Crédito: ArcMachaon/Wikimedia Commons

Em poucas semanas, uma doença até então mais conhecida na África Central se espalhou por 21 países, com quase 240 casos reportados. A varíola dos macacos, causada pelo vírus MPXV, não é uma doença nova. Também não é muito letal. Mas a probabilidade de um surto chegar ao Brasil é uma questão de tempo, alertam especialistas. Com o crescimento da covid-19 e de doenças respiratórias, que estão deixando crianças e bebês sem leitos de UTI em Pernambuco, estamos longe de um cenário favorável para a chegada de mais uma doença infecciosa.

Até agora, os países mais atingidos são os da Europa, com o Reino Unido no topo, com 71 casos, seguido de Espanha e Portugal. Na América do Sul, só a Argentina confirmou um caso.

A varíola dos macacos é uma zoonose, ou seja, uma doença que atinge tanto seres humanos quanto animais e pode passar de um para outro. Foi descoberta em 1958, quando um surto atingiu um grupo de macacos que havia sido importado para um laboratório em Copenhague, na Dinamarca. Mas os macacos não são repositórios do vírus e sim, possivelmente, os roedores.

O MPXV faz parte da família dos poxvirus, que encontram hospedeiros até em insetos, e vão desde doenças como o molusco contagioso, comum em crianças, e vaccinia bovina, que acomete principalmente quem trabalha com vacas infectadas, até a varíola humana, erradicada no mundo em 1980 e que matava, em média, 30% dos infectados.

Em humanos, a doença foi descrita pela literatura médica pela primeira vez em 1981, no antigo Zaire, hoje República Democrática do Congo. Na semana passada, o genoma de uma amostra de um paciente da Bélgica foi sequenciado e felizmente se mostrou mais próxima ao clado (uma linhagem que inclui um ancestral comum e todos seus descendentes) que circula endemicamente na Nigéria, com mortalidade mais baixa, em torno de 1 a 3%. Também há outro clado, mais preocupante, primeiramente identificado no Congo, que tem uma taxa de letalidade em torno dos 10%.

Para médicos e pesquisadores, a varíola dos macacos, mesmo que chegue no Brasil, não seria motivo para pânico. “É uma doença na grande maioria das vezes benigna. Há complicações pulmonares, oculares e até neurológicas, mas são raras”, explicou o médico e comunicador científico Luís Fernando Correia durante webinar promovido para jornalistas, nesta quarta-feira, 25 de maio, pelo Fórum Pamela Howard para Cobertura de Crises Globais.

Apesar de ser benigna na maioria dos casos, é uma doença muito desconfortável. O começo se assemelha a uma virose, com febre, dor muscular e dor de cabeça. Uma diferenciação são os linfonodos aumentados , com ínguas nas axilas, pescoço e virilha. Depois, começam pequenas manchas vermelhas e duras, que viram bolhas do tamanho de uma ervilha com líquido transparente. Essa bolhas crescem e ficam purulentas. Por final estouram e deixam uma “casquinha”.

Nessa fase das bolhas é que também ocorre a complicação mais comum da varíola dos macacos, que é a infecção bacteriana da pele, por conta da intensa coceira. Isso tudo leva em média de 10 a 20 dias. As erupções cutâneas geralmente começam pelo rosto e depois se espalham para outras partes do corpo, incluindo os órgãos genitais.
O diagnóstico é majoritariamente clínico. Não há testes rápidos ou de antígeno, apenas por RT-PCR, feito com o líquido colhido das bolhas na pele.

Também não é esperado que a varíola dos macacos cause um número de casos tão grande quanto as doenças respiratórias. Isso porque a transmissão do vírus é mais difícil. Há poucas evidências de que a transmissão possa ocorrer por aerossóis, como é o caso da covid-19.

Acredita-se que a transmissão aconteça principalmente por gotículas de saliva e por contato próximo e prolongado com fluidos corporais. “Um estudo africano sobre um surto identificou que 50% das infecções aconteceram em casa, em pessoas que estavam cuidando de um doente. Em Londres, isolaram um hospital para esses casos de varíola dos macacos, pois muitos profissionais se infectaram no tratamento dos doentes. É muito mais difícil de pegar do que covid-19”, explicou o médico Luís Fernando Correia.

Em nota, a Sociedade Brasileira de Virologia (SVB) afirmou que a probabilidade de uma pandemia causada pelo vírus da varíola dos macacos é baixa. “A infecção acontece pelo contato próximo com pessoas infectadas, através de fluidos orgânicos contaminados, principalmente originado das lesões cutâneas. Não há indicação da transmissão respiratória, como acontecia com o vírus causador da varíola”.

Micrografia eletrônica colorida do vírus monkeypox. Crédito: Hazel Appleton/Health Protection Agency Centre for Infections

Tem vacina para a varíola dos macacos?

O último caso de varíola humana no Brasil ocorreu em 1972. Foi também o último caso registrado nas Américas. A partir de então, o Brasil parou de fazer campanhas de vacinação para doenças desse tipo. Em 1980, a varíola foi declarada oficialmente erradicada do mundo. Foi a primeira, e até agora única, doença erradicada por conta da vacinação em massa. Foi contra a varíola também que foi criada a primeira vacina, em 1796, pelo inglês Edward Jenner.

Doença milenar, que matou pelo menos meio bilhão de pessoas, a varíola pode ter deixado um espaço ecológico em aberto nesses quase 50 anos de erradicação. “Um artigo de 1988 da Escola Inglesa de Doenças Tropicais já alertava que a varíola dos macacos ocuparia esse vazio ecológico”, disse Luis Fernando Correia, no webinar.

Por serem vírus da mesma família, a vacina contra a varíola funciona também contra a varíola dos macacos. Não há, porém, estudos sobre o atual grau de imunidade de quem tomou essa vacina décadas atrás. Pelo receio do vírus ser usado como arma biológica, alguns países têm estoque dessa vacina. Os Estados Unidos, por exemplo, têm mais de 1 milhão de doses prontas para uso.

Há duas vacinas aprovadas nos Estados Unidos que funcionam contra a varíola dos macacos: Jynneos (chamada de Imnavex na Europa) e a ACAM2000. Nenhuma das duas tem registro na Anvisa para uso no Brasil. Com o surto da Europa, alguns países já correm para comprar vacinas. A França autorizou a vacinação em pessoas que tiveram contato com infectados e para profissionais de saúde que atenderam os casos. A vacina pode ser aplicada até quatro dias após a exposição ao vírus. Nenhum país, por ora, está recomendando a vacinação em massa.

Há também um antiviral aprovado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para uso contra a varíola dos macacos, o tecovirimat, que também não consta na lista de medicamentos aprovados pela Anvisa. Os antivirais brincidofovir e cidofovir também têm estudos que mostram alguma ação contra a doença, mas também não têm comercialização no Brasil.

Sala de Situação Nacional para monitorar a doença

Já foram relatados outros surtos da varíola dos macacos mas nenhum com tantos casos. Na África, o surto documentado que teve mais casos foi com 160 pessoas infectadas. Uma hipótese é de que está havendo mais casos porque o vírus agora se espalhou por cidades mais adensadas. Duas raves realizadas na Espanha estão sendo investigadas como o foco do surto atual.

Mas pode ter acontecido alguma mutação e o vírus está mais contagioso? “Pode, mas é improvável. O Sars-Cov2 é um vírus de RNA, muito mais instável, e quando se replica tem muito mais erros, e por isso ocorrem as mutações. O da varíola dos macacos é um vírus de DNA, com uma estrutura longa e que se auto corrige, e que neste tempo todo que é conhecido tem apenas dois clados”, explicou Correia.

Em entrevista à Associated Press (AP), o conselheiro da Organização Mundial da Saúde (OMS) David Heymann afirmou que não há evidências que sugiram que a varíola dos macacos possa ter se tornado mais contagiosa. Mas é quase impossível evitar que o vírus chegue ao Brasil. Isso porque o período de incubação do MPVX tende a ser longo. É em média de 6 a 16 dias, mas pode chegar a até 21 dias, segundo a OMS. “Já é possível que alguém esteja infectado no Brasil e ainda não saiba”, disse Luís Fernando Correia.

Para evitar o espalhamento da varíola dos macacos, o Ministério da Saúde instalou nesta semana uma Sala de Situação para promover reuniões com outras instituições, analisar material de revisão de casos e acompanhar os formulários eletrônico de notificação e investigação. Alertou também os Centros de Informações Estratégicas de Vigilância em Saúde (Cievs) dos estados.

Já a Anvisa afirmou em nota que o “distanciamento físico sempre que possível, o uso de máscaras de proteção e a higienização frequente das mãos, têm o condão de proteger o indivíduo e a coletividade não apenas contra a covid-19, mas também contra outras doenças”. Também afirmou que “mantém-se alerta e vigilante quanto ao cenário epidemiológico nacional e internacional, acompanhando os dados disponíveis e a evolução da doença, a fim de que possa ajustar as medidas sanitárias oportunamente, caso seja necessário à proteção da saúde da população”.

Para o médico Luís Fernando Correia, as autoridades sanitárias precisam identificar casos prováveis e fazer rastreamento dos contatos confirmados e vacinação, se necessário. “Sabemos fazer tudo isso, mas as estruturas estão dilapidadas, temos um Ministério da Saúde anticientífico. A Anvisa indica o uso de máscaras e é necessário, mas principalmente para a covid-19. Não podemos perder também o foco. Continuamos em uma pandemia do Sars-cov-2. A doença que está matando cem pessoas por dia no Brasil não é a varíola dos macacos, ainda é a covid-19. Quem está se protegendo contra a covid-19 não vai pegar varíola dos macacos”, afirmou.

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