Associação quer produzir legalmente óleo medicinal à base de cannabis

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Com quase dois anos de existência, a Cannape (Associação Canábica Medicinal de Pernambuco) nasceu com a missão e tomou para si o desafio de ser a primeira associação pernambucana com autorização para cultivar e produzir o medicamento à base do óleo extraído da folha da Cannabis Sativa para fins medicinais.

Fabrina Juliana, mãe e fundadora da Cannape, comprovou na prática os benefícios do óleo canabidiol quando seu filho, Arthur, de 7 anos, diagnosticado com autismo moderado, começou a melhorar depois de 15 dias utilizando o óleo canabidiol. A dificuldade de acessar o remédio que mudou a vida do filho é o problema que a associação quer resolver.

Atualmente, as famílias que fazem ou desejam fazer uso do óleo têm três opções: importar o remédio, comprar da única associação no Brasil autorizada ou obter por meios ilegais. Nenhuma das opções é suficiente para a demanda de mães e pais que hoje já buscam ajuda da Cannape, relata Fabrinca. “Desde o início a maior dificuldade é pleitear na Justiça o direito de cultivar e poder repassar a custo baixo para outras famílias que precisam do óleo a base de cannabis”, explica. A ideia da Cannape é seguir o exemplo da organização Abrace Esperança, da Paraíba, que é a primeira e única que obteve na Justiça a autorização definitiva para cultivar plantas ricas em CBD e THC para fins medicinais.

De acordo com Fabrina, que está na Cannape desde o surgimento, quando ainda era um grupo de mães trocando informações, mesmo a compra do óleo produzido pela Abrace não supriria a necessidade. Hoje, a Cannape auxilia mais de 100 famílias. “A gente tenta buscar médicos para atender as famílias, trazer outros profissionais de psicologia. Se eles conseguiram a gente também pode conseguir”, conta ela, que está na associação desde o início, quando ainda eram um grupo de mães buscando informações informalmente.

Pela via oficial, a importação do remédio, além de cara, demanda uma burocracia que muitas famílias não podem assumir. Fabrina, por exemplo, deu entrada na autorização para compra do remédio pela Anvisa há 8 meses e não teve resposta. Um frasco de óleo de canabidiol não sai por menos de R$ 1.200. “É uma burocracia sem fim que não facilita a vida nem de uma mãe que tem condições de pagar pelo remédio”, argumenta.

O preconceito com a maconha, como é conhecida popularmente a planta, é outra barreira que a associação e famílias buscam superar realizando as chamadas “rodas canábicas”. As rodas são espaços de conversa que sempre discutem a relação de uma doença específica com o tratamento a partir da cannabis. Foi assim que diversas famílias descobriram os usos e possibilidades de tratamento para doenças como fibromialgia, autismo e outras.

Assembleia

Após passar por mudanças internas, a Cannape realizará no próximo dia 6 de dezembro uma assembleia de constituição da associação. O evento tem início às 19h, na ONG Anjo da Guarda, em Paulista (Rua Barros, 156). No evento, os integrantes da associação vão aprovar o documento que orienta as ações e missão da entidade.

Futuro da pauta no Congresso

Foi aprovado nesta quarta-feira (28) em comissão do Senado o projeto de PLS 514/2017 que descriminaliza o cultivo de maconha para fins terapêuticos. A senadora Marta Suplicy é relatora da proposta, que ainda passará por outras comissões para ser aprovada definitivamente. Essa é uma das matérias que o Cannape e outras organizações apoiam no Congresso Nacional.

Fabrina torce para que essa pauta seja analisada ainda esse ano, pois o cenário conservador que se desenha para 2019 pode dificultar as mudanças na legislação que poderiam ajudar famílias como as dela. “Temos os problemas atualmente, com a Anvisa, mas é algo que podemos brigar. Desde que Bolsonaro ganhou a gente está com muito medo”, conta. Ela defende o surgimento de outras associações como a Cannape para dar mais força ao movimento no próximo governo. “A esperança diminuiu um pouco, mas nós vamos continuar lutando”, garantiu.

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Sobre o autor

Débora Britto trabalhou como jornalista no Centro de Cultura Luiz Freire - organização não governamental de defesa dos direitos humanos - é integrante do Terral Coletivo de Comunicação Popular, grupo que atua na defesa do direito à comunicação como fundamento para a garantia de outros direitos. Também tem passagem como jornalista pelo Centro de Desenvolvimento Agroecológico Sabiá, entidade voltada para ações de fortalecimento da agricultura familiar agroecológica.

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