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Vídeos que comprovam a realização dos shows das bandas e dos cantores de pouca expressão que receberam cachês de valores elevados no Carnaval de Olinda em 2025 já não estão disponíveis no YouTube. As peças começaram a ser retiradas do ar no início da tarde desta segunda-feira, 9 de fevereiro, horas após a reportagem sobre a farra dos cachês, publicada pela Marco Zero. A MZ, no entanto, baixou e salvou a maioria dos filmes e fez um compilado dos “melhores momentos”. Confira:
Os primeiros vídeos a serem retirados foram do cantor Maurinho e banda, que tinha as imagens de suas apresentações postadas na página da empresa M. Lira Produções. Maurinho recebeu R$ 120 mil em cachê por três shows em Rio Doce. Dois deles foram em festas promovidas por blocos e outro no polo oficial da prefeitura. Para efeitos de comparação, a tradicional Pitombeira dos Quatro Cantos recebeu R$ 123 mil por vários desfiles ao longo de todo o ano de 2025.
A M. Lira pertence ao empresário Marcos Pinheiro de Lira Júnior. De acordo com o site Tome Conta, do Tribunal de Contas do Estado (TCE-PE), a produtora forneceu camisetas para um festival de teatro patrocinado pela prefeitura em 2012, mas só voltou a prestar serviços para o poder público em Pernambuco em 2024. A empresa participou de 17 licitações em Pernambuco, gerando em seu favor 24 empenhos municipais das prefeituras de Goiana, Gravatá, Jucati e Olinda, além de outros quatro empenhos emitidos pelo Governo do Estado.
Em 2025, a prefeitura de Olinda emitiu 11 empenhos em favor desse CNPJ, dos quais nove foram efetivamente pagos, todos direcionados para fazer pagamentos a atrações do Carnaval: Rabo da Gata, Pegada Prime e o já mencionado Maurinho.
À noite, foram retirados os vídeos da banda Arreda e Dance, que tocou cinco vezes no último Carnaval, a um cachê de R$ 50 mil para cada apresentação, totalizando R$ 250 mil pagos com verba pública. Todos os shows tinham comprovação publicada no Youtube. Em contato com o produtor da banda, a reportagem questionou quanto seria o cachê para uma suposta festa particular. Recebeu como resposta a informação que seria entre R$ 5 mil e R$ 6 mil.
De acordo com o site do TCE, a produtora da Arreda e Dance, a AO Produções, foi beneficiária de 25 empenhos de duas prefeituras, todos no ano de 2025. Desse total, 14 empenhos são da prefeitura de Goiana e 11, de Olinda. Entre os empenhos de Olinda, cinco foram pagos e seis deles acabaram sendo anulados e substituídos em seguida pelos outros que foram efetivamente pagos, tendo como objetivo o pagamento das bandas Amarula e Forrozão Arreda e Dance.
A AO Produções, junto com outras três empresas cujas bandas foram beneficiadas por contratos com cachês no valor em torno de R$ 50 mil por apresentação, dividem o mesmo endereço, o número 1000 da rua Maria Luiza da Silva, em Igarassu, Região Metropolitana do Recife.
De acordo com o empresário Anderson Oliveira, pai do responsável jurídico pela produtora, o jovem Breno Nascimento de Andrade, as bandas Amarula e Arreda e Dance apenas cumpriram aquilo que dizia o edital da prefeitura. Segundo ele, seu maior desconforto com a publicação da reportagem “foi ver meu nome como se eu estivesse metido com Mirella e Lupércio, pois eu nem gosto desses dois, não tenho nada a ver com essa mulher e esse homem. Politicamente para mim é péssimo vocês terem me colocado junto com esses dois”. Anderson diz ser comunista, do PCdoB, há 25 anos.
Segundo o empresário, sua empresa ainda tem dinheiro a receber da prefeitura de Olinda. Realmente, de acordo com o Tome Conta, um empenho de R$ 50 mil relativo a um show da banda Amarula aparece como liquidado, mas com o pagamento ainda em aberto. Questionado diretamente pela MZ se teve de dividir o valor dos cachês com algum vereador ou gestor municipal de Olinda, ele negou: “não trabalho com isso, não”.
A única artista citada na reportagem que entrou em contato com a Marco Zero foi a cantora Natália Rosa. Agenciada pela MSC Promoções, ela tem 24,5 mil seguidores em seu perfil de Instagram. Segundo o portal da transparência da Prefeitura de Olinda e o portal do TCE, ela fez dois shows no Carnaval 2025 com cachês de R$ 70 mil cada, recebendo, portanto, R$ 140 mil da gestão. As apresentações foram nos blocos Rainha e Urso do Pote de Ouro.
De acordo com sua assessoria de imprensa, “o cachê atualmente praticado pela artista Natalia Rosa é fruto de um processo contínuo de construção de carreira, pautado pelo trabalho, profissionalismo e investimento em divulgação e posicionamento artístico”.
Com presença em programas de televisão em Pernambuco e na Paraíba, “além de citações e matérias publicadas na Folha de Pernambuco”, ela teria – sempre de acordo com a assessoria -, conquistado um “histórico de visibilidade, aliado ao crescimento do público e à consolidação de sua atuação no mercado musical, compõe critérios objetivos e legítimos para a definição de cachê, conforme as práticas adotadas no setor cultural”.
Jornalista e escritor. É o diretor de conteúdo da MZ.
Vencedora do Prêmio Cristina Tavares com a cobertura do vazamento do petróleo, é jornalista profissional há 12 anos, com foco nos temas de economia, direitos humanos e questões socioambientais. Formada pela UFPE, foi trainee no Estadão, repórter no Jornal do Commercio e editora do PorAqui (startup de jornais de bairro do Porto Digital). Também foi fellowship da Thomson Reuters Foundation e bolsista do Instituto ClimaInfo. Já colaborou com Agência Pública, Le Monde Diplomatique Brasil, Gênero e Número e Trovão Mídia (podcast). Vamos conversar? raissa.ebrahim@gmail.com