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A universidade que aprende com o quilombo

Curso pioneiro em Educação Escolar Quilombola transforma a formação docente e reposiciona os saberes tradicionais dentro da universidade

Giovanna Carneiro / 10/02/2026
Campus da UFPE Caruaru

Crédito: Reprodução UFPE

A série de reportagens Ciência dos saberes ancestrais: a força da Educação Quilombola parte do pioneirismo da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) ao criar a licenciatura em Educação Escolar Quilombola, baseada na resolução nº 8/2012 do Conselho Nacional de Educação. A iniciativa reconhece a relevância cultural, social e histórica das comunidades quilombolas e reforça que seus modos de ensinar e produzir conhecimento também constituem ciência. A proposta da série é expor a importância da educação quilombola, suas potências pedagógicas, os desafios de implementação e a valorização de tecnologias e saberes tradicionais, contribuindo para ampliar o compromisso de outras instituições de ensino com essa modalidade educacional.

Com três reportagens, a série percorre tanto o ambiente acadêmico quanto o próprio território quilo,bola, articulando a formação de docentes na licenciatura da UFPE com a prática educacional desenvolvida nas comunidades. O foco recai especialmente sobre Conceição das Crioulas, em Salgueiro, referência histórica na construção de um projeto educativo próprio, enraizado na coletividade, na cultura e na luta por direitos. A série foi contemplada na “Seleção Petrobras de Jornalismo – Ciência e Diversidade”. 

Há pouco menos de um ano, no dia 30 de maio de 2025, a Comunidade Quilombola de Carapotós, em Caruaru, no agreste pernambucano, recebeu a certificação da Fundação Cultural Palmares. O reconhecimento marca um novo momento para os moradores do Sítio Carapotós, o início de uma trajetória ainda mais consolidada do processo de fortalecimento e resistência da identidade cultural quilombola.

“Nós sempre escutamos muitas histórias das pessoas mais velhas da comunidade e através de uma pesquisa de campo, com ajuda de cientistas, fizemos um estudo e produzimos um relatório para enviar para a Fundação Palmares”, conta o professor e morador da comunidade quilombola, Jonathan Arruda. Formado em licenciatura nos cursos de História e Geografia, Jonathan revela que o fortalecimento da identidade quilombola entre os moradores do sítio ainda é um desafio a ser solucionado e acredita que a educação é o melhor caminho para isso. Foi pensando em ampliar o acesso à educação para a sua comunidade que o professor se tornou um dos primeiros alunos a ingressar no curso de Licenciatura em Educação Escolar Quilombola da Universidade Federal de Pernambuco.

“A gente, como liderança comunitária, tem que sensibilizar o pessoal da comunidade para a questão da política pública, principalmente na política de educação. Por isso, a partir do momento que surgiu a oportunidade da licenciatura, eu comecei a sensibilizar as pessoas da nossa comunidade para que elas fizessem o curso também”, afirma Jonathan Arruda. Além do professor, outros três moradores da Comunidade Quilombola de Carapotós ingressaram na licenciatura.

Atividade na Comunidade Quilombola de Carapotós, em Caruaru-PE. Crédito: Acervo pessoal.

O curso é uma das iniciativas pioneiras em Educação Escolar Quilombola no Brasil. Anunciado no segundo semestre de 2024, a iniciativa tem o objetivo de garantir a formação docente específica para as populações quilombolas do estado. Além da UFPE, a Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e a Universidade Federal de Sergipe (UFS) inauguraram o curso dedicado à população quilombola nos anos de 2024 e 2025, respectivamente.

Um saber comunitário em homenagem a um grande líder

Propondo um modelo de educação descentralizada, a Licenciatura em Educação Escolar Quilombola da UFPE teve início em julho de 2025. Além do pioneirismo da formação, o curso e sua base de formação homenageia o intelectual quilombola Antônio Bispo dos Santos, conhecido como Nêgo Bispo.

Filósofo, poeta, escritor, professor e ativista político, Nego Bispo foi uma liderança da comunidade quilombola Saco do Curtume em São João do Piauí e se tornou uma das vozes mais influentes do movimento quilombola no Brasil.

Como escritor, Nêgo Bispo publicou diversos livros e artigos, incluindo obras como Quilombos, modos e significados (2007); Colonização, Quilombos: modos e significados (2015); A Terra dá, a Terra quer (2023), nas quais apresenta seu conceito crítico de contracolonização, que propõe fortalecer culturas e organizações de povos tradicionalmente marginalizados como resposta à imposição colonial. O líder quilombola faleceu em dezembro de 2023, aos 63 anos, mas seu legado e suas obras seguem sendo uma grande referência no Brasil, e têm conquistado cada vez mais espaço nas universidades.

Antônio Bispo dos Santos é o intelectual quilombola que inspira a Licenciatura em Educação Escolar Quilombola da UFPE. Crédito: Divulgação.

Tomando como referência os saberes de Nego Bispo, a fim de valorizar a cultura e o conhecimento dos povos tradicionais, a licenciatura da UFPE possui uma formação baseada na pedagogia da alternância, como explica o doutor em Antropologia e professor da UFPE, Sandro Guimarães: “a pedagogia da alternância considera uma carga horária na universidade e uma carga horária na comunidade. Isso contribui para uma articulação dos conhecimentos mais acadêmicos, mais compartilhados aqui na universidade, com a vivência nos quilombos, e isso é muito importante para que essa licenciatura seja um curso específico, diferenciado, intercultural, como a gente espera”.

“Nós pensamos também na importância de ter um currículo voltado para os interesses que dialoguem com as pautas das comunidades quilombolas, e que também reconheça uma dívida que a universidade e o Estado têm em relação às suas comunidades, no que diz respeito às epistemologias, esses saberes que por muito tempo não foram considerados. Portanto, tem essa dimensão técnica, porque a gente pretende formar professores, com todas as disciplinas que são importantes na formação de um professor, mas também dimensões outras, como a ética, a humanística, a política, a epistêmica”, conclui o professor que contribuiu no processo de formação da base curricular do curso.

O curso, que possui duração de oito semestres, foi estruturado por meio de uma parceria entre o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco (IFPE), Campus Garanhuns, e o Instituto Federal de Educação do Sertão Pernambucano (IFSertãoPE), contando ainda com o apoio da Coordenação Estadual de Articulação das Comunidades Quilombolas de Pernambuco. As parcerias possibilitaram uma formação descentralizada, uma vez que as aulas acontecem em quatro cidades de Pernambuco: em Garanhuns, no agreste do estado; e em Santa Maria da Boa Vista, no Sertão do estado; em Caruaru, também Agreste, e na capital, Recife.

A licenciatura tem como foco tanto a formação inicial de professores, oferecendo uma segunda graduação para docentes que já atuam em escolas quilombolas, mas que ainda não possuem a titulação exigida pela resolução nº 8/2012 do Conselho Nacional de Educação (CNE). Os profissionais formados poderão atuar em diferentes modalidades da educação básica, com ênfase nos anos iniciais do ensino fundamental, nas áreas de Pedagogia, Matemática, Ciências da Natureza e Ciências Sociais. Além da docência, a formação também habilita os egressos para funções de gestão escolar e para o desenvolvimento de práticas educativas em contextos escolares e não escolares, fortalecendo iniciativas que contribuam diretamente para o desenvolvimento das comunidades quilombolas.

Atualmente, o curso conta com 100 alunos matriculados e com entrada única, ou seja, só após a conclusão da primeira turma é que haverá a convocação para a próxima, como explica Sandro Guimarães: “O curso Intercultural Indígena criado aqui na UFPE foi utilizado como referência para nós e ele iniciou assim, com uma entrada única, só depois se tornou uma graduação com entrada anual, e é isso que nós esperamos que aconteça com a Licenciatura em Educação Escolar Quilombola”.

Racismo presente na universidade

O acesso de estudantes assentados da reforma agrária e de comunidades quilombolas à universidade pública esteve no centro de uma polêmica recente em Pernambuco. Após o anúncio da criação no país da primeira turma de Medicina vinculada ao Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no Campus Caruaru, a iniciativa passou a ser alvo de ataques e da disseminação de desinformação por parte de figuras públicas da extrema direita contrários à proposta.

Entre os argumentos utilizados por críticos da iniciativa estava a alegação de que o curso beneficiaria assentados e quilombolas em detrimento de outros candidatos, como se as vagas estivessem sendo “roubadas” do público geral. A disputa ganhou repercussão jurídica e o caso chegou à Justiça. Apesar das tentativas de barrar a iniciativa, a solenidade de abertura do curso foi realizada em dezembro de 2025.

A violência presente na tentativa de barrar o ingresso de pessoas quilombolas acaba por demarcar um lugar de privilégio no acesso às universidades públicas no Brasil. Diante disso, muitas pessoas pertencentes aos grupos tradicionais sentem dificuldade em se sentir parte da academia. O reflexo disso está nos casos de racismo que aconteceram com alunos de Licenciatura em Educação Escolar Quilombola. Apenas no primeiro semestre do curso pelo menos três casos foram registrados pela coordenação, como conta o professor Sandro Guimarães:

“Infelizmente, tivemos algumas denúncias de racismo vindas dos próprios estudantes. Tivemos um caso em Caruaru, um caso em Recife e também em Santa Maria da Boa Vista. E esse tem sido um grande desafio, porque a universidade não foi feita para a diferença, a universidade ainda está aprendendo a lidar com isso. Os professores, os estudantes, eles não estão preparados para isso. Então, é um outro paradigma com o qual a gente ainda está aprendendo a lidar com ele”.

“Os casos que tem provas a gente toma todas as providências possíveis e cabíveis, mas às vezes são insultos que são proferidos e os alunos não conseguem identificar quem fez”, disse Guimarães.

Devido a esse cenário, ainda há resistência de algumas pessoas em querer ocupar a universidade. “Ainda é um trabalho de formiguinha convencer as pessoas da comunidade quilombola que esse espaço é nosso, que nós temos que ocupar ele, até para poder desenvolver mais coisas para o nosso próprio território, mas nós estamos avançando e em um único semestre já fizemos coisas importantes”, diz Jonathan Arruda.

Em uma das disciplinas desse semestre o líder quilombola desenvolveu, junto com os demais moradores do quilombo que também integram o curso, materiais didáticos sobre a Comunidade Quilombola de Carapotós, entre eles um livro sobre a história do território.

Porém, muito antes da formação na Licenciatura em Educação Escolar Quilombola Jonathan Arruda e outros professores já tocavam iniciativas educativas na Escola Municipal Manoel Brajano de Arruda, a fim de fortalecer a identidade quilombola da comunidade. A construção dessa base educacional quilombola foi fundamental para a criação de um curso superior pensado exclusivamente em uma educação quilombola, como veremos na próxima reportagem da série Ciência dos saberes ancestrais: a força da Educação Quilombola.

AUTOR
Foto Giovanna Carneiro
Giovanna Carneiro

Jornalista, mestra em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco e doutoranda em Comunicação na Universidade Federal da Bahia.