Ibura: o que pensam eleitores de Bolsonaro no bairro onde mais se morre por arma de fogo no Recife

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Por Maria Carolina Santos e Raíssa Ebrahim

Um dia depois de a violência ter feito pelo menos mais duas vítimas fatais na Vila dos Milagres, no Ibura, Zona Sul do Recife, a Marco Zero Conteúdo visitou o local para entender o que pensam os eleitores de Jair Bolsonaro (PSL) e por que veem uma esperança de mudança no projeto de segurança pública do candidato que, entre outras atrocidades, apoia a tortura, quer facilitar o porte de arma e dar “carta branca” para Polícia Militar matar em serviço. Alguns sentimentos são dominantes no bairro em que Bolsonaro teve 43% a mais de votos do que Fernando Haddad (PT) no primeiro turno: o conservadorismo, o antipetismo, a descrença de que Bolsonaro fará mesmo tudo o que declara e a figura dele como vetor de transformação, mesmo que muita gente nem conheça o programa de governo do capitão da reserva.

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“Os bandidos estão aí armados, e a gente?”, questiona Andréa Maria Lourenço, dona de casa. Mãe de uma menina de cinco anos, ela espera que Bolsonaro ajude a resolver o problema da violência “até porque ele é militar e fala sobre os direitos humanos, que protegem muito o bandido. Às vezes o bandido pode fazer o que quer e a gente tem que ficar preso, porque os direitos humanos entram mesmo, vão em cima atrás de defender”. A sensação de impunidade e insegurança que atinge os mais pobres é a orientação punitivista que faz sentido na construção social.

Andréa já foi defensora do PT, hoje está desacreditada, acha que “o partido foi bom no começo, fez bastante coisa pro Nordeste. Mas tá aí há muito tempo já”. Perguntada sobre o que Bolsonaro representa neste momento do País, ela responde: “Por mais que ele não vá fazer grandes coisas, algo precisa mudar. Não é que ele vá ser um grande presidente e vá fazer o Brasil virar os Estados Unidos, onde as pessoas têm arma, mas sabem que serão punidos. Porém, temos que tentar”. E se não der certo? “Aí, daqui a quatro anos, se nada mudar, eu voto em outro”.

O alto índice de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs) virou rotina no Ibura, onde residem 50.617 pessoas, com rendimento mensal médio de menos de R$ 1,2 mil por domicílio, segundo o site da Prefeitura do Recife. Dos 265 disparos de arma de fogo na capital entre abril e setembro, 26 foram registrados no Ibura, o recorde entre os bairros. Os dados são da plataforma digital colaborativa Fogo Cruzado, coordenada pelo Instituto Update, de São Paulo, e que em Pernambuco tem parceria com o Núcleo de Estudos de Políticas de Segurança da Universidade Federal de Pernambuco (Neps) e organizações da sociedade civil. Confira aqui o levantamento completo. A Secretaria de Defesa Social (SDS) não divulga recortes da violência por bairros “por questões estratégicas”.

No primeiro turno, o resultado do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) Pernambuco mostra que Bolsonaro somou 22.617 votos no Ibura, contra 15.797 de Haddad, isto é, 43% a mais. O petista só ganhou em duas das 167 seções, com pouca diferença, de 14 em uma e de 21 em outra. E empatou em uma única, com 77 votos para cada.

O resultado eleitoral do Ibura é, em grande medida, o retrato da dura crítica feita pelo rapper Mano Brown esta semana no comício de Haddad promovido por artistas no Rio de Janeiro, nos Arcos da Lapa. Brown evidenciou o quanto o PT deixou de entender as periferias. “O pessoal daqui falhou, vai pagar o preço. Porque a comunicação é a alma. Se não tá conseguindo falar a língua do povo, vai perder mesmo. Falar bem do PT pra torcida do PT é fácil. Tem uma multidão que não tá aqui que precisa ser conquistada (…) Se nós somos o Partido dos Trabalhadores, partido do povo, tem que entender o que o povo quer. Se não sabe, volta pra base e vai procurar saber.”

No Ibura, o que as pessoas querem é, principalmente, segurança. Em 2016, o Brasil alcançou a marca histórica de 62.517 homicídios, segundo informações do Ministério da Saúde. Isso equivale a uma taxa de 30,3 mortes para cada 100 mil habitantes, 30 vezes a taxa da Europa. A situação é mais grave no Nordeste e Norte. Pernambuco ocupa o 6º lugar no ranking de estados onde mais se morre em decorrência da violência (47,3), como mostra o Atlas da Violência 2018, com dados de 2016, produzido pelo Ipea e Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O aumento da quantidade de jovens (15 a 29 anos) assassinados em 2016 em Pernambuco foi em torno de 20%. Entre os negros, os homicídios cresceram 12,0%. Em 2017, 5.427 morreram no estado vítimas da violência, um recorde, segundo dados da SDS.

“Se eu pudesse comprar, se tivesse dinheiro, eu dava até R$ 1 milhão numa arma”. Esse é o desejo de consumo do caminhoneiro aposentado Roberto da Silva para proteger a família. Vota no 17 porque o “negócio tá feio, tá todo mundo lascado. Se não der certo, daqui a quatro anos tiramos de novo”. Com 11 filhos e, “parece” que, 12 netos, quer um revólver “apenas” para ter dentro de casa. “Não é pra andar na rua, que ninguém é policial. Se tiver uma criança e uma mocinha dentro de casa ou chegar um pra levar a mixaria que eu tenho pra fazer a feira, ele morre mais eu, morrem os dois”, defende. Seu Roberto, que conta com o serviço público de saúde para fazer hemodiálise, acha que a polícia não tem que matar em serviço, mas “quem é que quer levar um tiro sabendo, né? Por isso a polícia tem que agir”. Acha que Bolsonaro vai colocar mais polícia na rua e isso vai ajudar a diminuir a violência. Não vota em Haddad também porque, se ele ganhar, “é Lula preso quem vai administrar o Brasil”.

Seu Roberto acha que a saída para proteger a família é ter uma arma em casa

#PraCegoVer Roberto está sentado, na frente de uma portão de grade branca. Ele usa camisa de botão de mangas longas, aberta, boné, e tem um curativo no braço esquerdo. Crédito: Raissa Ebrahim/MZ Conteúdo

Cláudio Luciano mora no Ibura há 40 anos, desde que nasceu. Ele, que já “votou muito no PT”, é sommelier e maitre num restaurante nobre da Zona Norte. Conheceu e chegou a tirar foto com Bolsonaro (“foi ele quem pediu”) em Brasília em 2016. Na ocasião, perguntou o que o deputado faria pelo Nordeste. “Ele não respondeu com propostas, mas disse que tinha ideias pra acabar com essa divisão de sul/sudeste e norte/nordeste”. Apesar de já ter morado no Sul e “ter passado perrengue lá por ser nordestino”, acha que a fala de Bolsonaro sobre o “coitadismo” de negros, nordestinos, gays e mulheres “tem um pouco de verdade”. “Existe mesmo um ‘autopreconceito’, sobretudo entre os negros. Eles já chegam procurando um problema pra subentender que a gente tá tratando eles mal por serem negros”. Sobre a violência, Dinho acha que não é válido facilitar o porte de arma, principalmente numa realidade como o Ibura. Por mais que essa proposta tenha feito parte da campanha de Bolsonaro, cuja uma das marcas são as mãos simulando o uso de uma arma, o sommelier acredita que esse ponto “não será aprovado”.

A dona de casa Verônica Pereira ainda está decidindo o voto, mas está inclinada a votar no candidato de extrema-direita influenciada pelo marido e por que acha que Bolsonaro vai melhorar a segurança. Porém, ela não aposta que ele irá cumprir as propostas esdrúxulas de campanha: “As propostas dele, pelo que tão dizendo aí, não tem nada a ver, é que campanha é assim mesmo, um detona o outro. Mas eu acredito que não vai ser nada disso que os outros tão dizendo. Só tenho fé em Deus que ele faça a diferença”.

“Antes de ficar reproduzindo bordões preconceituosos acerca dos ‘pobres de direita’, deveríamos fazer o esforço de colocar as coisas em perspectiva e lembrar que, na maioria das vezes, o amparo só vem da religião, da família e das ações coletivas e movimentos sociais, raramente do Estado. Não se pode esperar que brotem almas democráticas e contestadoras de pessoas cujo contexto, desde o espancamento que recebeu do pai até a lição que levou da polícia, é marcado pela violência”, analisa em artigo a professora, cientista social e antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, docente da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), coordenadora e co-fundadora da Escola de Governo Comum e articulista do site The Intercept Brasil.

Rosana destaca ainda que “Se elegermos um fascista presidente e se parte dessa votação vier das classes populares, a responsabilidade por isso é antes do ódio de classe, do racismo e de décadas de omissão do Estado. Os que apanham da polícia real, mas torcem pelo policial ideal estão apenas expressando a própria contradição do modelo de nação brasileira”.

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