Ato pró-Bolsonaro no Recife: novos “vilões” e clima de campanha

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Não é à toa que o presidente Jair Bolsonaro mantém mesmo no governo o discurso de “nós contra todos” da sua campanha. Também não é por acaso que seu grupo político tenha continuado tão atuante no Twitter e no WhatsApp. Era, e é, preciso manter seus apoiadores sempre mobilizados. Na hora em que necessitar de apoio ou de mostrar força nas ruas, eles estarão lá, dispostos, mais uma vez, a defender o bolsonarismo.

Foi o que aconteceu na tarde deste domingo (26) quando milhares de apoiadores recifenses tiraram as camisetas dos armários e foram para a Avenida Boa Viagem. Parecia que as eleições não haviam acabado e que Bolsonaro ainda era candidato. Se antes o PT era o obstáculo a ser vencido, agora o que impede o dólar baixo é o Centrão e a demora na aprovação da reforma da Previdência.

Vitor Borba, do Direita PE. Foto: MCS/MZ

Vitor Borba, do Direita PE. Foto: MCS/MZ

Encabeçado por grupos como Liberta PE, Direita PE e Endireita PE, o ato contou com oito trios elétricos e percorreu, em cerca de três horas, a distância de 1,3 quilômetro entre a Padaria Boa Viagem e o Segundo Jardim. Presidente do Direita Pernambuco, Vitor Borba disse que não sabia quanto o ato tinha custado. “Foram muitas doações e donos de trio até deram o aluguel de graça”, afirmou, acrescentando que a manifestação era “apartidária”.

Quantas pessoas foram ao ato no Recife?
Não dá pra negar que no Recife o ato pró-Bolsonaro arrastou uma multidão. A Polícia Militar de Pernambuco há anos não divulga números oficiais de manifestações. Por volta das 15h, o Direita Pernambuco falava em 20 ou 30 mil pessoas. Ao final do evento, um representante da organização anunciava no microfone que foram 50 mil. O site G1 deu 65 mil pessoas, citando a “organização do evento”, enquanto o Jornal do Commercio deu 100 mil, citando o Liberta PE. Já faz parte do ritual dos eventos de rua que os seus organizadores superdimensionem e “chutem” bem pra cima o tamanho do público.

Independentemente da quantidade exata de pessoas, é bom frisar que o evento lotou o trecho em que foi realizado. E, se não foi um tsunami, tampouco foi um fracasso.

Mesmo que a mobilização tenha parecido genuína, claro que há gastos. Em um desses oito trios, treze pessoas estavam trabalhando. Cada uma recebeu R$ 100 de diária. Apesar do movimento se dizer “apartidário”, havia vários banners do deputados estadual Marco Aurélio (PRTB). Ele ficou boa parte do tempo em um trio onde várias pessoas usavam uma pulseirinha onde se lia “Trio Marco Aurélio”.

Para a Marco Zero, o deputado afirmou que ajudou financeiramente o ato com apenas R$ 3 mil. A deputada Clarissa Tércio (PTC), que também estava no trio de Marco Aurélio, confirmou que também apoiou financeiramente a manifestação, mas se reusou a dizer os valores. O recém-empossado presidente da Embratur, Gilson Machado Neto (PSL), e o coronel Meira (PRTB) também lideraram o ato. Presidente do PSL, o pernambucano Luciano Bivar, que chegou a dizer na semana passada que as manifestações em apoio a Bolsonaro eram “sem sentido”, não foi visto no protesto no Recife.

Marco Aurélio e Clarissa Tércio.

Marco Aurélio e Clarissa Tércio.

Se já passou a época de se dizer que a direita e a extrema-direita não se mobilizam para ir às ruas, também é hora de se repensar a ideia de que eles não sabem fazer protesto. Há muito discurso repleto de raiva, mas a maioria do tempo é de diversão e palavras de ordem. Nos trios, se tocava axé, funk e até Jorge Ben Jor. Há uma longa playlist de músicas próprias que citam Bolsonaro, Moro e demais bolsonaristas.

A reforma da Previdência foi a principal defesa feita pelos participantes, embora muitos não soubessem exatamente do que se trata.

Vestido de Batman, um músico tirava fotos com os manifestantes. Sem querer se identificar, falou da importância da reforma da Previdência. “São poucas pessoas trabalhando para sustentar muitos aposentados”, alegou, dizendo que é MEI (Microempreendedor individual) e pretende se aposentar pelo INSS. Não sabia como a reforma iria impactar no seu caso.

Para Elizabete Gomes, que se disse socióloga e jornalista, Bolsonaro fez “muita coisa boa” nestes cinco meses. Quando perguntada sobre quais, ela afirmou que ele “colocou corruptos na prisão”. Não sabia citar quem foram esses corruptos. De certo mesmo, o que ela mais achou importante foi a ampliação de 5 para 10 anos da validade da carteira de motorista, uma proposta do presidente que deve ser encaminhada ao Congresso em forma de Medida Provisória.

Uma das puxadoras de trio mais animadas (e exaltadas) era Vera Queiroz. Ela se define como uma “ativista política independente”. É funcionária pública aposentada e uma ferrenha defensora da reforma da Previdência. “As pessoas hoje se aposentam e continuam a trabalhar, não vejo mal nisso”, respondeu. Quando questionada se achava justo os 40 anos de trabalho para se conseguir o valor integral de remuneração do INSS, disse que a maioria das coisas (negativas) que se fala sobre a reforma é mentira da imprensa.

Ela conheceu Bolsonaro nas manifestações de 2013, quando acampou em Brasília. O então deputado fez uma visita e ela se identificou com o antipetismo dele. Desde então, diz que já participou de todas as manifestações da direita e da extrema-direita em Pernambuco. “Não sei quanto eu já gastei. Tiro tudo do meu bolso”, diz a aposentada do funcionalismo público, sem citar quanto gastou para a manifestação deste domingo.

Os inimigos agora são outros

Para manter a manifestação sempre animada, de vez em quando alguém nos trios soltava um “Lula está presoooo”. A multidão comemorava como se tivesse se recuperado de uma longa amnésia e estivesse recebendo aquela notícia agora, ali.

Mas não dá para manter o mesmo inimigo durante tanto tempo, ainda mais ele estando preso. Ao lado do ódio ao arquirrival “lulopetismo” – só havia um único cover do Pixuleco no ato – uma nova geração de vilões do bolsonarismo se descortina.

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM), e o Centrão – grupo de partidos de centro e centro-direita que possuem em torno de 40% dos votos na Câmara - talvez sejam a grande aposta da temporada. Na Av. Boa Viagem teve até um teatrinho na traseira de um caminhão: vestido de terno e com uma máscara de Maia, um homem puxava uma corda para si, tendo do outro lado da disputa pessoas vestidas com camisas em que estavam escritos os personagens “do bem” como “reforma da Previdência”, “Minha Casa, Minha Vida” e “Bolsa Família”.

STF foi um dos vilões do ato. Foto: MCS/MZ

STF foi um dos vilões do ato. Foto: MCS/MZ

Para movimentar o roteiro com traições, tem também fogo amigo. “Alcolumbre – aprendeste ligeiroo, né. Traíraaaaa” era um dos maiores banners no principal trio elétrico, em referência ao presidente do Senado Davi Alcolumbre (DEM-AP), apoiado pelo governo para o cargo e que recentemente defendeu a decisão do Coaf (Conselho de Controle da Atividade Financeira) ficar no Ministério da Economia contra a proposta do governo Bolsonaro de transferência para o Ministério da Justiça, sob o comando de Sérgio Moro.

O Supremo Tribunal Federal é um personagem que ainda divide os bolsonaristas – pelo menos em falas oficiais. Enquanto alguns cartazes pediam o fim da maior corte brasileira, o deputado Marco Aurélio se dizia contra este tipo de pauta. Clarissa afirmou que ainda não havia pensado no assunto. E Vitor Borba, do Direita Pernambuco, que não era uma das pautas do ato. “Fora Toffoli” (referência a Dias Toffoli, presidente do STF) e “Ministro, o STF é uma vergonha” foram uns dos vários cartazes de crítica ao Judiciário – apontado por alguns manifestantes como um dos impeditivos da não fluidez do governo Bolsonaro. Nos trios, de vez em quando tocava um funk que sugeria que o STF está repleto de “advogados do PT” e “defensores do PCC”.

A imprensa continua sendo um bom e velho inimigo. Mas mesmo assim os bolsonaristas a desejam. Clarissa pediu (ironicamente, mas não muito) ao microfone para que a TV Globo filmasse o ato. Na reta de chegada, um dos animadores do trio pedia para que todo mundo que estava na calçada fosse para trás do veículo porque a TV Record – “a Nacional”, destacou – ia gravar e era bom mostrar mais gente ali.

trumpAo fim do ato, quando o principal trio chegou ao Segundo Jardim, o animador do microfone pediu para que as pessoas ali não acreditassem no que leem, veem ou escutam nos noticiários. Disse que Bolsonaro está sozinho em Brasília. Que o único aliado dele é o povo. E que “a verdade está nas redes sociais”.

Se os inimigos foram ampliados, o mesmo não se pode dizer dos amigos. Estados Unidos e Israel continuam na linha de frente dessa amizade. Mesmo que muitos bolsonaristas não entendam bem o porquê. Para a dona de casa Zuleide Cristoforini, é porque Israel é um país, como o Brasil, “de cristãos”. Quando a reportagem informa que judeus não são cristãos, ela se corrige afirmando que são “do bem, são contra o aborto” (em tempo: o aborto é legal em Israel).

Zuleide fez questão de tirar uma foto entre as bandeiras de Israel e dos EUA, levada por uma mulher que justificou a presença da bandeira do país estrangeiro no protesto porque “os Estados Unidos são aliados do Brasil”.

Havia muitos outros sinais pró-EUA. Em um buggy, um homem vestia uma máscara de Donald Trump. Sintonizado com seu potencial eleitorado, Marco Aurélio usava um boné onde se lia “Trump 2020”. É, afinal, o mandato de Trump que inspira os bolsonaristas: um governo que não é para a maioria, mas que tem uma minoria extremamente mobilizada nas redes sociais e, quando necessário, nas ruas.

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