Um “boulevard” entre o turismo e a miséria

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Os recentes investimentos públicos na revitalização da Avenida Rio Branco, no Recife Antigo, obra para a qual o Governo do Estado destinou R$ 5,5 milhões financiados pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), por meio do Programa de Desenvolvimento do Turismo (Prodetur), abrem caminho para o debate sobre a ocupação democrática de espaços públicos. Se por um lado é louvável a iniciativa de valorizar áreas de convivência que priorizem os pedestres, por outro, conectar as comunidades periféricas a esses novos ambientes é um desafio que ainda não parece pautar os planos urbanísticos da capital pernambucana.

Chamado de “boulevard”, o projeto de requalificação da Rio Branco foi inaugurado na última quinta-feira (21). O passeio público recebeu novo piso, bancos, iluminação, teve os fios embutidos e ganhou novos quiosques de venda de alimentos e revistas, que se uniram a lanchonetes e salões de beleza já presentes no local. A cerimônia de entrega do equipamento teve clima de campanha com bandas, apresentações artísticas e a presença de secretários de governo e do município, além do governador Paulo Câmara (PSB) e do prefeito Geraldo Júlio (PSB). Os políticos percorreram parcimoniosamente os 300 metros de extensão da via distribuindo cumprimentos entre turistas e frequentadores do bairro.

A proposta é que o projeto fomente o turismo, considerando que a via é uma importante ligação com o Marco Zero da cidade, visitado por milhares de turistas, onde atualmente funcionam bares e restaurantes no antigo espaço de armazéns. “É também um lugar onde as pessoas podem se encontrar, fazer apresentações culturais”, disse o prefeito Geraldo Júlio. O gestor não detalhou, contudo, se há um planejamento de atividades para integrar comunidades periféricas que fazem parte daquela região, como a do Pilar, a menos de dez minutos de caminhada da Avenida Rio Branco, ao novo espaço.

“O projeto é positivo porque se inicia uma nova forma de pensar o Recife Antigo, cujo desenvolvimento antes estava muito ligado a prédios privados. A ideia de priorizar espaços para pedestres é importante, sobretudo numa cidade desenhada para carros. Mas é importante que o plano de ocupação desses espaços seja conhecido, o que ainda não aconteceu nesse caso”, pondera a professora titular do departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFPE, Circe Monteiro. Para estimular a apropriação do espaço por parte da população, é importante que se ofereçam atividades. “É preciso ter um mix de programações em vários horários e voltadas para diversas classes sociais”, pontua.

A estudante Tamires Flora de Paula, 23 anos, moradora do Pilar, pouco sabia sobre o projeto que promete ser um espaço aberto à convivência. Para ela, o esposo e o filho dele, que tem apenas cinco anos, um passeio naquelas ruas tão próximas da sua pequena casa é, na verdade, uma realidade distante. “Meu marido trabalha de flanelinha no Recife Antigo, porém está com problemas porque a prefeitura não está liberando o cadastro dele. Não temos dinheiro para passear. O que sobra é pra comprar comida e gás”, diz.

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Tamires não frequenta o Recife Antigo por falta de recursos. Foto: Inês Campelo

TÃO PERTO E TÃO LONGE

Quem passeia tranquilamente pelas lanchonetes e quiosques de coco do agradável cenário do “boulevard” construído na Avenida Rio Branco pode duvidar que, tão perto dali, se revele um ambiente de tanta escassez como a comunidade do Pilar. À margem do desenvolvimento econômico e turístico da região onde se insere, a dura realidade dos moradores da comunidade reproduz os contrastes sociais da cidade. As ruas, sem saneamento público e sem calçamento, abrigam moradores que muitas vezes vivem em barracos e em construções precárias, como é o caso de Tamires. Ela, assim como muitos moradores da comunidade, aguardam o cumprimento da promessa de entrega de apartamentos que seriam construídos pela Prefeitura do Recife.

“Já faz mais de cinco anos. Mês passado teve uma reunião com a prefeitura, mas eles não resolveram nada”, conta Tamires. “Tem a promessa de fazer um mercado público aqui para abrigar o comércio local. Há mais de dez anos a gente espera por isso”, reclama o comerciante Marcelo Ezequiel Soares, que mantém um pequeno mercadinho de bairro na casa onde mora. O projeto de requalificação da comunidade do Pilar foi anunciado no ano 2000 e teve início dez anos depois. Contudo, até agora, a totalidade dos habitacionais não foi entregue. E, em alguns casos, mesmo quem chegou a receber o apartamento, revela problemas. “Meu apartamento foi entregue cheio de defeitos, vazamentos. Além disso me colocaram no terceiro andar, mas eu não podia ficar porque tenho um problema ortopédico”, conta Lucivânia Gomes, dona de casa que precisou desocupar o apartamento, seis meses atrás, por não conseguir um acordo com o Poder Público. “O apartamento está fechado e o caso está na Justiça”, acrescenta a moradora do Pilar.

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Marcelo Soares ainda aguarda o residencial prometido pela prefeitura. Foto: Inês Campelo

No ano passado, o Ministério Público Federal em Pernambuco (MPF/PE) expediu uma recomendação à Empresa de Urbanização do Recife (URB) para que entregasse, até setembro de 2016, as então 108 unidades habitacionais restantes do Programa de Requalificação Urbana e Social da Comunidade do Pilar. Mas a entrega não foi finalizada. As obras foram financiadas com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e previam um conjunto habitacional com 588 apartamentos populares, escola, creche, posto de saúde, mercado público comunitário, praça, pavimentação e iluminação pública, que deveriam ter sido construídas até 2012. A reportagem perguntou à Prefeitura do Recife quantos residenciais ainda precisam ser entregues, mas não obteve resposta até o momento de publicação desta matéria. A prefeitura também não emitiu posicionamento sobre a situação das famílias do Pilar. Confira a situação da comunidade do Pilar no vídeo:

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Sobre o autor

Mariama Correia trabalhou por mais de três anos como repórter do caderno de Economia da Folha de Pernambuco. Antes disso, adquiriu ampla experiência atuando como freelancer e em assessorias de imprensa. Tem cursos nas áreas de jornalismo de dados (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), fact-checking (knight Center of Journalism in the Americas) e mídias digitais (Kings Brighton).

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