht por causa da Lava Jato, a empresa acabou sendo incorporada pela canadense Brookfield e passou a se chamar BRK Ambiental, atual parceira da Compesa.

A mudança na parceria foi mais profunda. A BRK assumiu 87% dos investimentos de quase R$ 7 bilhões, mas o prazo para a conclusão dos serviços foi dilatado até 2037.

O diretor de Novos Negócios da Compesa, Ricardo Barretto Vasconcelos, explicou que, em 2014, quando a PPP foi assinada, a cobertura da rede de esgoto na RMR era de 30%. Hoje está em 37% e vai alcançar 55% em 2025. A meta de chegar a 90% em 2037 está mantida.

“Certamente isso vai impactar na qualidade do rio, mas não é a única solução”, afirma Barretto. Seu ceticismo tem explicação: “Para não gastar dinheiro ou não ter de lidar com uma obra maior dentro de casa, parte da população continua a fazer ligações clandestinas do esgoto doméstico para a rede de drenagem”.

Em números absolutos, há pouco menos de 1.500 quilômetros de rede. A PPP prevê a implantação de mais 8.100 quilômetros. Hoje existem quatro grandes estações de tratamento de esgoto e 45 pequenas. As menores serão desativadas para dar lugar a, pelo menos, mais 36 estações de grande porte. “Cada uma dessas novas estações realizará a função de cinco ou seis dessas pequenas que existem atualmente, a maior parte dela instaladas em conjuntos habitacionais e sem condições técnicas de tratar os dejetos de acordo com as exigências legais em vigor”, explica Barretto.

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		<title>Pescadores artesanais reivindicam regularização de territórios pesqueiros no Recife</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Laércio Portela]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 Dec 2017 22:00:33 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[Os pescadores artesanais do Recife estão perdendo o acesso ao seu território e à pesca. A regularização de suas terras e a garantia do direito de viver da profissão que herdaram dos pais, dos avós e até bisavós têm mobilizado 11 comunidades da capital e uma de Olinda a pressionar a Prefeitura do Recife e o Governo do Estado contra o avanço da especulação imobiliária, a poluição do Rio Capibaribe, a falta de atenção à saúde nas áreas ribeirinhas e o aumento da violência.

Em setembro, representantes das comunidades pesqueiras de Brasília Teimosa, Bode, Ilha de Deus, Coelhos, Coque, Vila São Miguel, Caranguejo Tabaiares, Vila da Imbiribeira, Vila Tamandaré, Ponte do Limoeiro, Espaço Ciência (Recife) e Ilha do Maruim, em Olinda, organizaram o Primeiro Encontro de Pescadores e Pescadoras do Recife, às margens do Rio Capibaribe, no Memorial de Medicina de Pernambuco. Do encontro saiu a <em><strong>Carta dos Pescadores e Pescadoras na Luta em Defesa de Direitos e Territórios Pesqueiros Tradicionais</strong></em>.

No documento, os pescadores explicam o conceito de territórios pesqueiros tradicionais: “os territórios pesqueiros são constituídos por elementos concretos e subjetivos que permeiam a referida atividade – como a água dos rios, mangues, mares e marés; a terra que serve para moradia, vivências e trabalho; além das relações históricas, identitárias e afetivas que as comunidades mantêm com esses espaços”.

Segundo dados divulgados pelos organizadores do Encontro, cerca de 1.400 famílias vivem da produção artesanal de pescados no Recife. Comunidades como as da Ilha de Deus, Vila da Imbiribeira e Bode produzem mais de 30 toneladas de polpa de sururu, além de peixes e outras espécies de moluscos e crustáceos. Mais de 200 pescadores trabalham nas 40 embarcações lagosteiras licenciadas em Recife, a maior frota do tipo em Pernambuco.

<strong>AUDIÊNCIA PÚBLICA</strong>

Nesta quarta-feira (13), o debate sobre a regularização dos territórios pesqueiros e as condições de vida dessas populações foi tema de audiência pública na Câmara Municipal do Recife. Convidados, a secretária de Mulher do Recife, Cida Pedrosa, e os secretários de Saúde, Jailson Correia, e de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente, Bruno Schwambach, e o promotor de Meio Ambiente do Ministério Público de Pernambuco, André Felipe Barbosa de Menezes, não compareceram e mandaram representantes.

<div id="attachment_6192" style="width: 970px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2017/12/audiência-territórios-pesqueiros.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-6192" class="wp-image-6192 size-full" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2017/12/audiência-territórios-pesqueiros.jpg" alt="audiência territórios pesqueiros" width="960" height="720"></a><p id="caption-attachment-6192" class="wp-caption-text">Audiência pública na Câmara do Recife discute regularização de territórios pesqueiros</p></div>

Integrante da Conselho Pastoral dos Pescadores (COO), Severino Antônio dos Santos elencou os principais problemas enfrentados pelas comunidades, alertando para o fato de que não existe uma política estadual de crédito que beneficie os pescadores do Recife e de que os programas de revitalização dos territórios expulsam os moradores originários para regiões bem distantes de seu meio de sustento econômico.

“No Coque, na rua do Sururu, os pescadores não têm mais como trabalhar na pesca. Buracos feitos no Capibaribe para a navegação mataram os peixes. Outras áreas foram assoreadas. Temos 12 comunidades pesqueiras que estão ficando sem acesso à sua área de pesca. O projeto de navegabilidade do Rio Capibaribe tem que garantir acesso ao território e acesso à pesca”, afirmou Severino.

A audiência pública, coordenada pelo vereador Ivan Moraes (PSOL), começou sem a participação dos representantes da Prefeitura do Recife, que atrasaram mais de uma hora e meia. A ausência dos secretários e o atraso de seus representantes irritou a plateia formada por pescadores e pescadoras artesanais e representantes de entidades da sociedade civil.

“A situação dos pescadores, para a Prefeitura e o Estado, não existe. Se a gente perguntar aqui qual é a política pública que a Prefeitura do Recife tem para a pesca artesanal, a resposta é de que simplesmente não existe. A demora dos representantes chegarem aqui acontece porque nós somos invisíveis”, criticou Laurineide Maria Santana, também integrante do Conselho Pastoral dos Pescadores. “A Câmara Municipal tem essa tarefa de reconhecer as comunidades pesqueiras tradicionais, Já que 90% dos territórios pesqueiros já foram ocupados por outros grupos. Taí o caso do cais José Estelita para todo mundo ver”, acrescentou.

<strong>ATENÇÃO À SAÚDE</strong>

A falta de cuidado e atendimento específico de saúde para os pescadores e, especialmente, para as pescadoras foi uma das queixas mais recorrentes na audiência pública. Laurineide informou que os postos de saúde instalados nas áreas próximas às comunidades pesqueiras não notificam os casos de acidente de trabalho envolvendo os pescadores artesanais. “O fato de ter dor na mão e cortes é sempre tratado como acidente, mas nunca vinculado a acidente de trabalho”. Ela disse que a subnotificação acontece em todo o Brasil e relacionou o fato à invisibilização desses trabalhadores.

<div id="attachment_6196" style="width: 970px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2017/12/Laurineide-Maria-Santana.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-6196" class="wp-image-6196 size-full" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2017/12/Laurineide-Maria-Santana.jpg" alt="Laurineide Maria Santana" width="960" height="720"></a><p id="caption-attachment-6196" class="wp-caption-text">Laurineide criticou a falta de atenção à saúde específica para pescadores e pescadoras da capital</p></div>

O discurso mais duro da manhã foi feito por Edson Fly, da organização Caranguejo Uça, da Ilha de Deus, que citou o nome de cada secretário ausente e do promotor. “Eles não estão aqui porque sabem da falta de compromisso que têm com o maior parque e pulmão do Recife. Eles sabiam que iriam encontrar as pessoas aqui para quem eles mentem. A caneta deles não vale nada. Defendo povo preto e pobre, que junto comigo sofre para caramba. E não é de fome. Sofrem porque são invisibilizados por vocês”. Fly também criticou as propagandas públicas que expõem a Ilha de Deus e o passeio de catamarã como “marcas turísticas” e afirmou que o outro lado da moeda é a culpabilização social e a criminalização dos moradores das palafitas.

Terezinha Filha, também do Caranguejo Uça e da Ciranda de Mulheres, não concorda com o uso do termo invisibilização para as comunidades de pesca artesanal do Recife. “Quando falamos em invisibilizar estamos sendo macios. O que estão querendo é destruir essas comunidades”, disse em referência à vulnerabilidade social dos jovens negros e negras da periferia da cidade. “A situação é ainda pior para as mulheres. Elas estão sendo violentadas e agredidas pelos companheiros e, se denunciam, depois são assassinadas. Como a delegacia da Mulher pode apoiá-las? A quem elas podem recorrer? Vamos parar de maquiar a realidade”.

A bióloga Vilalba Soares, representante do Ministério Público de Pernambuco,&nbsp;rebateu Fly. Esclareceu que o promotor André Felipe nâo pôde estar presente à audiência porque participava, naquele mesmo horário, de reunião do Fórum do Agrotóxico e que ela estava ali para registrar todo o debate e repassar as informações ao promotor. Lembrou que André Felipe havia participado de audiência pública recente na mesma Câmara Municipal para discutir a situação do parque dos manguezais no Recife e que o próprio MPPE realizou evento aberto ao público sobre o tema na própria entidade com a participação de moradores do Pina e de Brasília Teimosa. &#8220;O Ministério Público não está omisso&#8221;, garantiu.

<strong>LEI ESTADUAL</strong>

Foi apenas em setembro de 2015 que Pernambuco passou a ter, pelo menos no papel, uma Política Estadual da Pesca Artesanal instituída pela<a href="http://legis.alepe.pe.gov.br/arquivoTexto.aspx?tiponorma=1&amp;numero=15590&amp;complemento=0&amp;ano=2015&amp;tipo="> Lei 15.590</a>. A lei demorou mais de dois anos para ser regulamentada pelo Decreto 45.396, o que aconteceu no último dia 29 de novembro. Ela prevê “o ordenamento do uso e da ocupação do zoneamento econômico-ecológico dos territórios pesqueiros” e “a garantia às comunidades tradicionais da posse e da fixação nas áreas já ocupadas” e cria o Comitê Gestor da Pesca Artesanal como órgão paritário composto por representantes do Poder Público e da sociedade civil, sem, no entanto, definir quais entidades civis e órgãos públicos vão integrá-lo.

Presente à audiência, Rafael Siqueira, coordenador do comitê e representante da Secretaria Estadual de Meio Ambiente, enalteceu o processo de regulamentação da lei e da instituição do comitê, fruto, segundo ele, de sete meses de discussão entre governo e sociedade civil. Mas Rafael admitiu que a regularização das terras das comunidades pesqueiras vai depender da integração do município, com o Estado e a União. “Em tese uma lei não pode contradizer outra lei. A Constituição de Pernambuco diz que é preciso uma lei específica para que terras ocupadas sejam regularizadas em nome dos trabalhadores”, informou. A lei 15.590 de 2015, agora regulamentada, então não garante essa regularização do território.

<strong>BAIXA REPRESENTATIVIDADE</strong>

Apesar das palavras do coordenador do comitê, os pescadores do Recife questionaram a baixa representatividade deles nos fóruns que discutem a questão pesqueira no âmbito do estado pelo fato dessas instâncias não darem conta das especificidades e das demandas das comunidades da capital. Os pescadores também se queixam da ausência das autoridades públicas nas comunidades. Repetidamente disseram que era preciso aos técnicos da Prefeitura e do Governo do Estado &#8220;colocar o pé na lama&#8221; para conhecer a realidade dessas populações. “Esse é nosso objetivo agora. Caminharmos para conhecermos a situação sócio-econômica local”, admitiu Rafael.

A representante da Secretaria da Mulher do Recife e integrante do Programa Cidade Segura para as Mulheres, a assistente social Adriana França, se comprometeu a marcar reunião com as pescadoras do Recife, no Centro Júlia Santiago, em Brasília Teimosa, para entender as demandas específicas dessas mulheres. “Nossa postura é de escuta. A gente não quer pensar para, a agente quer pensar com”, informando que a Secretaria está trabalhando uma perspectiva de gênero para o Plano Diretor do Recife, que será discutido com a sociedade e encaminhado para a votação na Câmara Municipal no ano que vem.

Entre as deliberações finais da audiência pública ficaram acertados o encaminhamento à Secretaria de Saúde do Recife de pedido para realização de oficinas para capacitar os recursos humanos dos postos de saúde a notificar os casos de acidente de trabalho envolvendo pescadores e pescadoras; pedido de esclarecimento para que a Prefeitura do Recife informe qual setor do Poder Municipal está apto a fazer a discussão sobre a regularização dos territórios pesqueiros da capital; e a realização de encontros promovidos pelo Poder Legislativo nas próprias comunidades.
<blockquote><b>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;CARTA DO ENCONTRO DE PESCADORES E PESCADORAS DO RECIFE</b>

<b>Pescadores e Pescadoras na Luta em Defesa de&nbsp;</b><b>Direitos e Territórios Pesqueiros Tradicionais</b>

É com a força das lutas cotidianas de mulheres e homens da pesca artesanal que nós, das Comunidades Tradicionais Pesqueiras da cidade de Recife (Brasília Teimosa, Bode, Ilha de Deus, Coelhos, Coque, Vila São Miguel, Caranguejo Tabaiares, Vila da Imbiribeira, Vila Tamandaré, Ponte do Limoeiro, Espaço Ciência) e Ilha do Maruim em Olinda, com o apoio das organizações da sociedade civil, instituições de ensino e pesquisa, apresentamos, através desta carta, o nosso Grito de Resistência por ocasião do&nbsp;<b>ENCONTRO DOS PESCADORES E PESCADORAS DE RECIFE,&nbsp;</b>que teve como tema “<i>Pesca Artesanal no Recife: Desafios e Perspectivas na Consolidação dos direitos e Territórios Pesqueiros Tradicionais”&nbsp;</i>ecuja realização deu-se nos dias 18 e 19 de setembro de 2017, às margens do Rio Capibaribe, no Memorial de Medicina de Pernambuco, Recife, Brasil.

Cidade do Recife que surgiu de uma Vila de Pescadores, onde a maior parte de seus bairros constituiu-se como marca de uma vida ribeirinha, historicamente influenciada pelos rios, mangues, estuários, córregos e a própria pesca artesanal. Sem dúvida, Recife necessita reencontrar-se consigo ao valorizar seu mundo das águas e aquelas e aqueles que sempre fizeram desse recurso natural, principal meio de existência material e simbólico de suas vidas. Por isso, o Encontro foi também um Grito Histórico.

Nele [no Encontro], discutimos e constatamos que as nossas Comunidades Tradicionais Pesqueiras Urbanas vivenciam cotidianamente sistemáticas pressões e violências provocadas pelo desenvolvimento de um projeto de cidade cada dia mais excludente em termos de classe, juventude, gênero e raça/etnias;&nbsp;que nega a existência e o pleno desenvolvimento das Comunidades Tradicionais Pesqueiras. Tudo isso se liga a um projeto de cidade ambientalmente injusto, que encontra nos rios uma comprovação desse fenômeno, a partir das formas insustentáveis de usos de suas águas (esgotamento doméstico; depósito e descarte de resíduos domésticos, hospitalares e industriais; desmatamento dos mangues; assoreamento dos rios; especulação imobiliária e urbanização negadora da reprodução do modo de vida ribeirinho/pesqueiro).

Intensificando esse aspecto, a ausência de dados sobre a produção pesqueira e o não reconhecimento dessas populações como ocupantes históricas dessas áreas urbanas, produzem ainda mais bloqueios para a continuidade desse modo de vida tradicional em termos de produção econômica e de identidade sociocultural.

Apesar disso, como aspectos da resistência das Comunidades Tradicionais Pesqueiras, que trabalham há décadas em rios e mangues maltratados por este modelo de cidade, dados preliminares demonstram que mais de 1.400 famílias vivem diretamente da produção de pescados, retirada dessas águas. Comunidades como Ilha de Deus, juntamente com Vila da Imbiribeira e Bode, produzem mensalmente mais de 30 toneladas de polpa de sururu, além de outras espécies de peixes, moluscos e crustáceos, o que reflete a importância da pesca artesanal para a soberania e segurança alimentar e também econômica dessas comunidades – assim como para uma significativa parcela da população da cidade. Recife possui hoje, a maior frota de embarcações lagosteiras de Pernambuco, com 40 embarcações licenciadas, envolvendo diretamente mais de 200 pescadores.

Outro fato relevante e que, de certa maneira, anuncia a tradição da pesca na cidade de Recife, é a capital pernambucana ter a Colônia de Pesca mais antiga do estado, cuja criação ocorreu no início da década de 1920.

Diante dessa realidade, que nos mostra a concretude da atividade pesqueira artesanal na cidade de Recife como fonte de reprodução da vida de mais de mil famílias, chamamos a atenção para a existência dos Territórios Pesqueiros Urbanos. Os Territórios Pesqueiros são constituídos por elementos concretos e subjetivos que permeiam a referida atividade – como a água dos rios, mangues, mares e marés; a terra que serve para moradia, vivências e trabalho; além das relações históricas, identitárias e afetivas que as comunidades mantêm com esses espaços.

A violência com as comunidades pesqueiras artesanais se dá principalmente em dois âmbitos. Um deles é o âmbito político, pela ausência de políticas públicas direcionadas às comunidades e à atividade, ou pela efetivação de políticas que resultam em consequências negativas, como privatização de áreas de uso comum e negação do acesso às áreas de navegabilidade. O outro âmbito, que se relaciona com o anterior, é o territorial, onde a violência se dá tanto pela poluição e degradação da natureza nos espaços de pesca (e na cidade de forma geral), refletindo-se em impactos sobre a reprodução e diversidade de espécies pesqueiras; como também pelo avanço do capital privado e/ou do Estado nesses territórios, através de empreendimentos e apropriações diversas, que disputam um espaço secularmente ocupado e apropriado por essas comunidades por meio do trabalho pesqueiro.

Os Territórios Pesqueiros Urbanos de Recife são, nesse sentido, invisibilizados, criminalizados e ameaçados, o que contribui dentre outras coisas, para uma crescente precarização da atividade e instabilidade econômica para as famílias que vivem da referida atividade.

Soma-se ao descaso dos poderes públicos municipais e estadual, o período de grandes retrocessos políticos, econômicos, sociais e culturais que vive o país hoje, com a negação de direitos constituídos. Direitos estes, conquistados com muitas lutas populares ao longo de todo século XX, sendo cristalizados na Constituição Federal de 1988. Tal conjuntura de perda de direitos tem, de forma indireta e direta, impactado (e continuará impactando) negativamente as Comunidades Tradicionais Pesqueiras de Recife.

Nesse sentido, as 12 comunidades presentes no Encontro, objetivam o reconhecimento da sua agenda histórica de reivindicações, seja contra o constante descaso das autoridades locais, estaduais e federal; seja em favor da implementação e conquista de direitos fundamentais dos trabalhadores e trabalhadoras da pesca artesanal (registros trabalhista e previdenciários); seja por um atendimento/assistência a saúde que contemple as particularidades dos homens e mulheres que vivem da pesca – em especial, à saúde das mulheres, susceptíveis a doenças ocupacionais por estarem muito tempo dentro da água e expostas às insalubridades do ambiente de trabalho degradado. Além disso, cabe ressaltar as situações de vulnerabilidade às quais essas mulheres estão expostas, como assaltos, estupros e violências. Ademais, esses territórios por se caracterizarem pela população negra e em situação de pobreza, vivenciam ainda, diariamente, o extermínio e encarceramento de jovens negros e negras.

Por fim, numa cidade envolvida pelas águas, as questões apresentadas que afetam as comunidades pesqueiras, também afetam toda a população recifense. Reafirmamos, portanto, nossos compromissos de luta em defesa e reconhecimento dos Territórios Pesqueiros e garantia dos direitos das comunidades tradicionais.

&nbsp;
<p align="right"><span style="font-family: 'times new roman', serif;">Recife, 19 de setembro de 2017.</span></p>
<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">1. Alexsandro de Souza Gouveia – Ilha de Deus</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">2. Ana Mirtes da Silva Ferreira – Ilha de Deus</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">3. Ana Paula F. dos Reis – Ilha de Deus</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">4. Aniérica Almeida – Centro Sabiá</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">5. Antonio Marcio Moreira de Carvalho – Bode/Pina</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">6. Augusto da Silva Guimarães – Colônia dos Pescadores&nbsp; Z 01 (Brasília Teimosa)</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">7. Beatriz Mesquita &#8211; Pesquisadora</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">8. Carmelita Júlia da Silva – Ilha de Deus</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">9. Carlos André Justino da Silva – Ilha de Deus</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">10. Carlos Alberto de Oliveira – Espaço Ciência</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">11. Centro de Desenvolvimento Agroecológico Sabiá</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">12. Conselho Pastoral dos Pescadores&nbsp; &#8211; Regional Nordeste 02 (CPP/NE)</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">13. Clênio da Silva Alves – Vila Tamandaré</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">14. Cristina Nascimento de Lima – Vila da Imbiribeira</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">15. Danilo Firmino dos Santos – Pode/Pina</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">16. Debora Maria de Santana – Ilha do Maruim/Olinda</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">17. Dijane Maria dos Santos – Vila Tamandaré</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">18.&nbsp;Djailson Felix da Silva – Vila Tamandaré</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">19.&nbsp;Dr. Beatriz Mesquita – Pesquisadora</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">20.&nbsp;Dr. Cristiano W.N. Ramalho – Pesquisador PPGS/UFPE</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">21.&nbsp;Dr. Suana Medeiros Silva – Laboratório de Estudos e Pesquisas sobre Espaços Agrários e Campesinos – LEPEG/UFPE.</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">22.&nbsp;Edileuza Silva do Nascimento – Brasília Teimosa</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">23.&nbsp;Edline Silva Nascimento – Brasília Teimosa</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">24.&nbsp;Edna Francisca Maciel – Vila da Imbiribeira</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">25.&nbsp;Edson Cruz – Ação Comunitária Caranguejo-Uça/ACCU</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">26.&nbsp;Edeilton Ribamar &#8211; Coque</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">27.&nbsp;Eliane Romão de Andrade – Ilha do Maruim/Olinda</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">28.&nbsp;Elivânia Maria Paiva Rocha – Poupança Comunitária (Vila Tamandaré)</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">29.&nbsp;Eloisa Amaral L. de Medeiro – ACCU e Ciranda de Mulheres</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">30.&nbsp;Erivaldo Antonio da Costa – Vila Tamandaré</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">31.&nbsp;Fabio Pereira de Lima – Vila da Imbiribeira</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">32.&nbsp;Federação dos Órgãos Assistências, Social e Educação &#8211; FASE /Recife</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">33.&nbsp;Francisca das chagas Rodrigues – Brasilia Teimosa</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">34.&nbsp;Francineide Patricia Alves – Ilha de Deus</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">35.&nbsp;Gabriel Felix da Silva – Vila Tamandaré</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">36.&nbsp;Girlande Maria – Brasília Teimosa</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">37.&nbsp;Humberto Gonçalves – Vila Tamandaré</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">38.&nbsp;Iracema Vieira dos Santos – Ilha do Maruim</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">39.&nbsp;Isabela Maria Santos de Andrade – Bode/Pina</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">40.&nbsp;Iranildo Crispim Gomes – Espaço Ciência</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">41.&nbsp;Ivanildo Siqueira da Rocha – Ilha de Deus</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">42.&nbsp;Jardieli Maria de Souza – Ilha de Deus</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">43.&nbsp;José de Assis – Brasília Teimosa</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">44.&nbsp;José Faustino &#8211; Coque</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">45.&nbsp;Jaciara Galdino M. de Moura – Vila da Imbiribeira</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">46.&nbsp;Jailson F. da Silva – Vila Tamandaré</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">47.&nbsp;Jonas do Nascimento – Bode/Pina</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">48.&nbsp;Joana Rodrigues Mousinho &#8211;&nbsp; MPP/ANP</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">49.&nbsp;Joana Santos Pereira – FASE</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">50.&nbsp;José Carlos de Sena Machado</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">51.&nbsp;José Elizeu – Caranguejo Tabaiares</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">52.&nbsp;José Fernando Damasceno – Vila Tamandaré</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">53.&nbsp;José Ignácio Vega Fernandez – Laboratorio de Estudos Rurais do Nordeste – LAE-RURAL/UFPE</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">54.&nbsp;José Lopes Souza – Ilha de Deus</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">55.&nbsp;Jose Jorge Marques da Silva – Ilha do Maruim</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">56.&nbsp;José Rufino de Paula Filho – Coque</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">57.&nbsp;Juvenita Albuquerque&nbsp; &#8211; Pesquisadora</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">58.&nbsp;Juliana dos Santos Tavares &#8211; Pina</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">59.&nbsp;Laurineide Maria V. C. de Santana – CPP/NE</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">60.&nbsp;Leandro Luiz Lima &#8211; Ação Comunitária Caranguejo-uçá/CCU</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">61.&nbsp;Lourenço T. do Nascimento – Espaço Ciência</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">62.&nbsp;Luciano V. da Cruz – Vila São Miguel</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">63.&nbsp;Lucimar Helena dos Santos – Brasília Teimosa</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">64.&nbsp;Luiz Carlos Euclides da Silva – Ilha de Deus</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">65.&nbsp;Maria da Paixão – Vila da Imbiribieira</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">66.&nbsp;Maria Elania da Silva – Vila Tamandaré</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">67.&nbsp;Maria Sueli do Nascimento – Ilha do Maruim/Olinda</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">68.&nbsp;Mario Ramos da Silva – Bode/Pina</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">69.&nbsp;Moises Florêncio da Silva –</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">70.&nbsp;Moises Lucio dos Anjos – Vila São Miguel</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">71.&nbsp;Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais do Brasil – Regional Pernambuco</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">72.&nbsp;Ornela Fortes de Melo – CPP/NE</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">73.&nbsp;Paulo Pessoa Lacerda – Espaço Ciência/Santo Amaro.</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">74.&nbsp;Paulo H. da Silva Neto – Vila Tamandaré</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">75.&nbsp;Pedro Henrique Silveira Santos – Pesquisador</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">76.&nbsp;Rodrigo Lima Guerra de Moraes – Ação Comunitária Caranguejo-uçá/CCU</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">77.&nbsp;Roberta Maria Fernandes – Ilha de Deus</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">78.&nbsp;Rosimere Nery&nbsp;– FASE/RECIFE</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">79.&nbsp;Rudrigo Rafael &#8211; FASE</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">80.&nbsp;Sandro Florencio da Silva</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">81.&nbsp;Sandro Lorenço de Santana &#8211; Bode</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">82.&nbsp;Severino Antonio dos Santos – CPP/NE</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">83.&nbsp;Simone Ferreira Teixeira – UPE</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">84.&nbsp;Sismara Silva Campos –&nbsp; Pesquisadora</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">85.&nbsp;SOS CORPO – Instituto Feminista para Democracia</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">86.&nbsp;Tarcísio Quinamo – Pesquisador</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">87.&nbsp;Terezinha Filha – ACCU/Ciranda de Mulheres</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">88.&nbsp;Valdenice Herculano da Silva – Ilha de Deus</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">89.&nbsp;Vera Lucia Pereira do C. de Holanda – Ilha do Maruim/Olinda</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">90.&nbsp;Veronica Maria da Silva Gomes Alves – Ilha do Maruim/Olinda</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">91.&nbsp;Veronica Fox – Pesquisadora</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">92.&nbsp;Yasmim Alves – PSOL/Recife</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">93.&nbsp;Hamilton Tenório – Ação Comunitária Caranguejo-Uça/ACCU</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;">94.&nbsp;Valdelice Herculano – Ilha de Deus</span>

<span style="font-family: Arial, Tahoma, Helvetica, FreeSans, sans-serif;"><span style="color: #000000;">95.&nbsp;Wilson Melo da Silva – Vila São Miguel</span></span>

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