“Perdemos tanto, que perdemos o medo”, diz Monica Benicio, companheira de Marielle Franco

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Por Débora Britto e Helena Dias

Defensora de direitos humanos, Monica Benicio assumiu como missão de vida a luta por justiça e pela memória de Marielle Franco, sua companheira, com quem iria se casar em 2019. “O Estado matou minha mulher e não me dá uma resposta de quem fez isso. Perdemos tanto, que perdemos o medo”, afirma, com a camisa estampada com a pergunta que a acompanha.

Com o tom de voz sereno, mas firme, Monica tem viajado o Brasil e o mundo denunciando as investidas contra os direitos e retoma o que trouxe o país ao cenário atual: de 2016, com o golpe contra a ex-presidenta Dilma Rousseff até a ascensão do discurso de ódio que coloca Bolsonaro no poder em 2018. Hoje, ela trabalha na liderança do Psol na Câmara Federal.

A fala e a presença de Monica inspiram solidariedade e convocam ativistas, cidadãos, pessoas comuns, a lutar coletivamente. “A gente deveria sentir medo e recuar, mas a gente não recuou. Então eles têm medo porque colocaram uma força enorme e agora esperam uma reação. O momento é de esperança. A tendência é as violências aumentarem, mas precisamos de articulação, de solidariedade. Precisamos parar de ter preguiça de acompanhar a política e nos manter em constante movimento”, afirma.

Atuando em diversas frentes de defesa de direitos, ela chama atenção para a importância de não hierarquizar dores e de convergir forças para a luta coletiva. “Como mulher branca, favelada, lésbica eu sei também o meu lugar. Eu deixei de ter muitas portas fechadas apenas pelo fato de não ser negra”, reflete e acrescenta que “é preciso ter cuidado para não desumanizar Marielle, não a colocar no pedestal e endeusar. Marielle se tornou um símbolo de luta por muitas”.

No dia 400 sem resposta sobre quem foi o mandante do assassinato de Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, a Marco Zero Conteúdo conversou com Monica Benicio, que esteve no Recife participando do debate sobre Ativismo, Arte e Feminismo, na quinta-feira (18), no Cais do Sertão.

1Mônica Benício_Foto Mayara Santana

Monica chama atenção para não hierarquizar dor e convergir força por ação coletiva

Entrevista com Monica Benicio, ativista de direitos humanos e companheira de Marielle Franco

Qual o lugar da arte na sua militância?

Olha, a arte teve mais lugar na minha vida antes do 14 de março de 2018. Antes de 400 dias atrás. Porque, enquanto arquiteta e urbanista, a arte foi uma paixão que eu cultivei muito e quis fazer Belas Artes, inclusive. Mas, hoje, a arte tem sido uma parceira na luta. Em eventos como esse, em outros festivais também, nas pessoas que replicam a imagem da Marielle de diversas formas possíveis no mundo inteiro. Então, a arte tem sido uma ferramenta parceira nesta luta.

Seu mestrado é sobre a violência na relação das pessoas com as cidades onde vivem. Qual o papel da arte neste contexto?

Há um diálogo, mas ele não chega para todo mundo. Falando especificamente da minha experiência no Rio de Janeiro, a favela pouco se relaciona com a arte da iniciativa cultural. E, obviamente, há muita cultura na favela e na periferia e essa arte que tem origem na favela não chega com a força e expressividade que deveria chegar para o resto da cidade. Eu acho que falta diálogo, falta uma conexão fluida. Sem dúvida nenhuma, a arte é uma expressão da própria linguagem da gente se ver e se percebe na cidade. No Rio de Janeiro, por exemplo, esse diálogo da periferia com o centro é feito através do grafite, uma arte urbana que é muito marcada por uma arte marginalizada. Retirar o estigma, tirar o olhar de criminalização do que é feio, ou do que é o conceito de arte, é uma coisa que a gente tem que estar dialogando. Modificar essa relação que a gente tem do corpo e de como esse corpo se relaciona com os espaços fluidos da cidade.

Dois dias antes de completar um ano da morte de Marielle Franco, dois acusados de executar Marielle foram presos. Para você, o que mudou depois disso? Como você analisa a condução do inquérito?

Os acusados de serem executores chegaram ali na véspera de um ano. Lamentável essa resposta que o Estado tem mais do que obrigação em dar. Demorou muito, um ano não pode ser um tempo aceitável para um crime dessa repercussão. Para nenhum tipo de assassinato, mas para um crime político de repercussão internacional, o Brasil passa uma vergonha internacional hoje a não responder quem mandou matar Marielle. Ouvi essa notícia com algum ânimo, porque pareceu que alguma coisa andou. Compreendo que o Estado não faz mais que a sua obrigação, mas dá um certo fôlego e esperança de que as coisas estão caminhando. O mais importante, o verdadeiro assassino, ainda não foi descoberto e a pergunta mais importante não foi respondida. Quem mandou matar? Esse é o verdadeiro assassino de Marielle Franco.

Como você sente a reação da bancada do Psol e de outros parlamentares de esquerda  na cobrança pela resposta de quem mandou matar Marielle dentro do Congresso?

O PSOL é o partido que Marielle ajudava a construir. Obviamente, é o partido que tem mesmo que ser o mais empenhado nesta luta. A gente tem um Congresso super conservador, em que a maior parte dele tem interesse que não se responda “Quem mandou matar?”. O que a gente faz enquanto partido é estar continuando a pressionar para que essa pergunta não caia no esquecimento, para que as pessoas não caiam no conformismo ou no erro de acreditar que a resposta de quem matou Marielle já foi respondida. Porque a resposta de quem matou deve ser, na verdade, quem mandou matar. Essa é uma pauta que a gente tem que estar constantemente alimentando. E o Congresso anda do jeito que a gente conhece, legislando em causa própria, trabalhando em prol dos seus próprios interesses, que nada representam para o povo brasileiro.

2Mônica Benício_Foto Mayara Santana

Ativista carrega memória e luta por Marielle

O que Marielle diria sobre o governo Bolsonaro?

Estamos fodidas. Porque é isso, assim, lamentavelmente ele é uma tragédia anunciada já em 2016. É um erro acreditar que ele aconteceu em 2018. Essa configuração da eleição de 2018 começa com o golpe de 2016 que já estava ali retirando a presidente eleita, com características misóginas. Toda a postura e a opinião de Marielle sempre ao longo da vida dela e na atuação da política institucional era justamente contra a política que Jair Bolsonaro representa. Ela não poderia ser outra coisa se não resistência nesse momento.

E ela estava na lida direta com a família Bolsonaro lá no Rio de Janeiro, não é?

Ela dividia o mesmo andar com o vereador no Rio, Carlos Bolsonaro. Era um debate constante, mas sempre tratado com respeito. Marielle sempre teve um relacionamento muito diplomático e cordial com todo mundo.

É sempre um incomodo se colocar como “a figura”, mas hoje quando se pensa em uma ativista lésbica, que coloca a pauta lésbica, as pessoas lembram logo de você. Como você tem carregado isso? Na morte de Marielle, a imprensa fez uma confusão sobre Marielle ser lésbica ou bissexual.

A gente tinha um casamento planejado agora para o dia 7 de setembro, era um relacionamento monogâmico. Era um relacionamento lésbico e a gente se entende dentro dessa relação como mulheres lésbicas. Por mais que eu já tenha tido experiências com homens e Marielle também. A lesbofobia é tão grande na sociedade brasileira que hoje existe um debate sobre isso porque tem uma intenção de cristalizar a imagem da Marielle. Porque como já era mulher, negra e favelada, então “vamos botar um bi” para ver se fica mais palatável para a sociedade. Estar neste lugar de ativista LGBT de visibilidade internacional é difícil principalmente nesta conjuntura, mas é um lugar que eu enxergo com muita responsabilidade porque eu sei das dificuldades que eu tive na vida, meu relacionamento com a Marielle. Eu sei da dor que sinto, da dor que carrego e é uma dor que eu não desejo para ninguém. Sobretudo, para uma defensora dos direitos humanos. Justiça por Marielle é a modificação dessa sociedade e é garantir que todo mundo possa chegar em casa para jantar com a família sem que isso seja terminado numa grande catástrofe. Numa sociedade genocida como esta, extremamente lgbtfóbica, que constrói a sua política em cima dos nossos corpos, das nossas vidas e dos nossos amores. É necessário que a gente modifique esse cenário e é essa a minha disponibilidade de luta.

Você pretende continuar participando destes debates do campo LGBT?

Sem dúvida. Quando eu passo a ocupar este lugar de figura pública, é através de uma tragédia. Não foi planejado ou construído. Mas hoje é fundamental que se ocupe (esse espaço). É uma experiência muito rica ver que o mundo inteiro está ferrado para caramba e não é um privilégio nosso. Cada um com dificuldades específicas, alguns com dificuldades restritivas ou com maior índice de violência, mas não tem hierarquização de dor. Se todo mundo sofre, a gente precisa fazer um planejamento onde todos parem de sofrer. Quando a companheira citou hoje “não sou livre enquanto uma mulher for prisioneira ainda que as correntes dela sejam diferentes das minhas”, eu lembrei que falei isso no primeiro dia do seminário (na Ucrânia), em uma mesa que nem era minha. Para falar que a gente não vai conseguir terminar de construir o debate e a solução para a lesbofobia se a gente não fizer o debate de classe, se a gente não fizer o debate antiracial. É ilusão, não dá para ficar hierarquizando ou buscando uma opressão para chamar de sua. Quando eu falo sobre o olhar da solidariedade e da empatia é, justamente, para não ter hierarquização da dor. Você tem as suas dores, eu tenho as minhas e a gente precisa dar um jeito de resolver para que não só a gente deixe de sentir, mas para que as próximas gerações não passem pelo o que a gente passou. Não tenham a necessidade de estar vivendo num Estado tão truculento com os nossos corpos e com as nossas decisões de vida. Hoje, ocupar um espaço como figura pública é a minha contribuição para a modificar essa sociedade.

Nesta trajetória recente, você tem sofrido alguma agressão ou perseguição de cunho lgbtfóbico?

Agressão física não. Já teve xingamentos na rua, inclusive, um mais violento que foi um carro me perseguindo. Mas é tanto que eu tenho uma medida cautelar pela Comissão Interamericana, estou dentro do programa de proteção aos defensores dos direitos humanos. É um Estado truculento, é uma sociedade que está muito contaminada pelo discurso de ódio, mas eu não vejo nenhum motivo ou razão para diminuir a luta ou parar. Muito pelo contrário, se a gente está incomodando, é sinal que estamos no caminho certo.

Debate arte ativismo_Foto Mayara Santana 18.04.2018

Roda de conversa reuniu diversas expressões de arte e ativismo, com foco na resistência e articulação de mulheres

Ativismo, Arte e Feminismo

O debate que trouxe Monica ao Recife integrou a programação do festival Abril pro Rock, que dedica,  esta sexta-feira a apresentações de grupos de mulheres. Entre eles, não apenas a expressão do rock e variações do gênero musical, mas também de grupos de coco e RAP. A ialorixá, cantadora de coco e ativistas cultural Mãe Beth de Oxum também se apresenta, após 17 anos da primeira vez em que subiu ao palco do festival.

A ativista, que é referência na cultura popular, defendeu a presença dos brinquedos e tradições culturais populares em grandes festivais como modo de apoiar a luta de quem está nas bases. De um beco no bairro de Guadalupe, na periferia de Olinda, Mãe Beth toca há dez anos um projeto de formação em tecnologia com jovens negros. “A cultura não pode ficar apenas no dia 20 de novembro. Temos que tirar a cultura de dentro dos livros. Eu sou uma educadora e vivo quebrando pau dentro da escola”, contou.

Lenne Ferreira, produtora cultural e jornalista, também participou do debate e trouxe para o centro da questão a dificuldade, primeira, de chegar ali. Artistas negras, da periferia, que enfrentam não apenas o desafio de ter o trabalho reconhecido, mas também a incompreensão e inabilidade de produtores, festivais, espaços de circulação de arte de as contratarem para seus eventos. “Muitas artistas não têm a grana da passagem de ônibus para chegar aqui, por exemplo. Estar aqui é reparação, a gente não tem que estar agradecendo nada”, afirma.

Para ela, é preciso compromisso para enfrentar a desigualdade e promover oportunidade de visibilidade a artistas negras e periféricas, especialmente. “Não temos o mesmo acesso que os homens na cultura. E a gente está fazendo revolução pela arte e fazendo luta também com o discurso que as artistas trazem”, defende. A Aqualtune Produções, produtora da qual a jornalista faz parte, agencia principalmente mulheres artistas, com foco no RAP.

Também participou do debate Jamille Pinheiro, tradutora do livro Um Guia Pussy Riot para o Ativismo, de Nadya Tolokonnikova, uma das integrantes da banda russa de punk Pussy Riot. O grupo, além da música, também é conhecido pelas intervenções políticas e artísticas que abordam pautas relacionadas ao feminismo e à pauta LGBT. Jamille compartilhou a experiência de poder articular diversos campos de luta e arte a partir do local que ocupa no mercado editorial. “O conservadorismo é global. Nós precisamos conversar entre nós para que ganhem força as pautas antilgbtfobicas e das mulheres. O livro é a oportunidade de engrossar esse caldo”, conta.

Debate Ativismo, Arte e Feminismo 18.04.2018

Lenne Ferreira, produtora cultural, Jamille Pinheiro, tradutora do livro Um Guia Pussy Riot para o Ativismo, e Mãe Beth de Oxum. Foto: Mayara Santana

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