A crise dos combustíveis nos editoriais da grande imprensa

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Da quinta-feira (24) à terça-feira (29), os três jornalões do eixo Rio-São Paulo – Folha de S.Paulo, Estadão e O Globo – publicaram 13 editoriais sobre a greve dos caminhoneiros. Em nenhum deles há uma única linha contra as manifestações públicas de parte dos motoristas de caminhão em defesa da intervenção militar no país. Absolutamente nada.

Em meio ao caos nas ruas, os grupos que controlam os jornalões jogaram o peso político de sua influência em Brasília na tarefa de erguer um cinturão de proteção à política da Petrobras sob o governo Temer, que atrela os preços internos dos combustíveis às oscilações diárias do mercado internacional de petróleo. À suposta “credibilidade” de Pedro Parente opuseram o que chamaram de “governo desastroso de Dilma Rousseff”.

A greve dos caminhoneiros começou na segunda-feira (21), mas a mídia brasileira só se deu conta do que acontecia na quarta-feira (23) quando o bloqueio de dezenas de estradas pelo país afora já não podia ser ignorado. A greve surpreendeu o governo federal tanto quanto surpreendeu a mídia.

Avisos não faltaram. No dia 14, a Associação Brasileira dos Caminhoneiros (Abcam) enviou ofício à Presidência da República e, no dia 18, a Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA) lançou comunicado público. Sem a redução de impostos sobre os combustíveis parariam na segunda (21).

A VOZ DO MERCADO

Os primeiros editoriais saem na quinta-feira (24). Folha (Preço não faz Acordo) e Estadão (A greve dos caminhoneiros) lançam o alerta de que a nova política de preços da Petrobras precisa ser preservada.

Na Folha: “O risco, que se deve evitar a todo custo, é uma recaída no controle populista de preços, que, aliado a gestão irresponsável e corrupção, levou a Petrobras à breca”. O Estado segue a mesma toada: “Essa política – fortalecida por outras medidas de teor semelhante – simboliza o afastamento total da interferência política nas decisões da Petrobras, como as que havia na gestão lulopetista”.

Em resumo: contra a ingerência política do PT de Lula e Dilma, a competência técnica e isenta do PSDB de Pedro Parente.

Segundo os jornais, não há saída fácil para a crise. Ganha-se tempo com a proposta feita pela Petrobras de redução de 10% no preço do diesel por 15 dias, mas o caminho deve passar pela redução de impostos: Cide e Pis-Cofins federais e ICMS estadual. Esse último com peso maior sobre o preço final dos combustíveis. Valeria perguntar aos editorialistas: como fazê-lo, abrindo mão de receitas, se o governo que iria sanear as contas públicas arrasta um déficit estimado em 159 bilhões?

O Globo da sexta-feira, 25, aproveita o editorial (Impostos são um problema sobre combustíveis) para atacar a carga tributária no Brasil e, de quebra, questionar o tamanho do Estado: “É oportuno chamar a atenção que os governos estaduais, assim como a União, se limitam a transferir para o contribuinte seus aumentos reais de despesas em custeio, basicamente salários do funcionalismo, aposentadorias e pensões. Os estados têm nos combustíveis uma das fontes preferenciais de receita, por ser de fácil e barato recolhimento. É por isso que o ICMS sobre energia elétrica e serviços de telecomunicação também é escorchante. A greve dos caminhoneiros serve ao menos para jogar luz neste achaque tributário que estados cometem contra a população”.

Mas, pelo visto, não serve para que os jornalões joguem luz sobre a natureza extremamente desigual da distribuição da carga tributária no Brasil, onde os mais pobres pagam proporcionalmente mais impostos do que os mais ricos, considerando o modelo centrado mais na cobrança sobre o consumo, a produção e a renda do trabalho do que sobre o a renda do capital e o patrimônio.

Para O Globo, o cidadão não pode arcar com os impostos “escorchantes” do combustível (que vão parar nos caixas da União e dos estados), mas deve estar preparado para pagar pela alta volatilidade do mercado internacional de petróleo e suas disputas geopolíticas (que beneficiam os acionistas privados). O barril subiu de 45 para 80 dólares em menos de um ano. “Importante é a empresa não voltar ao populismo de arcar com aumento de custos no lugar do consumidor”, defende o editorial do dia 25.

A redução do refino de petróleo nas refinarias da Petrobras, o aumento da dependência brasileira à importação de combustível, a mudança na lei de exploração do pré-sal e a venda de ativos para multinacionais estrangeiras sequer são citadas nos editoriais. Afinal, tratam-se de decisões técnicas aplaudidas pelo mercado.

E o humor do mercado vale muito, como ressalta O Globo: “O ponto é sensível, tanto que títulos da empresa em Nova York (ADR) caíram. O sinal é claro: se voltar o passado da ingerência descabida do Estado no setor, esqueçam-se dos projetos de modernização da Petrobras, que passam pela entrada de capitais privados no refino e na BR Distribuidora”.

APOIO À REPRESSÃO

No sábado (26), os três jornais saudaram a iniciativa do governo Temer de colocar as forças federais de segurança nas ruas para desfazer os bloqueios nas estradas. São unânimes também em criticar a “capitulação quase incondicional” do governo federal ao ceder aos caminhoneiros “arruaceiros” e às empresas de cargas “chantagistas”, comprometendo-se a “pagar com o dinheiro do contribuinte as perdas da Petrobras”. Os ataques a um Congresso “acovardado e oportunista” ecoam pelos editoriais da Folha (Reação Tardia), do Estadão (Irresponsabilidade Generalizada) e de O Globo (Greve de Caminhoneiros Sequestrou a Sociedade).

Para o Estadão, os bloqueios nas estradas, a falta de combustível nos postos, o desabastecimento nos supermercados e o perigo da falta de atendimento nos hospitais são características de um país em guerra. “O Brasil está em guerra. De um lado, estão as corporações, os políticos venais e os viciados em subsídios e favores estatais; de outro, os brasileiros que trabalham e pagam impostos. Infelizmente, por ora, são estes que estão perdendo”. Não por acaso, o discurso do jornalão paulista (apoiador dos golpes de 1964 e 2016) reflete a divisão entre mocinhos e bandidos feita por setores grevistas que clamam nas ruas por intervenção militar.

Na Folha de domingo, 27, (Perdas e Vexames) a naturalização da desigualdade e a fé inabalada na capacidade do mercado em minimizá-la: “Governantes e legisladores seguem aferrados à prática de acomodar todas as demandas de uma sociedade desigual no Orçamento e na dívida pública, como se já não vivêssemos as tristes sequelas do esgotamento dessa estratégia”.

DEMOCRACIA, IMPRENSA E DESTINO

Chegamos à terça-feira (29) com o compromisso do governo Temer de reduzir em 0,46 centavos o preço do diesel nas bombas, o acerto de que depois de 60 dias os reajustes passarão a ser mensais e não mais diários (o Tesouro vai pagar a conta das oscilações cambiais e da cotação do petróleo) e o desconto no pedágio para os caminhões que circulam sem carga, entre outras medidas. Somadas, elas devem custar mais de R$ 10 bilhões aos cofres públicos. Folha (Cobrar o Acordo) e O Globo (É urgente restabelecer o abastecimento) lamentam pelo desfecho das negociações.

O Estadão (Fraqueza Perigosa) vai além, classificando de “incendiários” aqueles que pensam que “Temer pode ser transformado no símbolo de tudo o que acontece de ruim no país” ao lembrar da anunciada greve dos petroleiiros a partir desta quarta-feira (30) e ameaça: “É preciso (ao governo) retomar a autoridade que lhe compete, fazendo com que a lei seja cumprida por meio dos instrumentos que a Constituição lhe faculta. Um governo que não se faz respeitar não pode se queixar do destino”.

E a imprensa? Pode?

A ombudsman da Folha, Paula Cesarino Costa, em sua coluna de domingo bota o dedo na ferida ao apontar, não a incompetência do governo Temer, mas a incapacidade dos jornais de identificar e explicar como o país caiu de uma hora para outra numa crise que afetou a rotina de milhões de brasileiros. Para Paula, “a Folha deu indicacões de despreparo, desnorteamento e fragilidade de análise”.

“Para além dos atos em si, toda a questão legal e política da reação do governo, que anunciou o uso das Forças Armadas contra manifestantes e expedientes temerários como a requisição de bens, era por demais confusa e foi pouco questionada e analisada”, explica a ombudsman. E conclui: “Os jornais foram atropelados pela greve dos caminhoneiros e empresas de transporte”.

Ao que tudo indica, a combalida democracia brasileira é a principal vítima desse choque.

Não se engane, você não vai ler nada nos editoriais dos jornalões sobre essa morte anunciada.

 

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Sobre o autor

É formado em Jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco. Foi repórter de Polícia do Jornal do Commercio; repórter, editor e colunista de Política do Diário de Pernambuco. Coordenou a área de comunicação social do Ministério da Saúde e ocupou os cargos de diretor de mídia regional e secretário-adjunto de Imprensa da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. É co-autor do livro Vulneráveis – entre a emergência da vida e a incerteza do futuro, Editora Bagaço, 2015.

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