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“Tudo de novo”. O desespero das famílias com as chuvas da Região Metropolitana do Recife

Rua completamente alagada, com água barrenta, ilhando casas simples.

“Tudo de novo”. Esta é a frase que resume a aflição de famílias que vivem nas áreas mais vulnerabilizadas da Região Metropolitana do Recife, na manhã da sexta-feira, 7 de julho. Casas estão inundadas, ruas estão alagadas e rios subiram demais de volume. Vidas, memórias e pertences foram perdidos – mais uma vez.

Ao menos uma barreira deslizou, em Coqueiral, na Rua Edna, Zona Oeste da capital, sem vítimas. Recentemente a Marco Zero mostrou a situação da área do rio Tejipió em reportagem especial sobre o adoecimento mental das famílias. São populações de baixa renda, negras em sua maioria, muitas chefiadas por mulheres e mães as impactadas pela falta de políticas públicas socioambientais e de habitação, além de prevenção e resposta aos desastres diante das mudanças climáticas.

Crédito: Instagram Coqueiral Ordinário

O desabamento do prédio no Conjunto Beira-Mar, no Janga, em Paulista, na manhã de hoje, também tem ligação com esse cenário. A Caixa Seguradora, uma das empresas responsáveis pelo prédio, já havia constatado o risco de desabamento. Mas, devido ao imenso déficit habitacional e à desigualdade social, as pessoas não tinham para onde ir, sobretudo na época mais chuvosa do ano em Pernambuco.

Na Muribeca, em Jaboatão dos Guararapes, município vizinho ao Recife, o desespero de alguns moradores com o aumento do nível da água foi tão grande que alguns se juntaram e começaram, por conta própria, a tentar com enxadas mudar o curso da água.

Desde o início da semana, a Agência Pernambucana de Águas e Clima (Apac) havia alertado para a tendência de chuvas a partir de hoje. Ontem (quinta) pela manhã, emitiu o aviso de estado de atenção, indicando chuvas de moderadas a fortes se estendendo ao longo desta sexta.

A mais recente atualização da Apac, por volta das 10h, indica que a tendência é que as chuvas prossigam até segunda (10), mas com intensidade maior hoje e amanhã na Região Metropolitana do Recife e na Zona da Mata (Norte e Sul). No Agreste, há tendência de chuvas moderadas até amanhã.

Rio Jaboatão, na Muribeca

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) também emitiu aviso vermelho para áreas de Pernambuco e da Paraíba, com acumulado de chuva que pode superar os 100 milímetros em 24h.

O Inmet alerta para “grande risco de grandes alagamentos e transbordamentos de rios, grandes deslizamentos de encostas, em cidades com tais áreas de risco” nas regiões metropolitana de Recife e nas zonas da Mata da Paraíba e de Pernambuco. O alerta é válido até as 20h desta sexta.

“O rio está em um nível bem alto, mas ainda não chegou a atingir as casas. Então, em questão de inundação, por enquanto, está sob controle”, informa Joice Paixão, presidenta do GRIS Solidário, associação que atua no bairro da Várzea, na Zona Oeste da capital. “O que nos preocupa agora é que temos algumas famílias que estão com problemas estruturais nas casas que não são de alvenaria. Algumas têm estruturas de madeira e estão prejudicadas pelas chuvas”, alertou.

O GRIS auxilia e monitora a situação de famílias da Zona Oeste do Recife que moram em áreas ribeirinhas às margens do Rio Capibaribe, como a comunidade B13. Atualmente a associação está com uma campanha de doações dividida em três frentes de arrecadação: materiais de construção, alimentos não perecíveis e itens de higiene e doações via pix para auxiliar nas questões logísticas e de mobilidade.

  • Confira no final da matéria uma lista de onde e como ajudar algumas comunidades.

Barragens estão no nível máximo de capacidade

Ao menos seis dos 12 reservatórios que garantem o abastecimento d’água da Região Metropolitana do Recife estão acima ou no nível máximo de capacidade de armazenamento.

As barragens de Tapacurá, Bita, Gurjaú, Sicupema e Matriz da Luz transbordaram e estão vertendo água. Botafogo, em Igarassu, cujo nível raramente ultrapassa o patamar de 30% de sua capacidade, atingiu 100%. O mesmo deve acontecer na barragem de Matriz da Luz, em São Lourenço da Mata, durante o dia de hoje.

Às 10h35, a Apac alertou que o rio Capibaribe atingiu a cota de “alerta”, o que representa risco de inundação no Recife, em Camaragibe e São Lourenço da Mata.

Na noite de quinta, 6 de julho, a Secretaria de Recursos Hídricos anunciou que as comportas da barragem de Lagoa do Carro/Carpina permaneceriam fechadas. O objetivo é evitar cheia no rio Capibaribe no trecho abaixo do reservatório, que está com 29% de sua capacidade e tem condições de reter mais água.

Desabamento em Paulista expõe déficit habitacional

Prédio desabou na manhã de sexta-feira, no Conjunto Beira-Mar. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo

Segundo o Corpo de Bombeiros, o desabamento foi de parte de um prédio de 16 apartamentos, dos quais oito desabaram. Neles, havia 19 pessoas, sendo que três delas foram retiradas dos escombros. Em boletim publicado às 15h desta sexta, 7 de julho, o Corpo de Bombeiros informou que três pessoas foram encontradas sem vida: uma mulher de 43 anos, um homem de 45 e um adolescente de 12. Os nomes não foram divulgados.

Ainda de acordo com as informações, duas foram resgatadas com vida e apresentavam ferimentos e fraturas nos membros inferiores. Elas foram encaminhadas para o Hospital Miguel Arraes e o Hospital da Restauração. A terceira vítima foi resgatada sem vida.

No momento, 15 pessoas seguem soterradas. Uma adolescente de 15 anos foi localizada com vida em meio aos escombros e está recebendo oxigênio enquanto aguarda o resgate.

Em nota, o Centro Dom Hélder Câmara (Cendhec), que acompanha a situação da população que vive em áreas de risco na Região Metropolitana do Recife, informou que “A Caixa Seguradora, uma das empresas responsáveis pelo prédio, realizou uma vistoria em todo o conjunto habitacional e constatou o risco de desabamento. Mas, devido ao imenso déficit habitacional e desigualdade social que vivenciamos em todo o estado, famílias não viam outra alternativa, a não ser permanecer”.

O trecho inicial da nota diz: “Não é novidade. A tempestade que cai, as ruas que alagam, as barreiras que deslizam e as vidas que são interrompidas. Não é novidade. Quem mora em área de risco, quem suja os pés na lama, quem chora os parentes mortos e quem tem medo da chuva no telhado. Sabemos quem são as mulheres, homens, crianças, adolescentes e idosos negros, pobres e vulnerabilizados, que depois são listados como estatísticas. Sabemos que a dor delas e deles poderia ser evitada com governos eficientes, com uma política de habitação igualitária e com respeito aos seus direitos humanos”.

Bombeiros resgataram corpo de um homem de 45 anos às 13:30min. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo

ONDE E COMO AJUDAR

Gris Espaço Solidário (@gris.solidario) – Várzea

Coletivo Ibura Mais Cultura (@iburamaiscultura) – Ibura

ONG Somos Todos Muribeca (@somostodosmuribeca) – Muribeca

Coletivo Fala Alto (@coletivofalaalto) – Alto do Pascoal/Terezinha

Centro Comunitário Mário Andrade (@centrocomunitariomario) – Ibura

Grupo Mulher Maravilha (@gmulhermaravilha) – Recife

Praça do Cristo (@pracadocristo) – Jardim São Paulo (entregar na casa de Regi ou entrar em contato pelo perfil do Instagram)

OBS: Texto atualizado às 17h29min

AUTORES
Foto Raíssa Ebrahim
Raíssa Ebrahim

Jornalista pela UFPE, foi trainee no Estadão, trabalhou seis anos no Jornal do Commercio, foi editora e chefe de redação do PorAqui (startup de jornalismo hiperlocal do Porto Digital). É fellowship da Thomson Reuters Foundation sobre Transição Justa (2023), foi bolsista do Instituto ClimaInfo (2022) e venceu o Cristina Tavares com a cobertura do vazamento do petróleo (2020). Já colaborou com Agência Pública, Le Monde Diplomatique Brasil, Gênero e Número e Trovão Mídia (podcast). Vamos conversar? raissa.ebrahim@gmail.com

Foto Maria Carolina Santos
Maria Carolina Santos

Jornalista pela UFPE. Fez carreira no Diario de Pernambuco, onde foi de estagiária a editora do site, com passagem pelo caderno de cultura. Contribuiu para veículos como Correio Braziliense, O Globo e Revista Continente. Ávida leitora de romances, gosta de escrever sobre tecnologia, política e cultura. Contato: carolsantos@gmail.com

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Inácio França

Jornalista e escritor. Foi repórter do extinto Diário Popular (SP), da sucursal paulista de O Globo e do Diário de Pernambuco. Longe das redações, foi secretário de Comunicação de Olinda, além de oficial-assistente e consultor do Unicef. Publicou seis livros (crônicas de futebol, registros de memória e história oral e a novela 'Terezas')