8 de março: dez razões para apoiar a luta das mulheres

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Nesta quinta-feira (08), Dia Internacional da Mulher, cerca de 30 movimentos, organizações e coletivos feministas vão às ruas em marcha “por nós, pelas outras, por mim”, como diz uma das palavras de ordem gritadas pelas mulheres que não só não têm medo de se dizerem feministas, como lutam por direitos para todas. No Recife, o ato unificado sairá do Parque 13 de Maio, com concentração a partir das 13h.

Com o lema “Pela Vida das Mulheres, Nenhum Direito a Menos”, o ato segue com a proposta dos últimos anos de denunciar a vulnerabilidade das mulheres à violência, que segundo o movimento tem se agravado no contexto de crise após o golpe de 2016. “O governo golpista de Michel Temer está conduzindo um conjunto de políticas que tem aumentado o desemprego e precarizado ainda mais as vidas de toda a população, atingindo especialmente as mulheres. Estamos nas ruas porque não aceitamos mais tanta violência contra nós!”, denunciam as feministas em carta política.

A articulação feminista reúne dez eixos temáticos que buscam dar conta das principais trincheiras e diferentes locais e contextos em que as mulheres brasileiras estão inseridas. Estão em evidência o enfrentamento ao racismo; o fim da violência contra as mulheres; as reformas da previdência e trabalhista; o Direito a creches; o fundamentalismo; o encarceramento das mulheres e a necessidade de uma nova política de drogas; a descriminalização do aborto; o Direito à Água, Terra e Moradia; a organização e participação das mulheres na política; e a LBTfobia. Cada um dos temas será debatido em rodas de diálogo no parque. Segundo a organização, o ato deverá sair em marcha às 16h30 em direção à Praça do Derby, onde haverá apresentações culturais e intervenções de artistas locais.

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Marcha das mulheres no 8 de Março de 2017, no Recife.

“Os dez eixos foram construídos no processo coletivo, em plenárias. Nos últimos anos, o 8 de março tem sido unificado, especialmente aqui em Pernambuco que tem tradição em construção conjunta”, explica Mônica Oliveira, da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco, que também participa da coordenação do ato. As pautas escolhidas refletem a diversidade das mulheres envolvidas na construção, apontando para a sociedade “o que hoje é mais premente, mais prioritário na agenda de luta feminista”, diz.

Para ela, o movimento de mulheres nunca esteve tão unificado. “Tem se ampliado o número de pessoas que passam a compreender melhor o que é a luta das mulheres por direitos. Somos mais de 50% da população. Mas eu acho que a sociedade passa a enxergar a mulher para além da pessoa do cuidado, que tem a obrigação de cuidar de todo mundo. Mas que também precisa ser cuidada”, defende.

Cidades seguras para mulheres

Caminhar pelas ruas nunca foi um ato tranquilo para mulheres. Por isso, o direito à cidade, à terra, à água e moradia como garantias da segurança e da vida das mulheres se somam às pautas até então entendidas como “históricas” das feministas. Em Pernambuco, 2017 foi o ano em que o feminicídio chegou às rodas de conversa e capas de jornal, no entanto, grande parte dos mais de 300 homicídios de mulheres não têm visibilidade. Os dados Secretaria de Defesa Social (SDS) também registram 2.134 vítimas de estupro e 33.188 casos de violência doméstica e familiar.

“Do ponto de vista da violência, mais de 80% das mulheres são assassinadas em Pernambuco são mulheres negras. Elas são afetadas pelo machismo, mas também pelo racismo”, explica Mônica. Segundo ela, com a crise, situações de violência doméstica e familiar tendem a se agravar. Nesse contexto, são as mulheres negras e em situação de pobreza as mais vulneráveis. “As mulheres negras ficam sendo empurradas para mais pobreza”.

Na contramão do que aponta a realidade, contudo, a postura dos governos pioram a condição de insegurança, como foi o caso de Pernambuco, onde o governador Paulo Câmara defendeu publicamente orientações da SDS que partem da ideia de que as mulheres devem tomar cuidado para não serem vítimas de violência. Os movimentos de mulheres criticaram duramente, denunciando a culpabilização das mulheres por crimes cometidos contra elas mesmas. “Pernambuco é o estado que puxou os índices de homicídio para cima (em 2017), com aumento nos crimes contra mulheres. E você tem menos centros de referência, você tem delegacias especializadas fechando. A violência aumenta e os serviços diminuem”, critica Mônica.

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Corpo é fronteira

O direito sobre os corpos das mulheres é uma das fronteiras a serem derrubadas, defendem os movimentos feministas. O direito ao aborto seguro e legal é uma das reivindicações que pode reduzir consideravelmente a morte de mulheres negras no país, por exemplo. No Brasil, pesquisas apontam que mais de 200 mil mulheres morrem devido a abortos clandestinos, realizados em grande parte por mulheres negras e pobres.

Dados da Pesquisa Nacional de Aborto 2016 demonstraram que uma em cada cinco mulheres com 40 anos já realizou pelo menos um aborto ao longo da vida. “Criminalizar o aborto não inibe sua prática, mas aumenta o número de abortos clandestinos e inseguros, em condições precárias. As mulheres morrem porque não têm direito a assistência nos serviços de saúde ou por serem abandonadas ao chegar a esses serviços, independente de terem provocado ou não o aborto”, argumentam.

Paralisação Internacional de Mulheres

Cento e sete anos depois da instituição da data que hoje marca as lutas das mulheres por direitos, é alarmante que algumas bandeiras políticas e econômicas dos movimentos de mulheres sejam as mesmas, com nova cara. As manifestações do 8 de março se somam a outras, internacionais. Na América Latina e países de outros continentes, diversas mulheres vão participar da paralisação. O objetivo é dar visibilidade ao papel e trabalho das mulheres – muitas vezes não remunerado, como é o caso do trabalho doméstico.

No Brasil, o chamado à paralisação aponta para os efeitos negativos da reforma da previdência para as mulheres. “A Previdência Social é até hoje a única política social que reconhece – formalmente – que existe dupla jornada de trabalho das mulheres e que o trabalho de reprodução social é um trabalho”, diz o manifesto político.

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Sobre o autor

Débora Britto trabalhou como jornalista no Centro de Cultura Luiz Freire - organização não governamental de defesa dos direitos humanos - é integrante do Terral Coletivo de Comunicação Popular, grupo que atua na defesa do direito à comunicação como fundamento para a garantia de outros direitos. Também tem passagem como jornalista pelo Centro de Desenvolvimento Agroecológico Sabiá, entidade voltada para ações de fortalecimento da agricultura familiar agroecológica.

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