por Wilfred Gadêlha*

Com o distanciamento social exigido pela pandemia e recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), a internet ganhou ainda mais importância no dia a dia das pessoas: válvula de escape, entretenimento e trabalho. Para uma parcela significativa da sociedade, ela se transformou em item essencial para a saúde mental. Quando as atividades nos consultórios foram suspensas, ainda em 18 de março, uma categoria foi obrigada a adaptar-se para atender a seus pacientes: as psicólogas e psicólogos.

Incentivados pelo Conselho Regional de Psicologia de Pernambuco (CRP-PE), as habilitações no chamado E-psi (um cadastro que avalia as condições de profissionais em atender remotamente) passaram de 275, em 17 de março, para 4.617, em 20 de agosto. Um crescimento de mais de 1.600%.

De acordo com a presidente do CRP-PE, Alda Roberta Campos, a ampliação do atendimento online foi uma necessidade. Tanto que, ainda que com a autorização para que consultórios voltassem a funcionar, desde 10 de junho, a entidade continua recomendando a “nova” modalidade em detrimento da presencial. Mesmo com todas as regras para minimizar o risco de contaminação pelo coronavírus (ver protocolo no final da reportagem), a consulta pela internet é muito mais segura.

Como tudo que vem ocorrendo durante a pandemia, foi necessário um esforço coletivo de adaptação para que pacientes e profissionais chegassem a uma maneira confortável e eficaz de dar continuidade – e muitas vezes, dar início – ao processo terapêutico. O CRP-PE realizou uma série de ações, como capacitações online e lives, e publicou orientações para os profissionais. Na medida do possível, como atestam as pessoas ouvidas nesta reportagem, o resultado tem sido satisfatório.

“Foi necessário fazer uma adaptação dos espaços físicos para que o nosso código de ética e os aspectos de sigilo e confidencialidade fossem garantidos. Os profissionais e os clientes precisaram rearrumar seus espaços. Na práticas, as casas viraram consultórios”, explica Alda Campos. Segundo a entidade, em torno dos 35% do total dos profissionais inscritos ativos no Estado submeteram o cadastro para atendimento online.

Com quase 29 anos de atividade profissional, Geórgia Araújo, 51 anos, foi uma das psicólogas a começar a atender online durante a pandemia. “Além do consultório, eu trabalho em uma policlínica da prefeitura do Recife. O atendimento ambulatorial foi suspenso e eu fui realocada para trabalhar na Maternidade Barros Lima, em Casa Amarela. Nunca me imaginava atendendo dessa maneira. Como já estava numa maternidade onde também funcionava um hospital de campanha da covid, falei com os clientes do consultório para suspendermos o presencial com medo de passar o vírus para eles, para não colocar ninguém em risco”, conta Geórgia.

Geórgia Araújo

Até então, a única “experiência” de Geórgia com atendimento à distância havia acontecido há quase dez anos atrás, quando uma paciente de férias preferiu manter a terapia. “Não havia nem whatsapp naquela época. A gente tentou ainda por telefone. Mas não produziu muito, só houve dois momentos e interrompemos”, relata.

Por falar em whatsapp, apesar das facilidades, o aplicativo de mensagens não é recomendado para o atendimento por causa da questão do sigilo. Foi aí que ganharam força e espaço plataformas como Zoom, Google Meet e StreamYard, mais seguras do ponto de vista da confidencialidade. E, com isso, todo um processo de adequação de ambas as partes do processo terapêutico.

Geórgia explica que passou por um treinamento para utilizar as plataformas na instituição de ensino em que é professora da pós-graduação. E que contou com a ajuda de colegas que já atendiam online. “Eu nunca havia ouvido falar do Zoom, por exemplo. Soube por colegas professores.”

“Foi uma mudança brusca que se impôs. Eu atendia presencialmente, mas de uma semana para outra, tudo mudou. As pessoas precisavam de continuidade no processo psicoterapêutico”, salienta Jéssica Noca, 36, que, assim como Geórgia, também está na linha de frente do combate à pandemia, no Hospital da Restauração, e é professora. “Não foi fácil. Nem eu tinha a habilidade para o atendimento online, nem os clientes. Busquei estudar, correr contra o tempo, li, pesquisei em fontes confiáveis e fui me adequando”, continua ela, como muitos profissionais, trocou a internet de casa por uma mais potente para as sessões e as aulas. “Comecei utilizando o whatsapp enquanto não me familiarizava com outras plataformas. Hoje eu deixo disponível o Google Meet e Zoom,  que são mais seguros e têm qualidade de som e de imagem melhores.”

Casa vira consultório

Enquanto iam se familiarizando com as ferramentas, os profissionais de psicologia também tiveram, como disse Alda Campos, transformar suas casas em consultórios. No caso de Maria Clara Simões, 25 anos, o “consultório” é no seu quarto. “Precisei falar com todo mundo da minha casa. Temos que ter um espaço que possa proporcionar o sigilo. Em vez de ter mais dias com clientes, eu preferi concentrar em dois dias específicos. Organizei o quarto. E tranco a porta”, acrescenta Maria Clara.

Maria Clara Simões

“Eu dividia o computador com meu filho e montei o consultório no quarto dele. Mas, com o tempo, ficou complicado e organizei um espaço no quarto que usamos como escritório. Foi muito melhor, porque aqui eu tenho meus livros comigo. Como uso música na terapia, passei a acessar e compartilhar pelo Zoom, à medida que fui me familiarizando com a ferramenta”, prossegue Geórgia.

Processo parecido ocorreu com Jéssica Noca. “Preparei todo o ambiente para minimizar  possíveis interferências. Antes da sessão, mandava  orientações para os clientes sobre a necessidade da  privacidade e sigilo. Antes, era no meu escritório, que eu improvisei. Mas hoje eu  tenho um consultório em casa. Fui adaptando a estrutura à medida do que ia ocorrendo. Não daria certo se eu pensasse que seria igual a antes.”

Na questão da privacidade e do sigilo, as psicólogas relatam que contam com um aliado importante para a garantia dessas duas condições: o fone de ouvido. “Eu falo para o cliente que ele deve estar em um lugar confortável e sem ruídos externos. Nem sempre é possível, pois, principalmente com as mulheres, aparecem os filhos. Às vezes surge um gato ou um cachorro”, diz Maria Clara Simões.

Facilidades e vantagens

Nos depoimentos, as psicólogas relatam as dificuldades do início, mas enxergam, para si e para os clientes, muitos pontos positivos. “O processo terapêutico não deve ser interrompido. A mudança macro causou mais demandas psicológicas. As pessoas já estavam num processo de cuidado, mas a questão do isolamento repercutiu no cotidiano. E os clientes foram dando retorno. Por exemplo, o tempo de deslocamento até o consultório, pegar ônibus, procurar estacionamento. Isso impactou até financeiramente”, enumera Jéssica Noca.

Geórgia também vê vantagens no atendimento à distância. “Depois, quando a gente vai ficando mais capacitado, fica mais à vontade e consegue identificar outros aspectos: o foco no olhar, a observação do corpo”, diz ela, que trabalha com terapia psicocorporal, com foco na análise bioenergética. “A gente orienta a movimentação do corpo, trabalha com a respiração. Então, usamos colchão, almofadas, então peço para que eles se coloquem de um modo que possa ver o corpo.”

Outro aspecto que Geórgia salienta é que, na terapia online, ganha-se tempo e economiza-se em dinheiro . “O lado do trânsito mesmo. Também, com meu filho tendo aulas em casa, não preciso deixar ele na escola, economizo gasolina. Houve perdas, mas também ganhos.”

Para Jéssica, já sob o ponto de vista do processo terapêutico, há sim pontos positivos. “Tem cliente que passou a estreitar melhor a comunicação com o marido ou com o filho. Outra coisa é que, antes da pandemia, a chamada de vídeo não era tão comum. As pessoas passaram a se comunicar mais. Até porque isolamento social é diferente de distanciamento social.”

Jéssica Noca

Tanto que, mesmo com a possibilidade da volta aos consultórios, a maioria dos clientes prefere continuar online. “Ninguém quer voltar ao presencial”, resume Geórgia, que o consultório com uma sócia e está se preparando para o retorno. “Tudo na vida, sem exceção, tem o lado A e o lado B. Têm as coisas ruins, péssimas até, mas nós desenvolvemos recursos de resiliência, a partir da dor e do sofrimento. Se não a gente enlouquece.”

No caso de Jéssica, ela contabiliza que 80% dos clientes optaram por continuar online. “Só voltei ao atendimento presencial em agosto. E com uma série de adaptações. Recomendo que a pessoa chegue cinco minutos antes e avise pelo WhastApp para liberar o acesso ao consultório. Temos, protetor para os pés, álcool 70º para higienizar a poltrona com plástico. A cada troca de cliente, temos que fazer a higienização. Até agora, quem eu atendo online quer continuar online. Os presenciais são os que chegaram mais recentemente. São pessoas que não têm espaço em casa com privacidade, na maioria e precisa do atendimento.”

A psicóloga crê que a tendência é essa. “Acredito que tende a ser maior online. A gente não sabe até quando isso vai durar e as pessoas estão identificando vantagens. Elas pretendem ficar online e, em situações específicas, irem presencialmente. O atendimento pode ser misto. Se a sociedade muda, a gente tem que se ajustar à realidade.”

Atendimento online não é para todos

Por outro lado, salientam as profissionais, há uma série de fatores que contribuem negativamente no panorama dos atendimentos, além das questões emocionais. A principal delas é justamente a questão de poder e saber usar a internet. Pessoas idosas, por exemplo, têm maior dificuldade em se adaptar ao mundo virtual – e isso é um problema sério.

Geórgia esclarece que, no início da pandemia, a maioria dos seus clientes optou por deixar a terapia. “Apenas um terço aceitou prosseguir online. Os outros alegaram que não sabiam usar as plataformas, que tinham vergonha ou que achavam que não iria funcionar. Hoje, dois terços dos clientes que eu tinha antes da pandemia estão fazendo online. E chegaram novos.”

Geórgia chama a atenção para outro fator: a condição social. “Muitos dos meus pacientes do ambulatório público são pessoas que não tem wi-fi em casa ou nem mesmo usam o whatsapp. Então, como sou servidora do SUS também, o que me chama a atenção são as pessoas que não sabem ou não podem usar a tecnologia como ferramenta, seja por não ter recursos ou não conseguir acessar. Eu fazia um grupo de mulheres, toda quinta-feira, e não pude fazer pelo Zoom porque, além de eu ter sido afastada da policlínica, muitas delas não teriam como participar. São duas questões referentes ao uso da tecnologia: saber e poder usar.”

Outra questão, apontada por Jéssica, é a sobrecarga nos profissionais. “Minha demanda de trabalho aumentou muito. A gente tem que ter um tempo maior de preparação para cada atendimento, um intervalo maior para criar o link, manusear a plataforma, gerar a senha, mandar antes para o cliente.”

Do outro lado da tela

E quem está do outro lado? Muita gente se viu preocupada com a suspensão dos serviços de atendimento presencial, assim como também, com o incremento da opção online, se poderia pagar pelas sessões. É o caso da publicitária Fabiana Pereira, 45 anos, moradora do Janga, em Paulista. “No início, foi pela grana. Eu não sabia como ia ficar meus trabalhos, se os clientes iriam continuar ou cancelar os contratos. A maioria dos meus clientes tem negócios locais. Se eles não poderiam me pagar, como eu pagaria a terapia? Para evitar esse custo, falei com minha terapeuta que iria parar”, conta ela. “Uns dois meses depois, eu já estava certa em voltar, mas ela é que não estava bem e decidiu parar com o atendimento online. Ela não está atendendo.”

Fabiana reforça que voltou a sentir necessidade de fazer terapia. “Eu sofro de ansiedade já há um tempo. Eu estava sentindo que precisava de ajuda profissional. Comecei em janeiro, mas em março paramos. Com a pandemia, comecei a cortar coisas que poderia retomar mais à frente. Nem são coisas que eu considero supérfluas, porque a terapia não é. Mas eu foquei no básico para sobreviver. Percebi que precisava voltar porque comecei a ter mais ansiedade, não dormia absolutamente nada. Não sei se eram crises de pânico, mas eu comecei a ter um medo absurdo: de pegar a doença, de perder gente que eu gostava, de sair na rua até para comprar comida. Hoje, estou melhor, mas passei por dias muito difíceis.”

Como a questão financeira não foi afetada – “Não perdi nenhum cliente. Na verdade, ganhei mais clientes” -, Fabiana está pretendendo voltar. “Eu estou vendo uma luz no fim do túnel, então estou melhor da ansiedade, mas quero voltar à terapia.”

Já a jornalista Thais Sanchez, 28, não parou. “Eu fazia presencial há uns oito anos. Devido à pandemia, tive que migrar para essa nova modalidade”, enfatiza ela, que tem sessões de terapia sistêmica com duas psicólogas. “Isso é muito interessante: cada uma em sua casa. Mas fazemos via whatsapp, que á mais fácil por causa da conexão.”

Thais não encontrou muita dificuldade para acessar esse modelo de atendimento. “Eu moro só, então fico na sala e fazemos a nossa consulta”, complementa, lembrando que o começo da pandemia foi muito difícil para ela. “Imagina você passar por uma separação e um isolamento social. Eu tive crises de ansiedade. Foi muito importante estar sendo acompanhada pelas terapeutas. Claro, cada um tem seus problemas e a pandemia os acentuou.”

Thais Sanchez

Para Thais, as pessoas que pararam de fazer terapia o fizeram mais pela questão financeira. “Na hora da dificuldade, as pessoas cortaram logo isso. Pelo menos é a percepção que tenho no meu círculo.” Ela relembra que ainda foi capaz de fazer meditação guiada, também pela internet. “Não fazia antes e achava que não era capaz de fazer”.

Jéssica Noca lança luz para um fato: o de que, mesmo com todos os problemas, a pandemia pode ser uma oportunidade para ressignificar o nosso modus vivendi. “Temos passado por grandes perdas. Desde não poder sair de casa até de se relacionar com os que estão em outro lugar. Gente que mora só. Então, é uma chance de desacelerar. Vivemos em uma sociedade frenética. É uma oportunidade de rever o modo de vida.  

A terapia online, que foi uma maneira de contornar os obstáculos do distanciamento social, vai se transformar em uma ferramenta perene. “Ela tem surtido efeito. Principalmente para as pessoas com maior fragilidade, com crises de ansiedade. Não é o ideal, mas nós estamos conseguindo”, acredita Maria Clara Simões.

O novo “normal” da psicologia

  • Observar as regras de cuidado e proteção para o atendimento psicológico na modalidade presencial, quando houver a necessidade excepcional deste atendimento, ou for condição do prestador de serviços, resguardando-se as normas de biossegurança e o distanciamento de no mínimo 1,5m; 
  • Utilizar quantitativo de funcionárias/os no ambiente da recepção ao estritamente necessário, evitando aglomerações na clínica;
  • Dispor de Equipamentos de Proteção Individual – EPI adequados às atividades exercidas e em quantidades suficientes para todos/as os/as funcionários/as; 
  • Realizar os agendamentos para atendimentos presenciais, quando houver a necessidade, evitando-se a aglomeração, com a preferência de 01 (um) cliente por hora, tempo indispensável para o atendimento, o Registro Documental, conforme a Resolução CFP nº 01/2009 e a higienização do ambiente e de todo o material utilizado com os usuários, incluindo cadeiras, canetas, lápis, entre outros; 
  • Preferir o manejo de registro documental em ambiente virtual, para não manusear papéis que podem gerar risco de contaminação; 
  • Restringir a presença de acompanhantes nas salas de espera, para evitar aglomeração e risco à saúde das/os clientes, informando que só serão admitidos em hipóteses excepcionais, comprovada a necessidade de sua presença; 
  • Reduzir ao máximo a presença de itens compartilhados, como livros e brinquedos nos consultórios, realizando-se a higienização do material lúdico após o atendimento de crianças; 
  • Orientar as/aos clientes ou seus acompanhantes sobre a importância de desmarcar consultas e atendimentos que possam ser temporariamente adiados; 
  • Avaliar a suspensão de atividades eletivas, não emergenciais e não essenciais, como medida de prevenção e de redução dos riscos e danos à saúde coletiva; 
  • Orientar os usuários/pacientes com sintomas de gripe ou com suspeita de COVID-19 que permaneçam em casa e se comuniquem com o serviço por telefone para as devidas orientações; 
  • Solicitar que o pagamento de honorários (se for o caso) seja realizado por meio eletrônico (cartão de crédito ou débito, transferência bancária), evitando-se a contaminação através da circulação de papel moeda.

*Especial para Marco Zero Conteúdo