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Todos os carnavais de Alceu Valença

Marco Zero Conteúdo / 11/02/2024
Close colorido de homem branco, idoso, usando uma boina azul escuro, com manchas na pele, segurando o queixo com a mão e suave ar de riso.

Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo

por Érika Muniz*

Numa época intensa para muita gente, como é o carnaval, existem nomes de nossa cultura que dão vida a muitos símbolos que integram a imaginação dos foliões. Inclusive, o ano inteiro. Quando se pensa na música que habita o carnaval de Pernambuco, sobretudo no Recife – com suas noites inesquecíveis no Marco Zero, que recebe diversos artistas nos quatro dias de folia – ou ainda pelo sobe e desce ladeiras de Olinda, é impossível não escutar a voz de Alceu Valença, cantando sucessos como Diabo Louro, o Hino do Elefante, Caia por Cima de Mim, e tantos outros.

Nascido em São Bento do Una, Alceu Valença sempre traz em suas falas memórias e algumas das referências que compõem sua criação artística desde a infância. Revisitando canções que fazem parte de muitos carnavais, ele acaba de lançar o álbum Bicho Maluco Beleza: É Carnaval, que convida artistas como Maria Bethânia, Lia de Itamaracá, Juba, Lenine e Ivete Sangalo para dividir os vocais de músicas que marcam o seu repertório. Numa tarde na semana anterior à folia que já está pegando fogo, a Marco Zero conversou com esse grande artista sobre o significado dessa tão importante festa para ele, algumas de suas lembranças dessa época do ano e como percebe a celebração na cultura brasileira. A entrevista, você lê a seguir:

Marco Zero – Alceu, o que o carnaval, essa época do ano que a gente tanto espera sua chegada, significa para você que é uma das nossas vozes e corpo do carnaval?

Alceu Valença – Carnaval? Significa lembranças de carnavais. Carnaval na rua dos Palmares, onde eu morei, onde eu absorvi toda essa cultura carnavalesca, porque na frente da minha casa um desfile passava e ia. Talvez para poder passar na frente da casa do Maestro Nelson Ferreira, que era do lado direito. Lá, eu ouvia maracatu tocando, ouvia caboclinhos tocando, blocos líricos desfilando. Tudo passava lá, orquestras de frevo também tocavam. Isso ficou dentro da minha cabeça. O carnaval me lembra momentos incríveis quando vivenciava o carnaval em Olinda e ia para a rua e brincava no Eu Acho É Pouco, que era o bloco que eu saía atrás, como qualquer outro folião. O Segura a Coisa eu também saía nele. Dá uma certa tristeza porque eu não posso mais fazer isso, porque se eu for participar, vão ser selfies demais e aí não dá. Tem uma história engraçadíssima, que é um dia em que eu arranjei uma namorada no carnaval. Eu estava com ela e, de repente, encontro uma mulher que pede um autógrafo para mim, com um disco meu. Dentro do carnaval. Ninguém tinha câmera no celular para fotografar. O que acontece? Dei o autógrafo e fui na casa de Manoel Messias. A gente brincava também. De repente, a moça não quis mais falar comigo de jeito nenhum e eu não entendia porquê. Na quarta-feira de cinzas, perguntei: “Por que você está dessa maneira comigo? Não estou entendendo, não fiz nada.” Ela fez: “Por causa da mulher do autógrafo.” Ciúme. O ciúme é a véspera do fracasso. Acabou logo ali. Na minha cabeça vem esse tempo que eu podia brincar, mas aí, tem a coisa que eu gosto mais no mundo é palco. Palco, para mim, é vitamina. A, da alegria, e E, da energia. Palco é demais. Hoje, a gente estava para ir para outro canto e, de repente, não fomos. Aí, eu já queria fazer show hoje. Amanhã tem dois, depois tem mais dois e mais dois e encerra o carnaval.

Já que você falou em lembranças, quando a gente pensa em grandes artistas de nossa música brasileira, você é um dos nomes que vêm à cabeça. Quando você pensa na música, no que ela lhe dá e o que você troca com ela, ao estar no palco, gravando, cantando, o que você lembra?
Com a música, eu mergulho. Como te falei, se eu estou cantando, por exemplo, Bicho Maluco Beleza, meu mergulho é quando a compus em Olinda, tinha um rapaz que era meu fã e fã de Raul Seixas. Ele era alagoano, o nome dele era Antônio da Sé. Eu estava na varanda lá de casa, quando vi Antônio da Sé, com duas moças e vestido de Raul Seixas. Bem, daí, diante daquela cena surreal, fez com que fizesse Bicho Maluco Beleza, porque Raul Seixas era chamado de Maluco Beleza. Ele estava fantasiado com aquelas botas de Raul Seixas. Eu penso nisso e vem na minha cabeça isso também, são lembranças. Acho que nós, seres humanos, vivemos de lembranças e projeções na cabeça. Ontem, foi maravilhoso o show em Olinda. Eu posso estar em Olinda, eu levei o carnaval de Pernambuco para São Paulo, com o bloco Bicho Maluco Beleza, se entrar nas redes sociais vai olhar aquelas imagens de drone, que é um absurdo do absurdo A gente começou vagarosamente e foi crescendo de uma maneira incrível.

Alceu, a seu ver, por que festejar, celebrar é algo que faz parte da nossa cultura, no Brasil? Por que é importante esse processo de celebração, comemoração, festejo do carnaval?

Para mim, Pernambuco é o local que mais é carnavalesco que eu já vi. Tem uma multiculturalidade dele mesmo, não é preciso você trazer uma banda da Inglaterra para tocar rock aqui. Que papo é esse? Não tem nada a ver com o nosso carnaval. Pode vir, não estou colocando… Uma banda americana ou inglesa, de rock, pode vir fazer uma semana, duas antes do carnaval. Mas não tem nada a ver. Eu primo em seguir as coisas da minha própria cultura. Não tem papo, não faço a menor concessão a nada. Por isso é que sempre fui uma pessoa que nunca participei de movimentos nenhum. Vou fazendo a minha, do jeito que eu quero e do jeito que meu coração manda. Não estou ligando. Mas estou colocando, para Pernambuco, a grande história é ficar em cima do diferencial, porque se não tudo o que é carnaval vai ser igual. Rimou! Um exemplo, você pode ter um carnaval no Acre, mas se, de repente, você começar botando tudo o que não é do carnaval do Acre, termina acabando com o dele. Você poderia, até, fazer uma coisa maravilhosa, que era pegar todas essas manifestações e botava uma semana antes do carnaval, um gênero, depois, duas semanas outro e três… Nesse caso, o nosso Recife passaria a ser um destino inacreditável porque você, que foi ver o carnaval pernambucano poderia ver até o rock’n roll da Inglaterra. A multiculturalidade acho uma coisa maravilhosa, tem que ter. Agora, em determinados momentos, ela tem que ter uma coisa que vai para o tradicional.

Eu, Alceu Valença, é o seguinte: quando estou no São João, não vou cantar carnaval; canto São João, pego uma música muito mais ligada às minhas raízes de São Bento do Una, às minhas raízes do sertão profundo, da cultura nossa, que é meridional, é agreste, mas é a cultura também do sertão profundo. Quando chega no carnaval, é carnaval. Se você pensar La Belle du Jour é um ijexá, por isso está dentro do roteiro que estou cantando. Tem uma outra coisa que é preciso a gente pensar de maneira de curadoria. Existem relações entre gêneros, por exemplo, você vai ter uma relação da marcha de São João com o frevo, aí, você pode chamar um maestro genial como Duda e ele vai fazer um arranjo. Então, você vai fazer: “Olha pro céu, meu amor! / Veja como ele está lindo” [Alceu solfeja batidas do frevo, mostrando a ligação entre um gênero musical e outro]. Isso não está ferindo absolutamente nada. Quando faço isso, eu me inspirei em Claudionor Germano. Ele pegou aquela música Tropicana, porque uma coisa tem conexão com a outra.

Quando a gente lhe assiste no palco, a nossa energia também vai lá para cima. Qual é o mistério e o segredo, se é que existe, para levar esse público para cima, como você faz?

Minha música pode vir a bater na alma, no inconsciente dessas pessoas. Uma pessoa está lá, ela teve um pai, um avô, um bisavô e, acho que existe dentro da cabeça da gente sabe o quê? HDs de memória, com as memórias da gente. As minhas são tão incríveis, vê só… Eu não sei cantar uma balada. Música brasileira, eu sei, canto, divido, brinco com ela. Se botar uma música maravilhosa dos Beatles ou dos Rolling Stones, não sei cantar, não. Não consigo cantar dentro daquele ritmo, talvez porque dentro do meu HD, fui tão acostumado a ouvir forró e, no carnaval, o frevo, na frente da minha casa, desde pequeno, em São Bento do Una, minha terra, onde tinha a banda Santa Cecília e aquela coisa entrou na minha cabeça e outras não fazem parte disso. Posso até ouvir e gostar, mas não está dentro do meu DNA.

Em 2023, o movimento Manguebeat completou 30 anos. Você falou que nunca participou de nenhum movimento, como você percebe a importância desse e de outros movimentos para a cultura nordestina, outro exemplo, a Tropicália…

Todos são maravilhosos, mas por um acaso, eu não participei de nenhum. Vou explicar porquê. Eu nunca morei no Recife. Em 1971, eu fui embora para o Rio de Janeiro e encontrei Geraldo Azevedo. Foi a única amizade que fiz com artista. Depois, claro, Moraes Moreira foi até meu amigo, mas muitos anos depois, perto da década de 1990. Então, Geraldinho Azevedo, que era daqui. Eu toco violão, mas nunca tive professor, tem coisas que eu não sei nem fazer. Vamos dizer, se você quer pegar uma música, eu posso até cantar, mas acompanhar numa música de Bossa Nova, eu não sei. Eu ficava lá e não vinha para Pernambuco, porque… primeiro, situação monetária difícil, e não dava para vir para cá, então, passei a minha década até 1980, sem vir para cá ou vir rapidamente e caía fora. Então, os movimentos maravilhosos que existiram aqui, não participei. Por exemplo, teve um movimento muito bom, que depois vi num disco, a turma do Ave Sangria. Naquele momento, tinham vários grupos que faziam parte porque estavam juntos. Um convivia com o outro e sabia o som. Eu, não sabia nada. Estava lá no Rio de Janeiro. Não tenho radiola, nunca tive radiola. Aliás, minha mulher me deu uma radiola e eu nunca ouvi. Só fui acostumado a ouvir música, no rádio porque o meu pai não queria que eu fosse artista. Ele achava que eu tinha um jeitinho e achava que se eu fosse incentivado, ia fazer música. Na minha casa, então, não tinha. Eu não participei, mas se eu estivesse aqui, na certa, poderia ter participado. Na certa, teria participado, mas eu não estava aqui, eu não vivia aqui.

Então, o movimento, quando ele acontece… Por exemplo, você falou do Tropicalismo. O Tropicalismo não aconteceu no Rio de Janeiro, aconteceu em São Paulo, quem morava lá? Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Zé, Rogério Duprat, que fazia os arranjos. No Rio de Janeiro, eu conhecia uma pessoa, a única com quem eu convivia era Geraldo Azevedo e Paulo Guimarães, que era daqui e foi para lá, o outro era Carlos Fernando. Ninguém mais. Não conheci um artista no Rio de Janeiro, famoso. Quem conheci, já na década de 1980, na rua, foi Tom Jobim, porque ele saía de manhã da casa dele e ia na Banca Piauí, que era uma banca perto lá de casa. Então, não participei. É dessa maneira. Tiveram algumas pessoas daqui que foram e tocaram comigo, tocaram a minha música. Agora, o movimento Manguebeat, muito bom! E eu também estava longe, depois até o Chico Science foi à minha casa, no Rio, e a gente deu uma entrevista juntos. Eu e ele, na minha casa. Uma vez ele foi à minha casa em Olinda também. Eu o conheci dessa maneira. Quando eu estava no Rio de Janeiro, não existia internet, se tivesse, na certa, saberia.

Para a gente terminar, queria que você falasse como você percebe a importância dessa alegria de uma festa como o carnaval no Brasil?

Vejo como várias coisas. Vejo o carnaval como uma festa popular maravilhosa, que todo mundo brinca e vejo também por outro lado, vejo como uma coisa chamada economia criativa. O carnaval, o que ele traz de emprego é o absurdo do absurdo. É muito emprego e o que gera de imposto é muito grande. Então, antigamente, havia a demonização de artistas. Vou dizer uma coisa para você, por exemplo, quando eu canto, num show público, estou cantando, mas eu posso ganhar muito mais cantando sozinho, num evento privado. Comigo não fizeram, não, mas às vezes há a demonização sobre cultura. E o que acontece é o seguinte, a cultura é uma coisa que impulsiona os impostos, os empregos. Por exemplo, quanto gera um carnaval de Pernambuco para o Estado, para a prefeitura? Você vai ver uma coisa, a rede hoteleira cheia, você vai ter os bares lotados, os restaurantes lotados, o Airbnb alugado, casas alugadas, o homem da pipoca ganhando, o cara da carrocinha ganhando. É uma coisa impressionante. E esse tipo de economia vai cada vez mais crescer muito, então, é muito necessário para Pernambuco que ele foque no seu diferencial porque se não qualquer capital do Brasil vai fazer o carnaval. Aí, ela pega e contrata pessoas, porque não é obrigado um carnaval ser parecido com o outro. Aí, coloca o polo rock’n roll, o polo pagode, o polo nordestino, de forró, o polo funk, o polo frevo e pronto, as pessoas vão, beberão e será muito bom para a economia do Estado.

Outra coisa que estou alertando o tempo todo: o Brasil precisa ser divulgado lá fora, aproveitar determinadas coisas e que eu não vejo isso. Por exemplo, dois anos depois da pandemia, a gente fez turnês pela Europa toda, a gente foi para a Irlanda, Inglaterra, Alemanha, Holanda, uma ilha no Mediterrâneo, a gente fez Madri, Barcelona, fomos para Portugal, no Porto. O Brasil deveria ter uma coisa que vai acontecer, eu acredito, “destino Brasil”, porque, no Brasil, um turista quando ele vem, vai procurar algo prazeroso. Esse algo prazeroso é uma praia, que a gente tem praias inigualáveis. Você vai encontrar o turismo ecológico, que é para o paraense fazer isso. Você chega no nosso Pernambuco é um carnaval incrível. Se você divulgar o São João, vem gente para cá. É o turismo externo e o interno. Agora mesmo, vi um fluxo muito grande da Paraíba, de João Pessoa. Pelo fato do Recife estar fazendo o carnaval dele, e é muito forte, vem muita gente para cá, eles fazem na semana anterior.

*Erika Muniz é jornalista, formada em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e em Comunicação Social pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap). Pesquisa a área de cultura, assinando trabalhos na Revista Continente, Quatro Cinco Um, Revista O grito! e JornaldoCommercio.

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