“A armadilha do consumo consciente é culpar o indivíduo pela catástrofe ambiental”, diz Sandra Guimarães

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Lançado em 2010, o blog Papacapim é uma deliciosa reunião de receitas veganas. Só de ler os textos, que quase sempre contam também a história até se chegar a aquele prato, já dá água na boca, mesmo de quem é onívoro. Produzido pela potiguar Sandra Guimarães, o Papacapim ensinou a cozinhar a uma geração de vegetarianos e veganos. Mas o sucesso do blog está longe de ser somente as receitas: Sandra fala sobre questões ambientais, política, viagens e a causa Palestina, terra que ela visita regularmente.

Uma das luta de Sandra é desmistificar o veganismo como uma dieta só para quem pode ter um cozinheiro a seu dispor. E mostrar que a luta pelo bem estar animal vai muito além de uma escolha individual. “Estamos disputando o movimento vegano, porque antigamente era um movimento pequeno aqui no Brasil e de repente cresceu. Que bom que cresceu, mas teve um preço a ser pago, que foi esvaziar o veganismo de política. As pessoas pensaram que seria mais fácil popularizar só focando na dieta baseada em plantas”, afirma.

Ativismo vegano: conheça o movimento que se opõe ao capitalismo e luta por justiça social

O outro foco do ativismo de Sandra acontece na causa Palestina. Durante cinco anos promoveu viagens político-veganas pelo território ocupado por Israel, conduzindo ativistas brasileiros. Atualmente, desenvolve com a fotógrafa francesa Anne Paq, o jornalista palestino Ahmad Al-Bazz e o vídeomaker inglês Craig Redmond o projeto multimídia Baladi Rooted Resistence, que mostra agricultores palestinos recuperando a tradição das plantações com sementes creoulas. “Os palestinos só estavam cultivando dois tipos de trigos, que eram de sementes israelenses. Esses agricultores retomaram a tradição local, no que chamaram de agro resistência. É um termo muito forte e bonito”, diz Sandra, que pretende unir as experiências na Palestina com outras formas de agro resistência, como a que ocorre no Sertão nordestino.

Morando há anos na Europa, Sandra Guimarães participou na semana passada do I Encontro Nacional da União Vegana de Ativismo, o Enuva. Entre uma mesa e outra, ela conversou com a Marco Zero Conteúdo sobre os desafios da popularização do veganismo, a ocupação da Palestina, entre outros assuntos.

A luta contra a libertação animal pode ser uma luta vinculada ao capitalismo?

Não, a definição mais utilizada pelo veganismo é a da Vegan Society, que todo mundo ainda usa até hoje essa definição que eles deram: que o veganismo é um estilo de vida que busca excluir na medida do possível a exploração animal da alimentação, do vestuário, do entretenimento. O problema para mim é que o foco está muito no consumo e no estilo de vida. É muito foco no indivíduo e no consumo. É tanto que quando eu falo que eu sou vegana a primeira pergunta é sempre “você come o que?”, “Ah, o seu sapato não é de couro, é de que?”. Eu não uso mais essa definição. Acho que é limitada e não me representa. Eu uso uma definição que eu acredito: que o veganismo é um posicionamento político que se opõe à objetificação e mercantilização dos animais e se compromete com a luta pela emancipação animal. Aí você já foca nos animais, traz de volta o sujeito do veganismo que é o animal. E não o que eu compro e consumo. Tirando essa coisa de “Eu sou um indivíduo mais evoluído, sou melhor que você”. Acho importante o foco no posicionamento político, porque não é uma dieta, não é um estilo de vida. Você se opõe ativamente à opressão. Na prática como você age contra essa opressão, concretamente, dia após dia?

E, dessa forma, fica tudo concentrado no indivíduo.
A armadilha do consumo consciente é colocar a responsabilidade pela catástrofe ambiental no indivíduo. É você com o seu canudo que está poluindo o mar, e não a indústria pesqueira que coloca uma quantidade enorme de plástico nos oceanos com as redes de pesca abandonadas. As indústrias estão poluindo e falam “tome banho rápido”, “feche a torneira enquanto escova os dentes”, mas a pecuária usa muito, muito mais água do que eu vou usar em todos os banhos da minha vida. É uma maneira de se tirar a responsabilidade dos verdadeiros vilões. Então o veganismo liberal vai neste mesmo sentido de que é sua escolha individual, e você está sendo uma pessoa “melhor”. E essa posição de superioridade acaba afastando. Porque as pessoas que estão fazendo esse esforço consciente de despolitizar o veganismo, fazem sempre dizendo que isso é para atrair mais adeptos. Por que se nos associar à esquerda, a direita não vai vir. Se a gente for a favor dos direitos das pessoas LGBT, tem gente que tem problema com isso e não vai vir. Mas quem você quer atrair para o movimento, então? É racista e homofóbico? Mas quem você aliena quando você não se define como antirracista? Você aliena a população negra. Para que lado o movimento vegano vai crescer? É assim que a gente acha que vai veganizar o mundo, sem o povo?

E quais os desafios para se popularizar a dieta vegana no Brasil?
O primeiro desafio é fazer com que as pessoas entendam que o veganismo, a dieta vegetariana, é comer vegetais. E não aquele queijo industrializado vegano que vende no Mundo Verde e custa um rim. Não é isso. Dei uma palestra numa ocupação na reitoria da UFRN e uma estudante falou “é bonito o que você falou, mas não tenho dinheiro para comprar brócolis, não sei onde vende coxinha de jaca”. O maior desafio é que as pessoas entendam que comida vegana é feijão com arroz, farinha, macaxeira, cuscuz, tapioca, batata doce, mungunzá. É espiga de milho, sopa de feijão. Coisas que a gente já come: lógico que todo mundo quer comer uma coisa diferente de vez em quando. Mas é a mesma coisa de dizer “eu não posso ser carnista, porque eu não tenho dinheiro pra comprar caviar, nem lagosta”. Você pode ter uma alimentação carnista e comer barato, e pode ter uma alimentação carnista e comer caro. A mesma coisa é com o veganismo: comer naquela loja de superindustrializados ou feijão e arroz com farinha. Outra coisa é a alimentação orgânica. Nós somos o país que mais usa agrotóxicos no mundo, então todo mundo deveria comer comida orgânica. Mas ser vegano é comer comida vegetal. Óbvio que comer orgânicos é melhor, porém não é um imperativo. Quanto custa uma carne orgânica, um queijo orgânico? Em qualquer comparação, comer vegetais é mais barato. A base da alimentação brasileira é vegetal, principalmente aqui no Nordeste.

Tour na Palestina. Foto: Sandra Guimarães

Em 2005, a Palestina adotou uma série de medidas contra Israel, chamada de BDS. Você pode explicar como funciona o BDS ?
O BDS é uma sigla que significa boicote, desinvestimento e sanções. O boicote é o mais fácil de entender, o desinvestimento é em nível de empresas, que pede que as empresas não invistam em Israel, e sanções, que é em nível de governo, que é mais difícil. Há três tipos de boicote: o econômico, o acadêmico e o cultural. O econômico é não comprar produtos israelenses, o acadêmico é não participar de congressos lá e não fazer parcerias com universidades israelenses, e o boicote cultural é pedir a artistas para que não se apresentem em Israel. Existe desde 2005 e foi um chamado da população civil da Palestina. Isso é muito importante para entender o BDS: não foi de um partido político, de uma organização, não foi Roger Waters (risos). Vários sindicatos, grupos, cooperativas que se juntaram e fizeram esse pedido, inspirados no que aconteceu na África do Sul durante o apartheid. Desde 2005 foram muitas vitórias. Empresas que saíram de Israel, artistas que cancelaram shows. Infelizmente Milton Nascimento não cancelou. mas muito artistas cancelaram, como Shakira e Linn da Quebrada. Mas a maior parte do tempo, a gente coloca pressão no artista, ele cancela, mas não diz que é pelo BDS, porque tem medo de retaliação. Shakira falou, por exemplo, que foi um problema de agenda. Mesmo assim, foi uma vitória pra gente.

O que mudou na Palestina desde que foi adotado o BDS?
O que muda materialmente para o povo palestino se Milton Nascimento não cantar em Israel? Nada. Mas é simbólico: faz com que as pessoas abram um debate e que fique cada vez mais difícil manter essa fachada de democracia. Quanto mais Israel tem medo do BDS, mais eficaz o BDS se torna. Israel não só considera crime o chamado ao BDS dentro de Israel – você pode pagar multa ou até ir pra cadeia -, como conseguiu com o lobby sionista criminalizar a chamada ao BDS em outros países. O primeiro foi a França, onde é considerado um crime de incitação ao ódio racial. Já teve ativistas que responderam a processos por isso. Eu estava morando em Berlim e no mês que eu saí de lá, em maio, a Alemanha colocou uma lei que diz que falar de BDS é antissemita. A gente vê como Israel está desesperada, se está criminalizando até fora é porque está funcionando. Bolsonaro é sionista e adora criminalizar o ativismo, então isso pode chegar aqui no Brasil também.

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Como você acha que essa relação próxima do governo Bolsonaro com Israel pode afetar o ativismo no Brasil?
Pode parecer algo tão longe da gente “por que eu vou me preocupar com a Palestina se a população negra está sendo exterminada aqui?”. Mas a questão Palestina está muito mais perto do que a gente imagina. Há um longo histórico de colaboração militar entre Brasil e Israel, desde a ditadura militar. E continuou. Nos governos Lula e Dilma foram renovados armamentos para o Exército comprados em Israel. Quando teve a intervenção militar no Rio de Janeiro, o topo dos tanques que entraram nas favelas eram de Israel. Para a Copa do Mundo e para as Olimpíadas foram comprados drones de Israel para patrulhar o espaço aéreo. E não só isso, mas o Brasil também importa de Israel tecnologia de segurança privada e digital. O que acho mais assustador é que o Brasil traz israelenses para treinar a polícia brasileira. É assustador porque Israel é o maior mestre no mundo em reprimir população civil desarmada. A gente pode imaginar que a repressão vai aumentar muito, porque se tem uma coisa que Israel sabe fazer muito bem é isso. E também o controle de segurança. Os palestinos são todos fichados, todos estão em um sistema. Há razões para se ter medo, porque isso pode ser importado. E quanto mais essas relações forem estreitadas, maior vai ser a repressão para o nosso lado. Não é à toa que Netanyahu veio pessoalmente ao Brasil trazer seu apoio. Temos que parar de tratar Israel como um país normal.

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