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A Prefeitura do Recife pretende gastar um valor estimado de R$ 5.657.549,15 com as desapropriações para a construção da ponte Cordeiro-Casa Forte. Com um valor total inicial de R$ 236 milhões, a construção da ponte vai desapropriar 107 imóveis no bairro do Cordeiro. Já o sistema viário que será implementado para a ponte vai desapropriar outros 12, sendo três imóveis no bairro de Santana, na zona norte. A informação sobre o valor das indenizações foi obtida pela Marco Zero por meio de um pedido via Lei de Acesso à Informação (LAI). Ou seja, o valor das indenizações corresponde a apenas 2,3% do valor inicial do projeto.
Na resposta ao pedido, a prefeitura do Recife, via Diretoria de Integração Urbanística da Autarquia de Urbanização do Recife (URB), afirma que este valor deverá ter reajustes, “uma vez que o montante final dependerá das avaliações técnicas e das negociações a serem realizadas”. A URB não respondeu os valores individuais dos imóveis, por ainda estar em negociação.
De acordo com a prefeitura, os imóveis são avaliados considerando sua tipologia, condições, tempo de construção e área, “aplicando-se a isso os índices estabelecidos pelas tabelas oficiais de engenharia e as normas da ABNT”. De acordo com a resposta à LAI, nos imóveis escriturados também é avaliado o terreno.
Os moradores da comunidade que será desapropriada no Cordeiro, chamada de Cocheira, reclamam da falta de comunicação e de transparência da Prefeitura do Recife. Isso vem desde o anúncio da retirada dos moradores, que foi feito no dia 04 de novembro, em uma reunião pública em uma rua do bairro de Santana. A reunião foi amplamente divulgada entre os moradores da zona norte, mas não no Cordeiro.
A Marco Zero esteve na reunião e havia apenas quatro ou cinco moradores do Cordeiro, que ficaram sabendo do encontro por meio de um amigo. Lá, os técnicos da URB e um funcionário da secretária de governo da Prefeitura informaram que haveria uma reunião também em Cocheira. Essa reunião nunca aconteceu. Na reposta ao pedido via LAI, a prefeitura justificou que “a reunião ocorrida no dia 04 de novembro de 2025 foi aberta, realizada em via pública, e durante a mesma verificou-se a presença de moradores dos dois bairros em questão”.
Na comunidade de Cocheira, os moradores reclamam dos valores que estão sendo oferecidos pela Prefeitura do Recife. Há oferta de apenas R$ 14 mil para uma casa pequena, só com um quarto. A comunidade também reclama de não ser ouvida pelo prefeito João Campos (PSB) e de não ter sido ofertada a eles a possibilidade de uma vaga em um conjunto habitacional da prefeitura. Na resposta à Marco Zero, a URB informou que ainda se encontra em tratativas com a Secretaria de Habitação da Prefeitura do Recife sobre a possibilidade de oferta de vagas em habitacional.
De acordo com moradores de Cocheira, apenas cerca de 30 famílias foram chamadas pela URB para negociar os imóveis que serão desapropriados pela prefeitura do Recife. “Está uma situação complicada. O pessoal (da URB) vai lá, tira as medições das casas, marca o dia da pessoa ir na URB, mas quando chega lá há casos em que não encontram os papeis com as medições e as fotos das casas. A prefeitura fica querendo dar o preço que bem entende. Teve uns moradores que já aceitaram os valores, outros não aceitaram”, disse um dos moradores, Luiz Carlos Agostinho. “Muitos não chegaram à negociação final ainda”.
A ponte Cordeiro-Casa Forte é um projeto que vai ligar a Avenida Caxangá, na zona oeste, e a Avenida 17 de Agosto, na zona norte. Será uma ponte estaiada, sem estrutura no leito do rio Capibaribe, com 380 metros de extensão. O anúncio da nova ponte foi feito em outubro do ano passado por João Campos, que afirmou que as obras começariam ainda em 2026. A obra deve durar 38 meses.
Além dos moradores dos dois lados da ponte, a obra também é questionada pela Associação Metropolitana de Ciclistas do Recife (Ameciclo), já que o projeto apresenta ciclovia com apenas um metro de largura, indo contra as próprias leis municipais do Recife. Na próxima quarta-feira (04), a partir das 10h, haverá uma audiência pública para discutir a obra no plenarinho da Câmara Municipal do Recife, solicitada pelo vereador Felipe Alecrim (Novo).
Jornalista pela UFPE. Fez carreira no Diario de Pernambuco, onde foi de estagiária a editora do site, com passagem pelo caderno de cultura. Contribuiu para veículos como Correio Braziliense, O Globo e Revista Continente. Contato: carolsantos@marcozero.org