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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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		<title>&#8220;Com o El Niño, o oeste do Nordeste vai ser muito castigado pela seca&#8221;, alerta climatologista</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 23 Sep 2026 20:16:22 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>O El Niño vai trazer seca para o Nordeste, principalmente na parte oeste da região, mas vai trazer principalmente calor, muito calor, com temperaturas acima da média. Em junho, a Marco Zero entrevistou o climatologista Humberto Barbosa, fundador e coordenador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), da Universidade Federal de [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>O El Niño vai trazer seca para o Nordeste, principalmente na parte oeste da região, mas vai trazer principalmente calor, muito calor, com temperaturas acima da média. Em junho, <a href="https://marcozero.org/o-que-o-nordeste-pode-esperar-do-el-nino-2026-e-como-se-preparar/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">a Marco Zero entrevistou o climatologista Humberto Barbosa</a>, fundador e coordenador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Naquela época, a certeza era de que haveria um El Niño, mas sua intensidade ainda era objeto de debate. Ouvimos o cientista novamente na segunda semana de setembro: é um El Niño muito intenso e, pior, que ainda não atingiu seu pico.</p>



<p>Apesar de o El Niño estar ofuscado pela campanha eleitoral, Humberto Barbosa reforça que governos já deveriam ter começado a se preparar para enfrentar o fenômeno – que é natural, mas tem se intensificado por conta das mudanças climáticas. Em entrevista para a Marco Zero, o cientista explica o que é o fenômeno e quais são seus impactos diretos e indiretos, a grande influência do oceano no clima e o que já se sabe sobre como serão os próximos meses. Em vários momentos da entrevista usa o verbo “castigar” para falar sobre os efeitos do fenômeno no Brasil.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large is-resized"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="682" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/seca-el-nino-3-Humberto-1024x682.jpeg" alt="" class="wp-image-76707" style="aspect-ratio:1.501508211373031;width:655px;height:auto" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/seca-el-nino-3-Humberto-1024x682.jpeg 1024w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/seca-el-nino-3-Humberto-300x200.jpeg 300w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/seca-el-nino-3-Humberto-768x512.jpeg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/seca-el-nino-3-Humberto-1536x1023.jpeg 1536w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/seca-el-nino-3-Humberto-150x100.jpeg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/seca-el-nino-3-Humberto.jpeg 1600w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption">Humberto Barbosa, meteorologista, coordenador do Lapis/UFAL</figcaption></figure>
</div>


<h2 class="wp-block-heading">Semiárido nordestino</h2>



<p>&#8220;A partir do momento em que é um El Niño intenso, já se sabe que há um padrão clássico: seca no Nordeste e enchentes no Sul. Mas isso vai depender também, no caso do Nordeste, do Atlântico. Onde está muita incerteza é em relação ao leste (a costa do Nordeste) até metade do interior. Até fevereiro, a pré-estação chuvosa pode ser até boa e isso ilude muitas vezes os agricultores. Podemos ter uma boa pré-estação, que é de dezembro a janeiro, criando até uma expectativa no agricultor, mas chega fevereiro, março, e aí entram os veranicos, diminuindo a chuva. Olhando agora, eu consigo fazer uma análise até fevereiro: a costa está normal. Ou seja, aquela variabilidade não está interferindo. O Atlântico e o Pacífico estão quase se cancelando. Pode ser que isso mude daqui a alguns meses, em função mais do Atlântico do que do Pacífico.</p>



<p>O que temos que esperar é o final de outubro. É quando vai nos dar uma clareza maior de como vai ser o resto da estação chuvosa, que é a estação mais crítica do semiárido, que vai de fevereiro a maio.</p>



<p>O problema do Nordeste não é só a questão da chuva. Na verdade, a região semiárida do Nordeste tem até um volume de chuva acima de muitas outras regiões semiáridas. O problema é a evaporação, em função das altas temperaturas. O Nordeste é uma área-piloto. Se eu quiser testar um modelo climático e não funcionar para o Nordeste, ele não funciona para lugar nenhum, porque é uma região onde os oceanos controlam o clima de fevereiro a maio. Se esse modelo não conseguir prever para essa região, jogue-o fora, porque não vai ter outra região do globo em que ele consiga entender o impacto&#8221;.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/na-cop-17-asa-defende-combate-a-desertificacao-que-fortaleca-comunidades-tradicionais/" class="titulo">Na COP 17, ASA defende combate à desertificação que fortaleça comunidades tradicionais</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/clima/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Clima</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<h2 class="wp-block-heading">Costa leste do Nordeste</h2>



<p>&#8220;Na costa leste é um cenário favorável. O litoral do Nordeste foi abaixo da média de chuvas, mas poderia ter sido muito pior. Não foi muito pior porque o Atlântico está aquecido, e aumentou a passagem de frentes frias, principalmente de julho para setembro. Essas frentes frias terminam jogando mais umidade em direção à costa leste. Como as águas do mar estão mais quentes, terminam aumentando a convecção, o que chamamos de cavados, que são sistemas de baixa pressão. Por isso as chuvas foram um pouquinho mais bem distribuídas em Pernambuco.</p>



<p>Mas se olharmos para Alagoas e Sergipe, já indo para a Bahia, é outro cenário, é um cenário mais seco. Esses dois estados estão muito abaixo da média, estão chamando muito a atenção. Você tem uma mancha de redução de chuva nos últimos meses que chama muito a atenção sobre os estados de Alagoas, Sergipe e algumas áreas da Bahia. O Atlântico não salvou, porque as águas estavam mais neutras, mas, como sob forte influência do El Niño, terminaram não trazendo a chuva esperada para essa época do ano, que é a estação chuvosa deles.</p>



<p>Já em Pernambuco até o Rio Grande do Norte, esses últimos meses, considerando que já estamos sob uma influência de El Niño muito forte, até que esse final da estação chuvosa foi bom. Saímos no lucro. O leste já terminou a estação chuvosa, pegou El Niño já na metade da estação chuvosa, e com o Atlântico não foi tão castigada.</p>



<p>Toda a região costeira tem uma tendência de estar mais quente, e mais quente até mesmo do que o Atlântico Norte, e isso nos beneficia, porque, com essas altas temperaturas, se alguns sistemas chegam ali ao meio do Atlântico, os ventos terminam ajudando, trazendo um pouco de alívio para essa região. Até fevereiro, a costa leste está a dizer assim: olha, está normal. Se algum sistema meteorológico chegar aqui, não vai ter nenhuma inibição: vai provocar chuva.</p>



<p>Como o Atlântico Sul está mais quente, é muito provável também que a zona de convergência em algum momento esteja um pouquinho fraca, mas favorável para essas chuvas que ocorrem no Nordeste em fevereiro. As ondas de leste, a partir de março, já começam a aparecer.</p>



<p>Em 2027, a estação chuvosa da costa leste pode ser que tenha um início irregular, ali por abril, mas vai melhorando à medida que vão chegando os meses de junho e julho. Pode ser favorável para alguns estados e outros nem tanto. Mas a parte leste do sul do Nordeste, pegando Alagoas, Sergipe e a Bahia, já vem nos últimos anos com redução de chuva significativa. E isso tudo são pontos que vão começar a ficar mais agudos a partir do final deste ano e do primeiro semestre de 2027&#8243;.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Seca e estiagem deixam 641 municípios em situação de emergência no Brasil</span>

		<p>O Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis) divulgou na quarta-feira passada (16) um novo mapa de monitoramento mensal da precipitação, baseado em dados de satélite (foto abaixo). O mapa destaca o volume e a distribuição das chuvas nas regiões brasileiras no período de nove de agosto a 10 de setembro.</p>
<p>De acordo com o Lapis, a distribuição de chuvas se concentrou fortemente na região Sul, além de áreas pontuais da Amazônia e do leste do Nordeste. No Nordeste, o interior consolidou uma seca relâmpago, que é um evento de rápida intensificação da seca, associado às altas temperaturas.</p>
<p>O Sistema Integrado de Informações sobre Desastres, da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil, registrou no dia 16 de setembro um total de 641 municípios brasileiros em situação de emergência por seca e estiagem. São cerca de 5 milhões de pessoas atingidas. O semiárido concentra a maior parte dos municípios afetados pela seca.</p>
	</div>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full is-resized"><img decoding="async" width="933" height="932" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/seca-el-nino-1.jpeg" alt="" class="wp-image-76705" style="aspect-ratio:1.001098676002309;width:592px;height:auto" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/seca-el-nino-1.jpeg 933w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/seca-el-nino-1-300x300.jpeg 300w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/seca-el-nino-1-150x150.jpeg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/seca-el-nino-1-768x767.jpeg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/seca-el-nino-1-96x96.jpeg 96w" sizes="(max-width: 933px) 100vw, 933px" /></figure>
</div>


<h2 class="wp-block-heading">Matopiba e oeste do Nordeste</h2>



<p>&#8220;Esse é um período mais seco na Amazônia, mas está ficando ainda mais seco em função do resfriamento ali na costa setentrional. Isso pega um pouco também do Norte e do Nordeste, já ali entre Maranhão, Piauí, e isso já é consequência do resfriamento do Atlântico, que tem uma relação direta com o El Niño. É uma tendência que vai continuar. Olhando do leste indo para o interior do Nordeste, essa chuva começa a diminuir. E essa diminuição se torna mais significativa à medida que se vai para a região oeste do Nordeste, onde está o Matopiba, que é Maranhão, Tocantins, Piauí e o oeste da Bahia. Essa região vai ser muito castigada pela seca. Essa tendência se mantém até pelo menos o início de 2027. Tudo vai estar muito influenciado por essas condições do El Niño. O Atlântico não vai conseguir reverter, porque ele é muito intenso.</p>



<p>A transição entre a Caatinga e o Cerrado é uma região produtora de grãos, uma região de agronegócio que vai ter problemas. O oeste do Nordeste vai entrar agora em outubro já na fase chuvosa. E tudo indica que o início da estação chuvosa do oeste, que é muito próximo ali da Amazônia, também vai estar abaixo da média.</p>



<p>O oeste do Nordeste é muito pouco falado, porque normalmente tem uma distribuição de chuva um pouco mais frequente. Mas neste ano a região vai chamar a atenção por essa variabilidade de impacto do El Niño, de seca mais aguda para essa área do que para qualquer outra região do Nordeste do Brasil&#8221;.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Amazônia mais seca</h2>



<p>&#8220;A Amazônia entre 2023 e 2024 foi duramente castigada, a ponto de ter os rios em um nível muito baixo, tanto que até mesmo para a entrega de alimentos, distribuições, teve um impacto. Houve morte até de botos, enfim, foi muito impactante. Tudo indica novamente que a Amazônia vai ser castigada, muito impactada. A realidade vai ser um país com uma redução de chuva significativa na Amazônia, muito possivelmente, ou até talvez um pouco pior do que foi entre 2023 e 2024&#8221;.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Sudeste mais quente</h2>



<p>&#8220;A região Sudeste também vai ser muito castigada, porque nos El Niños anteriores havia mais o aumento das temperaturas, mas pela primeira vez estamos vendo que as secas estão mais agudas nessas regiões. Esse padrão atmosférico do El Niño indica que a região Sudeste vai ser também significativamente afetada por uma redução de chuva. Muito parecido com o que ocorreu na seca de 2015-2016. As usinas hidrelétricas também podem ser impactadas&#8221;.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Chuvas no Sul do Brasil </h2>



<p>&#8220;Na região Sul, o Atlântico não tem a mesma influência, porque já está numa região quase no fim dos trópicos e extratrópicos, mas ainda assim determina. Tudo indica que o Atlântico vai ficar um pouco mais neutro. Isso só já dá um certo alívio, mas não para tirar a região do extremo Sul do Brasil das chuvas intensas, como já está acontecendo. Então isso vai se estender ainda para o período de janeiro e fevereiro. Poderia até ser pior, mas o Atlântico pode ainda aliviar. Mas esse alívio não é tanto quando comparamos com o Nordeste do Brasil: o papel do Atlântico, porque aqui é uma região tropical, termina sendo mais determinante do que na região do extremo Sul. Essas chuvas que estão ocorrendo no Sul já são consequência do El Niño&#8221;.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">&#8220;O primeiro impacto do El Niño não é seca, não é enchente, não é onda de calor, não é queimada. São as altas temperaturas&#8221;. </p>
</div>


<h2 class="wp-block-heading">Altas temperaturas</h2>



<p>&#8220;O agravante em relação aos outros El Niños muito intensos são as altas temperaturas. Quase todo o Brasil vai ser impactado. O primeiro impacto do El Niño não é seca, não é enchente, não é onda de calor, não é queimada. São as altas temperaturas. Essa é a ligação direta. Qualquer pessoa pode até discutir se aquela seca é 100% por causa do El Niño. Pode chegar a 80%, 70%. Mas as altas temperaturas são um efeito direto e têm dois componentes que trazem uma complicação.</p>



<p>Primeiro, porque os gases de efeito estufa trazem desequilíbrio térmico ao planeta. Ou seja, a Terra esquenta mais, está guardando mais energia em função não só do vapor d&#8217;água, mas dos gases do efeito estufa que estão presentes na atmosfera. Mas tem um adicional, que é o El Niño. É um impacto direto.</p>



<p>Muito se debate qual é o acréscimo na temperatura. No Brasil como um todo – tirando um pouco o Sul, que vai ter muita nebulosidade – as temperaturas podem ficar em média um a dois graus acima da média histórica.</p>



<p>Devemos passar de 1,5 grau na temperatura global [em relação ao período pré-industrial (1850-1900), a referência usada pelo Acordo de Paris], o que traz imprevisibilidade, porque os eventos extremos estão diretamente relacionados com esse aquecimento. Quanto mais calor tiver na atmosfera, mais umidade vai aumentar nessa atmosfera, e com isso eu vou ter eventos extremos de chuva. Mas o contrário também acontece: quanto menos umidade se tem, quanto mais calor tiver, mais seco vai ficar, e as grandes secas vão ocorrer, os incêndios florestais que já estamos vendo. Isso tudo é um aditivo já do El Niño com a questão do aquecimento global&#8221;.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Planeta em desequilíbrio</h2>



<p>&#8220;Começamos a entrar num aquecimento do planeta nunca antes registrado. Não sabemos como os sistemas vão se acomodar, porque o planeta busca o equilíbrio, mas, para buscar esse equilíbrio, ele vai jogar todo o excesso de energia em regiões onde vai ter mais chuva, mais seca, para encontrar o equilíbrio termodinâmico. Alguém injetou muito calor nele, ele vai ter que dissipar esse calor. Ele não guarda, ele implode. Então, o planeta tem que distribuir isso com chuvas e com campos de pressão.</p>



<p>É um planeta em desequilíbrio. Desde os anos 1980, está saindo menos energia do que entra, e a Terra está ficando mais quente. Esse aquecimento no Pacífico vai interferir nas temperaturas em todo o globo. E aí ele provoca mais ondas de calor, mais queimadas, tudo em função das altas temperaturas, que estão mexendo nos padrões de precipitação e pressão.</p>



<p>Tipo assim: vou fazer uma fogueirinha. Eu vou controlar aquele fogo. Mas à medida que você começa a colocar mais lenha, mais fogo, você acha que controla o fogo, mas ele começa a tomar uma dimensão sobre a qual você não tem mais controle&#8221;.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Seca relâmpago</h2>



<p>&#8220;Seco e quente é a pior combinação, porque aí tem uma tipologia de seca. <a href="https://noticias.ufal.br/servidor/noticias/2024/7/estudo-desenvolve-modelo-com-inteligencia-artificial-para-detectar-secas-relampagos-1" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Fizemos até um estudo</a>, o primeiro estudo na América do Sul, sobre a combinação das altas temperaturas e da redução de chuva. É o pior cenário, porque isso acontece em poucas semanas. O solo perde muita umidade e a atmosfera está mais seca também. Uma atmosfera mais seca está sugando muito mais rápido essa umidade do solo, que também está recebendo menos carga d&#8217;água. Quando os dois combinam, isso acelera essa seca, que chamamos de seca relâmpago.</p>



<p>E é o primeiro sinal para que as outras secas clássicas, a seca meteorológica, a seca hidrológica e a agrícola, ocorram. Só vemos o impacto delas, não vemos o início. Já a seca relâmpago, sabemos como determinar o início e o fim dela. E o que determina a seca relâmpago? É a umidade do solo. Se essa umidade do solo estiver abaixo de 20%, já posso contar os dias em que a seca já está atuando. E normalmente, para o solo perder essa água, é porque também as temperaturas estão altas. Os açudes secam mais rápido&#8221;.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Mortes por calor</h2>



<p>&#8220;O calor tem um impacto direto não só na economia, mas na saúde. O calor mata. Aqui na região tropical nos adaptamos. Estamos vendo o que aconteceu no verão da Europa. Os jovens, as crianças e os idosos são os mais vulneráveis. E a nossa infraestrutura, ainda que boa parte do país esteja na região tropical, ainda não está preparada. Se você anda nos centros urbanos, você não vê um bebedouro. Não há água, não há bebedouros, não há pontos de refrescamento públicos. Você fica muito vulnerável em dias de altas temperaturas. Já houve mortes em shows. Vamos ter um carnaval muito quente.</p>



<p>O índice de calor é calculado pela combinação de alta umidade, ou seja, muito vapor d&#8217;água na atmosfera, com altas temperaturas. Quando se tem 33 graus e mais 60% ou 70% de umidade, se entra em zonas perigosas. O nosso corpo humano está adaptado a mais ou menos 36 graus, e não oscila muito: ou eu vou transpirar muito, ou meus vasos sanguíneos vão se contrair quando está frio, para manter esses 36 graus. Mas quando começa a ter muita umidade, muito calor, o cérebro não consegue dar conta da demanda, mesmo que eu esteja hidratando o corpo, num período muito curto. Em poucas horas o cérebro não consegue administrar essa mudança corporal, e aí entra em colapso.</p>



<p>Quando começa a ficar todo verão nessas condições, a sociedade civil também começa a pressionar os gestores e a cobrar investimentos. Não se fala muito sobre isso, mas poderemos precisar de abrigos contra o calor. Os centros de convenções são uma alternativa, já que a maioria tem estrutura de ar-condicionado, principalmente nas capitais. Numa semana de onda de calor, é preciso ter onde abrigar quem está vulnerável, num lugar com a temperatura controlada&#8221;.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>Um estudo do Laboratório de Impacto Climático, um consórcio de várias universidades, divulgado nesta quarta-feira (23), estima que <a href="https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2026/09/23/super-el-nino-pode-causar-450-mil-mortes-por-calor-ate-fevereiro-diz-estudo.ghtm" target="_blank" rel="noreferrer noopener">451 mil pessoas podem morrer no mundo até fevereiro</a> de 2027 por conta do El Niño. Para o Brasil, a estimativa é de <a href="https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2026/09/mais-13-mil-mortes-por-calor-no-brasil-sao-estimadas-devido-ao-el-nino.shtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener">até 13,3 mil mortes.</a></p>
        </div>
    </div>



<h2 class="wp-block-heading">A intensidade do El Niño</h2>



<p>&#8220;Maio e junho foram os meses em que tivemos uma intensidade crescente, até acima do que havia sido previsto. A comunidade científica também esperava um El Niño intenso e forte, mas ele foi ainda um pouco acima do que era esperado. Ele vem numa intensidade muito forte, acima de dois graus e crescente: ainda continua aumentando esse aquecimento no Pacífico.</p>



<p>Já passou dos dois graus, que normalmente a mídia coloca como super El Niño. Mas, para os climatologistas, não há essa classificação de &#8216;super El Niño&#8217;, &#8216;El Niño Godzilla&#8217;. Temos a classificação de fraco, moderado, muito forte e extremo. O atual já está saindo da condição “muito forte” e indo para “extremo”. Tem regiões que já estão em mais de três graus acima da média.</p>



<p>Este El Niño já é caracterizado como o mais intenso registrado, no mínimo, nos últimos 50 anos. E ele continua ainda se desenvolvendo de uma forma crescente. Para nós, climatologistas, que trabalhamos com dados, a partir do momento em que ele chega a 2,5 ou três graus, não necessariamente a atmosfera vai responder linearmente na mesma intensidade. Pode ser até que alguns pontos sejam muito intensos, mas não é tão direta essa relação&#8221;.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O pico e o fim do El Niño</h2>



<p>&#8220;O pico do El Niño vai ser em novembro. A resposta dele vai chegar em fevereiro, do ponto de vista da atmosfera, porque há um <em>delay</em>. O oceano chega ao seu pico e aí vai diminuindo, mas continua presente. Mas a atmosfera só começa a responder a esse pico entre fevereiro e março. Sempre tem uns dois a três meses de delay para que o sistema oceano-atmosfera vá se ajustando a essas condições.</p>



<p>Pegando os grandes El Niños, os mais conhecidos, 1982-1983, 1997-1998, 2015-2016, sempre chegam ao fim entre março e abril. Há uma expectativa de que este de 2026-2027, entre março e abril, chegue ali próximo de 0,5 grau de aumento na temperatura do Pacífico, o que já estaria fraco, e em maio já estaria neutro. Essa é uma tendência, não uma previsão.</p>



<p>Quando colocamos o fim em abril, pode ser que ele ainda vá um pouquinho mais do que isso, porque não é o El Niño olhando as temperaturas, mas é a atmosfera, o El Niño atmosférico. A intensidade dele de 2 graus já foi embora, o oceano já esqueceu a temperatura mais alta, já está com águas mais frias, mas a atmosfera ainda está ligada com aquela memória de quando o El Niño estava forte. Ele não desaparece assim&#8221;.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">&#8220;&#8230;nossa infraestrutura ainda não está preparada. Se você anda nos centros urbanos, você não vê um bebedouro. Não há água, não há pontos de refrescamento públicos&#8221;. </p>
</div>


<h2 class="wp-block-heading">El Niño: o que é e como age</h2>



<p>&#8220;O El Niño é natural e recorrente. A cada dois a sete anos, embora já tenha mudado para três a cinco anos, você tem esse fenômeno. Não é algo novo. Não se entendia bem o que era, mas já havia registro desde os anos 1800. Quando eu falo do El Niño, eu estou falando de uma região no Pacífico em que os ventos de leste enfraquecem, e com isso essa água começa a se aquecer ali na costa da América do Sul, no Equador, no Peru. Os peruanos notaram que a água estava mais quente e associaram que havia um fenômeno acontecendo ali. E, como isso acontecia por volta de dezembro, coincidindo com o nascimento de Jesus Cristo, veio o nome El Niño.</p>



<p>Isso acontece porque os ventos alísios de leste ficam mais fracos. São eles que normalmente empurram a água quente da superfície para o oeste do Pacífico, na direção da Indonésia, e é por isso que aquele lado do oceano é o mais quente. Quando os alísios enfraquecem, esse empurrão diminui: a água quente deixa de se deslocar e se espalha pelo centro e pelo leste do Pacífico. É essa mudança que altera toda a circulação, chamada de circulação de Walker, e que interfere em toda a região tropical global.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large is-resized"><img decoding="async" width="1024" height="682" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/seca-el-nino-4-1024x682.jpeg" alt="" class="wp-image-76706" style="aspect-ratio:1.501508211373031;width:800px;height:auto" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/seca-el-nino-4-1024x682.jpeg 1024w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/seca-el-nino-4-300x200.jpeg 300w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/seca-el-nino-4-768x512.jpeg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/seca-el-nino-4-1536x1023.jpeg 1536w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/seca-el-nino-4-150x100.jpeg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/seca-el-nino-4.jpeg 1600w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption">Cidades brasileiras não estão preparadas para calor extremo</figcaption></figure>
</div>


<p>Quando o El Niño alcança o nível em que ele se encontra agora, muito forte, ele tem uma presença muito marcante na atmosfera. Em função desse aquecimento, através da circulação, afeta toda a distribuição de chuvas e dos campos de pressão. São condições únicas. Nunca tivemos essa experiência no passado. Eu posso comparar até a intensidade dele, mas não como é a resposta desse aquecimento. A atmosfera reage de formas diferentes: é heterogênea, não é tão linear.</p>



<p>Mesmo nos anos de El Niño muito intenso, como foi em 1982-1983, 1997-1998, 2015-2016, 2023-2024, cada um tem sua identidade. Mas alguns sinais são clássicos: muita chuva em uma região, menos chuva na outra.</p>



<p>Essa circulação não é tão linear porque o oceano é mais estável, é água, e a atmosfera é fluida, ela tem outros campos de pressão, tem topografia, tem vegetação, tem os outros oceanos interferindo. Então ela torna esses impactos muito mais complexos. Mas sempre entendendo: quando eu falo de seca relacionada com El Niño, é um impacto indireto, nunca é direto. É um impacto que até nós, climatologistas, sempre associamos diretamente, mas não é. A enchente é indireta, os incêndios florestais são indiretos. Porque dependem da chuva: a redução da chuva vai deixar a folha mais seca, e isso vai fazer acontecer um incêndio. Então nunca é em função da temperatura do oceano. Mas as altas temperaturas, não. Essas são diretas.</p>



<h2 class="wp-block-heading">A dança dos oceanos</h2>



<p>&#8220;O El Niño está interferindo no Atlântico Norte, no sentido de estar resfriando. Na maioria dos casos, o Pacífico e o Atlântico Norte têm quase o mesmo relógio: quando um esquenta, o outro também esquenta. Este ano estamos tendo o inverso: o Pacífico está muito quente e o Atlântico Norte, principalmente ali próximo da região do Equador, está mais frio do que se espera.</p>



<p>Normalmente se fala muito do Pacífico e não se dá a devida atenção ao Atlântico. Mas, de fato, a nossa atmosfera hoje, a circulação de como essas áreas estão sendo impactadas, é exatamente a dança dos dois. Às vezes os dois estão dançando juntos, às vezes os dois estão dançando separados. Não que seja anormal, isso já aconteceu, mas não é tão frequente: estamos tendo um ano em que eles não estão dançando juntos. E eles têm impactos distintos, que podem ser acumulativos, ou podem atuar juntos para inibir um pouco, ou diminuir esse impacto. E o Nordeste do Brasil agora vai começar também a entrar nessa dança.</p>



<p>Na região tropical, o oceano e a atmosfera estão bem coladinhos mesmo, dançando juntos. Só tem um delay: um está escutando a música, e aí depois o outro, dois minutos, cinco minutos, é que escuta a mesma palavra. O cara falou uma palavra aqui, ele demora três minutos para escutar, mas estão juntinhos dançando. Fora dos trópicos, aí eles já não dançam juntos. Eles são um casal separado. Aí vai depender do nível de separação: tem uns amigáveis, outros não tão amigáveis, mas eles não estão juntos.</p>



<p>Na região tropical, o calor vai se dissipando para as altas latitudes, então eles também estão influenciando nas regiões de altas latitudes. Mas é na região tropical que os efeitos são mais significativos, mais impactantes, porque eles estão juntinhos. Qualquer perturbação no oceano vai, com o tempo, chegar à atmosfera&#8221;.</p>
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		<title>“Voto pela convivência com o Semiárido” é a nova campanha da ASA para as Eleições 2026</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 28 Aug 2026 18:35:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Articulação do Semiárido (ASA)]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2026]]></category>
		<category><![CDATA[Semiárido]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Helena Dias*, publicado originalmente pela Articulação do Semiárido Brasileiro Seca é seca, falta de água é decisão política. É por isso que não dá para lutar pela convivência com o Semiárido sem falar de eleições e democracia, principalmente em um ano tão decisivo como 2026, em que a população decidirá entre projetos opostos de [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Helena Dias*, publicado originalmente pela <a href="https://asabrasil.org.br/2026/08/25/voto-pela-convivencia-com-o-semiarido-2026/">Articulação do Semiárido Brasileiro</a></strong></p>



<p>Seca é seca, falta de água é decisão política. É por isso que não dá para lutar pela convivência com o Semiárido sem falar de eleições e democracia, principalmente em um ano tão decisivo como 2026, em que a população decidirá entre projetos opostos de Brasil, seja no voto para a presidência da República, governos e assembleias estaduais, para a Câmara e o Senado Federal.</p>



<p>É neste contexto que a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) apresenta a campanha “Voto pela convivência com o Semiárido” com foco na conscientização sobre a direta ligação entre o avanço das políticas públicas de convivência e o voto em candidaturas comprometidas com a vida das pessoas do território. Sua primeira ação foi o lançamento da <a href="https://asabrasil.org.br/2026/08/17/asa-lanca-carta-politica-para-as-eleicoes-2026/">Carta Política da ASA para as Eleições 2026</a>.</p>



<p>“Nós só vamos conseguir disputar o orçamento público para as políticas de convivência com o Semiárido se a gente tiver um governo democrático, votar para isso. Precisamos avançar no nosso projeto político e isso só vai acontecer se a gente conseguir manter o país nesse caminho que ele está agora, ir avançando na democracia. Tendo a possibilidade de debater, de discutir, de dialogar, de apresentar propostas e de disputar o orçamento do país”, aponta Cícero Félix, da coordenação executiva da ASA.</p>



<p>A campanha se posiciona na defesa da reeleição do presidente Lula (PT) e tem caráter de mobilização territorial, seu público alvo são as famílias do Semiárido, sobretudo mulheres e juventudes. As mulheres continuam sendo maioria do eleitorado brasileiro (52,8%) e o Nordeste é a região que concentra a maior parte de eleitores e eleitoras jovens (entre 16 e 18 anos) do país, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/ASA-1.webp" alt="" class="wp-image-76540" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/ASA-1.webp 1024w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/ASA-1-300x200.webp 300w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/ASA-1-768x512.webp 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/ASA-1-150x100.webp 150w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption">Campanha quer alcançar e mobilizar famílias do Semiárido brasileiro</figcaption></figure>
</div>


<p>O diálogo com as juventudes é prioritário quando o assunto é voto e participação política. Entre 2022 e 2026, o registro eleitoral de pessoas com 16 a 17 anos caiu de 42,9% para 27,6%. Ou seja, 70% da população brasileira nessa faixa etária chegará às eleições deste ano sem título de eleitor. Historicamente, essa participação das juventudes nas eleições vem diminuindo desde 2014.</p>



<p>“A gente não pode perder de vista a nossa capacidade de articulação da base, o Semiárido é isso. Eu acho que a gente tá conseguindo trazer os companheiros e as companheiras para esse debate, para incidir nos nossos territórios. Nossas vidas todas, nossa forma de viver nos próximos anos está em jogo”, pontua Roselita Vitor, da coordenação executiva da ASA.</p>



<p>A iniciativa da Articulação tem parceria com outras campanhas, como é o caso da<a href="https://drive.google.com/drive/folders/1VQWKFudAAS08Yj5P8mW3HbutWnBskdBI?usp=drive_link" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Agroecologia nas Eleições</a>, da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA).</p>



<h2 class="wp-block-heading">A força dos territórios</h2>



<p>Com caravanas territoriais e estratégias digitais de comunicação, a iniciativa centra forças no orgulho do povo do Semiárido pelas conquistas de políticas como o <a href="https://asabrasil.org.br/projeto/p1mc/">Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC)</a>, <a href="https://asabrasil.org.br/projeto/p12/">Uma Terra e Duas Águas (P1+2)</a>, <a href="https://asabrasil.org.br/projeto/sementes-do-semiarido/">Sementes do Semiárido</a> e o projeto <a href="https://asabrasil.org.br/projeto/quintais-das-margaridas/">Quintais das Margaridas</a>.</p>



<p>A campanha incentiva a valorização dessas políticas resgatando a memória de luta da ASA como forma de demarcar os avanços que o Semiárido deseja a partir das Eleições 2026: universalização da primeira e da segunda água, saneamento rural, democratização do acesso à energia fotovoltaica, fortalecimento do combate à violência contra a mulher e da divisão justa do trabalho doméstico.</p>



<p>Todos os temas abordados na “Voto pela convivência com o Semiárido” estão detalhados na Carta Política da ASA. Apesar das ações priorizarem as famílias do território, a Articulação pretende engajar a sociedade civil em geral por este voto. Candidaturas novas e à reeleição, próximas ao Semiárido, ao campo agroecológico e da agricultura familiar estão sendo mapeadas para dialogar com as reivindicações da campanha.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="800" height="450" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/ASA-5-Joao-Gabriel-Marins-1.jpg" alt="" class="wp-image-76541" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/ASA-5-Joao-Gabriel-Marins-1.jpg 800w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/ASA-5-Joao-Gabriel-Marins-1-300x169.jpg 300w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/ASA-5-Joao-Gabriel-Marins-1-768x432.jpg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/ASA-5-Joao-Gabriel-Marins-1-150x84.jpg 150w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /><figcaption class="wp-element-caption">Divisão justa do trabalho doméstico é um dos focos da campanha</figcaption></figure>
</div>


<h3 class="wp-block-heading">Histórico</h3>



<p>Historicamente, a Articulação vem denunciando o clientelismo eleitoral no território, por meio da campanha <a href="https://asabrasil.org.br/campanha/nao-troque-seu-voto/">Não Troque Seu Voto</a>. A nova campanha, “Voto pela convivência com o Semiárido”, vem para ampliar a reflexão, mantendo a voz de denúncia, mas também evidenciando a necessidade de um voto afirmativo em defesa do território.</p>



<p>A troca de voto por favores ainda é muito recorrente no Semiárido, fragiliza a autonomia política das famílias e alimenta relações de dependência. No Brasil, uma em cada cinco pessoas (22%) diz já ter recebido oferta para vender o voto em algum período eleitoral, de acordo com pesquisa da Ipsos-Ipec. Segundo dados da Polícia Federal, a compra de votos está entre os principais motivos para a instauração de inquéritos policiais no âmbito do Codigo Eleitoral, em 2026.</p>



<p>Diante desse cenário, a ASA quer evidenciar que a troca do voto pode oferecer uma vantagem imediata, mas não garante políticas públicas capazes de transformar a vida das famílias de forma duradoura.</p>



<p>Votar pela convivência com o Semiárido é defender água, comida saudável, produção de alimentos, acesso à terra, energia, direitos das mulheres, oportunidades para as juventudes e dignidade para quem vive no território. É defender políticas públicas para uma região onde vive cerca de 15% da população brasileira e que concentra quase 30% da agricultura familiar do país.</p>
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		<title>Na COP 17, ASA defende combate à desertificação que fortaleça comunidades tradicionais</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 21 Aug 2026 20:13:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Articulação do Semiárido (ASA)]]></category>
		<category><![CDATA[COP]]></category>
		<category><![CDATA[desertificação]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Ulaanbaatar (Mongólia) &#8211; Água, alimentos, renda, direitos territoriais e melhores condições de vida para as comunidades. Mais do que o replantio de árvores esses são os elementos essenciais para a restauração das terras secas. “Recuperar a vegetação é importante, mas não é suficiente. Precisamos cuidar também de quem historicamente cuida desses territórios”, enfatizou Luís Piritiba, da [&#8230;]</p>
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<p><strong>Ulaanbaatar (Mongólia</strong>) &#8211; Água, alimentos, renda, direitos territoriais e melhores condições de vida para as comunidades. Mais do que o replantio de árvores esses são os elementos essenciais para a restauração das terras secas. “Recuperar a vegetação é importante, mas não é suficiente. Precisamos cuidar também de quem historicamente cuida desses territórios”, enfatizou Luís Piritiba, da organização baiana Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa), integrante da <a href="https://asabrasil.org.br/publicacao/brazilian-semi-arid-where-climate-solutions-already-thrive/">Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA)</a></p>



<p>Essa foi uma das principais mensagens levadas pela delegação da ASA aos debates realizados nesta quarta-feira (19), durante a COP-17 da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), em Ulaanbaatar, na Mongólia, quando representantes da entidades, organizações parceiras, do Governo Federal e de instituições de pesquisa participaram de atividades sobre manejo da Caatinga e do Cerrado, restauração socioprodutiva, cooperação Sul-Sul, financiamento climático e racismo ambiental.</p>



<p>Embora organizados a partir de diferentes perspectivas, os debates convergiram em um ponto: as populações das terras secas não podem ser tratadas apenas como beneficiárias de projetos. Agricultores e agricultoras familiares, mulheres, indígenas, quilombolas e demais povos e comunidades tradicionais precisam participar das decisões e ser reconhecidos como sujeitos centrais da restauração.</p>



<p>Durante o painel “Manejo e Restauração de Florestas em Terras Secas: Propostas para Mitigar e Reverter a Degradação da Terra na América Latina”, foram abordadas as práticas de regeneração dos territórios e as condições políticas e financeiras necessárias para ampliar essas experiências.</p>



<p>Entre os alertas apresentados esteve o avanço de áreas semiáridas no Brasil. Segundo um estudo do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), de 2023, no qual analisou o período entre os anos 1960 a 2020, as áreas do semiárido do país têm crescido a uma taxa média superior a 75 mil km² a cada década.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>“Esse processo acontece em territórios nos quais milhares de estabelecimentos da agricultura familiar produzem grande parte dos alimentos consumidos pela população. Isso não é apenas uma ameaça à terra, mas também à segurança e soberania alimentar dos povos”, disse o Diretor de Combate à Desertificação da Secretaria Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais e Desenvolvimento Rural Sustentável do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Alexandre Pires.</p>
</blockquote>



<p></p>
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		<title>O futuro plantado no passado</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inês Campelo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Jul 2026 19:41:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Agricultura Familiar]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Rede Ater]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>No dia marcado para a entrevista, uma chuva fina caía sobre a zona rural de Areial, no Agreste da Paraíba. Mesmo assim, José Nivaldo dos Santos estava no roçado, à beira da estrada de barro que leva até sua casa, quando avistou o carro da reportagem. Seu Niva não gosta de perder tempo. Enquanto esperava [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>No dia marcado para a entrevista, uma chuva fina caía sobre a zona rural de Areial, no Agreste da Paraíba. Mesmo assim, José Nivaldo dos Santos estava no roçado, à beira da estrada de barro que leva até sua casa, quando avistou o carro da reportagem. Seu Niva não gosta de perder tempo. Enquanto esperava nossa chegada, aproveitava para preparar a terra onde, dali a alguns dias, plantaria mais uma safra de batata.</p>



<p>Aos olhos de quem passa pela estrada, Seu Niva parece apenas mais um agricultor aproveitando a chuva para preparar a terra. Mas, há anos, ele faz muito mais do que plantar. Em sua propriedade, conhecimentos herdados do pai e do avô convivem com experiências desenvolvidas ao lado de pesquisadores, técnicos e outros agricultores do Polo da Borborema. Graças a essa combinação, ele se tornou um dos responsáveis pela recuperação de variedades tradicionais de batata e pela retomada do cultivo do algodão agroecológico na região.</p>



<p>A história de Seu Niva, porém, está longe de ser um caso isolado. Nas últimas três décadas, agricultores, sindicatos, organizações sociais, pesquisadores e gestores públicos transformaram o Polo da Borborema em uma das principais referências brasileiras em agroecologia e convivência com o Semiárido. O caminho passou pela valorização dos saberes das famílias agricultoras, pela organização comunitária e pelo acesso a políticas públicas capazes de transformar conhecimento em renda, autonomia e segurança alimentar.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><!-- wp:heading {"level":3} --></p>
<p><em>Localizado no Agreste da Paraíba, o </em><strong><em>Polo da Borborema</em></strong><em> reúne organizações da agricultura familiar de </em><strong><em>21 municípios</em></strong><em> que, há mais de 30 anos, atuam de forma articulada para fortalecer a convivência com o Semiárido, a agroecologia e a segurança alimentar.</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><em>A iniciativa nasceu em meados da década de 1990, a partir da articulação de sindicatos de trabalhadores rurais que enfrentavam problemas comuns, como a dependência dos atravessadores, o uso intensivo de agrotóxicos e a dificuldade de acesso a políticas públicas. Com o tempo, a rede passou a envolver associações comunitárias, cooperativas, grupos de mulheres e jovens, bancos comunitários de sementes, feiras agroecológicas e organizações de assessoria técnica.</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><em>Hoje, o Polo é reconhecido nacionalmente como uma das principais experiências brasileiras de desenvolvimento territorial baseado na agricultura familiar. Além de estimular a produção agroecológica, contribuiu para a implantação de programas como o PAA, o PNAE, o Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC) e os bancos comunitários de sementes.</em></p>
        </div>
    </div>



<p>Seu Niva não fala da lavoura como se fosse uma profissão escolhida na vida adulta. Para ele, trabalhar na roça sempre foi parte da infância. “Naquela época a gente começava com oito anos de idade. A primeira aula que a gente tinha era no roçado”, lembra. Filho de agricultores, nasceu e cresceu na mesma propriedade onde vive até hoje. Foi ali que aprendeu com o pai as primeiras lições sobre o tempo de plantar, as variedades de feijão, o manejo da terra e os cuidados com as sementes.</p>



<p>Mas pouca coisa permaneceu igual desde então. Seu Niva diz que basta olhar para trás para perceber o tamanho das mudanças. “Não tem nem comparação”. Quando era criança, todo o trabalho era feito manualmente. Não havia tratores, matracas para plantar nem qualquer tipo de apoio ao agricultor. Hoje, além da mecanização, ele destaca a importância da assistência técnica, das organizações locais e das políticas públicas para tornar o trabalho menos pesado e ampliar as possibilidades de produção.</p>



<p>Em pouco mais de sete hectares, a família de Seu Niva cultiva uma diversidade de alimentos. Planta seis variedades de feijão, diferentes tipos de fava, macaxeira, batata-doce e cria animais. A mandioca foi sendo deixada de lado, conta, porque as casas de farinha da região desapareceram. Já a batata seguiu o caminho inverso e voltou a ocupar espaço na propriedade depois de um trabalho iniciado em 2011 para recuperar uma cultura que marcou a história de Areial.</p>



<p>&#8220;Essa aqui era a terra da batatinha, nas antigas. No tempo dos meus avôs e dos meus pais&#8221;, recorda. Apesar da tradição, plantar batata era privilégio de poucos. O custo da produção era alto, exigia financiamento bancário e grande quantidade de agrotóxicos. &#8220;Só plantava quem era rico&#8221;, resume.</p>



<p>A oportunidade de retomar esse cultivo surgiu com um projeto desenvolvido em parceria com a AS-PTA e outros agricultores da região. Seu Niva admite que não sabe explicar todos os detalhes técnicos da iniciativa, mas sabe exatamente o que ela mudou em sua vida. “Só veio melhorar”. Primeiro vieram as reuniões, depois os intercâmbios e, por fim, a recuperação das variedades tradicionais de batata adaptadas às condições da região.</p>



<p>A recuperação da batata trouxe um desafio que os agricultores já conheciam bem. Produzir era apenas parte do trabalho. Era preciso garantir sementes para o plantio seguinte. Seu Niva faz as contas quase de cabeça. No ano passado ele plantou 14 caixas de batata e colheu cerca de cinco toneladas. Parte da produção foi vendida para programas públicos. Outra parte ficou reservada para um destino diferente. “Eu armazenei 34 caixas só para não perder. Agora a gente vai tirar para plantar de novo”, conta.</p>



<p>Essas batatas não irão para a mesa de ninguém. São sementes. Cada caixa guarda cerca de 25 quilos de batata cuidadosamente selecionada para dar origem à próxima safra. “Não serve mais para consumo. É só para plantar”, explica.</p>



<p>O armazenamento acontece em um espaço conhecido pelos agricultores como Banco Mãe. Instalado pela cooperativa, o local abriga um contêiner refrigerado onde as sementes permanecem conservadas até a chegada do período mais frio do ano, quando começa um novo ciclo de plantio. Ali, cada agricultor guarda as suas caixas identificadas e, quando chega a época certa, retira apenas o que será necessário para a próxima safra.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/Jose-Nivaldo-dos-Santos-2-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-76155" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/Jose-Nivaldo-dos-Santos-2-1024x683.jpg 1024w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/Jose-Nivaldo-dos-Santos-2-300x200.jpg 300w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/Jose-Nivaldo-dos-Santos-2-768x512.jpg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/Jose-Nivaldo-dos-Santos-2-150x100.jpg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/Jose-Nivaldo-dos-Santos-2.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<p>Seu Niva conhece bem o valor desse cuidado. Quando o pai cultivava batata, não existia câmara fria. As sementes eram guardadas em balaios de cipó, empilhados sobre pequenas paredes de alvenaria dentro de casa. “Naquele tempo não existia caixa. Era tudo em balaio”, recorda.</p>



<p>A tecnologia mudou, mas os cuidados, não. Até hoje, escolher uma batata para virar semente exige paciência e conhecimento. O agricultor também aprendeu que uma batata mal escolhida compromete toda a safra seguinte. Ela precisa ter bom tamanho, não pode apresentar machucados nem sinais de doença. “As melhores vão para semente. As outras ficam para comer’, resume.</p>



<p>O armazenamento também é parte importante do processo. Por isso, depois da colheita, elas não podem pegar chuva, nem ser lavadas. Precisam ficar em ambiente fresco, ventilado e protegido da umidade. “Quem não souber lidar com ela, não lida”, diz, sorrindo.</p>



<p>Mas Seu Niva faz questão de lembrar que esse conhecimento não ficou parado no tempo. Ao lado dos ensinamentos herdados do pai, vieram também novas experiências. Hoje ele utiliza biofertilizantes produzidos a partir do biodigestor instalado na propriedade, experimenta pó de rocha para recuperar o solo e participa de testes realizados em parceria com pesquisadores. “Tudo que o povo me ensinar, eu estou fazendo”, afirma, com a curiosidade de quem ainda se considera um aprendiz.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Há três décadas, a AS-PTA ajuda a cultivar soluções junto com os agricultores</span>

		<p><!-- wp:heading --></p>
<p><em>A </em><strong><em>AS-PTA – Agricultura Familiar e Agroecologia</em></strong><em> atua no Polo da Borborema desde 1993. Diferentemente dos modelos tradicionais de assistência técnica, seu trabalho parte da valorização dos conhecimentos das próprias famílias agricultoras e da construção coletiva de soluções para os desafios do Semiárido.</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><em>Ao longo dessas três décadas, a organização apoiou iniciativas como a criação de bancos comunitários de sementes, a recuperação de variedades crioulas, a implantação de sistemas agroecológicos de produção, a formação de agricultores experimentadores, a organização de feiras agroecológicas e o fortalecimento das políticas públicas voltadas para a agricultura familiar.</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><em>A entidade também contribuiu para aproximar agricultores, pesquisadores, universidades e gestores públicos, ajudando a transformar experiências locais em referências para programas estaduais e federais, como o PAA Sementes.</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><em>Hoje, a AS-PTA continua atuando como articuladora de redes territoriais, apoiando processos de formação, intercâmbio entre agricultores, organização comunitária e incidência em políticas públicas, sempre com foco na construção de sistemas agrícolas mais resilientes às mudanças climáticas e capazes de garantir renda, conservação da agrobiodiversidade e segurança alimentar.</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
	</div>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<h3 class="wp-block-heading"><strong>Entrevista // Nelson Anacleto Pereira</strong></h3>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="684" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/Nelson-Anacleto-Pereira-1024x684.jpg" alt="" class="wp-image-76161" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/Nelson-Anacleto-Pereira-1024x684.jpg 1024w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/Nelson-Anacleto-Pereira-300x200.jpg 300w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/Nelson-Anacleto-Pereira-768x513.jpg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/Nelson-Anacleto-Pereira-150x100.jpg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/Nelson-Anacleto-Pereira.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>“A pergunta era simples: que agricultura nós queríamos construir?”</strong></h2>
</blockquote>



<p>Quando Nelson Anacleto Pereira assumiu a presidência do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Lagoa Seca, em 1992, a agricultura familiar da região enfrentava problemas que iam da dificuldade para comercializar a produção ao uso intensivo de agrotóxicos. Ao longo das décadas seguintes, ele participou da criação do Polo da Borborema, da aproximação com a AS-PTA e da construção de políticas públicas que ajudaram a transformar o território em uma referência nacional em agroecologia. Nesta entrevista, ele relembra essa trajetória e explica por que considera que a maior conquista do Polo não foi uma tecnologia, mas a valorização do conhecimento produzido pelas próprias famílias agricultoras.</p>



<p><strong>Como surgiu o Polo da Borborema?</strong></p>



<p>Quando assumimos o sindicato, em 1992, a gente começou a perceber que os problemas de Lagoa Seca eram praticamente os mesmos dos municípios vizinhos. Primeiro veio a luta pela comercialização. O agricultor produzia, mas chegava à Ceasa e encontrava tudo dominado pelos atravessadores. Depois vieram as dificuldades com a Previdência Rural. Os sindicatos começaram a atuar juntos e perceberam que fazia mais sentido construir respostas coletivas do que cada um enfrentar esses desafios isoladamente. Foi desse processo que nasceu o Polo da Borborema.</p>



<p><strong>Em que momento vocês perceberam que era preciso mudar o modelo de agricultura?</strong></p>



<p>A grande pergunta que fazíamos era muito simples: que agricultura nós queríamos construir? Eu também plantava batata, repolho, hortaliças. Também usava agrotóxicos. Era o modelo que existia. Mas começamos a perceber que ele trazia muitos problemas. Não fazia sentido continuar produzindo alimentos colocando em risco a saúde das pessoas e degradando o ambiente. A partir daí começamos a buscar outro caminho.</p>



<p><strong>Qual foi o papel da AS-PTA nesse processo?</strong></p>



<p>A parceria começou em meados da década de 1990. Primeiro fizemos um diagnóstico da agricultura do município. Depois vieram estudos específicos, principalmente sobre o uso de agrotóxicos. Mas a maior contribuição não foi trazer respostas prontas. Foi ajudar a construir um processo em que agricultores, pesquisadores e técnicos passassem a aprender juntos.</p>



<p><strong>O senhor costuma dizer que os agricultores também produzem conhecimento. O que isso significa?</strong></p>



<p>Durante muito tempo predominou a ideia de que só a universidade ou os órgãos públicos tinham conhecimento. O técnico chegava com uma receita pronta e o agricultor apenas executava. Nós começamos a questionar isso. O agricultor também experimenta, observa, testa, aprende. Quando esse conhecimento passou a dialogar com universidades e pesquisadores surgiram soluções que nenhum dos dois construiria sozinho. Esse talvez tenha sido o maior aprendizado de todo esse processo.</p>



<p><strong>Qual foi a importância das políticas públicas nessa transformação?</strong></p>



<p>Elas foram fundamentais. Mas nenhuma surgiu por acaso. O Programa Um Milhão de Cisternas, o PAA, o PNAE, o PAA Sementes&#8230; tudo isso é resultado de muitos anos de organização social. As políticas públicas fortalecem a agricultura familiar, mas só existem porque houve agricultores organizados para lutar por elas.</p>
</div></div>



<p><strong>Quais são hoje os maiores desafios?</strong></p>



<p>Hoje os desafios são diferentes. Vivemos um período de desmontes de várias políticas públicas e isso mostrou que nenhuma conquista é definitiva. Além disso, as mudanças climáticas e a desinformação trazem novos problemas para as comunidades.</p>



<p>Por isso continuo acreditando que o principal desafio é fortalecer as organizações locais. São elas que garantem a continuidade desse trabalho.</p>



<p><strong>Depois de mais de trinta anos, qual considera a maior conquista do Polo da Borborema?</strong></p>



<p>As políticas públicas são importantes. As tecnologias sociais também. Mas acho que a maior conquista foi outra. Foi construir uma consciência coletiva. Hoje o agricultor não é visto apenas como alguém que recebe orientação. Ele sabe que também produz conhecimento, ensina, aprende e participa da construção das soluções para os problemas do território. Essa, para mim, é a maior conquista de todas.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Quando a colheita vira solidariedade</strong></h2>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="684" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/Adenilda-Batista-Pereira-e-Maria-Lindinalva-da-Horta-1024x684.jpg" alt="" class="wp-image-76160" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/Adenilda-Batista-Pereira-e-Maria-Lindinalva-da-Horta-1024x684.jpg 1024w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/Adenilda-Batista-Pereira-e-Maria-Lindinalva-da-Horta-300x200.jpg 300w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/Adenilda-Batista-Pereira-e-Maria-Lindinalva-da-Horta-768x513.jpg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/Adenilda-Batista-Pereira-e-Maria-Lindinalva-da-Horta-150x100.jpg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/Adenilda-Batista-Pereira-e-Maria-Lindinalva-da-Horta.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<p>Se no sítio de Seu Niva a preocupação é produzir alimentos e guardar sementes para a próxima safra, a cerca de 20 quilômetros dali outra rede se organiza para garantir que esse tipo de produção chegue a quem mais precisa. No Assentamento Cícero Romana I, em São Sebastião de Lagoa de Roça (PB), funciona a cozinha solidária “A Ordem é Ninguém Passar Fome”. Coordenada por Adenilda Batista Pereira e Maria Lindinalva da Horta, ela nasceu há cerca de dois anos a partir de um trabalho comunitário realizado pelas duas.</p>



<p>“Primeiro a gente fazia sopa, fazia lanche, reunia as famílias para conversar”, lembra Adenilda. Elas percorriam a comunidade de casa em casa, convidando moradores para um café, oficinas de crochê, pintura e outras atividades. O objetivo era criar vínculos e acolher pessoas que viviam em situação de vulnerabilidade. “A gente ia buscar as famílias. Às vezes chegava cansada, mas dizia: &#8216;vamos em tal lugar&#8217;. A gente sentava, tomava um café, conhecia a necessidade de cada um.”</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p>“<em>A gente não entrega só comida. Entrega um pouco de atenção também.”</em><br><em>Adenilda Pereira</em></p></blockquote></figure>



<p>Foi dessa convivência que nasceu a cozinha solidária. Quando o grupo passou a integrar o programa federal, veio um desafio ainda maior: produzir duas mil refeições por mês para famílias cadastradas. O entusiasmo, porém, esbarrou na realidade. A cozinha não tinha panelas industriais, nem fogão adequado, e o recurso só era repassado depois que todas as refeições fossem entregues e a prestação de contas aprovada. “A gente tinha que dar a comida primeiro para depois receber o dinheiro”, resume Adenilda.</p>



<p>Para conseguir manter o trabalho, as duas recorreram a empréstimos, doações e à solidariedade de amigos e vizinhos. “Meu salário entrava e já saía para comprar comida. A gente foi dando um jeitinho e conseguiu.”</p>



<p>O valor destinado pelo programa também exige criatividade. Cada refeição é financiada com R$ 2,40, montante que precisa cobrir alimentos, embalagem, gás e demais despesas da cozinha. Para fazer o dinheiro render, Adenilda acompanha promoções, compra em atacado e conta com uma extensa rede de parcerias.</p>



<p>Grande parte dos alimentos preparados ali vem da agricultura familiar da própria Borborema, adquiridos por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Hortaliças, macaxeira, frutas, banana, feijão e outros produtos cultivados por agricultores da região chegam à cozinha por meio das cooperativas e associações locais. Assim, a produção iniciada em propriedades como a de Seu Niva completa um ciclo virtuoso: sai do roçado, passa pelas políticas públicas e termina na mesa de centenas de famílias que enfrentam a insegurança alimentar.</p>



<blockquote class="wp-block-quote has-text-align-right is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Quando a agroecologia movimenta a economia</strong></h2>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="684" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/Robson-Pereira-de-Oliveira-1024x684.jpg" alt="" class="wp-image-76157" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/Robson-Pereira-de-Oliveira-1024x684.jpg 1024w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/Robson-Pereira-de-Oliveira-300x200.jpg 300w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/Robson-Pereira-de-Oliveira-768x513.jpg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/Robson-Pereira-de-Oliveira-150x100.jpg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/Robson-Pereira-de-Oliveira.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<p>Durante décadas, um dos maiores problemas enfrentados pelos agricultores da Borborema não era produzir alimentos, mas encontrar quem pagasse um preço justo por eles. Dependentes dos atravessadores, muitos vendiam a produção por valores que mal cobriam os custos da lavoura.</p>



<p>Na avaliação de Robson Pereira de Oliveira, secretário de Agricultura de São Sebastião de Lagoa de Roça, esse cenário começou a mudar quando políticas públicas como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) passaram a dialogar com a organização construída no território.</p>



<p>Hoje, o município opera três modalidades diferentes do programa: federal, estadual e municipal , além de fornecer alimentos para a merenda escolar por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). “O agricultor deixou de depender exclusivamente do atravessador”, resume.</p>



<p>Segundo ele, um estudo realizado no município mostrou que, apenas entre 2012 e 2022, mais de R$ 10 milhões circularam na economia local por meio das compras públicas da agricultura familiar. O impacto aparece também no preço pago ao produtor. Enquanto um saco de batata-doce pode ser vendido ao atravessador por cerca de R$ 80 durante a safra, programas como o PAA chegam a pagar aproximadamente R$ 250 pelo mesmo produto. Situação semelhante ocorre com o milho verde.</p>



<p>Para Robson, porém, o maior resultado vai além da renda. “As compras públicas fortalecem cooperativas, associações e ajudam os agricultores a permanecer no campo”, afirma. Segundo ele, o próximo desafio é ampliar a agroindustrialização da produção e criar novas oportunidades para que os jovens encontrem perspectivas de trabalho sem precisar deixar a comunidade.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p>Esta reportagem foi produzida em parceria com a <a href="https://redeaterne.org.br/">Rede Ater Nordeste</a>.</p>
    </div>



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		<title>Plante e lute como uma mulher de Juazeirinho</title>
		<link>https://marcozero.org/plante-e-lute-como-uma-mulher-de-juazeirinho/</link>
					<comments>https://marcozero.org/plante-e-lute-como-uma-mulher-de-juazeirinho/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Inês Campelo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Jul 2026 21:49:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Agricultura Familiar]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Rede Ater]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Maria de Fátima Santos foi logo avisando: “minha história dá um livro”. Nascida em uma família de pequenos agricultores, na comunidade Pedra d’Água, em Juazeirinho (PB), ela passou boa parte da vida carregando água na cabeça. Criou cinco filhos, enfrentou o machismo dentro de casa e viveu anos sem ter dinheiro para comprar uma roupa [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Maria de Fátima Santos foi logo avisando: “minha história dá um livro”. Nascida em uma família de pequenos agricultores, na comunidade Pedra d’Água, em Juazeirinho (PB), ela passou boa parte da vida carregando água na cabeça. Criou cinco filhos, enfrentou o machismo dentro de casa e viveu anos sem ter dinheiro para comprar uma roupa para si mesma. “Antes eu era cega e não me via”, costuma dizer. Hoje, aos 65 anos, é presidente da associação da comunidade onde mora, participa de conselhos, fornece bolos para a merenda escolar e, com orgulho, afirma: “Hoje eu sou mais eu”.</p>



<p>A poucos quilômetros dali, Sandra Moraes começou uma pequena revolução com uma única galinha emprestada pela sogra. Em dois anos, transformou o quintal em uma criação de galinhas de capoeira, conquistou clientes pela região e se tornou uma espécie de central de vendas da família. “Graças a Deus, hoje o problema não é vender. É produzir mais”, resume.</p>



<p>Já Petrúcia Oliveira, 31 anos, cresceu acompanhando os pais e os avós em reuniões comunitárias, intercâmbios e mutirões. Formada dentro das organizações da agricultura familiar, jamais imaginou ocupar um cargo público. No fim de 2024, recebeu um telefonema inesperado da prefeita de Juazeirinho e aceitou o desafio de comandar a Secretaria de Agricultura do município. “Se tivesse alguém lá dentro para provocar, já seria alguma coisa”, pensava.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><em>Localizado no Cariri paraibano, às margens da BR-230, Juazeirinho tem cerca de 17 mil habitantes, dos quais 45% vivem na zona rural. O município abriga 47 comunidades rurais e aproximadamente 1,4 mil estabelecimentos agropecuários, sendo 73% pertencentes à agricultura familiar. Predominam pequenas propriedades: quase sete em cada dez têm até 10 hectares. Inserido no Semiárido, Juazeirinho enfrenta chuvas irregulares e longos períodos de estiagem, condições que impulsionaram a adoção de estratégias de convivência com o clima, como cisternas, bancos comunitários de sementes e sistemas produtivos agroecológicos. Hoje, a forte organização comunitária e a agricultura familiar são marcas da identidade e da economia do município.</em></p>
        </div>
    </div>



<p>As três histórias são fortes e especiais, mas estão longe de serem únicas. Como as protagonistas dessa reportagem, outras famílias foram beneficiadas por projetos da sociedade civil organizada e por diversas políticas públicas. Ao longo de mais de duas décadas, cisternas, bancos comunitários de sementes, quintais produtivos, assistência técnica, mercados institucionais e organização comunitária ajudaram a transformar a vida de centenas de famílias agricultoras.</p>



<p>Ao contar as histórias de Maria de Fátima, Sandra e Petrucia, também estamos falando de uma população organizada em uma ampla rede de associações comunitárias, sindicatos, grupos de mulheres, cooperativas e outras organizações da sociedade civil, que desempenham papel central na promoção da agroecologia, na implementação de políticas públicas e no fortalecimento da agricultura familiar.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">A atuação do PATAC em Juazeirinho</span>

		<p><!-- wp:paragraph --></p>
<p><em>O PATAC (Programa de Aplicação de Tecnologias Apropriadas às Comunidades) atua em Juazeirinho há mais de duas décadas, assessorando agricultores e agricultoras familiares na construção de alternativas de convivência com o Semiárido. Em parceria com organizações locais, o trabalho contribuiu para fortalecer a Comissão Municipal da Agricultura Familiar, implantar cisternas para consumo e produção, criar bancos comunitários de sementes, fundos rotativos solidários, feiras agroecológicas e unidades de beneficiamento de alimentos. A entidade também apoia a formação de mulheres e jovens, a assessoria técnica agroecológica e a incidência em políticas públicas, ajudando a transformar a organização comunitária em um dos principais pilares do desenvolvimento rural do município.</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
	</div>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Maria de Fátima : “Hoje eu sou mais eu”</strong></h2>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="684" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/MZC_2455-1024x684.jpg" alt="" class="wp-image-75978" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/MZC_2455-1024x684.jpg 1024w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/MZC_2455-300x200.jpg 300w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/MZC_2455-768x513.jpg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/MZC_2455-1536x1026.jpg 1536w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/MZC_2455-2048x1368.jpg 2048w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/MZC_2455-150x100.jpg 150w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<p>A primeira coisa que chama a atenção na propriedade de Maria de Fátima é o jardim bem cuidado rodeando o terraço arejado onde ela recebe as visitas. De lá, é possível ver várias fruteiras, a cisterna que garante água nos momentos de seca e, um pouco mais afastada, a casa onde elas e as vizinhas produzem e armazenam as polpas de frutas que fornecem para as escolas do município. As coisas andam bem no quintal produtivo, que funciona segundo princípios agroecológicos, e também na sua vida pessoal. Mas nem sempre foi assim.</p>



<p>Maria de Fátima tem uma expressão que resume a própria vida. “Antes eu era cega e não me via.” Perto de completar 66 anos, ela fala da antiga Maria de Fátima como se estivesse descrevendo outra pessoa. Aquela mulher que saía de casa apenas para trabalhar no roçado, cuidava dos cinco filhos e passava os dias entre a cozinha e os afazeres domésticos não existe mais. “Meu trabalho era do roçado para casa e de casa para o roçado. Eu não me enxergava.”</p>



<p>Filha de agricultores, nascida e criada na comunidade Pedra d&#8217;Água, em Juazeirinho, no Cariri paraibano, Dona Fátima estudou apenas até a quarta série. Casou, criou os filhos e acreditou durante muito tempo que aquela era a vida que lhe cabia.</p>



<p>Tudo começou a mudar em 2006, quando um primo, então presidente da associação comunitária, insistiu para que ela participasse de uma reunião sobre a construção das primeiras cisternas para armazenamento de água de consumo. “Meu marido não queria que eu fosse. Naquele tempo as mulheres eram muito submissas. Mas, no terceiro convite, eu disse: agora eu vou.”</p>



<p>Foi nessa reunião que conheceu o Sindicato dos Trabalhadores Rurais e, depois, o PATAC. Vieram as reuniões, os intercâmbios, as viagens e os encontros com outras mulheres. “Foi aí que eu abri os olhos.”</p>



<p>Existe um outro ponto de ruptura que separa a antiga da nova Maria de Fátima. Durante décadas, ela acreditou que seus anos de escola haviam ficado para trás. O sonho de continuar estudando foi interrompido ainda na infância. O pai, frustrado por não ter conseguido fazer do filho mais velho o estudante que desejava, acabou não incentivando os demais. Já casada e com as crianças crescidas, ela decidiu recuperar o tempo perdido. Voltou para a sala de aula, estudando à noite, e concluiu os estudos em 2012. “Meu sonho era ser enfermeira”, conta. “Meu marido não queria muito, mas eu dizia: eu vou estudar. E fui.”</p>



<p>A chegada das cisternas, de primeira e segunda água, instaladas por meio do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2), da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), representou muito mais do que água perto de casa. Antes delas, Dona Fátima percorria mais de três quilômetros carregando latas na cabeça. Depois, os tanques de pedra foram recuperados. O quintal ganhou árvores frutíferas, caixas d&#8217;água e sistemas de armazenamento. Hoje, onde antes predominava a algaroba, crescem pés de acerola, pitanga, pinha, graviola, seriguela e araticum. “O povo diz que o Cariri não dá nada. Mas dá. Dá, sim.”</p>



<p>Com as frutas vieram as polpas, a participação na feira agroecológica e o fornecimento para o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Mais recentemente, os bolos produzidos por ela passaram a integrar a merenda das escolas do município.</p>



<p>Foi com o dinheiro desse trabalho que comprou uma vaca. Depois, uma máquina de lavar roupas. Em seguida, um armário e uma cristaleira. “Não tem preço você entrar numa loja e comprar uma roupa com o dinheiro do seu trabalho.”</p>



<p>A independência financeira veio acompanhada de outra conquista. “Antes eu tinha que esperar. Hoje não. Hoje eu compro minhas roupas, meus sapatos, o que eu quiser. Tudo fruto do meu trabalho.”</p>



<p>Ao longo da vida, Dona Fátima enfrentou dores que ainda a emocionam. Perdeu dois filhos e passou anos em um casamento marcado pelo machismo e pela dependência econômica. “Meu marido nunca levantou a mão para mim. Mas mulher não sofre só quando apanha.” Ela conta que muitas vezes engoliu o sofrimento para criar os filhos. “Eu pensava: se eu deixar esse homem, como vou criar meus meninos?”</p>



<p>Foi trabalhando fora, fazendo feira e contando com a ajuda do sogro que conseguiu garantir o sustento da família. “Ele nunca comprou uma caneta para um filho. Tudo foi fruto do meu trabalho.”</p>



<p>Hoje, vê com orgulho as filhas seguindo caminhos diferentes. E gosta de perceber que as mudanças alcançaram também as novas gerações. “Minha filha diz que se espelha em mim. E eu digo que guerreira é ela.”</p>



<p>Presidente da associação da comunidade, integrante da Comissão Municipal e participante de conselhos e atividades da igreja, Dona Fátima continua com a rotina intensa. Acorda às três da manhã, faz as orações, reza o rosário e, antes das seis, já está em atividade. “No dia em que eu parar, acho que me dá um troço.”</p>



<p>Quando lembra daquela mulher de antes de 2006, quando decidiu aceitar o terceiro convite para uma reunião, os olhos brilham. “Hoje eu sou mais eu.”</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="684" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/MZC_2398-1024x684.jpg" alt="" class="wp-image-75994" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/MZC_2398-1024x684.jpg 1024w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/MZC_2398-300x200.jpg 300w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/MZC_2398-768x513.jpg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/MZC_2398-1536x1026.jpg 1536w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/MZC_2398-2048x1368.jpg 2048w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/MZC_2398-150x100.jpg 150w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>
</div>

	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block"></span>

		<p><!-- wp:paragraph --></p>
<p><em><strong>Foto legenda:</strong></em></p>
<p><em>Conhecido na região como “o tanque do milagre”, o reservatório natural localizado na propriedade de Maria de Fátima nunca secou, mesmo nos períodos mais severos de estiagem. Em tempos difíceis, a água armazenada entre as pedras chegou a abastecer cinco famílias da comunidade Pedra d&#8217;Água. “Você tira água de manhã e, quando volta mais tarde, ele já está cheio de novo. Esse mistério só Deus sabe explicar”, diz a agricultora.</em></p>
	</div>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Sandra</strong>: &#8220;Hoje o problema não é vender. É produzir mais.”</h2>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="684" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/MZC_2485-1024x684.jpg" alt="" class="wp-image-76003" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/MZC_2485-1024x684.jpg 1024w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/MZC_2485-300x200.jpg 300w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/MZC_2485-768x513.jpg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/MZC_2485-1536x1026.jpg 1536w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/MZC_2485-2048x1368.jpg 2048w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/MZC_2485-150x100.jpg 150w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>
</div>


<p>Na primeira vez que participou de uma reunião do programa ATER Mulheres, Sandra da Silva Araújo Moraes ouviu falar sobre direitos, projetos e oportunidades para mulheres agricultoras. Mas quando voltou para casa, na comunidade Ilha Grande, em Juazeirinho (PB), estava frustrada por não ter os requisitos mínimos para acessar o programa de fomento rural. Ela não tinha o Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF), não tinha praticamente nenhuma produção e tampouco recursos para investir no sonho que carregava desde criança: criar galinhas. “Meu problema era começar. Eu tinha vontade, mas não tinha dinheiro.”</p>



<p>Foi então que aconteceu algo inusitado. Uma galinha da sogra, que morava na casa ao lado, resolveu por ovos no quintal de Sandra. “Eu disse: &#8216;Vou amarrar essa galinha para mim&#8217;. E ela respondeu: &#8216;Pode amarrar&#8217;.” A ave chocou 13 ovos e nasceram 12 fêmeas. E assim, quase por acaso, começou a pequena criação que hoje garante uma renda extra para a agricultora.</p>



<p>Filha de agricultores, Sandra nasceu em Poçinhos (PB). O pai era vaqueiro e a família vivia mudando de fazenda em fazenda. Quando tinha cerca de oito anos, chegou a Juazeirinho e nunca mais saiu. “Cresci na agricultura. Desde que me entendo por gente vivo disso.”</p>



<p>Mas, apesar da ligação com o campo, durante muitos anos ela esteve distante das reuniões, das formações e dos espaços de organização. “Eu não participava de nada. Nem acreditava que um dia fosse receber alguma coisa do governo.”</p>



<p>A primeira mudança veio através do programa ATER Mulheres, iniciativa voltada para a assistência técnica e para a autonomia econômica das agricultoras. Foi ali que Sandra começou a entender a importância da documentação e dos programas voltados para a agricultura familiar. “Até para fazer a CAF é difícil. Muitas vezes, a pessoa recebe um não e desiste. Foi nessas reuniões que comecei a entender meus direitos.”</p>



<p>Embora não tenha sido contemplada naquele primeiro momento, pouco tempo depois conseguiu ingressar no projeto Quintal das Margaridas, desenvolvido no território com apoio das organizações da agricultura familiar. Recebeu R$ 4,5 mil em fomento produtivo, além de assistência técnica e acompanhamento. “Pode parecer pouco. Mas, para uma mulher que nunca tinha recebido nada diretamente, foi uma conquista muito grande.’</p>



<p>Mais importante do que o dinheiro, diz ela, foram os encontros com outras mulheres. “A gente ria, se emocionava, desabafava. Era uma convivência muito boa.” Com o apoio do projeto e a experiência acumulada desde criança, Sandra começou a ampliar a criação.</p>



<p>Hoje tem cerca de cinquenta galinhas de capoeira e alguns perus. Os ovos e as aves abatidas abastecem consumidores de Juazeirinho, Campina Grande, João Pessoa e pessoas ligadas às redes de organizações da agricultura familiar. “Graças a Deus, hoje o problema não é vender. É produzir mais.”</p>



<p>Sandra faz questão de trabalhar apenas com galinhas de capoeira. “Não adianta enganar o cliente.” Ela explica que muitos compradores procuram os ovos por recomendação médica ou por buscar uma alimentação mais saudável. “Quem compra da gente quer a galinha verdadeira. Se descobrir que você misturou, nunca mais volta.”</p>



<p>Os conhecimentos adquiridos nas formações e na prática transformaram a agricultora em uma espécie de especialista em raças nativas. “Até pelo cheiro eu sei se é galinha de capoeira. É só abrir a panela.”</p>



<p>Mas criar os animais é apenas uma parte do trabalho. A outra é vender. E é justamente essa a parte de que ela mais gosta. Pelos status do WhatsApp, comercializa ovos, galinhas, leite, maxixe, coentro e cebolinha. Quando as irmãs não conseguem vender a produção, recorrem a ela. O mesmo acontece com o pai e a sogra. “Eu vendo tudo.”</p>



<p>O pai, que não usa redes sociais, faz as entregas. “Ele diz: &#8216;Você vende, que eu entrego&#8217;.” Com orgulho, Sandra conta que os clientes já entram nos status do WhatsApp para saber o que há disponível naquele dia. “Graças a Deus, tudo o que eu posto eu vendo.”</p>



<p>Em casa, a filha Isadora, de sete anos, parece seguir os passos da mãe. “Ela ama as galinhas. Vive dentro do galinheiro.” Já José Isaac, de 12 anos, prefere manter distância. “Ele morre de medo”, conta, entre risos.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><em>Sandra tem um forno agroecológico que tem um peso importante no orçamento doméstico ao ajudar na economia do gás de cozinha. O fogão foi construído com recursos de um fundo rotativo, que ela é a atual tesoureira, mantido por vinte pessoas da comunidade que, desde 2006, contribuem com R$ 5 todo mês</em></p>
        </div>
    </div>



<h2 class="wp-block-heading">Petrucia: “Alguém precisava estar lá dentro”</h2>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="684" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/MZC_2566-1024x684.jpg" alt="" class="wp-image-76001" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/MZC_2566-1024x684.jpg 1024w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/MZC_2566-300x200.jpg 300w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/MZC_2566-768x513.jpg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/MZC_2566-1536x1026.jpg 1536w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/MZC_2566-2048x1368.jpg 2048w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/MZC_2566-150x100.jpg 150w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>
</div>


<p>Nos últimos dois anos, a vida de Petrucia Nunes de Oliveira mudou quase por completo. Foi morar em uma casa nova, teve o primeiro filho e começou um trabalho que nunca imaginou exercer. E não foi um emprego qualquer.</p>



<p>No fim de dezembro de 2024, a agricultora e articuladora social de Juazeirinho recebeu um telefonema da prefeita Ana Virgínia convidando-a para assumir a Secretaria Municipal de Agricultura. Filha e neta de agricultores da comunidade Sussuarana, Petrucia jamais havia ocupado um cargo público. Na família, ninguém tinha tradição política. “Passei o fim de semana inteiro em crise”, lembra.</p>



<p>A decisão não era simples. Além de deixar o trabalho que desenvolvia junto às organizações da agricultura familiar, ela assumiria uma secretaria historicamente marcada por uma visão tradicional do campo, em um ambiente predominantemente masculino. Poucos meses depois, já no cargo, precisou interromper a rotina para o nascimento do filho. Em abril entrou em licença-maternidade. Retornou em agosto com um desafio ainda maior: aprender a equilibrar os cuidados com o bebê e a responsabilidade de conduzir uma das principais políticas públicas do município.</p>



<p>Mas a história de Petrucia com a agricultura começou muito antes daquele telefonema. Filha e neta de agricultores, cresceu acompanhando os pais e os avós em reuniões do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, intercâmbios promovidos pelo PATAC e atividades do Coletivo Regional. Enquanto outras crianças brincavam, ela ouvia conversas sobre bancos comunitários de sementes, cisternas, convivência com o Semiárido e organização comunitária. “Meu avô foi um dos primeiros a participar dos intercâmbios. Foi ele quem despertou em nós esse amor pela agricultura.”</p>



<p>Nascida em 1994, ela pertence à geração que já encontrou um território transformado pelas organizações da agricultura familiar. Participou da Comissão de Sementes, ajudou a criar a Comissão de Juventude do Coletivo e passou a integrar diferentes espaços de formação e articulação política. “Nossa preocupação nunca foi ocupar cargos. A gente queria que esse trabalho fosse reconhecido.”</p>



<p>Foi nesse período que as organizações decidiram estreitar o diálogo com a prefeita Ana Virgínia. Primeiro apresentaram o conjunto de experiências desenvolvidas no município. Depois a convidaram para conhecer, de perto, os quintais produtivos, os bancos de sementes, as tecnologias de acesso à água e as famílias agricultoras. “O olhar dela sobre a agricultura era muito ligado ao corte de terra e à limpeza de barreiros. Nós mostramos que existia outro lado da agricultura. Um lado capaz de proporcionar uma vida melhor para as famílias.”</p>



<p>O diálogo ganhou força durante o projeto Cultivando Futuros. Ao lado de agricultores, lideranças e organizações, Petrucia participou da reconstrução da história da agricultura familiar de Juazeirinho. O grupo revisitou a trajetória das políticas públicas no município, identificou os principais desafios e elaborou uma carta de propostas para orientar a atuação da gestão municipal. “Foi um momento muito bonito. A gente revisitou a história dos nossos pais e dos nossos avós.”</p>



<p>Petrucia jamais imaginou que, poucos meses depois, estaria do outro lado da mesa. “Eu ajudava a construir aquela carta construída durante o projeto Cultivando Futuros enquanto estava na sociedade civil. De repente, me vi do outro lado, tentando colocá-la em prática.”</p>



<p>Assim, estabeleceu como prioridades estão a implantação do Sistema de Inspeção Municipal, o fortalecimento do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), a ampliação da participação da agricultura familiar na Juacapri, os campos de multiplicação de palma e a adaptação das chamadas públicas para facilitar o acesso dos agricultores.</p>



<p>São mudanças discretas, mas que dialogam diretamente com as reivindicações construídas pelas organizações ao longo de mais de duas décadas. Ser mulher e jovem em um ambiente tradicionalmente ocupado por homens também trouxe desafios. “Às vezes as pessoas perguntam: &#8216;A secretária é você?’”</p>



<p>Enquanto esteve do lado de fora da prefeitura, seu papel era provocar. Agora, acredita que sua missão é abrir caminho para que a agricultura familiar deixe de ser uma pauta periférica e passe a ocupar um lugar permanente nas decisões do município. “Não quero ficar aqui para sempre. Mas, enquanto estiver, quero contribuir para fortalecer esse trabalho.”</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p>Esta reportagem foi produzida em parceria com a <a href="https://redeaterne.org.br/">Rede Ater Nordeste</a>.</p>
    </div>



<h3 class="wp-block-heading">Leia também:</h3>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/agroecologia-cria-raizes-em-itapipoca/" class="titulo">Agroecologia cria raízes em Itapipoca</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/semiarido/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Semiárido</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/em-valente-ba-a-seguranca-alimentar-comeca-na-escola/" class="titulo">Em Valente (BA), a segurança alimentar começa na escola</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/semiarido/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Semiárido</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/um-escudo-contra-as-mudancas-climaticas/" class="titulo">Um escudo contra as mudanças climáticas</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/clima/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Clima</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/articulacao-entre-ong-e-prefeitura-eliminou-ultraprocessados-da-merenda-escolar-em-cumaru/" class="titulo">Articulação entre ONG e prefeitura eliminou ultraprocessados da merenda escolar em Cumaru</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
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        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/a-peleja-da-agricultura-familiar-contra-os-salgadinhos-e-sucos-de-caixinha/" class="titulo">A peleja da agricultura familiar contra os salgadinhos e sucos de caixinha</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
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		<title>Agroecologia cria raízes em Itapipoca</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inês Campelo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 12 Jun 2026 15:23:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Agricultura Familiar]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Rede Ater]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Todas as quartas-feiras, ainda de madrugada, grupos de agricultores deixam suas propriedades espalhadas pela extensa zona rural de Itapipoca (CE) em direção à Praça Manoel Alves de Freitas, no centro da cidade. Antes mesmo do nascer do sol, montam as barracas de toldo verde que dão forma à Feira Agroecológica e Solidária, espaço que há [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Todas as quartas-feiras, ainda de madrugada, grupos de agricultores deixam suas propriedades espalhadas pela extensa zona rural de Itapipoca (CE) em direção à Praça Manoel Alves de Freitas, no centro da cidade. Antes mesmo do nascer do sol, montam as barracas de toldo verde que dão forma à Feira Agroecológica e Solidária, espaço que há duas décadas ajuda famílias agricultoras a escoar sua produção e garantir uma fonte direta de renda.</p>



<p>Mas a feira representa mais do que uma oportunidade de comercialização. Ela é o resultado de anos de organização comunitária, políticas públicas voltadas para o campo e do uso de tecnologias de convivência com o Semiárido. Por trás de cada produto exposto nas barracas estão histórias que ajudam a compreender como redes agroecológicas enfrentam o avanço da monocultura do coco, dos grandes empreendimentos turísticos e da expansão de projetos de energia eólica sobre seus territórios.</p>



<p>No dia em que a Marco Zero visitou a feira, 17 famílias participavam da atividade. São os próprios agricultores que organizam o funcionamento do espaço por meio de uma associação, contando com o apoio do Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador e à Trabalhadora (Cetra), organização que atua no fortalecimento da agricultura familiar e da agroecologia no Ceará. A autogestão é parte importante do processo de fortalecimento coletivo da feira e da autonomia dos próprios agricultores.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong><em>Localizado no noroeste do Ceará e conhecida como “terra dos três climas”, por integrar litoral, serra e sertão, Itapipoca ocupa uma área de 1.600,3 km² e é o 7º município cearense mais populoso. Segundo o Censo 2022, tem 131.041 habitantes, com 54.433 pessoas vivendo no campo (41,5% da população total) a maior população rural em números absolutos no estado.</em></strong></p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong><em>Itapipoca reúne 6.629 estabelecimentos agropecuários, dos quais 82% são da agricultura familiar, evidenciando a centralidade desse segmento na economia local. O território abriga ainda povos e comunidades tradicionais, como o povo indígena Tremembé da Barra do Mundaú e comunidades quilombolas na região serrana.</em></strong></p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
        </div>
    </div>



<p>Maria de Fátima Pinto da Silva, moradora da comunidade de Jenipapo Barrento, é um exemplo dessa trajetória. Ela participa da feira desde sua criação, há vinte anos. Sua aproximação com a agroecologia começou após participar de um curso de Agente Multiplicador de Agroecologia, que durou dois anos. “A gente fazia agroecologia e não sabia. Já tinha cuidado com a terra. Mas só descobri isso com o curso”.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="684" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Maria-de-Fatima-Pinto-da-Silva-1024x684.jpg" alt="" class="wp-image-75799" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Maria-de-Fatima-Pinto-da-Silva-1024x684.jpg 1024w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Maria-de-Fatima-Pinto-da-Silva-300x200.jpg 300w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Maria-de-Fatima-Pinto-da-Silva-768x513.jpg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Maria-de-Fatima-Pinto-da-Silva-150x100.jpg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Maria-de-Fatima-Pinto-da-Silva.jpg 1300w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<p>Hoje, Maria de Fátima divide seu tempo entre a barraca onde comercializa seus produtos e as atividades de coordenação da Feira Agroecológica de Itapipoca e da Rede de Feiras Agroecológicas do Ceará. Ela lembra que, no início, a feira acontecia a cada quinze dias. Com o passar dos anos, cresceu, se estruturou e passou a funcionar semanalmente.</p>



<p>O acesso a políticas públicas e programas voltados para a agroecologia costuma ser a principal porta de entrada para muitos agricultores que hoje participam da feira. O casal José Arildo e Leny, moradores do distrito de Calugi, é um exemplo disso.</p>



<p>A mudança começou com a chegada do Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC). Com maior oferta e regularidade no acesso à água, passaram a produzir hortaliças, coco e frutas. Também criam bodes e galinhas. “A cisterna mudou tudo, porque possibilitou que a gente plantasse durante o verão”, explica José Arildo.</p>



<p>Desde 2024, o casal participa da feira comercializando produtos cultivados no quintal, além de bolos, doces, tapiocas e café. Quando não estão na praça, vendem na própria casa ou em eventos, jogos e cavalgadas da região. A renda da família também é complementada pelo trabalho artesanal de Leny, que produz peças de crochê. “Temos que ser guerreiros. Fazer um pouquinho aqui, um pouquinho ali”, resume.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">O que é e o que faz o CETRA em Itapipoca</span>

		<p><!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong><em>O CETRA (Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador e à Trabalhadora) é uma organização da sociedade civil criada nos anos 1980, no Ceará, com atuação voltada para a agricultura familiar, a agroecologia, os direitos humanos e a convivência com o semiárido. Em Itapipoca, o CETRA atua há mais de quatro décadas. A organização teve papel importante na formação política de comunidades rurais e na luta pela terra, contribuindo para a criação de assentamentos da reforma agrária e oferecendo assessoria jurídica em conflitos fundiários, especialmente na defesa do povo Tremembé da Barra do Mundaú.</em></strong></p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong><em>A partir dos anos 2000, o trabalho se consolidou na promoção da agroecologia. O CETRA apoiou a criação da Feira Agroecológica e Solidária de Itapipoca, articulou a Rede de Agricultores/as Agroecológicos/as dos Vales do Curu e Aracatiaçu e desenvolveu ações de formação, assessoria técnica, quintais produtivos, sistemas agroflorestais e beneficiamento de alimentos. A organização também impulsionou tecnologias sociais de convivência com o semiárido, como cisternas e casas de sementes, além de fortalecer a participação de mulheres e juventudes rurais em processos de geração de renda, cultura alimentar e comunicação. Atualmente, o CETRA segue atuando na articulação de políticas públicas, na defesa dos territórios e na consolidação da agroecologia como estratégia de desenvolvimento sustentável no município</em></strong></p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
	</div>



<h3 class="wp-block-heading">Farmácia agroecológica</h3>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Maria-Dalva-Nascimento-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-75797" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Maria-Dalva-Nascimento-1024x683.jpg 1024w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Maria-Dalva-Nascimento-300x200.jpg 300w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Maria-Dalva-Nascimento-768x512.jpg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Maria-Dalva-Nascimento-150x100.jpg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Maria-Dalva-Nascimento.jpg 1300w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>
</div>


<p>Maria Dalva Nascimento tem 73 anos e mora na comunidade de Lagoa do Juá, na zona rural de Itapipoca, a cerca de 30 quilômetros da sede do município. Como a maioria dos agricultores que participam da feira, ela chega ao centro da cidade em caminhões pau-de-arara.</p>



<p>Conhecida como Dalvinha, mantém uma das barracas mais procuradas da Feira Agroecológica e Solidária. O espaço funciona como uma espécie de farmácia natural, onde comercializa folhas, sementes, pomadas, garrafadas e outros preparados produzidos a partir de plantas cultivadas em seu próprio quintal. “Tudo que a gente traz, a gente vende, graças a Deus”, diz.</p>



<p>Os produtos são resultado de conhecimentos acumulados ao longo da vida e aprofundados durante sua participação na Pastoral da Criança, onde aprendeu sobre as propriedades terapêuticas de diversas espécies medicinais. “Meus remédios são todos tirados daqui”, afirma, apontando para as plantas que cultiva em casa. Há cerca de oito anos na feira, Dalvinha diz que o trabalho vai muito além da renda complementar. “É uma terapia para mim.”</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Bula popular</span>

		<p><!-- wp:heading {"level":3} --></p>
<p><strong>Malva-santa</strong> – tosse e gripe</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Aranto</strong> – gastrite</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Semente de moringa</strong> – diabetes</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Mastruz</strong> – expectorante</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Pomada de aroeira</strong> – dores musculares e inflamações</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Farinha de caroço de abacate</strong> – anti-inflamatório e diurético</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Lambedor de jenipapo</strong> – tosse e gripe persistente</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Agrião</strong> – auxilia na digestão</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Garrafada medicinal</strong> – utilizada tradicionalmente contra infecções</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Óleo de coco</strong> – cuidados com a pele e os cabelos</p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
	</div>



<h3 class="wp-block-heading">Aprendizado e inovação</h3>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="684" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Inacia-Patricia-do-Nascimento-1-1024x684.jpg" alt="" class="wp-image-75805" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Inacia-Patricia-do-Nascimento-1-1024x684.jpg 1024w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Inacia-Patricia-do-Nascimento-1-300x200.jpg 300w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Inacia-Patricia-do-Nascimento-1-768x513.jpg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Inacia-Patricia-do-Nascimento-1-150x100.jpg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Inacia-Patricia-do-Nascimento-1.jpg 1300w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>
</div>


<p>Há dez anos, Inácia Patrícia do Nascimento participa da feira, onde comercializa bolos, lanches e outros alimentos produzidos por ela mesma. Agricultora familiar, encontrou na venda direta uma forma de agregar valor à produção e ampliar a renda da família.</p>



<p>Um dos diferenciais de seus produtos está na forma de embalagem. Em vez de utilizar filme plástico, Inácia recorre às folhas de bananeira. “Além de reduzir os custos, contribui para o meio ambiente e ainda fica mais bonito”, afirma.</p>



<p>Toda a produção é preparada em um fogão agroecológico recebido recentemente por meio de um projeto de apoio à agricultura familiar. Segundo ela, o equipamento trouxe uma economia significativa. “O botijão de gás durava quinze dias. Hoje dura um mês.”</p>



<p>Além da atividade produtiva, Inácia participa do sindicato e da associação comunitária. Para ela, o fortalecimento da agricultura familiar depende da combinação entre organização social e acesso às políticas públicas.</p>



<p>Ao longo dos anos, conseguiu participar de diferentes programas de apoio aos agricultores. Em 2012, ingressou no Brasil Sem Miséria, atualmente denominado Fomento Mulher, e utilizou os recursos para investir na criação de galinhas. Dois anos depois, passou a integrar o projeto Florestação, por meio do qual recebeu equipamentos para a produção de cajuína.</p>



<p>Sua trajetória é marcada pela busca constante por novos conhecimentos. “Ninguém sabe tudo. Estamos sempre aprendendo.” Para ela, a inovação faz parte da própria experiência agrícola. “Agricultor é um inovador. Fica sempre inventando coisas.”</p>



<p>Antes de ingressar na feira, Inácia já produzia em sua propriedade, mas não encontrava canais de comercialização. Começou vendendo galinhas e tapioca. Com o tempo, ampliou a variedade dos produtos e passou a investir em alimentos processados, como bolos e lanches, aumentando o valor agregado da produção.</p>



<p>Durante a pandemia de Covid-19, adaptou-se às novas formas de venda e passou a comercializar seus produtos também pela internet. A experiência permanece até hoje. “Quem não sabia mexer no celular teve que aprender”.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Tudo integrado</h3>



<p>Entrar na propriedade de José Oliveira da Costa, o Zezão, de 53 anos, e de Francisca Maria da Silva Oliveira, na comunidade de Lagoinha, é uma imersão na arte e na ciência de conviver com a escassez de água no Semiárido.</p>



<p>Em uma área de apenas quatro hectares, dos quais cerca de 40% são mantidos como reserva, praticamente tudo remete a alguma estratégia de aproveitamento dos recursos naturais ou a tecnologias sociais voltadas para a convivência com o clima da região.</p>



<p>A propriedade funciona segundo princípios agroecológicos e reúne uma série de iniciativas que se complementam. Há cisternas destinadas ao consumo humano e à produção agrícola, instaladas por meio do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2), da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA). A família também utiliza sistemas de reaproveitamento de águas cinzas e a tecnologia Bioágua, que permite reutilizar água doméstica na irrigação.</p>



<p>A gestão cuidadosa da água é uma das bases que sustentam toda a produção. Durante o período chuvoso, concentrado nos primeiros meses do ano, Zezão evita utilizar a água armazenada nas cisternas. O objetivo é preservar as reservas para o período de estiagem. Com segurança hídrica, a família consegue diversificar a produção e reduzir sua vulnerabilidade às oscilações climáticas.</p>



<p>Com mais água e os recursos de um programa de fomento acessado há cerca de um ano, Zezão implantou uma área de hortaliças e já planeja ampliar o cultivo. Atualmente produz cheiro-verde, pimenta-de-cheiro, pimentão, tomate, feijão e plantas medicinais, além de manter um pomar com diversas espécies frutíferas.</p>



<p>A lógica da agroecologia aparece em cada detalhe do manejo. As folhas recolhidas na área de reserva são utilizadas para proteger o solo e conservar a umidade. Restos orgânicos ganham nova função como adubo e fertilizante. As mudanças ficaram evidentes especialmente no pomar. “As laranjeiras nunca tinham segurado os frutos”, conta Zezão. “Depois que ensinaram a colocar cinza, borra de café e casca de ovo como fertilizante, as coisas mudaram. É um NPK natural.”</p>



<p>Além da agricultura, a família complementa a renda com outras atividades. Zezão produz carvão vegetal, recolhe esterco para adubação nas proximidades do açude e também pesca para consumo e venda. A produção atual atende às necessidades da casa e ajuda a abastecer os três filhos, que vivem nas proximidades. “Cada um na sua casa”.</p>



<p>A propriedade funciona como um sistema integrado. Hortaliças, pomar, plantas medicinais, flores ornamentais, área de floresta, roçado, viveiro de mudas e criação de animais compõem subsistemas conectados entre si. Resíduos tornam-se insumos, a água é aproveitada ao máximo e cada atividade fortalece as demais.</p>



<p>O resultado é um modelo produtivo baseado na diversidade, na autonomia e no uso eficiente dos recursos disponíveis, uma lógica bastante diferente daquela adotada pelos sistemas agrícolas de monocultura predominantes em outras áreas do município.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Caminho inverso</span>

		<p><em>A história da família também ajuda a compreender as transformações vividas pelo Semiárido nas últimas décadas. Em 2014, após anos vivendo em Fortaleza, Zezão e Francisca decidiram retornar para o campo. “Gostei demais da mudança. Não me arrependo”, afirma. “Tinha a agricultura no sangue.”</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><em>Segundo ele, o retorno só foi possível graças ao acesso à água proporcionado pelas tecnologias de convivência com o Semiárido. “Não faz mais sentido voltar para a cidade grande. Vou visitar meu filho e já fico com vontade de voltar.”</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><em>A decisão ganha ainda mais significado quando comparada à trajetória de seu pai, que deixou a região em 1978 fugindo da seca. Décadas depois, a família percorreu o caminho inverso: retornou ao campo atraída justamente pelas condições que hoje permitem produzir, gerar renda e viver no Semiárido.</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
	</div>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignleft size-large is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" width="684" height="1024" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Neta-de-Zezao-684x1024.jpg" alt="" class="wp-image-75800" style="aspect-ratio:0.667986798679868;width:403px;height:auto" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Neta-de-Zezao-684x1024.jpg 684w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Neta-de-Zezao-200x300.jpg 200w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Neta-de-Zezao-768x1150.jpg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Neta-de-Zezao-150x225.jpg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Neta-de-Zezao.jpg 868w" sizes="auto, (max-width: 684px) 100vw, 684px" /></figure>
</div>


<p>Para Maria do Socorro Ferreira Lima, a Socorrinho, coordenadora do P1+2 no território e integrante do Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador e à Trabalhadora (Cetra), o sucesso de experiências como a da família Oliveira não se explica apenas pela instalação de equipamentos. “Os projetos chegam não apenas para construir cisternas. Chegam para formação. Os agricultores também estão inseridos nas comunidades. São lideranças”, afirma.</p>



<p>A atuação comunitária faz parte da rotina de Zezão. Ele participa do Sindicato dos Trabalhadores Rurais e coordena uma casa de sementes, espaço coletivo dedicado à preservação, multiplicação e troca de variedades adaptadas às condições locais.</p>



<p>Na avaliação de Socorrinho, esse componente organizativo é tão importante quanto as tecnologias implantadas. “Quando a água chega acompanhada de formação, organização comunitária e troca de conhecimentos, ela produz muito mais do que alimentos. Produz autonomia.”</p>



<h2 class="wp-block-heading">Além do coco</h2>



<p>A experiência de Zezão e Francisca está longe de ser um caso isolado. Em maior ou menor grau, a lógica da agroecologia se espalha por diferentes comunidades rurais de Itapipoca, adaptando-se às características de cada território.</p>



<p>No Assentamento Maceió, no Sítio do Coqueiro, o quintal de Darliene e de sua mãe, Maria das Dores dos Santos, demonstra como pequenas áreas podem concentrar uma impressionante diversidade de produção.</p>



<p>Desde 2024, a família participa do projeto Quintal das Margaridas, iniciativa baseada nos princípios dos sistemas agroflorestais, que combina produção de alimentos, conservação ambiental e geração de renda.</p>



<p>Em uma caminhada pelos cerca de dois hectares da propriedade é possível encontrar abacaxi, limão, seriguela, goiaba, batata-doce, maxixe, abóbora, milho e coqueiros. A diversidade é resultado de um processo gradual de transformação da área. “Já existiam os coqueiros. Agora estamos tentando dar vida ao quintal plantando outras coisas”, explica Darliene. A mudança só foi possível graças ao acesso à irrigação, que ampliou as possibilidades de cultivo e permitiu a introdução de novas espécies.</p>



<p>A propriedade também incorpora tecnologias voltadas para o aproveitamento de recursos e a redução de custos. Um dos destaques é o biodigestor, instalado por meio de um projeto da Rede de Feiras Agroecológicas. O equipamento utiliza resíduos vegetais e dejetos dos animais criados na propriedade para produzir biogás. “Para a gente ser agricultor, tem que criar animais”, diz Darliene. Segundo ela, a tecnologia teve impacto direto no orçamento doméstico. “Desde que o biodigestor chegou, não compro mais gás.”</p>



<p>Outro equipamento presente no quintal é o minhocário, utilizado na produção de húmus, fertilizante orgânico empregado no cultivo das diversas espécies plantadas na área.</p>



<p>Além de abastecer a própria família, parte da produção é comercializada na Feira Agroecológica e Solidária de Itapipoca. Outra parte circula por meio de trocas com vizinhos e agricultores da comunidade.</p>



<p>Os cocos colhidos na propriedade também geram renda. Parte deles é destinada à produção artesanal de óleo. Mas essa já é outra história.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Balanço do Coqueiro</h3>



<p>Bem perto do quintal de Darliene funciona uma iniciativa que reúne cultura, trabalho coletivo e geração de renda. O som que antes marcava o ritmo dos tambores e das apresentações culturais hoje também acompanha o funcionamento de prensas, raspadores e liquidificadores industriais. Foi desse encontro entre tradição e reinvenção que nasceu o Balanço do Coqueiro, grupo de mulheres que transformou o coco em fonte de renda e fortalecimento comunitário.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="684" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Maria-Darliene-dos-Santos-verde-Rojane-Alves-dos-Santos-branco-Barbara-Maria-Alves-da-Silva-roxo-e-Rejiane-Alves-do-Nascimento-rosa-1024x684.jpg" alt="" class="wp-image-75798" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Maria-Darliene-dos-Santos-verde-Rojane-Alves-dos-Santos-branco-Barbara-Maria-Alves-da-Silva-roxo-e-Rejiane-Alves-do-Nascimento-rosa-1024x684.jpg 1024w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Maria-Darliene-dos-Santos-verde-Rojane-Alves-dos-Santos-branco-Barbara-Maria-Alves-da-Silva-roxo-e-Rejiane-Alves-do-Nascimento-rosa-300x200.jpg 300w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Maria-Darliene-dos-Santos-verde-Rojane-Alves-dos-Santos-branco-Barbara-Maria-Alves-da-Silva-roxo-e-Rejiane-Alves-do-Nascimento-rosa-768x513.jpg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Maria-Darliene-dos-Santos-verde-Rojane-Alves-dos-Santos-branco-Barbara-Maria-Alves-da-Silva-roxo-e-Rejiane-Alves-do-Nascimento-rosa-150x100.jpg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Maria-Darliene-dos-Santos-verde-Rojane-Alves-dos-Santos-branco-Barbara-Maria-Alves-da-Silva-roxo-e-Rejiane-Alves-do-Nascimento-rosa.jpg 1300w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>
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<p>A história começou em 2010, quando o Balanço do Coqueiro surgiu como um grupo de percussão, arte e cultura. Formado por jovens, mulheres e crianças da comunidade, o coletivo tinha como objetivo fortalecer vínculos sociais e valorizar as expressões culturais locais. “Eu sou uma das mais antigas. Entrei no começo e estou até hoje”, conta Rojane Alves do Nascimento, atualmente presidente da Associação de Moradores do Sítio Coqueiro.</p>



<p>O beneficiamento do coco veio alguns anos depois. Em 2017, a partir de projetos de apoio e capacitação, surgiu a ideia de transformar uma matéria-prima abundante na região em produtos com maior valor agregado. “Primeiro veio o grupo cultural. Depois vieram os projetos que permitiram transformar o coco em produto”, explica Rojane.</p>



<p>No início, tudo era feito de forma improvisada. Como não havia recursos para comprar matéria-prima, as integrantes utilizavam cocos retirados de suas próprias propriedades. Com o tempo, o grupo passou a adquirir o produto de agricultoras da comunidade, estabelecendo uma relação comercial que fortalece a economia local. Atualmente, paga R$ 1 por coco descascado, valor superior ao oferecido por atravessadores, que costumam pagar entre R$ 0,30 e R$ 0,50 pela unidade.</p>



<p>Hoje, o Balanço do Coqueiro produz óleo de coco, farinha e sabonetes artesanais. O principal produto é o óleo extraído por prensagem a frio, técnica que preserva melhor as propriedades nutricionais quando comparada ao método tradicional de cozimento.</p>



<p>Versátil, o óleo é utilizado tanto na alimentação quanto nos cuidados com a pele e os cabelos, dialogando com conhecimentos tradicionais presentes há gerações na comunidade.</p>



<p>A produção exige escala e organização. Cada litro de óleo demanda cerca de 16 cocos secos e maduros. Vendidos in natura, esses cocos renderiam aproximadamente R$ 16. Transformados em óleo, porém, ganham valor agregado: uma garrafa de 300 mililitros é comercializada atualmente por R$ 25.</p>



<p>A rotina de trabalho é intensa e coletiva. Quatro mulheres formam o núcleo permanente da produção, mas outras pessoas da comunidade colaboram em etapas como limpeza, transporte e comercialização.</p>



<p>Não há divisão rígida de funções. “Todo mundo faz de tudo”, resume Rojane. As integrantes ralham, prensam, embalam e vendem os produtos. Ao final do processo, as despesas são descontadas e o lucro é dividido igualmente. Dependendo da demanda e da disponibilidade de matéria-prima, a produção pode chegar a dez litros de óleo por dia.</p>



<p>Se no começo o trabalho acontecia no alpendre da casa de uma das integrantes, hoje o grupo conta com uma unidade própria de beneficiamento, inaugurada em 2021. O espaço foi viabilizado por iniciativas como o projeto Ecoforte, em parceria com o Banco do Brasil, além do apoio do Cetra e do Projeto São José, do Governo do Ceará. A estrutura reúne prensa, raspadores elétricos, liquidificador industrial, balança e seladora, permitindo ampliar a produção e melhorar as condições de trabalho.</p>



<p>O reconhecimento já ultrapassou os limites da comunidade. Em 2023, o grupo recebeu um prêmio na categoria Sustentabilidade durante a Naturaltech, uma das principais feiras do setor no país. Também levou seus produtos para eventos em estados como São Paulo, Pernambuco e Pará, além de Brasília.</p>



<p>A comercialização ocorre em diferentes espaços: na própria comunidade, em feiras locais e regionais e em uma feira mensal realizada em Fortaleza. O grupo também organiza sua própria feira no assentamento, fortalecendo redes de economia solidária e o intercâmbio entre produtores.</p>



<p>Apesar dos avanços, os desafios permanecem. Atualmente, o grupo busca adequar a unidade às exigências sanitárias necessárias para ampliar a comercialização. A obtenção das certificações permitiria acessar novos mercados, incluindo supermercados e vendas para outras regiões do país. A formalização da atividade por meio de um CNPJ também está em discussão.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Onde a luta virou escola</strong></h2>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="684" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Aluna-da-escola-Brolhos-merendando-1024x684.jpg" alt="" class="wp-image-75787" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Aluna-da-escola-Brolhos-merendando-1024x684.jpg 1024w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Aluna-da-escola-Brolhos-merendando-300x200.jpg 300w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Aluna-da-escola-Brolhos-merendando-768x513.jpg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Aluna-da-escola-Brolhos-merendando-150x100.jpg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Aluna-da-escola-Brolhos-merendando.jpg 1300w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>
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<p>Enquanto um grupo de crianças usando adereços indígenas desfruta alegremente a merenda escolar, Ezequiel Tremembé mostra orgulhoso a irrigação que alimenta o sistema agroflorestal da Escola Indígena Brolhos da Terra, em Itapipoca, no litoral oeste do Ceará. As fruteiras e hortaliças crescem graças à água reaproveitada da própria escola, transformada em fonte de produção de alimentos que, mais tarde, vão parar nos pratos dos alunos.</p>



<p>Para quem chega hoje ao território Tremembé da Barra do Mundaú, a cena pode até parecer corriqueira. Mas ela é resultado de uma luta que atravessou mais de duas décadas e opôs um povo indígena a um dos maiores empreendimentos turísticos já projetados para o litoral brasileiro. “Somos uma geração que estudou debaixo do cajueiro e hoje é professor”, resume Ezequiel, de 31 anos. Quando era criança, caminhava longas distâncias para estudar em espaços improvisados. Hoje, coordena o projeto Ensino Vivo na escola onde a agroecologia faz parte do currículo e da alimentação dos estudantes.</p>



<p>A escola consome alimentos produzidos no próprio território e também recebe produtos cultivados por agricultores indígenas por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Macaxeira, frutas, ovos e galinha caipira ajudam a compor a merenda e fortalecem a economia local. A relação entre educação, produção de alimentos e defesa do território não surgiu por acaso. Ela foi construída em meio a um dos conflitos fundiários mais emblemáticos do Ceará.</p>



<p>No início dos anos 2000, um consórcio internacional anunciou a implantação do projeto Nova Atlântida, um megacomplexo turístico que prometia transformar a região na chamada “Cancún brasileira”. Resorts de luxo, campos de golfe e grandes estruturas de lazer ocupariam uma área sobreposta ao território tradicional Tremembé. A proposta veio acompanhada da promessa de desenvolvimento e empregos. Mas, para os indígenas, significava a perda da terra e do modo de vida construído ao longo de gerações.</p>



<p>Foi nesse contexto que os mais velhos da comunidade tomaram uma decisão que mudaria a história do território. Reunidos sob um cajueiro, escolheram mulheres para liderar a resistência. “Se os homens fossem para a linha de frente, poderia haver confronto e mortes”, lembra Cleideane Tremembé, hoje professora e coordenadora da escola. A estratégia funcionou. Em vez de uma estrutura concentrada em um cacique, a comunidade fortaleceu uma liderança coletiva, protagonizada por mulheres.</p>



<p>Durante anos, elas enfrentaram pressões políticas, ameaças e tentativas de convencimento para que o empreendimento fosse aceito. A resistência contou com o apoio de organizações parceiras, do movimento indígena e de instituições públicas. Em 2015, o território recebeu a portaria declaratória do Ministério da Justiça. O reconhecimento definitivo viria anos depois, com a homologação da Terra Indígena Tremembé da Barra do Mundaú, com 3.580 hectares.</p>



<p>A conquista, no entanto, não encerrou a disputa. A região continua pressionada pela especulação imobiliária, pelo turismo irregular e por projetos de infraestrutura que avançam sobre a zona costeira. A própria comunidade observa com preocupação os impactos provocados por grandes empreendimentos em áreas vizinhas. Para as lideranças, a experiência reforça a necessidade de construir alternativas próprias de desenvolvimento. É nesse ponto que a agroecologia ganha centralidade.</p>



<p>No território, ela aparece nos quintais produtivos, nos sistemas agroflorestais, no aproveitamento da água da chuva, na produção de alimentos para a escola e na valorização dos conhecimentos tradicionais. Também se manifesta em iniciativas de geração de renda, como a produção artesanal do óleo de bateputá e os projetos conduzidos por jovens agricultores. Durante a pandemia, quando a aldeia precisou restringir a circulação de pessoas, a busca por autonomia alimentar tornou-se ainda mais urgente. A produção local passou a ser vista não apenas como fonte de renda, mas como garantia de permanência no território.</p>



<p>Na escola, essa visão é ensinada desde cedo. As crianças aprendem a plantar, colher, cuidar das plantas medicinais e conhecer os lugares sagrados do povo Tremembé. O território inteiro é parte do processo educativo. Mais do que preservar tradições, a comunidade busca formar novas gerações capazes de defender a terra conquistada e enfrentar os desafios que continuam surgindo.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="684" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Adriana-Tremembe-1024x684.jpg" alt="" class="wp-image-75786" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Adriana-Tremembe-1024x684.jpg 1024w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Adriana-Tremembe-300x200.jpg 300w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Adriana-Tremembe-768x513.jpg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Adriana-Tremembe-150x100.jpg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Adriana-Tremembe.jpg 1300w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>
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<h3 class="wp-block-heading"><strong>Entrevista | Adriana Tremembé:</strong> <em>“Governador passa. Empresa passa. Mas o povo Tremembé permanece”</em></h3>



<p>Há 25 anos na luta pela demarcação da Terra Indígena Tremembé da Barra do Mundaú, Adriana Tremembé tornou-se uma das principais referências da resistência indígena no litoral oeste do Ceará. Aos 54 anos, ela integra a geração de mulheres que assumiu a linha de frente do enfrentamento ao megaprojeto turístico Nova Atlântida e ajudou a conduzir a comunidade até a homologação do território, em 2023. Nesta entrevista, Adriana fala sobre as conquistas da luta, a defesa do território e os desafios que permanecem.</p>



<p><strong>Qual foi a maior conquista do povo Tremembé nos últimos anos?</strong></p>



<p>A maior conquista foi a homologação da nossa terra. Hoje ela está homologada, registrada e estamos avançando no processo de desintrusão. Isso significa que o Estado reconheceu oficialmente que esse território pertence aos povos indígenas que vivem aqui. É uma conquista construída por muitas mãos e por pessoas que já nem estão mais entre nós, mas que abriram esse caminho.</p>



<p><strong>Por que a luta pela terra era tão importante?</strong></p>



<p>Porque sem território não existe nada. A gente pode ter escola, saúde e outros direitos, mas, se não tiver a terra garantida, tudo fica ameaçado. O território é onde está nossa história, nossa espiritualidade, nossos alimentos e nossa cultura. É ele que sustenta tudo.</p>



<p><strong>O conflito com o empreendimento Nova Atlântida mudou a comunidade?</strong></p>



<p>Mudou muito. Foi um período muito difícil. Havia muita pressão e muita violência. Eles queriam implantar um grande projeto turístico aqui dentro e não consideravam nossa existência. Foi nesse momento que as mulheres assumiram a linha de frente da luta. Entendemos que, se colocássemos os homens para enfrentar diretamente aquele conflito, poderia haver mortes. Então as mulheres seguiram à frente e o território inteiro se organizou para resistir.</p>



<p><strong>O território continua ameaçado?</strong></p>



<p>Sim. A especulação imobiliária continua existindo. Existem pressões ligadas ao turismo, a grandes empreendimentos e a outros interesses econômicos. Nossa terra está numa área muito cobiçada da zona costeira. Por isso a luta não terminou com a homologação.</p>



<p><strong>Qual é o papel da escola nesse processo?</strong></p>



<p>A escola é fundamental porque ela ajuda a manter viva nossa história. Não ensinamos apenas português ou matemática. Ensinamos também nossa cultura, nossa espiritualidade, o Torém, os conhecimentos tradicionais e a importância de defender o território. É assim que garantimos que os jovens continuem essa luta.</p>



<p><strong>Depois de tantos anos de mobilização, o que mantém vocês firmes?</strong></p>



<p>A certeza de que estamos defendendo algo que pertence às futuras gerações. Governador passa. Empresa passa. Mas o povo Tremembé permanece. Essa é a força que nos faz continuar.</p>
</blockquote>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Do fruto da mata ao sustento da aldeia</strong></h3>



<p>Quem vê aquela pequena fruta amarela espalhada pela mata da Barra do Mundaú talvez não imagine seu potencial. Do Bateputá, planta nativa e tradicional do território Tremembé, famílias indígenas produzem artesanalmente um óleo utilizado tanto na alimentação quanto como remédio caseiro para inflamações, dores e problemas de garganta.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="684" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Ezequiel-Tremembe-professor-1024x684.jpg" alt="" class="wp-image-75790" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Ezequiel-Tremembe-professor-1024x684.jpg 1024w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Ezequiel-Tremembe-professor-300x200.jpg 300w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Ezequiel-Tremembe-professor-768x513.jpg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Ezequiel-Tremembe-professor-150x100.jpg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Ezequiel-Tremembe-professor.jpg 1300w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<p>Nascido e criado entre os pés de Bateputá, Samuel Nascimento de Castro aprendeu desde cedo os saberes tradicionais ligados à terra encontrou na agricultura uma forma de construir seu futuro sem precisar deixar a comunidade. Hoje, sua propriedade reúne uma diversidade de cultivos e criações, que variam de acordo com a época do ano, além da produção do óleo de Bateputá, comercializado no próprio território, em festas e feiras da região.</p>



<p>Ao perceber a necessidade de ampliar a produção de alimentos, Samuel tomou uma decisão arriscada. Vendeu as 40 galinhas poedeiras que criava para investir na implantação de uma mandala produtiva com criação de tilápias. A iniciativa surgiu após conhecer experiências semelhantes e identificar o potencial de integrar diferentes sistemas de produção.</p>



<p>O risco foi compensado algum tempo depois, quando ele foi contemplado pelo programa São José Jovem, política pública do Governo do Ceará voltada para jovens empreendedores rurais. Com os recursos recebidos, conseguiu reconstruir sua estrutura de criação de galinhas e fortalecer a produção familiar.</p>



<p>Mas a trajetória de Samuel não se limita à própria propriedade. Primeiro jovem a presidir o conselho indígena do território, ele ajudou a aproximar a comunidade de editais e políticas públicas voltadas para a agricultura familiar e a segurança alimentar.</p>



<p>Durante a pandemia de Covid-19, quando a aldeia permaneceu fechada por cerca de oito meses, a necessidade de produzir o próprio alimento tornou-se ainda mais evidente. A partir dessa experiência, foram fortalecidos projetos voltados à cultura alimentar, com incentivo a quintais produtivos, áreas coletivas de cultivo e outras iniciativas de autonomia produtiva.</p>



<p>Entre essas políticas está o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) Indígena, iniciativa do governo federal que compra alimentos produzidos pelas comunidades indígenas para distribuição a famílias em situação de vulnerabilidade e instituições públicas. Samuel também comercializa parte de sua produção por meio do programa.</p>



<p>“O PAA Indígena é um trabalho de fortalecimento da nossa cultura”, afirma. Para ele, a alimentação vai muito além da nutrição. “Quando você come bem, além de se alimentar, você se cura.” Segundo Samuel, valorizar os alimentos produzidos no território significa também fortalecer a identidade indígena. “É um resgate da nossa ancestralidade através da alimentação. Fortalece nossa luta e nossa identidade.”</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p>Esta reportagem foi produzida em parceria com a <a href="https://redeaterne.org.br/">Rede Ater Nordeste</a>.</p>
    </div>



<h2 class="wp-block-heading">Leia também:</h2>



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            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

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                <a href="https://marcozero.org/em-valente-ba-a-seguranca-alimentar-comeca-na-escola/" class="titulo">Em Valente (BA), a segurança alimentar começa na escola</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
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        </div>

		


        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

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                <a href="https://marcozero.org/um-escudo-contra-as-mudancas-climaticas/" class="titulo">Um escudo contra as mudanças climáticas</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
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            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

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			</item>
		<item>
		<title>1.465 barragens subterrâneas ajudam a evitar desertificação da Caatinga</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 14 May 2026 14:46:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Articulação do Semiárido (ASA)]]></category>
		<category><![CDATA[barragem subterrânea]]></category>
		<category><![CDATA[caatinga]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Semiárido]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Era um deserto com um pé de jurema e areia, agora é uma área rica com árvores nativas, frutíferas e hortaliças que crescem o ano todo”. É assim que o agricultor Sebastião Damasceno, 70 anos, resume o impacto da barragem subterrânea na sua propriedade no Sítio Cabaceiro, em Santana do Ipanema, Alagoas. Sebastião é um [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>“Era um deserto com um pé de jurema e areia, agora é uma área rica com árvores nativas, frutíferas e hortaliças que crescem o ano todo”. É assim que o agricultor Sebastião Damasceno, 70 anos, resume o impacto da barragem subterrânea na sua propriedade no Sítio Cabaceiro, em Santana do Ipanema, Alagoas.</p>



<p>Sebastião é um dos primeiros beneficiários do Programa Um Terra e Duas águas (P1+2) da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), e testemunha da importância da barragem subterrânea para a restauração e preservação da Caatinga. “Na época do meu pai tinham alguns barreiros na região, mas era preciso andar meia légua com o carro de boi para buscar água salobra. Para beber, a gente tinha que comprar. Quando herdei a terra, entendi que precisava lutar pela Caatinga”, afirma o agricultor.</p>



<p>Consciente do seu papel, seu Sebastião só precisava descobrir qual a estratégia para guardar a água que caía nos poucos meses de chuva na sua propriedade sem agredir o ecossistema. “Como eu tenho um baixio que pegava a água da barragem quando vazava, mas se perdia, eu me perguntava como fazer o barramento dessa água”, conta.</p>



<p>A resposta veio em 2006, quando ele conheceu a barragem subterrânea na sede da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Semiárido, em Petrolina, sertão de Pernambuco. Sebastião estava participando de um curso de formação promovido pela Cooperativa dos Pequenos Produtores Agrícolas Bancos Comunitários de Sementes (Coppabacs).</p>



<p>Desde então, em 19 anos, as organizações sociais que integram a ASA ajudaram a construir 1.465 barragens desse tipo em propriedades da agricultura familiar no interior do Nordeste e de Minas Gerais. Os recursos que viabilizaram esse programa vieram do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS) e da Fundação Banco do Brasil.</p>



<p>“A minha barragem subterrânea foi uma das primeiras do Nordeste. São quase 20 anos que eu tenho água boa para plantar milho, feijão, inhame, fava, batata e muitas outras coisas”. Segundo ele, a tecnologia ajuda a preservar a Caatinga porque faz com que o terreno pareça uma esponja. “Os animais voltaram a aparecer e o clima melhorou”, comemora seu Sebastião.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O que é uma barragem subterrânea?</h2>



<p>A barragem subterrânea é feita a partir da escavação de uma vala até a camada impermeável do solo. Essa abertura é forrada por uma lona de plástico e depois fechada novamente. Por fim, é construído o sangradouro de alvenaria na parte onde a água passa com mais força e por onde o excesso dela vai escorrer.</p>



<p>Essa estrutura, geralmente construída entre 30 metros e 50 metros, cria uma barreira capaz de reter a chuva que escorre e se infiltra no solo, deixando a área encharcada. No período mais seco do ano, os agricultores contam com poços para extrair a água.</p>



<p>“Em uma barragem convencional de espelho d&#8217;água superficial a evaporação leva boa parte dessa água, na subterrânea isso não acontece. Outra vantagem é que a mesma área de captação é a área de plantio”, explica a agrônoma e pesquisadora da Embrapa Solos, Sônia Lopes.</p>



<p>Ao transformar áreas secas e arenosas, mais suscetíveis ao processo de desertificação, a barragem subterrânea contribui com a regeneração da Caatinga de baixo para cima. Segundo Sônia, o aumento do nível da água no lençol freático desencadeia uma série de benefícios: combate a erosão e o assoreamento, retenção de nutrientes e matéria orgânica, e aumento da umidade do solo.</p>



<p>“Estamos falando de uma tecnologia social híbrida que dá ao agricultor a possibilidade de produzir alimentos ao mesmo tempo que regenera e traz de volta a vida na Caatinga, começando pelos micro-organismos do solo que impactam o bioma em cima, na superfície. Isso favorece o nascimento de várias formas de vida e atrai pequenos animais como, por exemplo, insetos e mamíferos”, destaca Sônia.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="640" height="480" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/ASA-barragens-embrapa.jpg" alt="" class="wp-image-75442" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/ASA-barragens-embrapa.jpg 640w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/ASA-barragens-embrapa-300x225.jpg 300w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/ASA-barragens-embrapa-150x113.jpg 150w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /><figcaption class="wp-element-caption">Barragens subterrânea da Embrapa, em Petrolina (PE)</figcaption></figure>
</div>


<h3 class="wp-block-heading">O app GuardeÁgua</h3>



<p>De acordo com Sônia, o maior desafio para ampliar o número de novas barragens subterrâneas na Caatinga está na identificação de áreas adequadas para comportar a tecnologia. A eficácia do reservatório depende fundamentalmente da existência de rochas nas camadas mais profundas do solo.</p>



<p>Com o avanço da emergência climática, acelerar o mapeamento dessas regiões é crucial para fortalecer as ações de convivência com o semiárido e reverter a degradação. Conforme dados do MapBiomas, entre 1985 e 2023 a Caatinga perdeu 14,4%, ou 8,6 milhões de hectares, de sua cobertura vegetal nativa.</p>



<p>Para ajudar a localizar novas áreas adequadas a receber as barragens, pesquisadores, técnicos de campo e agricultores estão recorrendo à tecnologia da informação, mais precisamente, ao uso de software. “Este ano começamos a usar o aplicativo <a href="https://www.embrapa.br/busca-de-solucoes-tecnologicas/-/produto-servico/13132/aplicativo-guardeagua" target="_blank" rel="noreferrer noopener">GuardeÁgua</a>, uma iniciativa da Embrapa, ASA e do MDS, que está disponível para Android e na versão web, e auxilia na identificação das áreas ideais para a construção de barragem subterrânea. Em quatro meses de uso, já tivemos mais de 600 acessos e vamos ter muito mais, pois realizaremos um ciclo de capacitações nos territórios”, afirma Sônia.</p>
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		<title>Dívida milionária com energia e sucateamento do sistema de irrigação ameaçam 50 mil sertanejos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 10 Apr 2026 19:49:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Chesf]]></category>
		<category><![CDATA[eletrobras]]></category>
		<category><![CDATA[irrigação]]></category>
		<category><![CDATA[Itaparica]]></category>
		<category><![CDATA[privatização]]></category>
		<category><![CDATA[rio são francisco]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Há mais de um mês os moradores da vila agrícola de Barreiras, em Petrolândia, sertão do São Francisco, se revezam em uma espécie de vigília em uma das estradas do município. Todo dia, dois ou três moradores passam o dia vigiando se algum veículo da concessionária Neoenergia passa pelo caminho que leva até a estação [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Há mais de um mês os moradores da vila agrícola de Barreiras, em Petrolândia, sertão do São Francisco, se revezam em uma espécie de vigília em uma das estradas do município. Todo dia, dois ou três moradores passam o dia vigiando se algum veículo da concessionária Neoenergia passa pelo caminho que leva até a estação de bombeamento 05, que integra o sistema de Itaparica. A ideia é interceptar alguma tentativa de corte da energia elétrica: a conta do projeto (como são chamados os assentamentos) Barreiras está atrasada há mais de quatro meses e já ultrapassa R$ 1 milhão.</p>



<p>Os desligamentos de energia são tão temidos porque podem colocar em risco as lavouras, já que toda a água da região vem do sistema de irrigação, que necessita de energia para o bombeamento. “Se for uma plantação de ciclo curto, como melancia e as hortas, dois ou três dias já podem arruinar a colheita”, diz a agricultora Maria Siulene da Silva, moradora de Barreiras.</p>



<p>O medo em Barreiras e nos outros assentamentos aumentou há duas semanas, quando o outro projeto, o Brígida, em Orocó, passou dois dias sem eletricidade, após o corte da Neoenergia. “Nós estamos com uma liminar da Justiça que proíbe o desligamento por se tratar de água também para consumo humano. Mas mesmo assim a Neoenergia fez o corte”, lamentou o agricultor e técnico agropecuário José Dionísio Silva, diretor do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Orocó por dois mandatos e presidente da primeira associação do projeto Brígida.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-09-at-14.35.59-1024x576.jpeg" alt="" class="wp-image-75165" style="width:756px;height:auto" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-09-at-14.35.59-1024x576.jpeg 1024w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-09-at-14.35.59-300x169.jpeg 300w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-09-at-14.35.59-768x432.jpeg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-09-at-14.35.59-150x84.jpeg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-09-at-14.35.59.jpeg 1280w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption">Agricultores de Barreiras fazendo vigília para evitar corte de energia.</figcaption></figure>
</div>


<p>“Já tivemos vários cortes. No ano passado, passamos seis meses fazendo vigília na subestação do Brígida, que alimenta também o projeto Fulgêncio, que é metade do sistema de Itaparica, no município de Santa Maria da Boa Vista. Ficamos três dias sem energia durante o verão, mas conseguimos uma liminar e a energia voltou”, contou José Dionísio.</p>



<p>Os dez projetos do Sistema Itaparica começaram a ser criados há 40 anos quando o Governo Federal retirou mais de 10,4 mil famílias que moravam nas áreas que foram usadas para a implantação e enchimento do reservatório de Itaparica, e da construção da Usina Hidrelétrica (UHE) Luiz Gonzaga, inaugurada pela Chesf em 1988.</p>



<p>Hoje, são mais de 50 mil pessoas que ocupam uma área de 150 quilômetros em três municípios do sertão da Bahia e de Pernambuco. Todos são agricultores e agricultoras familiares, com lotes pequenos, que variam de 1,5 hectare a 6 hectares. Plantam comida: melancia, feijão, milho, amendoim, abóbora, tomate, cebola, coco. O projeto Fulgêncio já recebeu o prêmio de maior produtor de banana de Pernambuco e é o quarto maior produtor dessa fruta do Brasil. Sem eletricidade, não há irrigação e, consequentemente, não há água para as plantações.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block"></span>

		<p><span style="font-weight: 400;">O Sistema Itaparica compreende perímetros irrigados distribuídos em dez municípios localizados ao longo de uma faixa de 150 quilômetros do sertão dos estados da Bahia e de Pernambuco. Foram dez projetos irrigados implantados pela Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (CHESF) e operados pela Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (CODEVASF) na região do submédio do São Francisco.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><strong>Na Bahia:</strong> Glória, Rodelas, Abaré e Curaçá<br />
</span><span style="font-weight: 400;"><strong>Em Pernambuco:</strong> Petrolândia, Tacaratu, Floresta, Belém do São Francisco, Orocó e Santa Maria da Boa Vista</span></p>
	</div>



<p>Os cortes de energia por falta de pagamento não são de hoje. Em 2017, por exemplo, houve um corte geral nos perímetros. “Isso levou os moradores a derrubarem uma torre de alta tensão de energia, para chamar a atenção do governo&#8221;, lembra Dionísio. O custo operacional total dos perímetros irrigados, com manutenção e pagamento de energia, gira em torno de R$ 80 milhões por ano.</p>



<p>Só de dívidas de energia os perímetros acumulam mais de R$ 40 milhões. “Essa dívida segue em nome da Codevasf, que diz não ter recursos alocados para esse pagamento. Diz para a gente ir atrás de emendas parlamentares, de buscar outras formas de pagar essa conta”, diz José Dionísio. </p>



<p>A maioria da dívida está hoje do lado de Pernambuco. “Na Bahia, a dívida é de R$ 14 milhões. Está menor porque o deputado Mário Negromonte Júnior (PSB), que é filho de família de reassentados, tem destinado quase a totalidade da verba das suas emendas parlamentares para o pagamento da energia nos projetos”, conta o agricultor Hélio Santos, presidente do Conselho de Administração da Associação dos Usuários do Perímetro Irrigado Pedra Branca, de Curaçá, na Bahia.</p>



<p>Em maio do ano passado, o Governo Federal chegou a pagar R$ 40 milhões de dívidas de energia, mas desde então as contas seguem se acumulando. Só no projeto Pedra Branca a conta de energia elétrica é de aproximadamente R$ 1 milhão, por mês.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Realocação cheia de falhas</h2>



<p>Para entender como agricultores familiares do sertão estão ameaçados por uma dívida milionária, é preciso entender como esse reassentamento foi realizado. A construção da usina e do reservatório de Itaparica foi uma obra colossal. A Chesf, então uma empresa pública, liderou o programa de reassentamento para realocação dessas famílias. Um programa cheio de falhas que, hoje, comprometem a subsistência de mais de 50 mil sertanejos e a economia dos municípios da região.</p>



<p>Há anos, agricultores e agricultoras que foram reassentados denunciam o descumprimento de obrigações contratuais por parte da Chesf, apontando falhas graves na regularização fundiária e na manutenção das infraestruturas de irrigação, que se encontram obsoletas ou sucateadas. “Até hoje há famílias que não receberam os documentos do lote”, dizHélio, que conta que a situação dos reassentados ficou mais tensa a partir de 2022 com a privatização da Eletrobras, a acionista majoritária da Chesf.</p>



<p>Naquele ano, o Conselho de Administração da Eletrobras determinou a suspensão do pagamento dos serviços de operação e manutenção do sistema de Itaparica. Apesar dos acordos estabelecidos décadas antes, a empresa entendeu, unilateralmente, que os projetos não seriam mais responsabilidade dela. Ainda em 2022, representantes dos reassentados sugeriram um cronograma de repasse da gestão, que, até hoje, não foi acordado entre o Governo Federal e a Axia Energia, novo nome da Eletrobras, que ainda tem o governo como acionista minoritário.</p>



<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile"><figure class="wp-block-media-text__media"><img loading="lazy" decoding="async" width="576" height="1024" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-09-at-16.09.26-576x1024.jpeg" alt="" class="wp-image-75166 size-full" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-09-at-16.09.26-576x1024.jpeg 576w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-09-at-16.09.26-169x300.jpeg 169w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-09-at-16.09.26-768x1365.jpeg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-09-at-16.09.26-864x1536.jpeg 864w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-09-at-16.09.26-150x267.jpeg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-09-at-16.09.26.jpeg 900w" sizes="auto, (max-width: 576px) 100vw, 576px" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p>Passados tantos anos da estruturação dos projetos de irrigação, a situação é de sucateamento e deterioração dos equipamentos de irrigação. O Governo Federal alocava recursos no orçamento da União para a Codevasf, que era responsável por realizar processos licitatórios e contratar empresas para realizar a operação e manutenção dos sistemas de irrigação. Nos últimos dois anos, porém, a Codevasf iniciou um processo de &#8220;repassar a chave&#8221; dos perímetros para os próprios agricultores.</p>



<p>Mas essa manutenção do sistema, que deveria ser especializada, está hoje sendo feita pelos próprios reassentados, de forma voluntária. “Cada um paga R$ 100 por lote para a associação, não dá para contratar profissionais para fazer a manutenção. Nós mesmos que fazemos”, conta Maria Siulene.</p>
</div></div>



<p>Pelo contrato de privatização, há a previsão de revitalização do rio São Francisco com investimento de R$ 350 milhões anuais, ao longo de dez anos. Quem decide para onde vai esse dinheiro é o Comitê de Contas do São Francisco, um colegiado composto por representantes de diversos ministérios do Governo Federal, articulado junto à Casa Civil. Hélio afirma que este dinheiro, contudo, não está indo para honrar os compromissos com os reassentados. Além da dívida com a energia, há vazamentos, tubulações enferrujadas, necessidade de troca dos tubos de irrigação – uma urgência geral de revitalização do sistema.</p>



<p>“Estamos chamando essas reabilitações nos equipamentos de <em>retrofit</em>. No lugar onde precisar trocar, tem que trocar. No lugar onde precisa melhorar, tem que melhorar, revitalizar. O que precisamos hoje é trocar o sistema e, de fato, conseguir o subsídio de energia”, diz Hélio. “Se não resolver essa situação do <em>retrofit</em> ainda neste ano, eu não sei se no ano que vem os perímetros conseguem produzir&#8221;, alerta. Há alguns anos, conta Hélio, a Codevasf foi a responsável por realizar o levantamento do custo do <em>retrofit</em>, orçando as obras necessárias em aproximadamente R$ 300 milhões de reais.</p>



<p>Para Hélio, o subsídio para energia é imprescindível para a permanência das famílias agricultoras na terra. Feito de forma apressada, o reassentamento não definiu os lotes da forma mais econômica energeticamente. Há terras irrigadas que ficam muito distantes das estações de bombeamento, em lugares altos, o que demanda bastante energia. Uma conta impossível de ser paga por quem vive das plantações. “Precisamos também que o governo veja outras alternativas, como fontes de energia renováveis”, diz José Dionísio.</p>



<p>Em outros lugares, o sistema de irrigação foi feito de forma errada para o tipo de plantação.O projeto Comandante, em Petrolândia, é descrito por Hélio Santos como um desastre. “O local não recebe água direito para irrigação nem para o consumo humano há 12 anos. Os moradores precisam ser abastecidos por carros-pipa”, diz ele, relatando que as plantações de coco do projeto foram perdidas. “As plantas morreram de sede porque a água não chegava como deveria”, diz.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/os-desertos-do-sertao/" class="titulo">Os desertos do sertão</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/clima/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Clima</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<h2 class="wp-block-heading"><strong>Seminário vai discutir situação dos agricultores</strong></h2>



<p>Neste fim de semana (11 e 12 de abril), o município de Petrolândia (PE) sedia o 1º Seminário Todos por Itaparica. O evento é considerado uma importante aposta de diálogo entre os principais interessados na resolução de um acordo para os reassentados. “Em fevereiro, fomos em comitiva para Brasília e batemos na porta dos gabinetes de políticos, do governo e da sociedade civil, fazendo os convites para o seminário”, contou Hélio Santos.</p>



<p>“Em relação à aprovação do uso do dinheiro da Axia Energia, conseguimos o apoio de vários ministérios, como o de Minas e Energia, Meio Ambiente, Agricultura. Mas a pauta do <em>retrofit </em>segue travada na Casa Civil”, lamenta. “Os nossos principais desafios nesse seminário são a aprovação do <em>retrofit</em> e a questão do pagamento das contas de energia”, destaca Hélio.</p>



<p>Já confirmaram presença representantes dos governos Federal, Estadual e prefeituras da região, Codevasf, sindicatos, comunidades tradicionais Indígenas e quilombolas, associações de agricultores, apicultores, piscicultores e outros, sociedade civil organizada e paróquias e organizações religiosas. O seminário também tem sido divulgado pela diocese do município de Floresta.</p>



<p>Entre os principais temas que serão debatidos no seminário estão a infraestrutura hídrica e energética; a manutenção dos sistemas de irrigação; a sustentabilidade produtiva da região e o fortalecimento da agricultura irrigada; as políticas públicas para o setor e a aprovação do projeto de <em>retrofit</em> para reabilitação dos perímetros irrigados do Sistema Itaparica.</p>



<p>O seminário acontece na Escola EREM Maria Cavalcanti Nunes, na rua Capitão José de Souza Ferraz, 17, no centro de Petrolândia. Em ambos os dias, os debates começam às 8h e são abertos ao público.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" width="768" height="1024" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/04/Itaparica-4-768x1024.jpeg" alt="" class="wp-image-75177" style="width:636px;height:auto" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/04/Itaparica-4-768x1024.jpeg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/04/Itaparica-4-225x300.jpeg 225w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/04/Itaparica-4-640x853.jpeg 640w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/04/Itaparica-4-150x200.jpeg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/04/Itaparica-4.jpeg 930w" sizes="auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px" /><figcaption class="wp-element-caption">Os próprios agricultores estão fazendo manutenção nas tubulações</figcaption></figure>
</div>


<p></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Recife sedia seminário sobre alternativas para territórios semiáridos da América Latina</title>
		<link>https://marcozero.org/recife-sedia-seminario-sobre-alternativas-para-territorios-semiaridos-da-america-latina/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Apr 2026 19:01:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Centro Sabiá]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Plataforma Semiáridos]]></category>
		<category><![CDATA[Semiárido]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Representantes de territórios indígenas, comunidades camponesas, organizações da sociedade civil e governos locais de regiões da América Latina estão no Recife para discutir alternativas para as regiões semiáridas do continente no seminário América Latina desde os Territórios: clima, sistemas alimentares e governança. O encontro acontecerá na sede da organização não governamental Habitat para a Humanidade [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Representantes de territórios indígenas, comunidades camponesas, organizações da sociedade civil e governos locais de regiões da América Latina estão no Recife para discutir alternativas para as regiões semiáridas do continente no seminário <em>América Latina desde os Territórios: clima, sistemas alimentares e governança.</em></p>



<p>O encontro acontecerá na sede da organização não governamental Habitat para a Humanidade Brasil, no centro do Recife, nesta quarta-feira, 8 de abril. De acordo com os organizadores, Centro Sabiá e Plataforma Semiáridos da América Latina, o objetivo do seminário é “ampliar perspectivas sobre os desafios e as respostas construídas nos territórios secos diante da crise climática, com atenção especial aos sistemas alimentares, à autonomia territorial e às formas de governança política emergentes”.</p>



<p>Entre as organizações confirmadas estão a <a href="https://www.instagram.com/fundapaz.arg/">Fundapaz</a> (Argentina), <a href="https://www.instagram.com/fundeorg/">Fundación Nacional para el Desarollo</a> (El Salvador), <a href="https://islaurbana.org/">Isla Urbana</a> (México) e as brasileiras <a href="https://cetra.org.br/">Cetra</a>, <a href="https://www.instagram.com/adessu.baixaverde/">Associação de Desenvolvimento Rural Sustentável da Serra da Baixa Verde</a>, <a href="https://www.instagram.com/patacagroecologia/">Patac Agroecologia</a> e Conselho Indígena Tremembé.</p>



<p>As discussões devem focar tanto no compartilhamento de experiências para reduzir os impactos da crise climática nos sistemas alimentares e vêm sendo afetados pela crise climática quanto em estratégias de fortalecimento das capacidades políticas e de governança dos territórios secos.</p>



<p>Para Carlos Magno Morais, coordenador do Centro Sabiá e integrante da mesa de governança da Plataforma Semiáridos América Latina, o encontro tem um papel estratégico não apenas pelo que mobiliza no presente, mas também pelo que projeta para o futuro. “Ele nos prepara para a <em>Caatinga Climate Week</em>, que acontecerá em julho, em Caruaru, e que vem se consolidando como um espaço fundamental para posicionar a Caatinga no centro do debate climático global. Mas, antes disso, Recife cumpre aqui uma função essencial: a de escuta das vozes dos semiáridos da América Latina, que historicamente foram tratadas como zonas de sacrifício, mas que hoje se afirmam como territórios de soluções”, pontua Morais.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>A <a href="https://www.semiaridos.org/pt-br/">Plataforma Semiáridos</a> é uma articulação com mais de 15 organizações sociais espalhadas por dez países que possuem regiões semiáridas que conectam países e povos da América Latina. Foi criada com objetivo de revelar e sistematizar as experiências vinculadas à utilização e à gestão dos territórios nas regiões, fortalecer a sociedade civil, gerar propostas e incidir nas políticas públicas. Busca atender os desafios das organizações indígenas e camponesas, em relação ao acesso, uso e gestão da terra, ao território e aos recursos naturais.</p>
        </div>
    </div>



<p></p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/recife-sedia-seminario-sobre-alternativas-para-territorios-semiaridos-da-america-latina/">Recife sedia seminário sobre alternativas para territórios semiáridos da América Latina</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Em Valente (BA), a segurança alimentar começa na escola</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inês Campelo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 29 Dec 2025 18:15:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Agricultura Familiar]]></category>
		<category><![CDATA[Rede Ater]]></category>
		<category><![CDATA[segurança alimentar]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Quando a <a href="https://www.gov.br/mec/pt-br/assuntos/noticias/2025/outubro/lei-amplia-compra-da-agricultura-familiar-para-o-pnae" target="_blank" rel="noreferrer noopener">lei</a> que amplia de 30% para 45% o percentual mínimo dos recursos do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) destinados à compra direta de alimentos da agricultura familiar entrar em vigor, em 1º de janeiro de 2026, muitas cidades brasileiras terão de se desdobrar para cumprir a nova exigência. Valente (BA), porém, não deve enfrentar esse desafio. O município, localizado a 260 quilômetros de Salvador, já superou esse percentual em 2024 e tende a ampliar o desempenho em 2025, segundo dados ainda em consolidação. No ano passado, Valente recebeu R$ 943.668,00 do PNAE, dos quais R$ 454.493,83 foram destinados à compra de produtos da agricultura familiar &#8211; o equivalente a 48,16% do repasse anual.</p>



<p>Por trás desse investimento está um contexto que vai além do cumprimento da lei. Em Valente, assim como em outras partes do país, há sinais de redução no consumo de alimentos saudáveis e aumento da presença de produtos industrializados na dieta da população, além de mudanças nos canais de comercialização, com perda de espaço do autoconsumo e dos circuitos curtos. Diante desse cenário, fortalecer a merenda escolar como política pública de abastecimento local surge como uma das principais oportunidades para ampliar o acesso à comida de verdade e consolidar a segurança alimentar no município.</p>



<p>Outro fator decisivo para que o desempenho de Valente na alimentação escolar não seja fruto do acaso é o processo histórico de organização da agricultura familiar e de fortalecimento das políticas públicas locais. Ao longo das últimas décadas, agricultores e agricultoras se estruturaram em associações, cooperativas e grupos produtivos, muitos deles impulsionados por entidades da sociedade civil, o que garantiu diversidade, regularidade e capacidade de fornecimento ao mercado institucional. “Aqui, a política pública não funciona sozinha. Se não tivesse uma sociedade civil organizada, esses resultados não existiriam”, afirma a secretária municipal de Educação, Cultura, Esporte e Lazer, Maura da Silva Miranda.</p>



<p>Além da base social e produtiva, o município investiu na qualificação da gestão da alimentação escolar, tratando a merenda como eixo estruturante da política de segurança alimentar. Valente ampliou a equipe de nutricionistas, incluiu a produção local no planejamento dos cardápios e estruturou um sistema próprio de armazenamento e distribuição, com câmara fria, carro refrigerado e controle rigoroso da entrega dos alimentos. “A gente precisava ter domínio sobre o que chega à escola, na quantidade certa, com qualidade e segurança alimentar”, explica Maura. Segundo ela, essa estrutura é decisiva para viabilizar a compra de produtos da agricultura familiar, especialmente alimentos <em>in natura</em>. “Quando você organiza a logística e garante armazenamento adequado, você reduz desperdício e dá segurança tanto para quem produz quanto para quem consome”, completa.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>Localizado no Território do Sisal, no semiárido da Bahia, o <a href="https://cidades.ibge.gov.br/ranking-resumido/download.html?cod=2933000" target="_blank" rel="noopener">município de Valente</a> ocupa uma área de aproximadamente 395 km². Inserido no bioma Caatinga, o território é marcado por vegetação adaptada à escassez de água, como jurema-preta, licuri, caroá e cactáceas, fundamentais para o equilíbrio ambiental da região. O clima é quente e semiárido, com chuvas irregulares que variam entre 600 e 700 milímetros por ano e temperaturas que podem oscilar de 17 °C a 35 °C. Os solos, geralmente rasos, pedregosos e pobres em nutrientes, somados à presença de águas subterrâneas salobras, impõem desafios à produção agrícola e exigem práticas de manejo adequadas para evitar degradação e desertificação. Segundo o Censo de 2022, Valente tem 24.362 habitantes, com pouco mais de um terço da população vivendo na zona rural, mantendo modos de vida fortemente ligados à agricultura familiar e à convivência com o semiárido.</p>
        </div>
    </div>



<h2 class="wp-block-heading">A história que ajuda a explicar o presente</h2>



<p>Para entender como Valente desenvolveu uma sociedade civil tão forte, é preciso voltar um pouco no tempo e conhecer a história da comunidade rural de Papagaio. Distante 10 quilômetros da sede do município, Papagaio ocupa lugar estratégico na trajetória de organização social de Valente. Foi ali que, em 1972, a construção da Casa de Areia Branca se tornou um espaço de encontros, formações e articulação política promovidos pelo Movimento de Evangelização Rural (MER), contribuindo diretamente para o fortalecimento do movimento sindical e para a chamada “Tomada do Sindicato”, em 1975, quando agricultores assumiram o comando do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Décadas depois, Papagaio continuou a se destacar como território de inovação social e produtiva, com experiências como casas de farinha, grupos de beneficiamento de alimentos e iniciativas lideradas por mulheres que articulam economia solidária, agroecologia e políticas públicas como o PNAE.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="684" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Associacao-de-Mulheres-de-Papagaio-1024x684.jpg" alt="Seis mulheres que fazem parte da Associação de Mulheres abores da Terra pousando para foto. Elas seguram pequenos potes com os produtos produzidos por elas. Na parede atrás delas a logomarca da associação pintada em tons terrosos." class="wp-image-74055" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Associacao-de-Mulheres-de-Papagaio-1024x684.jpg 1024w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Associacao-de-Mulheres-de-Papagaio-300x200.jpg 300w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Associacao-de-Mulheres-de-Papagaio-768x513.jpg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Associacao-de-Mulheres-de-Papagaio-150x100.jpg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Associacao-de-Mulheres-de-Papagaio.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption">A Sabores da Terra mudou a realidade de mais de 30 famílias na comunidade de Papagaio, zona rural de Valente, BA.</figcaption></figure>



<p>Atualmente, são dois grupos de beneficiamento de alimentos: o Sabores da Terra e o Delícias da Mandioca, ambos compostos por mulheres vinculadas à Associação Comunitária de Papagaio. O objetivo era aproveitar o excedente de frutas como umbu, acerola, tamarindo, manga e caju e, ao mesmo tempo, gerar trabalho e renda para as famílias. Hoje, os dois empreendimentos beneficiam diretamente doze mulheres e 30 famílias da comunidade.</p>



<p>Eliete Oliveira, presidente da Associação e também do Conselho de Segurança Alimentar de Valente, lembra que, em 2007, quando surgiu o Sabores da Terra com apoio da APAEB (Associação de Desenvolvimento Sustentável e Solidário da Região Sisaleira), a situação das mulheres da comunidade era bem mais complicada. “As mães de família viviam com o Bolsa Família, passando necessidade, e não tinham condições de sair para trabalhar em outra comunidade porque não tinham transporte. Algumas mulheres não podiam sair porque os maridos não deixavam.” Hoje, elas vendem sua produção para a prefeitura de Valente, por meio do PNAE, para mercados locais e lojas em outras cidades.</p>



<p>Josielma Lima é uma dessas integrantes do grupo que teve sua vida transformada pelo projeto. Entrou em 2009, ainda adolescente. Hoje, com 32 anos, é mãe de três filhos e dedica parte do seu tempo à cozinha industrial montada na sede do Sabores da Terra, produzindo polpa de frutas congelada, sequilhos e uma diversidade de alimentos feitos com produtos da agricultura familiar. Além do reforço na renda familiar e do sentimento de empoderamento que compartilha com as outras mulheres do grupo, Josielma sente orgulho de ajudar a produzir alimentos de qualidade que seus filhos estão comendo na escola.</p>



<p>Ela conta que a filha mais velha, Laís, de 16 anos, já no ensino médio na Escola Wilson Lins, é tão fã da comida do Sabores da Terra que busca “informações privilegiadas” em casa. “Ela chega perguntando: ‘mãe, que dia vai ser aquele bolinho?’”, conta Josielma, referindo-se ao cupcake vendido para o PNAE e que se tornou o carro-chefe do cardápio entregue nas escolas do município.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Fundação APAEB e Rede ATER em Valente</span>

		<p>A Fundação APAEB (Associação de Desenvolvimento Sustentável e Solidário da Região Sisaleira) e as organizações que integram a Rede ATER Nordeste têm desempenhado papel central na construção de políticas e estratégias voltadas à segurança alimentar e ao fortalecimento da agricultura familiar em Valente. No município, essa atuação se materializa por meio do projeto Cultivando Futuros – Transição agroecológica justa em sistemas alimentares do Semiárido brasileiro, que busca promover a agroecologia, fortalecer a soberania alimentar e ampliar a incidência das organizações da sociedade civil sobre as políticas públicas locais.</p>
<p>Executado em parceria com a AS-PTA e com apoio da organização alemã Brot für die Welt, o projeto integra uma rede de 12 organizações da Rede ATER Nordeste que atuam em 20 municípios do Semiárido. Em Valente, a iniciativa tem contribuído para criar espaços de diálogo entre agricultores familiares, poder público e sociedade civil, como oficinas temáticas, fóruns multiatores e a própria audiência pública sobre segurança alimentar e nutricional realizada no município.</p>
<p>A atuação da Fundação APAEB e da Rede ATER também se concentra na análise da efetividade das políticas públicas existentes, como o PNAE, o PAA, o acesso à água por meio de cisternas e mecanismos de proteção à renda, a exemplo do Garantia-Safra. O objetivo é identificar avanços, limites e oportunidades para ampliar o acesso a alimentos saudáveis, fortalecer os mercados institucionais e valorizar a produção agroecológica local.</p>
	</div>



<h2 class="wp-block-heading">Do quintal de casa para a escola</h2>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Renilton-de-Araujo-e-familia-1024x683.jpg" alt="Família de agricultores, pai, mãe, dois filhos e dois netos, pousa para foto em um curral de cabras. Eles estão embaixo de um árvore." class="wp-image-74013" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Renilton-de-Araujo-e-familia-1024x683.jpg 1024w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Renilton-de-Araujo-e-familia-300x200.jpg 300w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Renilton-de-Araujo-e-familia-768x512.jpg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Renilton-de-Araujo-e-familia-150x100.jpg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Renilton-de-Araujo-e-familia.jpg 1312w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption">Reury Araújo, de 12 anos, com a família na propriedade em que criam cabras. Produção vai parar na sua alimentação escolar</figcaption></figure>



<p>Quem também come na escola o que vê sendo produzido em casa é Reury Araújo, de 12 anos, estudante do Centro Educacional Santa Rita de Cássia. Ele adora o iogurte de leite de cabra. “Quando tem, eu caio matando. Não sobra nada. Se pudesse, repetia”, conta, com orgulho. “Eu sempre falo para os meus amigos que o leite é lá de casa.” Ele não pode garantir, já que outros produtores locais também fornecem o produto, mas imagina que pode estar tomando leite de seu próprio animal de estimação. “Eu tenho uma cabra que se chama Estrelinha.”</p>



<p>Mas, para essa garrafinha de iogurte chegar à escola de Reury e de seus colegas de classe, há muito trabalho e política pública envolvidos. Tudo começa na pequena propriedade que o pai dele, Renilton Araújo, divide com a família para criar pouco mais de 30 cabeças de cabra, de onde tira uma média de 60 litros de leite por dia.</p>



<p>Na propriedade de Renilton existe um resfriador de leite com capacidade para armazenar mil litros. O equipamento, instalado pela <a href="https://www.dacabra.com.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Associação Comunitária Caprinocultura Solidária – Laticínio DaCabra,</a> é compartilhado com o irmão, Ricael, e com outros seis produtores vizinhos que trabalham de forma cooperada. Dia sim, dia não, uma equipe do Laticínio DaCabra recolhe a produção e leva para o beneficiamento, onde o leite é pasteurizado e transformado em queijos, doces e, claro, no iogurte que Reury tanto gosta.</p>



<p>O Laticínio DaCabra, criado nos anos 2000 pela APAEB, tem transformado a vida dos pequenos produtores locais. Além de comprar o leite cru, promove capacitações sobre manejo adequado dos animais, oferece assistência técnica às famílias, disponibiliza atendimento veterinário aos rebanhos e facilita a compra de ração, reduzindo os custos com insumos. A associação também paga um valor acima do mercado: Renilton vende o litro por R$ 3,51, enquanto atravessadores costumam pagar cerca de R$ 2,00. “Se não fosse a cooperativa, o preço do litro estaria a uns R$ 0,50”, calcula.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="684" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Os-irmaos-Renilton-e-Ricael-trabalham-em-familia-com-criacao-de-cabras_-68PQ-1024x684.jpg" alt="Na imagem um homem jovem, de boné e camisa de botão, segura um deposito de leite de cabra que ele ordenhou. Do lado direito da imagem a cabra ainda no loca de ordenha." class="wp-image-74016" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Os-irmaos-Renilton-e-Ricael-trabalham-em-familia-com-criacao-de-cabras_-68PQ-1024x684.jpg 1024w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Os-irmaos-Renilton-e-Ricael-trabalham-em-familia-com-criacao-de-cabras_-68PQ-300x200.jpg 300w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Os-irmaos-Renilton-e-Ricael-trabalham-em-familia-com-criacao-de-cabras_-68PQ-768x513.jpg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Os-irmaos-Renilton-e-Ricael-trabalham-em-familia-com-criacao-de-cabras_-68PQ-1536x1026.jpg 1536w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Os-irmaos-Renilton-e-Ricael-trabalham-em-familia-com-criacao-de-cabras_-68PQ-150x100.jpg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Os-irmaos-Renilton-e-Ricael-trabalham-em-familia-com-criacao-de-cabras_-68PQ.jpg 2005w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption">Ricael vende o leite de cabra para produção de iogurte, queijos e doces</figcaption></figure>



<p>A família de Reury também acessa outras políticas públicas voltadas ao pequeno agricultor. Recentemente, conseguiu liberar um financiamento do programa de Fomento às Atividades Produtivas Rurais, do governo da Bahia. São duas parcelas, de R$ 2.600,00 e R$ 2.000,00, sem necessidade de ressarcimento. Com esse recurso, os irmãos pretendem ampliar a sala de ordenha, murar e aumentar a área coberta onde as cabras circulam. Agora, aguardam apenas o dinheiro cair na conta.</p>



<p>Tanto Renilton quanto Ricael aprenderam a criar cabras com o pai, Salvador Araújo, e a mãe, dona Eleonice, que estão no ramo há mais de 20 anos. Seu Salvador lembra do tempo em que colocava o leite em uma moto e saía para vender a produção — antes da cooperativa. Eram tempos mais difíceis. Tanto que outros dois filhos do casal foram tentar a vida em São Paulo, onde permanecem até hoje, repetindo um caminho comum a muitos jovens da região.</p>



<p>Agora, com as coisas melhorando, Reury já sonha em seguir na agricultura familiar e se prepara para entrar na Escola Família Agrícola Avani de Lima Cunha (EFA Valente). Na escola, que funciona em regime de semi-internato, ele passaria 15 dias na instituição e 15 dias em casa. Sairia de lá como técnico agrícola, preparado para ampliar os negócios da família e, no futuro, quem sabe, produzir seu próprio iogurte.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Os-irmaos-Renilton-e-Ricael-trabalham-em-familia-com-criacao-de-cabras_-55PQ-1024x683.jpg" alt="Rebanho de cabras brancas em curral. Ao fundo uma plantação de agave. O céu etá nublado." class="wp-image-74015" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Os-irmaos-Renilton-e-Ricael-trabalham-em-familia-com-criacao-de-cabras_-55PQ-1024x683.jpg 1024w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Os-irmaos-Renilton-e-Ricael-trabalham-em-familia-com-criacao-de-cabras_-55PQ-300x200.jpg 300w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Os-irmaos-Renilton-e-Ricael-trabalham-em-familia-com-criacao-de-cabras_-55PQ-768x512.jpg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Os-irmaos-Renilton-e-Ricael-trabalham-em-familia-com-criacao-de-cabras_-55PQ-150x100.jpg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Os-irmaos-Renilton-e-Ricael-trabalham-em-familia-com-criacao-de-cabras_-55PQ.jpg 1312w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p>Esta reportagem foi produzida em parceria com a <a href="https://redeaterne.org.br/">Rede Ater Nordeste</a>.</p>
    </div>



<h2 class="wp-block-heading">Leia também:</h2>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/um-escudo-contra-as-mudancas-climaticas/" class="titulo">Um escudo contra as mudanças climáticas</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/clima/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Clima</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/articulacao-entre-ong-e-prefeitura-eliminou-ultraprocessados-da-merenda-escolar-em-cumaru/" class="titulo">Articulação entre ONG e prefeitura eliminou ultraprocessados da merenda escolar em Cumaru</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/educacao/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Educação</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/a-peleja-da-agricultura-familiar-contra-os-salgadinhos-e-sucos-de-caixinha/" class="titulo">A peleja da agricultura familiar contra os salgadinhos e sucos de caixinha</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/educacao/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Educação</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

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